Com Todo Amor - O começo
20 Instinto Texano
Naquela mesma noite, porém, a calmaria provou ser apenas a fachada de uma tempestade iminente. Era o meu horário de descanso no hospital, e o relógio já marcava quase dez da noite quando notei que Aidam havia desaparecido do nosso ponto de encontro no refeitório há quase uma hora. Peguei o celular com pressa, o coração dando um solavanco de pura premonição ruim. Nenhuma resposta às minhas três mensagens de texto.
Movida por um puro reflexo de pânico neurológico, desci os degraus da escada de emergência e corri em direção ao estacionamento privativo dos funcionários e médicos do hospital universitário. O vento gelado da noite da Califórnia bateu no meu rosto no segundo exato em que os meus olhos azuis capturaram a cena de horror ao fundo do pátio de asfalto, sob a luz amarelada de um dos postes.
O Dr. Coleman estava prensado de costas contra a lataria lateral de um sedã escuro. Aidam, ostentando toda a sua imponência física de atleta da linha ofensiva, segurava o colarinho da camisa social do supervisor com tanta força e fúria que metade dos botões da vestimenta já havia voado pelo chão de concreto. O médico mais velho tentava desesperadamente se desvencilhar do aperto, o rosto pálido de puro medo.
— Você ficou completamente maluco, seu moleque?! — Coleman gritou, a voz falhando de pânico. — Me solta agora ou eu garanto que você nunca vai assinar um diploma de Medicina neste país!
Aidam o encarava a poucos centímetros de distância, os olhos cor de mel totalmente tomados por uma fúria cega, primitiva e inabalável, daquelas que nós havíamos deixado sangrar na fronteira do Texas.
— Encosta um único dedo imundo na Camille Davis outra vez, Coleman. Só mais uma maldita vez no meio daqueles corredores — a voz barítona de Aidam saiu assustadoramente baixa, um sussurro rústico que fez os meus pelos da nuca se arrepiarem por inteiro. — E eu juro pela alma da minha mãe que eu esqueço que passei os últimos quatro anos estudando para ser médico e resolvo essa história com você do jeito que a gente resolve as coisas na terra da minha fazenda. Entendeu o recado?
Coleman, num surto de orgulho ferido, usou as duas mãos para empurrar o peito de Aidam com violência.
Foi o erro fatal. O estopim.
O primeiro soco de direita de Aidam veio de forma imediata, um impacto seco e violento que estourou contra o maxilar do supervisor, fazendo o corpo do médico cambalear contra o metal do carro. Antes que Coleman pudesse esboçar qualquer defesa, o segundo soco conectou direto na lateral do rosto dele, abrindo um corte instantâneo na bochecha do homem mais velho.
— Aidam, para! Pelo amor de Deus, para! — gritei em desespero, correndo pelo asfalto enquanto as minhas botas estalavam no chão.
Ele parecia estar operando em um estado de transe psicótico, totalmente surdo aos meus apelos. Outros internos e residentes do bloco de trauma começaram a cruzar as portas de vidro, correndo na nossa direção no meio do pátio. Nathan Brooks foi um dos primeiros a atingir o perímetro, jogando o corpo contra os ombros de Aidam e aplicando um soco de contenção para puxá-lo para trás com força total.
— Chega, Wright! Solta ele! Acabou! O cara já está no chão! — Nathan berrava, usando todo o seu peso para conter a adrenalina do quarterback.
Aidam respirava de forma ofegante, o peito subindo e descendo num ritmo violento, como se o seu próprio cérebro não conseguisse mais retomar o controle dos músculos do corpo. Aproximei-me dele sem hesitar, ignorando os sussurros que começavam a se espalhar pelo estacionamento, e segurei o rosto dele entre as minhas duas mãos, forçando os olhos dele a focarem nos meus.
— Olha para mim, Aidam! Foca em mim, por favor. Eu estou aqui. Estou bem — supliquei, a minha voz saindo num fio trêmulo.
Os olhos dele finalmente abandonaram a silhueta do médico no chão e encontraram os meus azuis. Vi as lágrimas de raiva misturadas ao suor do esforço físico secando na pele dele. Aos poucos, a lucidez dolorosa foi expulsando a fúria cega das suas pupilas, e o garoto da fazenda voltou a habitar o corpo do atleta.
— Você... você não podia ter feito isso, Aidam... — sussurrei, sentindo o meu peito doer de puro pânico pelo futuro dele.
— A sua carreira... Você não podia.
Ele fechou as pálpebras por um instante longo, encostando a testa na minha.
— Eu sei, Cami. Eu sei de tudo isso.
Quando ele abriu os olhos novamente para me encarar, toda a fúria primitiva tinha sido substituída por uma onda devastadora de culpa e arrependimento.
— Mas no segundo em que a minha cabeça tentou processar a imagem daquele desgraçado trancando a porta daquela sala com você ali dentro... eu simplesmente não consegui pensar em mais nenhuma lei ou consequência de Stanford. O meu mundo inteiro sumiu.
Aidam permaneceu completamente imóvel no centro do pátio, com as mãos grandes ainda tremendo de leve contra as minhas. Os nós dos seus dedos estavam completamente esfolados e avermelhados pelo impacto contra os dentes do supervisor. Ele respirava com uma dificuldade mecânica, olhando para o próprio punho cerrado como se tivesse acabado de despertar de um pesadelo violento. A ficha do tamanho do estrago estava caindo com o peso de uma tonelada métrica de feno.
— Eu... Cami... eu simplesmente não consegui me conter — ele sussurrou, a voz falhando, os olhos fixos na mancha de sangue no chão.
Nathan manteve uma das mãos firme no ombro esquerdo de Aidam, o olhar de residente sênior varrendo o perímetro com urgência.
— Você precisa sumir desse estacionamento agora mesmo, Wright. Pega as suas coisas e sai do hospital antes que a diretoria clínica chegue aqui fora.
Outros médicos e enfermeiras do bloco sênior já começavam a cercar o pátio de asfalto, os celulares nas mãos e as expressões de puro choque estampadas nos rostos. O Dr. Coleman permanecia apoiado de joelhos contra o sedã, segurando o maxilar desalinhado com um lenço manchado de vermelho, enquanto um dos residentes da cirurgia chamava a segurança interna do complexo Stanford aos berros.
O meu coração golpeava o meu peito com tanta violência que o zumbido nos meus ouvidos quase me impedia de processar os sons ao redor. Segurei a mão esfolada de Aidam com força, entrelaçando os nossos dedos.
— Vamos embora daqui, Aidam. Agora.
Ele não ofereceu um único milímetro de resistência ao meu comando. Deixou-se ser guiado pelos meus passos através do cascalho, com a cabeça baixa. Pela primeira vez em toda a nossa longa história desde os seis anos de idade... o imponente capitão da linha defensiva de Stanford parecia apenas um menino completamente perdido no meio do tiroteio.
Nenhum de nós dois ousou proferir uma única sílaba de som durante todo o trajeto de carro até o nosso apartamento. Do lado de fora dos vidros da cabine, a cidade de Palo Alto continuava acordada, pulsando na sua costumeira energia alheia: sirenes distantes de ambulâncias, ônibus expressos cruzando as avenidas iluminadas, luzes de neon piscando e pessoas normais caminhando tranquilamente pelas calçadas arborizadas. Era uma sensação bizarra de isolamento; parecia que o mundo inteiro continuava funcionando perfeitamente na sua órbita normal enquanto o nosso ecossistema particular desmoronava em câmera lenta no banco da frente.
Assim que entramos no apartamento e o trinco da porta correu com um estalo seco, Aidam tirou lentamente a jaqueta oficial do hospital universitário. O tecido branco caiu sobre o estofado do sofá como um fardo pesado de chumbo. Ele caminhou até a cozinha americana e permaneceu de costas para mim, apoiando as duas mãos espalmadas contra o mármore da bancada, com a cabeça baixa.
Ouvi-o puxar o ar com força uma vez. Depois outra. E mais uma. Até que ele finalmente girou o pescoço, a voz barítona saindo num tom arrastado e quebrado:
— Eu estraguei tudo, Camille. Destruí o roteiro inteiro da nossa vida em cinco minutos de asfalto.
Aproximei-me dele com passos lentos pela madeira, eliminando a distância e tocando a linha dos ombros teso dele.
— Calma, Aidam. Nós ainda não sabemos qual vai ser o veredito da Reitoria ou o relatório da segurança.
Ele soltou uma risada curta, amarga e cheia de uma ironia dolorida que cortou o meu peito ao meio.
— Nós não sabemos? Camille, eu sou um interno do último ano de Medicina que acabou de espancar o chefe sênior do departamento de supervisão clínica dentro das dependências oficiais da universidade. Eu cometi um crime institucional grave.
Virei o corpo dele delicadamente na minha direção, forçando-o a me encarar. Os olhos cor de mel dele estavam completamente vermelhos, mas não restava mais nenhum traço daquela fúria primitiva, havia apenas o brilho do arrependimento e do medo real do futuro.
— Você estava me defendendo de um crime de assédio, Aidam! Aquele desgraçado passou do limite e você agiu por puro instinto de proteção — argumentei, tentando desesperadamente encontrar uma boia de salvamento jurídica para a nossa permanência no campus.
Ele balançou a cabeça loira de forma negativa imediatamente, recusando-se a aceitar aquela desculpa confortável.
— Não, Camille. Não tenta florear o roteiro. Eu não estava agindo por uma justiça poética institucional; eu estava me vingando do jeito que o meu orgulho texano exigia. Existe uma diferença abissal de termos e de gravidade entre proteger e agredir. E a Reitoria de Stanford sabe disso perfeitamente.
O silêncio denso e sufocante voltou a ocupar cada metro quadrado do apartamento. Aidam passou as duas mãos grandes pelo rosto, bagunçando os fios loiros com um desespero surdo.
— Eu passei quatro anos da minha vida trancado nesta faculdade de elite, Camille. Estudando anatomia até os meus olhos sangrarem, treinando sob um sol de quarenta graus, dormindo três horas por noite e abrindo mão de cada segundo de lazer... para simplesmente jogar toda a minha carreira na lata do lixo em cinco minutos de fúria no estacionamento. Sou um completo idiota.
Segurei o rosto dele entre as minhas mãos, fixando os meus olhos azuis nos dele com toda a convicção que me restava na alma.
— Você não jogou nada no lixo ainda, Aidam Wright! Escuta o que eu estou te dizendo: ainda não houve nenhuma notificação oficial, nenhuma suspensão decretada e nenhum processo formalizado. Nós vamos lutar contra isso juntos.
Ele abriu um sorriso triste, totalmente desprovido de qualquer crença naquelas palavras de consolo.
— Camille... você é inteligente demais, estuda neurociência, sabe perfeitamente como os conselhos de ética dessas universidades de elite funcionam. Eles protegem o nome da instituição antes de qualquer aluno.
Assenti com a cabeça em silêncio, sentindo uma lágrima fria escorrer pelo meu rosto. Eu sabia. Nós dois sabíamos perfeitamente do tamanho do protocolo de segurança deles. Qualquer denúncia envolvendo agressão física direta contra um membro do corpo docente sênior era tratada com tolerância zero pelas comissões de disciplina. Principalmente quando o envolvido era um estudante do último ano, a um passo de assinar a documentação do CRM americano.
Aidam respirou fundo, o peito subindo com dificuldade na penumbra da cozinha. — Se a Reitoria optar pela minha expulsão imediata do campus ou pela cassação do meu direito de prestar a residência médica...
Interrompi a frase dele no mesmo segundo, colando os meus lábios nos dele para calar aquela hipótese aterrorizante.
— Não ouse terminar essa frase, Wright. Não fala isso nem de brincadeira.
— Mas se o veredito for esse, Camille... o que eu vou fazer da minha vida? O que eu vou dizer para o meu pai no Texas? — a voz dele quebrou num sussurro de puro pânico, os ombros caindo.
Minha garganta apertou até faltar o ar, mas segurei as mãos esfoladas dele contra o meu peito com força total.
— Se o pior acontecer, Aidam... eu juro por tudo o que é mais sagrado na nossa história desde o carvalho que eu não vou deixar você enfrentar esse tribunal sozinho. Nós somos duas metades da mesma bagunça, lembra? A gente divide o peso da queda.
Ele fechou os olhos por um instante longo, absorvendo a promessa. Quando voltou a abrir as pálpebras e focar o meu rosto, não restava mais raiva ou culpa nas suas pupilas; havia apenas um cansaço existencial imenso, uma exaustão que parecia infinitamente maior e mais pesada do que nós dois éramos capazes de gerenciar sozinhos.
Na manhã seguinte, nós nos forçamos a vestir os jalecos brancos passados e fomos para o hospital universitário como se o mundo estivesse funcionando perfeitamente nos eixos tradicionais. Ninguém no posto de enfermagem comentou uma única linha sobre o ocorrido da noite anterior; nenhuma enfermeira fez perguntas capciosas e nenhum interno ousou tocar no nome do Dr. Coleman durante as rodadas de leito da Clínica Médica.
Mas os corredores do bloco de trauma pareciam mergulhados em um silêncio excessivo, artificial e sufocante demais. As pessoas desviavam os olhos sistematicamente quando cruzavam o nosso caminho, e alguns residentes do segundo ano cochichavam de cabeça baixa nos cantos dos armários assim que a nossa silhueta passava. O clima era de pura contagem regressiva para uma execução pública.
Nathan Brooks nos encontrou perto da máquina de café da sala de descanso dos plantonistas, com as mãos enterradas no jaleco. O semblante sério e rígido do residente sênior dizia absolutamente tudo o que precisávamos saber sem que ele precisasse articular uma única palavra.
— A secretaria da Reitoria ou o conselho administrativo ainda não chamaram nenhum de vocês dois na diretoria hoje de manhã? — Nathan perguntou em um sussurro, olhando para os lados.
Balancei a cabeça negativamente, o nó no meu estômago apertando ainda mais. — Não, Nathan. Até agora, silêncio absoluto no sistema.
Ele respirou fundo, soltando o ar com uma preocupação evidente. — É apenas uma estratégia burocrática de contenção de danos, Davis. Questão de tempo útil para eles alinharem o relatório jurídico. Fiquem espertos.
Os dias seguintes se arrastaram como uma verdadeira tortura psicológica em câmera lenta. Cada nova notificação eletrônica que vibrava na tela do meu celular fazia o meu coração disparar numa arritmia de puro pânico; cada ligação telefônica oriunda de um número interno do hospital universitário parecia o prenúncio definitivo do fim da nossa jornada em Stanford.
Aidam continuava comparecendo rigidamente a cada um dos seus plantões agendados na ala cardiovascular. Ele treinava com a mesma disciplina mecânica de sempre, estudava os casos clínicos até tarde na biblioteca e forçava um sorriso perfeitamente moldado no rosto sempre que as circunstâncias sociais do campus exigiam a sua presença de atleta. Mas eu conhecia aquele homem melhor do que qualquer outra pessoa na face da Terra; eu sabia ler as entrelinhas do silêncio dele. Ele quase não dormia mais. Passava horas a fio parado em pé na varanda, com o olhar completamente perdido na linha do horizonte iluminado de Palo Alto, como se estivesse tentando, de forma desesperada, desenhar mentalmente uma vida completamente diferente e paralela daquela que havíamos planejado meticulosamente desde a nossa adolescência no Texas.
Na sexta-feira de tarde, voltamos juntos do hospital após um plantão de doze horas exaustivo. Assim que cruzamos a portaria do nosso prédio residencial, o funcionário do balcão se endireitou na cadeira e nos estendeu um envelope de alta gramatura, timbrado e lacrado.
— Documento de entrega prioritária para o senhor, Doutor Wright. Acabou de chegar pelo serviço de mensageiros do campus — o porteiro explicou, entregando o papel.
Aidam pegou o documento com os dedos firmes, mas o seu corpo tencionou na mesma hora. O nome completo dele, Aidam John Wright, estava impresso em letras pretas garrafais bem no centro do papel. E no canto superior esquerdo, brilhando com uma sobriedade aterrorizante, ostentava o brasão oficial em relevo da Universidade Stanford.
O meu estômago afundou em queda livre instantaneamente, uma náusea fria subindo pela garganta.
Ele rompeu o lacre com uma lentidão cirúrgica, desdobrando a folha interna. Bastou que ele lesse as duas primeiras linhas do texto formal para que o seu rosto perdesse absolutamente toda a cor, adotando um tom pálido de puro choque. Estendi a minha mão na direção dele, os meus próprios dedos tremendo.
— O que foi, Aidam? O que diz a carta? Fala comigo.
Aidam levantou os olhos cor de mel esverdeados para o meu rosto, e a voz barítona dele saiu quase num sussurro estrangulado, desprovido de qualquer força de quarterback: — Fomos convocados. A Reitoria agendou o comitê.
Engoli em seco, sentindo o ar faltar nos pulmões. Ele me entregou o papel timbrado, e os meus olhos azuis varreram o texto oficial impresso em linhas duras:
"O aluno interno Aidam John Wright deverá comparecer perante a Comissão Disciplinar de Ética da Faculdade de Medicina de Stanford na próxima segunda-feira, às 9h, na sala de conferências da Reitoria, para fins de apuração formal dos fatos e atos de violência física ocorridos nas dependências do Hospital Universitário Stanford. A sua presença e manifestação são de caráter estritamente obrigatório."
O apartamento inteiro pareceu mergulhar em um silêncio sufocante, denso e sepulcral no mesmo segundo. Segurei o papel timbrado com tanta força contra os dedos que as bordas do envelope chegaram a amassar sob o meu aperto. O meu coração batia com tanta violência contra as costelas que parecia prestes a rasgar o jaleco e sair pela boca.
Aidam permaneceu completamente imóvel no centro da sala de estar, com o olhar fixo e perdido em algum ponto invisível da parede de vidro, os ombros desabados. Era a imagem da capitulação. Como se, pela primeira vez na sua existência inteira desde os seus seis anos de idade na fazenda... ele simplesmente não fizesse a menor ideia de qual caminho geográfico ou tático seguir para salvar a própria pele.
E ali, na penumbra da tarde da Califórnia, pela primeira vez desde que havíamos iniciado aquela jornada mística e exaustiva rumo ao sonho dourado de vestir um jaleco branco e salvar vidas... o nosso futuro planejado parecia perigosamente incerto, frágil e prestes a quebrar em mil pedaços irreconciliáveis diante dos nossos olhos.
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