Com Um Beijo
1 Capítulo Único
Notas iniciais
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Beije-me, como se quisesse ser amada
Você quer ser amada, você quer ser amada
Isto se parece com se apaixonar
Apaixonar, estamos nos apaixonando
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Ele estava ferido. Rendido. Pela primeira vez em sua vida, Fábio sentia que havia feito a coisa certa... e o resultado dera terrivelmente errado.
Ninguém acreditava nele. Seu passado o condenava e sempre que alguma coisa ruim acontecesse, ele seria o primeiro suspeito. Sem chance de defesa.
Do que adiantava tentar andar na linha, evitar confusão? Se no fim das contas o resultado era o mesmo de sempre: bordoada.
Agora estava sem emprego, sem chance de fazer alguma coisa de que gostava. Publicidade era sua praia, mas depois de ser acusado sumariamente do vazamento da última campanha para a concorrência, de ser expulso por Érico da agência, não tinha mais perspectiva de melhorar na vida.
O pior nem era isso. O pior era ser acusado de uma coisa que não tinha feito. Se fosse em outros tempos, pouco ligaria. Talvez até aprontasse alguma para fazer jus ao destrato, mas não era mais assim... ele já não tinha nem forças nem vontade de agir como antigamente.
Que merda! praguejou mentalmente, batendo e sacudindo a velha grade. Uma. Duas. Três vezes.
Estava agachado no chão do lugar que costumava ser usado como campinho de futebol quando ele e os colegas da rua eram crianças. O lugar que ultimamente havia se tornado um refúgio.
Som de passos. Cada vez mais próximos.
Ele ergueu os olhos e a viu.
"Fabinho?"
A voz dela era suave. Mas ele não respondeu. Ficou calado na esperança de que talvez ela fosse embora, de que o deixasse morrer sozinho na própria miséria. Ela já havia feito demais por ele. Não tinha direito de pedir mais nada de Giane. Nem sequer atenção.
"Quê que houve, cara?"
Ela insistiu.
"Vai embora, Giane."
"Não" ela respondeu, decidida, agachando-se e ficando ao nível dos olhos dele. "Me fala. Quê que aconteceu?"
Ela pedia com calma e paciência.
Mas Fábio não tinha nem uma nem outra no momento. "Eu sou perigoso. Cê não lembra que eu sou perigoso? Cê esqueceu que eu sou perigoso?"
Ele se ergueu do chão, dando as costas a ela e se afastando.
"Como assim perigoso, cê tá louco?"
Ele a escutou levantar e segui-lo.
"Fabinho, me diz... quê que aconteceu?"
Ele parou diante da grade, as mãos tocando o ferro frio.
"Alguém de dentro da agência entregou a nossa campanha pro Natan e o Érico pensa que fui eu, me mandou embora" as palavras saíram todas de uma vez antes que ele planejasse ou impedisse. Deixou um suspiro escapar misturado à uma risada irônica. "Também era muito loucura isso, né? Sonhar que eu ia ter outra chance."
Fábio engoliu o nó que de repente se formava na garganta. Os olhos ardiam. Ele tentava ignorar os dois fatos.
"As pessoas sempre vão lembrar do meu passado" sua mão tocou uma ponta da grade, apertando enquanto falava, as palavras lhe escapando num desabafo inevitável. "Vai todo mundo sempre me julgar pelo que eu fiz. Aconteceu alguma coisa? A culpa é do Fabinho."
O nó de novo... subindo pela garganta, insistente. Ele o engoliu. Abaixou a cabeça por um breve instante, não acreditando na própria sorte.
"Eu to perdido, Giane. Eu não tenho saída, a minha mãe não acredita em mim, ninguém acredita em mim."
Passos a suas costas. Ela se aproximando outra vez.
O peso era grande. A dor, a decepção. Consigo mesmo.
Respirava com dificuldade pela boca, a visão nublando com lágrimas que ele não queria, não iria derramar!
Sentiu um toque leve e hesitante em seu ombro, que logo se transformou em algo mais firme e o fez voltar-se para trás. A mão dela deslizou por seu ombro. Ele a encarava agora. Os dedos finos da mão delicada pousaram sobre seu rosto causando uma estranha e bem vinda fricção entre a pele macia da palma quente e a aspereza de sua barba.
"Eu acredito em você" ela o olhava diretamente nos olhos.
Fábio não pôde manter o contato visual. "Tá" sussurrou, incrédulo, desviando o olhar.
Por que ela acreditaria nele? Depois de tudo que ele já havia aprontado com ela, com todos daquele bairro! Ele não queria ouvir aquilo como prêmio de consolação.
Não demorou muito para que seus olhos, por vontade própria, voltassem a cair sobre o rosto dela. Giane ainda o encarava, a voz ainda era suave, "Eu acredito em você" ela repetiu.
Ele a observou de perto. Assim, de tão cerca, na baixa iluminação da rua, da lua, ele via os enormes olhos castanhos a encará-lo. Ainda era difícil respirar. Decepção e mágoa juntando-se a algo mais... algo que via nela. Na expressão dela, no modo como ela o encarava.
Ela se aproximou mais, ficando a meros centímetros de seu rosto.
"Eu juro" ela tornou a dizer, as mãos tocando novamente seu rosto, dos lábios dela escapando a expiração quente que tocou os seus.
Alguma coisa aconteceu. Algo saltou dentro dele. A respiração agora acelerada, não pela raiva, não pela frustração... mas por algo totalmente diferente. Algo quente e vivo.
O nariz de Giane tocou o seu, ela virou o rosto numa provocação tentadora e estranha, como se quisesse beijá-lo. E era o que ele mais queria, a boca entreaberta, ofegante. Seus olhos encaravam os lábios dela, alheios a qualquer outra coisa.
Uma, duas, três vezes... por três vezes seus narizes roçaram. E ele sentiu aquele algo quente e vivo no estômago pular para assaltá-lo. Ele a queria. Agora não restava a menor dúvida. Se antes duvidava ou ignorava esse fato, agora era a única certeza que tinha na vida.
Ele não soube quem avançou primeiro, ou se foram juntos, mas suas bocas colidiram ao mesmo tempo em que as mãos dela se lançaram em torno do seu ombro, de seus cabelos, as suas na cintura dela.
Respirações mescladas, lábios deslizando uns sobre os outros, se abrindo e dando vazão a um incêndio. Fogo que ele sentia começar nas entranhas, subir por toda a pele, queimar seus sentidos.
Sua mão subiu pelas costas dela, perdeu-se na nuca macia, emaranhando-se pelos cabelos de seda, segurando-a onde queria. Controlando o beijo. Mas logo ele percebeu que não estava no controle de nada.
O corpo de Giane ondulava como serpente. A mão dela tocou seu rosto, a dele a imitou. Havia língua, havia calor, havia saliva e respirações entrecortadas.
Ele queria senti-la mais e melhor. Por isso flexionou os joelhos, abriu as pernas trazendo o corpo dela para mais junto do seu, o braço e a mão apoiados nas costas dela.
Ela ainda segurava seu rosto, provocava e cedia a suas investidas, lançando-se também à descoberta de textura, gosto e cheiro.
Fábio envolveu a nuca de Giane outra vez, afundou os dedos pelos cabelos incrivelmente macios sentindo a língua molhada da garota sobre a sua, sugando com avidez.
Sentiu os dedos dela passeando entre seus cabelos, apertando, quase puxando os fios próximos à nuca. Então, a mão delicada caiu para seu ombro, apertando o tecido da camisa.
Ele cedeu, flexionando um pouco mais os joelhos, derretendo-se debaixo da língua incandescente de Giane.
Ele queria senti-la. Senti-la o quanto fosse possível. Seus braços estavam em volta dela, tomando-a quase inteira. Sentia os dela em seus ombros, abarcando tudo o que podiam.
Por um instante, quando foi imprescindível respirar, ele afastou um pouco seus lábios dos dela, mas não completamente. Porém, arrependeu-se, pois foi esse instante que Giane aproveitou para quebrar o beijo.
Ofegante, ela apoiou as mãos em seus ombros. "Desculpa. Eu não..."
Ele nem a ouvia. A mão tocando o rosto dela e puxando-a de volta, andando com ela até a grade em busca de apoio. Sua mão amparou o choque entre as costas dela e o ferro enquanto suas bocas já estavam envolvidas em um novo beijo.
Negando o que ela havia acabado de dizer, as mãos de Giane foram direto para seu rosto, os lábios correspondendo com a mesma intensidade aos dele.
Fábio a apertou pela cintura, o corpo frágil e cheio de curvas moldando-se deliciosamente ao dele. Como não haviam experimentado isso antes era a única coisa que lhe vinha à mente. O resto era apenas sensação.
Ele se virou novamente, colocando-a de costas para o outro lado da grade, seus lábios não desgrudando nem por um segundo. Ele precisava senti-la, beijá-la. Mais e mais.
O barulho da grade balançando com seus movimentos misturava-se ao som inconfundível dos beijos que trocavam, molhados e quentes. Suas mãos faziam turnos em seus rostos, nucas, ombros...
De repente, inesperadamente, ele sentiu o empurrão dela. Com força. Com a expressão assustada, ofegante, Giane levou as mãos aos lábios, murmurou qualquer coisa como "Não" e saiu correndo sem sequer lhe dar tempo de reagir.
Sua cabeça girava, o peito arfava com a necessidade de oxigênio.
"Giane, Giane! Calma! Giane!" ele ainda tentou ir atrás dela, mas estava tão zonzo que mal conseguiu acompanhar o ritmo da garota que já estava metros adiante.
Ele ficou parado, olhando ela andar depressa rumo à casa dela. Seu peito ainda arfava, respirava pela boca. Tinha sido intenso demais... louco demais. Uma deliciosa loucura.
E ele sentiu um sorriso se abrindo, expandindo em seus lábios, ainda inchados e queimando pelos dela.
Era Giane. A culpada. A responsável por mais uma vez transformar suas penas na esperança de um novo começo.
{...}
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