Com amor, Julieta!
4 Os Trabalhos de L
Notas iniciais
Romeu…
NA: Nota da Autora.
E sigo até então caminhando nessa estrada que parecia não ter mais fim... Confesso que eu não sei mais o quanto eu andei até agora, se foram metros ou se foram quilômetros. A estrada já não era mais a mesma. Era como se eu tivesse dado um salto no tempo em direção a um passado tenebroso... Ao longo da caminhada eu sentia que o asfalto ia perdendo sua firmeza na medida em que eu avançava com meus passos apressados. Mesmo estando constantemente ofegante, eu fui capaz de perceber que quanto mais ia em frente, mais velho ficava aquele lugar...
No lugar do asfalto agora ocupava um chão completamente de ladrilhos (NA: Ladrilhos são placas de vários tipos de pedras e rochas que possuem diversos formatos específicos. O mais comum na realidade brasileira é o ladrilho retangular, que dá a impressão de que o chão da rua é completamente feito de mini tijolos)... Era perceptível que aquele lugar estivesse abandonado pelo fato de que não existiam sinais de vida ali. Entre os espaços de cada ladrilho havia muita areia e terra seca.
A natureza já não era mais tão assustadora. Aquele lugar era uma eterna noite sem fim. A lua cheia reinava entre as estrelas daquele céu azul profundo. Seus raios de luz eram intensos e certeiros. Não havia uma única nuvem que tivesse a audácia de cobrir o brilho dos astros. O céu estava repleto de estrelas... Era como se tivessem triturado um milhão de diamantes, sendo lançados ao céu com esperança de que cada um daqueles fragmentos pudesse ter um pouco do brilho da sua mãe lua.
O universo acima de mim iluminava o meu caminho como se fosse dia. Além da estrada de ladrilhos, dos dois lados da estrada havia uma natureza vívida. Árvores altas com folhas de um verde vivo e intenso. Arbustos que sustentavam flores de diversas espécies e cores contagiantes. Era possível ver frutos no topo dessas árvores e, em seus pés, grandes extensões de grama macia e reluzente por causa dos pingos de orvalho inertes. O ar não era mais denso, era leve, úmido e fresco, como se tivesse acabado de cair uma longa chuva.
Enquanto caminhava, notei que aquela estrada não era tão infinita como eu pensava. O caminho levava em direção a um grande casarão antigo. Era uma grande casa de dois andares. Sua porta principal tinha o formato de um grande arco gótico, muito famoso nas igrejas da antiga idade média. As paredes externas eram de um branco amarelado perceptivelmente envelhecido pelo tempo. Suas janelas eram feitas de vidrarias em tons de cores vivas e penetrantes que sustentavam várias imagens de anjos e figuras angelicais. Realmente existiam muitas janelas ali... pelo menos dez nelas só nas paredes do primeiro andar. Acima de cada janela existiam grandes estátuas dos mais variados tipos de figuras mitológicas. Anjos, demônios, medusas, gárgulas, serpentes e algumas outras figuras que eu não soube identificar.
O casarão era rodeado por um jardim um tanto peculiar. Rosas vermelhas, negras, roxas e azuis predominavam nos ambientes externos da casa. Um grande portão e suas longas grades faziam fronteira em todo o contorno do território daquela casa, trazendo para ela ares de um lugar impenetrável. Andei de forma calma e lenta até me aproximar do grande portão que dava acesso ao lugar. Coloquei o rosto próximo às grades para tentar pensar em alguma forma de destrancar o cadeado velho, sujo, antigo e enferrujado que ainda sustentava a segurança do local. Alcancei o cadeado em busca de alguma parte que estivesse podre o suficiente para ser quebrada fácil.
Infelizmente, a paciência não é uma virtude que faz parte da minha personalidade. Dou alguns passos para trás e me afasto do portão e construo a seguinte linha de raciocínio: Portão trancado + Cadeado envelhecido que eu realmente não tenho saco para tentar abrir de uma forma educada = Arrombamento. Começo, então, a pegar impulso para tentar o arrombamento do portão, tendo esperança de que não tem moradores no lugar para observar o crime histórico que eu estou prestes a cometer. Além do fato de que, infelizmente, eu não tenho condições financeiras de arcar pelo prejuízo que estou prestes a causar… E lembrando que eu não estou no meu mundo e não tenho certeza se aqui seria possível fugir de um calote…
Sinto que peguei impulso o suficiente e disparo correndo na direção do portão. Quando estou prestes a me aproximar (e lançar uma deliciosa e despretensiosa voadora), escuto um som de estalo seguido de um longo rugido de metais. Em seguida, o portão se abre lentamente. Tento frear a tempo para que eu não caia com a cara diretamente no chão em vão. O que, obviamente, não dá certo… Meu corpo passa pelo portão com uma velocidade admirável e eu sou acolhido amorosamente pelo chão, me deixando com uma perfeita sensação de vergonha alheia. Rapidamente me levanto e me recomponho, torcendo para que absolutamente ninguém tenha tido o prazer de observar aquilo…
Enquanto tiro as folhas e cascalhos grudados na minha roupa, dou de cara com a imensa casa que parecia tão distante pelo portão. Observo a porta antiga que dá acesso aos aposentos da casa e me dirijo até ela. Posso até estar confuso, posso até estar sonhando ou apenas ficando louco, mas ainda sou minimamente educado e bato na porta três vezes. Nenhuma resposta. Insisto novamente e bato. A porta abre devagar e com rangidos de madeira velha. Eu realmente não esperava o que estava atrás daquela porta… na verdade… não esperava a pessoa que estava abrindo ela.
— Seja bem-vindo, Romeu. Estava ansioso pela sua chegada. — Disse calorosamente o senhor de cabelos grisalhos que se encontrava posto na abertura da porta. — Entre! Deu tudo certo na sua viagem? Está com fome? Preparei uma mesa farta para o momento do nosso encontro. Temos muito o que conversar. A propósito, se você não se lembra de mim, o que eu acho um tanto impossível dado o nosso último encontro tão marcante, meu nome para você é L.
Petrificado. Essa é a palavra perfeita que define o meu estado de espírito neste exato momento. Aquele senhor na porta era o mesmo que tinha me seguido na estrada. Eu consigo me lembrar do seu sorriso falsamente amigável e seu rosto nada confiável de bom senhor. Me desvenciliei dos meus pensamentos e entrei automaticamente dentro da casa. Era como se o meu corpo não obedecesse mais os meus comandos e nem respeitasse as minhas vontades. O meu desejo era fugir dali o mais rápido possível, mas era como se ele tivesse me acorrentado apenas com o olhar. Continuei andando mecanicamente pela casa até chegar na sala de estar.
Ao entrar no cômodo, notei que a decoração da casa não fazia jus ao século em que nós estávamos… Bom, ao menos do século que eu tinha vindo… O chão era forrado com lâminas de madeira que rangiam sob os pés. Os móveis eram antigos e luxuosos, tinham duas poltronas acolchoadas e almofadadas cobertas por um couro de um vermelho extremamente vivo, com detalhes em ouro que contornavam todo o móvel, desde os pés da poltrona até o ponto mais alto do apoio de costas. Entre eles, um largo sofá também em couro vermelho e detalhes em ouro puro. Entre eles, uma mesa de centro feita de mogno que continha um jogo de peças de chá vitorianos. Ao lado esquerdo da sala, uma lareira acesa e emoldurada com pequenas esculturas em gesso em formato de anjos celestes. Ao lado direito, duas grandes janelas em formato de arco que iam do chão até o teto, possibilitando a entrada de luz para todo o ambiente. No teto, um grande lustre de cristais rodeado por velas que sustentavam a luminosidade acima de nós. Ao fundo da sala, duas estátuas de mulheres com olhos vendados e envoltas com um longo tecido branco. Ambas carregavam nas mãos dois objetos: uma espada e uma balança. Eu instantaneamente reconheci aquelas figuras. Era a justiça…
— Sente-se, Romeu. A casa é toda sua! — Disse ele se sentando em uma poltrona e apontando para que eu me sentasse na outra do lado oposto.
Me acomodei na poltrona e senti um arrepio gelado subindo pelas minhas costas.
— Eu tenho plena certeza de que você está confuso com tudo que está acontecendo.— Disse ele enquanto servia duas xícaras de chá, pegou uma e me entregou outra.— Achei necessário que tivéssemos essa conversa para esclarecer alguns pequenos detalhes que ainda estão pendentes.
Ele beberica em pequenos goles o seu chá com um olhar pensativo.
— Antes da vinda de todo homem que pisa na terra, é acordado entre ele e os espirituais algo parecido com um contrato. Depois de assinado, ele ganha o direito de nascer, viver e morrer novamente para que tenha uma ótima oportunidade de cumprir todas as cláusulas combinadas. Assim, ele ganha o direito de evoluir espiritualmente e partir para um lugar melhor em seu encerramento de contrato, ou seja, na sua morte. Mas nem todo homem é honrado a ponto de cumprir o combinado, Romeu… Veja bem a nossa situação. Estamos aqui, eu e você, como nobres homens civilizados. Faz muitos séculos que eu não acompanho um espírito e me foi dada essa tarefa. Sendo assim, nós temos uma relação, certo?
Ele me encara aguardando pacientemente a minha resposta. Engulo seco, sinto um suor gelado no meu rosto e aceno um sim como resposta. Me sinto paralisado…
— Que bom que estamos na mesma sincronia. — Disse sorrindo. — Continuando… Esse homem hoje é você, Romeu. Vamos relembrar um pouco da sua trajetória até aqui.
Ele se levanta e vai em direção a uma estante que cobria toda a parede. Eu não tinha reparado naquela estante, ela realmente estava ali desde o momento que eu cheguei? Ele retira um livro antigo com capa encouraçada da estante e se senta novamente. Retira seus óculos do bolso interno do terno, abre o livro e começa a sua leitura.
— Romeu, sua infância foi algo interessante de se observar. Sua adolescência tem muitos indícios explicativos, mas não são importantes para esse momento. Vamos ao que interessa realmente. — Ele molha a ponta do dedo indicador e vira a página — Você quase se casou, Romeu! Mas infelizmente você separou forçadamente esse amor. No altar, em pleno casamento, um suicídio planejado que carregou a sua amada junto. Tudo movido por uma grandiosa covardia e um sentimento desnecessário de possessividade. O que acabou gerando um certo desequilíbrio no véu espiritual. Todos nós, Romeu, em algum momento pagamos e cumprimos as consequências de nossas ações e escolhas. A injustiça é criada a partir do momento em que um terceiro é envolvido e o destino dele não é o mesmo que você impôs. Você levou uma moça chamada Julieta para a morte sem que fosse o momento de partida dela. Isso criou um débito pendente entre vocês dois. Suas dívidas conosco tiveram um grande aumento e nós passamos a ter uma dívida significativa com ela.
Me endireito na poltrona escutando atentamente cada um daqueles detalhes e começo a relembrar novamente de todos os acontecimentos.
— Me deram a empolgante missão de ser o seu mentor. Romeu, a sua obrigação, a partir de agora, é quitar e equilibrar todos esses débitos. A única forma de resolver esse glorioso caos, que você colocou irresponsavelmente no meu mundo, é você convencer o espírito da jovem moça a te dar um perdão sincero. Mas não pense que será fácil. Ao longo da sua vida carnal, você teve o privilégio de que essa moça te perdoasse incansavelmente. Mas o coração humano é feito carne, não ouro. Você pode destroçar quantas vezes quiser, mas quando tentar reconstruir, não terá a mesma feição e nem a mesma essência.
Me levanto abruptamente da poltrona impaciente, desesperado e irritado. Aquele homem era um verdadeiro louco, um aproveitador, um golpista ou talvez apenas um sádico. Eu devo ter desmaiado na rua e ele se aproveitou de mim…
— Se me dá licença, eu vou para a minha casa. Sugiro que conte esses absurdos para qualquer outro idiota. Julieta só está perdida em algum lugar desse inferno de lugar.
Um sorriso malicioso se forma no rosto de L, trazendo um ar sombrio para seu sorriso plastificado.
— Acho interessante que você tenha utilizado a palavra "inferno", Jovem Romeu. Gostaria de continuar a minha fala… Você já deve ter percebido que estamos em um lugar um tanto diferenciado. Decorei todo o local como forma de boas vindas para a sua chegada. Mas gostaria de falar sobre uma pequena regra que nós temos aqui para o caso de nossos queridos visitantes não cumprirem com os combinados. Se você escolher não arcar com as suas responsabilidades, você receberá um singelo convite para se juntar a nós nas profundezas do nosso tártaro subterrâneo, se é que você pode me compreender.
Paralisado e estático, meu corpo começa a tremer. Sinto meu coração bater em um ritmo completamente desproporcional. Meus sentidos começam a me trair pouco a pouco. Minha visão começa a ficar turva, sinto meus ouvidos sendo tampados por algo que não sou capaz de ver. Ao meu redor, o ar se torna pesado e carregado de um intenso cheiro de metal. L se levanta de onde está e caminha na minha direção. Ele chega cada vez mais perto e aproxima seu rosto próximo ao meu e seus lábios próximos ao meu ouvido. Em seguida, sussurra calmamente.
— O espírito de Julieta está com seus instintos completamente desorganizados, já que perdeu seu corpo hóspede abruptamente. Se tornou um espírito sofredor em busca do seu lar. Ele está reencarnando em diversos corpos para tentar encontrar um que sinta novamente uma conexão. A sua missão, Jovem Romeu, é fazer com que esse espírito tenha consciência de toda essa situação para que seja capaz de ter o destino que era dele novamente. Você só conseguirá trazer a sua amada Julieta de volta quando ela for capaz de te dar um sincero perdão. Ela se tornou um espírito desordenado e sem direções. Até onde me foi informado, sua reencarnação atual se encontra no corpo de uma jovem em uma cidade chamada Rio de Janeiro. Você ganhará a habilidade de reencarnar quantas vezes for preciso, desde que não cause mais nenhum estrago. O tempo não será o seu aliado, Romeu. E eu quero a ordem novamente para a minha casa. Caso contrário, receio que eu não vou conseguir me manter tão formal e cordial como agora. Boa sorte, meu jovem. Me traga o que eu preciso e nada irá te acontecer…
Minha visão apagou e senti o chão sumir sob os meus pés, me lançando para algo que eu não tinha certeza se estava preparado…
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