Com Todo Amor - O começo
12 Último Ano
Dizem que o último ano do ensino médio passa voando, como se as páginas do calendário queimassem antes mesmo de terminarmos de ler os dias. Mentira. O último ano não passa voando; ele passa atropelando, arrastando o que resta da sua estabilidade emocional e esmagando qualquer ilusão de controle que você achava que tinha sobre a própria vida.
Foi exatamente com essa sensação de estar sendo arremessada de um lado para o outro que sobrevivi ao penúltimo ano. Entre a exaustão dos treinos intensos de velocidade na equipe de corrida, os ensaios exaustivos do clube de teatro e as tardes sufocantes no curso preparatório de redação avançada, mal sobrava tempo para eu me lembrar do meu próprio nome. No início, confesso que amaldiçoei cada minuto daquela agenda caótica. Mas não demorou muito para eu perceber a verdade oculta: aquela rotina esmagadora era o meu melhor esconderijo.
Enquanto metade das garotas da Trinity Christian Academy parecia ter crises de ansiedade monumentais debatendo quem estava transando com quem ou qual quarterback júnior tinha mandado DM para qual caloura, a minha única meta de vida era conseguir abrir a porta de casa antes da meia-noite para terminar um ensaio sobre a Guerra Fria ou memorizar os monólogos da peça do colégio. As fofocas continuavam existindo nos corredores de armários, flutuando como uma névoa venenosa. Eu apenas tinha escolhido me demitir da audiência. E, para ser bem honesta, era um alívio avassalador.
Principalmente quando o epicentro do drama envolvia garotos.
Luke Carter e eu acabamos nos afastando por uma gravidade natural, daquelas que não deixam marcas de frenagem. Não houve gritaria no estacionamento, nem discussões dramáticas regadas a lágrimas no pátio. Apenas percebemos que o terreno que dividíamos tinha ficado estreito demais para as nossas ambições. Ele continuava sendo o capitão intocável e o atleta mais admirado da Trinity, e eu continuava assistindo aos jogos dele da arquibancada, torcendo genuinamente a cada passe perfeito. Só que agora fazíamos isso com um abismo de distância cortês nos separando.
Aidam também passou por uma mutação completa. O garoto magro, de joelhos ralados e cabelos bagunçados que costumava passar as tardes dividindo o silêncio comigo embaixo das raízes do velho carvalho simplesmente evaporou da existência. No lugar dele, a puberdade e a sala de musculação do time esculpiram o titular absoluto da linha defensiva. Ele estava consideravelmente mais alto, os ombros haviam alargado de um jeito que fazia as camisas polo da escola parecerem justas demais, e os braços ostentavam linhas duras e veias marcadas que denunciavam as horas brutas de treino sob o sol do Texas.
As garotas da escola, obviamente, mapeavam cada milímetro daquela transformação com a precisão de satélites militares. E Emma e Abigail faziam questão absoluta de narrar cada nova descoberta para mim durante o almoço, como se estivessem comentando um esporte de elite.
— Você viu a Olivia na aula de Álgebra hoje, Cami? — Emma disparou, inclinando-se sobre a mesa de piquenique com os olhos brilhando.
Balancei a cabeça, mastigando minha maçã.
— Não. Estava ocupada tentando não zerar o simulado.
— Pois ela praticamente tropeçou nos próprios cadernos e quase quebrou o tornozelo quando o Aidam passou pelo corredor usando aquela camiseta preta justa. Foi patético — Abigail riu alto, dando um gole no refrigerante. — E a Ashley Montgomery continua marcando território como se o sobrenome dela estivesse impresso na jaqueta dele. Ela não desiste.
Soltei um suspiro pesado, revirando meus olhos azuis. — Vocês duas conseguiriam passar exatamente vinte e cinco minutos de um almoço sem dissecar a vida hormonal de terceiros?
As duas me encararam no mesmo segundo, com uma expressão de puro choque, como se eu tivesse sugerido que a Terra era plana.
— Não — responderam em um coro perfeitamente sincronizado.
Deixei uma risada escapar, balançando a cabeça. Mas a verdade era que, por mais que eu fizesse piada, meus olhos evitavam sistematicamente a mesa do time de futebol ao fundo do refeitório. Era infinitamente mais fácil para o meu próprio juízo fingir que não escutava os sussurros, mais fácil me forçar a acreditar que a poeira daquela varanda de infância ainda cobria as nossas cabeças de forma igual. Porque alguma coisa tinha mudado drasticamente entre nós depois daquela noite na festa de campo. Um muro invisível de contenção tinha sido erguido tijolo por tijolo, e nenhum de nós dois parecia ter a coragem ou a insensatez necessária para demolir a estrutura e descobrir o que tinha sobrado por trás.
As férias de verão daquele ano chegaram despejando aquele calor sufocante e bruto típico do Texas, trazendo uma sensação de liberdade que, como sempre, durou menos do que um piscar de olhos. Na semana exata que antecedia o início das aulas do nosso tão esperado último ano, meu pai me chamou até a garagem da fazenda, enxugando as mãos calejadas em uma estopa de graxa.
— Fecha os olhos, Camille. Sem trapaça — ele comandou, com aquele tom arrastado e firme de caubói.
Obedeci, sentindo o calor do asfalto batendo nas minhas pernas. Ouvi um barulho metálico pesado de porta correndo, seguido pelo som inconfundível de um chaveiro de metal balançando entre os dedos dele.
— Agora pode abrir.
Abri as pálpebras devagar, a luz do sol me fazendo piscar. Parada bem no centro da garagem, brilhando sob os feixes de luz, estava uma caminhonete usada, mas tão impecavelmente conservada e polida que parecia nova. Prata, robusta, ostentando um enorme laço de fita vermelha de cetim preso ao capô cromado.
Olhei para o veículo de tração nas quatro rodas. Olhei para o meu pai. Olhei para a chave na mão dele.
— Pai... — a minha voz sumiu na garganta, os olhos azuis arregalados.
Otto abriu aquele sorriso discreto e contido, o tipo de sorriso raro que só aparecia no rosto dele quando ele conseguia me desarmar por completo.
— Você trabalhou como uma condenada nos últimos dois anos, Camille. Estudou até as duas da manhã, não faltou a um único treino na pista, e conseguiu aquela bolsa parcial para o programa avançado de preparação para as universidades da Costa Oeste. Está mais do que na hora de você ter a sua própria independência para não depender das caronas da mansão.
Corri na direção dele, jogando meus braços ao redor do seu pescoço, ignorando o cheiro de graxa e óleo de motor na camisa dele. — Eu não sei nem o que dizer, pai! É perfeita! Obrigado!
— Pode começar prometendo que vai respeitar rigidamente o limite de velocidade da rodovia interestadual e que não vai transformar essa caçamba em um forte para a sua irmã — ele brincou, dando dois tapinhas firmes nas minhas costas.
— Eu prometo — ri contra o ombro dele, sentindo uma onda de orgulho lavar meu peito.
No primeiro dia oficial do último ano, estacionei a minha caminhonete prata pela primeira vez na fileira destinada aos formandos e veteranos. Desci da cabine alta ajeitando a alça da mochila, sentindo aquela satisfação gostosa e difícil de mascarar desenhada no rosto. Eu não tinha dado três passos em direção ao pavilhão de entrada quando Emma e Abigail apareceram cruzando o pátio de cascalho em disparada. Pelas expressões alarmadas e ofegantes das duas, o mundo tinha acabado de sofrer uma mutação geopolítica.
— Você não vai acreditar na bomba que acabou de estourar no vestiário! — Emma praticamente berrou, segurando a alça da própria bolsa como se sua vida dependesse daquilo.
Franzi a testa, parando no meio do caminho. — O que foi? O treinador cancelou a temporada?
Abigail segurou meus dois braços com uma força desnecessária, os olhos castanhos arregalados. — É oficial, Cami. Saiu o veredito.
Meu coração deu um solavanco estúpido contra as costelas, o sangue gelando por um motivo que eu me recusei a analisar. — O que é oficial, meninas? Fala logo.
— O Aidam Wright está namorando — Abigail soltou a frase de uma vez.
Por uma fração de segundo, o estacionamento inteiro da Trinity Christian Academy pareceu sofrer um blecaute de som. As risadas dos calouros, as portas das caminhonetes batendo, o barulho do sinal eletrônico ao longe... tudo virou um ruído abafado, como se eu estivesse submersa nas águas rasas do riacho da fazenda. Piscares lentos. Respirações curtas.
A minha primeira reação interna foi bizarra. Não senti aquela pontada aguda de tristeza lancinante que os romances descrevem, e nem aquela fúria possessiva que tinha incendiado o campo de futebol dois anos antes. Foi apenas uma sensação de vazio imenso, frio. Como se alguém tivesse entrado na casa onde eu morava desde os seis anos de idade e mudado o móvel mais importante de lugar sem me pedir permissão. Era desconfortável, desalinhado, mas minha mente de dezoito anos não encontrava os conceitos certos para explicar o porquê.
Forcei os músculos do rosto a cooperarem, desenhando um sorriso amarelo e despretensioso.
— Ah... sério? Que legal.
Emma me observava com aquela intensidade analítica de quem tenta ler as entrelinhas do meu DNA.
— Você está bem com isso, Cami? De verdade?
Assenti com a cabeça rápido demais, ajeitando o casaco.
— Claro que estou, Emma! Por que eu não estaria? O Aidam é o meu melhor amigo, quase um irmão, lembra? É ótimo que ele esteja seguindo a vida dele.
Enquanto a mentira deslavada saía da minha boca, meus olhos foram magneticamente atraídos para o outro lado do pátio, perto da entrada do ginásio. Aidam estava parado ao lado da F-150 dele. Ashley Montgomery caminhava bem colada ao corpo dele, com os dedos entrelaçados nos dele, dizendo alguma coisa animada que fez o canto da boca de Aidam subir naquele maldito sorriso de canto.
Sorri também. Ou pelo menos fiz o meu melhor para parecer que sim. Porque, pela primeira vez desde a madrugada em que Florence nascera, a ficha caiu com o peso de uma tonelada de feno: eu não fazia a menor ideia de qual era o meu real lugar no universo daquele garoto loiro escuro.
As semanas de outono avançaram num ritmo frenético de provas e treinos. E foi nesse cenário de transição que Luke Carter voltou a ocupar espaço na minha rotina de um jeito totalmente inesperado. Nós nos cruzávamos constantemente entre uma troca de classe e outra, dividíamos os horários de musculação no ginásio e, frequentemente, ele esticava o seu tempo após o término do treino do time de futebol apenas para se encostar na mureta da pista de atletismo, esperando que eu terminasse minhas séries de tiros de velocidade para caminharmos juntos até o estacionamento.
Agora, aos dezoito anos, o jogo era totalmente diferente. Não existia mais aquele pavor infantil e paralisante do primeiro beijo, nem a ansiedade desengonçada de quem tenta descobrir como se comportar em um encontro oficial em Dallas. Luke continuava absurdamente bonito, talvez ainda mais maduro e imponente com a jaqueta de capitão sênior, mas o que realmente tinha mudado era a nossa postura. Nós tínhamos crescido. O Texas tinha nos moldado. E, antes que aquele ano letivo terminasse e as cartas de Stanford chegassem, fiz uma promessa silenciosa e inquebrável para o meu próprio espelho: chega de viver meus sentimentos pela metade. Chega de habitar a zona cinzenta dos "quase". Se eu fosse amar alguém dali para a frente, eu queria ter a audácia de viver aquilo por inteiro, sem o fantasma da fazenda ao lado assombrando minhas escolhas.
Na última sexta-feira de setembro, o céu do Texas estava tingido de um laranja quase incandescente quando a treinadora da equipe de corrida reuniu todas as atletas no círculo central da pista de cal. Meu coração disparou contra o peito, uma premonição elétrica arrepiando a minha pele. Ela segurava a prancheta de metal contra o peito, os olhos firmes varrendo o grupo.
— A partir de hoje, senhoritas, com o início da temporada estadual se aproximando... a nossa nova capitã oficial da equipe será a Camille Davis.
Por um segundo inteiro, jurei que o vento do Texas tinha distorcido as palavras e que eu tinha escutado errado. Emma foi a primeira a soltar um grito agudo que rasgou o silêncio da pista, iniciando uma salva de palmas e assobios eufóricos. Abigail se jogou contra o meu pescoço, me abraçando com tanta força que quase perdemos o equilíbrio e fomos parar no chão de cascalho. Eu ria alto, sentindo as lágrimas de alívio e triunfo arderem nos olhos, tentando gesticular um agradecimento para a treinadora. Tudo ao mesmo tempo.
Antes que eu conseguisse recuperar o fôlego nos pulmões, uma voz masculina e ressonante ecoou pelo gramado adjacente, chamando o meu nome. — Camille!
Girei nos calcanhares no mesmo segundo. Luke vinha cruzando o campo em nossa direção com passos largos e rápidos, ainda vestindo as calças do uniforme de treino e com a camiseta de compressão colada ao corpo suado.
Sem pensar duas vezes, movida pela pura e genuína euforia daquele momento, corri também. Meus pés voaram pela pista até o gramado e, quando nos encontramos no meio do campo, peguei impulso e pulei direto nos braços dele. Luke me segurou pela cintura com uma facilidade impressionante, me girando no ar enquanto soltava aquela risada gostosa que eu conhecia bem.
— Eu sabia que você ia conseguir, Cami! Eu falei para o Cole no vestiário que essa vaga era sua por direito! — ele comemorou, me colocando de volta no chão, mas mantendo as duas mãos espalmadas nas minhas bochechas, sustentando o meu rosto.
Nossos olhares permaneceram trancados um no outro por um segundo suspenso, denso e cheio de uma eletricidade limpa. Ali estava o cara que tinha me respeitado, o cara que tinha esperado e que estava orgulhoso do meu sucesso. Então, sem hesitações, sem medos do passado e sem dúvidas pendentes, Luke inclinou o corpo e me beijou.
Dessa vez, não havia o pânico da garrafa de vidro. Não havia a plateia dos veteranos ditando regras de Hollywood. Fomos apenas nós dois no centro do gramado. Foi um beijo quente, firme, cheio de uma promessa de recomeço que me fez corresponder com a mesma intensidade, segurando os ombros dele enquanto o barulho dos aplausos e os assobios das meninas da equipe de corrida ficavam ainda mais altos ao nosso redor. Ouvi Emma gritando algo obsceno de longe, mas preferi ignorar focado no calor dos lábios dele.
Quando nossos lábios finalmente se separaram de forma lenta, desci dos braços dele ainda rindo, tentando recuperar o ar, com o coração batendo num ritmo feliz.
Foi exatamente ao girar o corpo de leve que meus olhos azuis colaram na silhueta parada a menos de cinco metros de distância, perto da barreira de treino.
Aidam.
Ele estava parado ali, sozinho, ligeiramente afastado dos outros jogadores da linha defensiva que seguiam para o vestiário. Ele segurava o capacete com a mão esquerda, os fios loiro escuros colados na testa pelo suor do treino. Por um instante que pareceu durar uma eternidade inteira, eu vi o peito dele travar, prendendo a respiração enquanto seus olhos cor de mel esverdeados — que agora pareciam duas pedras de gelo sob a luz do entardecer — fitavam a minha mão ainda apoiada no peito de Luke.
Então, com aquela postura impecável e fria de herdeiro dos Wright, ele destravou o corpo e caminhou firmemente na nossa direção. O rosto dele era a imagem da calmaria cortês. Como se ele estivesse cruzando um salão de negócios com o pai, e não o campo onde tínhamos deixado nossa infância sangrar.
Ele parou exatamente na nossa frente, os olhos fixando-se nos meus azuis antes de esboçar um sorriso educado, daqueles formais que Amália usava com os investidores de Dallas.
— Parabéns, Camille. Você trabalhou mais duro do que qualquer uma naquela pista. O título de capitã foi totalmente merecido.
Agradeci, sentindo um calafrio estranho subir pela minha espinha com a formalidade daquele tom. Forcei o meu próprio sorriso. — Obrigada, Aidam. Significa muito vindo de você.
Fiquei estática por um segundo, esperando. Quase por um reflexo puramente instintivo do meu corpo, esperei que ele esticasse a mão calejada e bagunçasse os meus cabelos castanhos com um empurrão leve, esperei que ele me chamasse de "tampinha", que soltasse uma daquelas piadas ácidas e arrogantes sobre eu ser uma péssima perdedora ou qualquer outra provocação que me fizesse lembrar do garoto que tinha dividido o silêncio comigo debaixo do carvalho.
Mas nada disso aconteceu.
Em vez disso, Aidam destravou o braço direito e estendeu a mão na minha direção. Uma palma aberta, fria, formal. O tipo de cumprimento que ele dedicaria a qualquer colega de classe da Trinity com quem ele cruzasse no corredor.
Senti um nó invisível apertar a minha garganta ao segurar os dedos dele. Apertei a mão de Aidam por dois segundos que pareceram duas eras de gelo. — Obrigada, Wright.
— De nada, Davis — ele respondeu, a voz barítona saindo num tom linear, sem qualquer inflexão de intimidade. Ele desviou o olhar para o cara ao meu lado, fazendo um aceno de cabeça profissional. — Bom treino na segunda, Carter. Nos vemos no vestiário.
— Valeu, Wright. Bom descanso — Luke respondeu, a voz firme.
Aidam assentiu de forma discreta, girou nos calcanhares com passos largos e imponentes e se afastou em direção ao pavilhão dos fundos, a silhueta da jaqueta jeans sumindo no meio dos refletores que começavam a se acender.
Senti a mão de Luke deslizar com uma delicadeza possessiva e reconfortante pela curva da minha cintura, me puxando para mais perto do calor do seu corpo. Instintivamente, apoiei a cabeça no ombro dele, deixando-me guiar. Continuei acompanhando com o olhar os passos distantes de Aidam cruzando o gramado até o outro lado do campus. Naquela tarde de setembro, sob o céu cor de sangue do Texas, tentei com todas as minhas forças convencer a minha própria mente de que era exatamente daquele jeito que as engrenagens deveriam girar. Que o tempo tinha colocado cada um na sua respectiva cerca.
Às vezes, porém, o coração é um órgão teimoso e analfabeto, que demora muito mais do que a lógica e a razão para aceitar o veredito óbvio: de que algumas pessoas, por mais que tentemos colar os pedaços, simplesmente deixam de ocupar o lugar que sempre tiveram de direito na nossa vida.
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