Com amor, Amor.

1 Capítulo I - Fireheart.


Notas iniciais
São 23:41 aqui no canadá, e eu tenho aula amanha... Mas precisava terminar isso.

Com amor, Amor.

Ele era como o a neve. A neve que uma criança de oito anos segura quando vai viajar com seus pais para um lugar onde os flocos costumam cair no inverno. A neve que ela pega com seus pequenas maozinhas e segura como se fosse a coisa mais preciosa que ela já tinha visto. A neve que ignora toda a força de vontade da criança e derrete por entre seus dedinhos. Ele era com a neve que escorre até o chão, e deixa apenas uma sensação fria na pele. A neve que a segundos antes estava ali, e agora não deixou nenhum rastro de sua existência.

Ele te deixou

Ele escorregou por entre seus dedos. Ele foi embora como o calor deixa suas bochechas enquanto você patina no gelo. Suas bochechas estão vermelhas agora, e o ele continua indo embora. Você sente o vento gelado te cortar a pele na medida em que você se inclina para frente a aumenta a velocidade com que patina. Com sua mão direita, tateia seus bolsos procurando pelo botão do volume do celular, e aumenta a musica que toca em seus fones de ouvido. É proporcional. Sua velocidade aumenta na medida em que a musica te ensurdece e cobre qualquer som vindo do mundo real.

Ele te deixou.

Vocês cai. Suas mãos raspam o gelo do chão, e você sente o frio queimar a sua pele. O baque foi grande, o resto do calor que sobrava em seu corpo se propagou pelo ar, e você sentiu o frio congelar todo o seu sangue. A pele da sua mão arde em contato com o ar. Um vermelho vivo preenche seus olhos quando você olha para a palma da suas mãos. Você se levanta com dificuldade. A dor ressoa por todo o seu corpo, e você tenta não cair novamente. Lentamente você patina para fora do ringue. Lagrimas ameaçam deixar seus olhos para irem de encontro com o gelo.

Ele te deixou.

Ele te deixou como o sangue deixa um machucado. Como o sangue escorrega por sua mão logo depois de você corta-la tentando limpar a lamina dos patins. O sangue escorrega por entre seus dedos, mais rápido do que a neve escorregou pelos dedos daquela criança de oito anos, e atinge o chão negro silenciosamente. Você fecha os olhos, e sente o liquido plasmático vazar por sua mão. O calor de dentro do seu corpo se materializa em seu sangue, e você sente sua pele queimada do frio arder. Mais rápido do que ele te deixou.

Ele te deixou.

O sangue do corte da sua boca desce por sua garganta. Você mordeu os lábios tão forte para tentar diminuir a dor do corte da sua mão que lábios começaram a ganhar a cor vermelha. Vermelho escarlate. Branca de neve, sua pele branca contrasta com o veneno vermelho em sua boca. O ferro te subiu as narinas, e desceu por sua garganta, queimando cada pedaço de pele por onde passava. Intoxicante.

Ele te deixou.

Como cloro, o escarlate te limpou por dentro. E matou cada pedaço dentro de ti. Como veneno na sua língua, a dor de sua cabeça ressoa como uma batida por todo o seu corpo. Você sentia como se devesse morrer. Aquela sensação deveria ter te matado. De dentro para fora, o escarlate não parecia certo. Era toxico. Era imortal. Era como ele

Ele te deixou.

Ele se foi como plutão nunca quis chegar. Ele te orbitou tão perto, tantas vezes, para demorar a eternidade completando uma volta em ti, e parecer desistir cada vez mais. A velocidade diminuiu, e você percebeu ele indo embora sem terminar o que tinha começado dentro de ti. Ele nunca te avistou para deixar a gravidade ir. Para desistir da força que o puxava para perto. Ele nunca te avisou que o que limpa, mata. Ele nunca te avisou para preparar a blusa de frio.

Ele te deixou.

Ele foi embora como as ondas se vão quando encontram com a praia. Não para a praia, mas com ela. Ele nunca realmente ia diretamente na sua direção. Ele só, as vezes, passava por ali. Mas ele ficava. Ele sempre ficava, pelo menos por tempo suficiente para a outra onda chegar, e você sentir a sensação boa das partículas de agua te envolvendo os pés. Mas ele te deixou. E aquela maresia entorpeceu seu cérebro. Ele se foi. Como a maré se afasta quando a luz vai embora, e o laranja deixa os céus para o singelo brilho das estrelas. Quando a escuridão chega. O problema é que você tem medo do escuro.

Ele te deixou

E você começou a enlouquecer. Começou a ver alucinações por toda parte. Sua visão ficava turva. O vermelho escarlate tomou conta da sua vida. O fogo começou a te queimar. Tudo que você vê é vermelho. E intoxica sua visão. Você sente a fraqueza chegar em seus pulmões. A fumaça queima seus olhos. O azul foi embora da sua vida quando ele se foi. Quando ele te deixou. E você decidiu honra-lo. Agora você era vermelho. Vermelho ardente. Vermelho Escarlate.

Ele te deixou.

Ele te deixou como o azul deixou de fazer sentido na sua vida. As pontas dos seus cabelos azuis agora te causavam desgosto. Você não era mais azul. Não era mais agua. Não era mais transparente. Não era mais límpida. Não era mais calma. Você não queria mais ser. Você não mais mergulharia dentro de si mesma. Você não mais sentiria os pulmões queimarem com o sal da agua. Você era fogo. Você era expansão. Você era vermelho. Você era fogo.

Ele te deixou

Já era tarde demais para você. Ele sorriu por trás daquele balcão da livraria, e quando você sentiu o impacto daquele sorriso chegar, já era tarde demais para tentar segurar em algo. Quando ele deslizou a mão pelo balcão e ajeitou uma mecha do seu cabelo, já era tarde demais. Você fora amaldiçoada. Quando ele foi te dar um beijo de “Oi”, e ele deslizou o polegar pela sua pele, e o carinho te fez estremecer, já era tarde demais. Uma maldição

Ele te deixou.

O processo foi vagaroso. Foi torturante. Ele fez questão de te dar alguma esperança de continuar ali contigo. Ele poderia ter te deixado mais rapidamente. Ele poderia ter saído da sua vida como uma criança tira o curativo quando está com medo. Rápido, indolor, sem avisar. Mas ele fez questão de sussurrar, para que você não tivesse a chance de ouvir. Ele fez questão de continuar ali por mais um tempinho. Ele fez questão de sumir devagarinho. Ele fez questão que você assistisse cada segundo da sua partida.

Ele te deixou.

E agora ele passa por ti, indo em direção a todas as outras pessoas em volta de ti. E você sente como se existisse uma bolha de ar solido em volta de ti, que impedisse ele de chegar perto. De vir em sua direção. Você se sente invisível. Vazia. E o vazio pesa. Ele foi embora. Você sabia que ele iria. Sabia que ele não te seguiria por onde quer que você fosse. Você sabia. Sabia que ele iria te deixar.

Fazem 3 meses, 7 dias, 9 horas, e 10 minutos que ele decidiu te deixar. E a culpa foi sua.

Ele te deixou.

E a culpa foi toda sua.

Ele te deixou.

Você tentou. Tentou de tudo. Tentou mandar olhares, ligações, mensagens, cartas, poemas. Procurou por uma saída nas suas gavetas, no dicionário, no google. Tentou chamar sua atenção. Mas ele estava tão preocupado com as outras pessoas, que não te via. Você tentou. Tentou até deixar um recado de voz pro seu assistente. Você precisava tanto dele.

“Sr cupido, poderia pedir para o amor me visitar? Sinto falta dele.”

Mas o Amor te deixou na caixa postal.

A única resposta que recebeu foi uma mensagem gravada

“Amor está ocupado. Com amor, Amor."

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!