As férias de verão sempre pareciam durar consideravelmente menos do que deveriam. Talvez porque, quando somos adolescentes com os hormônios à flor da pele e o sol do Texas rachando sobre nossas cabeças, acreditamos piamente que o tempo é um inimigo pessoal que existe apenas para sabotar nossos planos.

Voltei para os corredores da Trinity Christian Academy algumas semanas depois, carregando no peito a estranha e incômoda sensação de que as placas tectônicas do meu mundo haviam se movido. O cenário, no entanto, parecia zombar da minha crise existencial interna: os corredores de armários azuis eram exatamente os mesmos, as portas de metal continuavam fazendo aquele estrondo irritante a cada troca de classe, e o treinador principal da linha de frente continuava berrando no ginásio como se ninguém na Terra fosse capaz de ouvi-lo.

Mas nós... nós definitivamente não éramos mais os mesmos.

Agora éramos veteranos. Havia um peso novo naquele título, um status invisível que mudava o ritmo dos nossos passos. Os novatos caminhavam pelo campus em bandos compactos e assustados, segurando mapas impressos e olhando para as salas de aula como se estivessem tentando decifrar as armadilhas de um labirinto medieval. Era engraçado e ligeiramente nostálgico, porque, dois anos antes, eu tinha sido exatamente aquela garota de cabelos castanhos e botas gastas, engolindo em seco diante do tamanho do colégio.

Emma esbarrou no meu ombro logo na entrada do pavilhão principal, segurando um tablet contra o peito. — Bom dia, senhorita popularidade do condado — ela disparou, com aquela rapidez típica de quem consome fofoca no café da manhã.

Revirei meus olhos azuis, abrindo o meu armário. — Você passou dois meses inteiros longe e ainda vai continuar com essa ladainha, Emma?

— Querida, você terminou o ano passado com o vestido mais bonito do baile e começou o ano namorando oficialmente o quarterback mais comentado da região — ela rebateu, encostando-se no armário vizinho com um sorriso cúmplice. — Claro que eu vou continuar com isso. É o meu dever cívico.

Abigail materializou-se logo atrás dela, equilibrando um copo absurdamente enorme de café gelado e uma mochila cheia. — Sem contar o detalhe do melhor amigo com sérios problemas de impulsividade e ciúmes — ela acrescentou, dando um gole na bebida.

Fechei a porta do armário com um baque um pouco mais forte do que pretendia, virando-me para as duas. — Vocês inventam cada drama digno de novela mexicana, sério. De onde tiram essas teorias?

— Nós não inventamos, Cami. Nós apenas observamos os fatos — Abigail deu de ombros.

— O Aidam não tem ciúmes de mim — afirmei, a voz saindo um tom mais firme do que eu gostaria.

Emma soltou uma risadinha anasalada, trocando um olhar de pura diversão com Abigail. — Camille, você realmente vive em um planeta isolado na ponta daquela fazenda. É fascinante.

Antes que eu pudesse formular uma resposta à altura para defender a minha sanidade, o ronco grave e inconfundível de um motor potente ecoou pelo pátio de estacionamento, silenciando o falatório ao redor. Uma Ford F-150 azul-escura, brilhando como se tivesse acabado de sair da concessionária em Dallas, manobrou com precisão algumas vagas adiante.

Aidam desceu da cabine alta. Ele usava óculos escuros de aviador, uma camiseta branca simples que parecia destacar ainda mais os seus ombros largos — que insistiam em expandir a cada treino do time —, uma calça jeans escura e aquele ar convencido e irritante que só os garotos do Texas que tinham acabado de tirar a carteira de motorista conseguiam sustentar.

Joguei a alça da minha mochila sobre o ombro, cruzando os braços enquanto o observava caminhar. — Lá vem o exibido da propriedade Wright.

Aidam tirou os óculos com uma das mãos, deixando-os pendurados na gola da camiseta, e fixou aqueles olhos cor de mel esverdeados em mim. Um sorriso de canto despontou em seus lábios. — Bom dia para você também, Camille. Estava falando de mim?

— Você estacionou três vagas mais longe do pavilhão só para ter a desculpa de atravessar o estacionamento inteiro desfilando, Wright. Eu conheço os seus truques.

— Estratégia de espaço, tampinha — ele rebateu, parando a menos de um metro de mim, exalando aquele cheiro familiar de sabonete limpo e vento. — A caçamba precisa de espaço para manobrar.

— Exibicionismo puro — retruquei, mas não consegui conter o sorriso que brotou nos meus lábios.

Era genuinamente bom vê-lo sorrindo daquele jeito de novo. As semanas que se seguiram ao Baile de Inverno haviam sido estranhas, cheias de conversas que terminavam no meio e olhares que desviavam rápido demais quando a lembrança daquela dança quase confessional ameaçava vir à tona. Mas as férias de verão, com a rotina pesada de trabalho na terra e as cavalgadas ao entardecer, haviam devolvido uma dose necessária de normalidade à nossa convivência. Voltamos a conversar por horas, a competir por qualquer bobagem e a provocar um ao outro como sempre fazíamos. Ainda existia algo ali — uma distância invisível, uma eletricidade nova que nenhum de nós dois ousava colocar em palavras —, mas, aos poucos, parecíamos estar encontrando o nosso caminho de volta para casa.

Na sexta-feira daquela primeira semana de aulas, uma notícia correu pelos corredores da Trinity com a velocidade de um rastilho de pólvora. Haveria uma festa naquela noite, na casa de campo de um dos veteranos da linha ofensiva do time. Pais viajando para um resort na Flórida, casa gigantesca vazia. O tipo exato de combinação que parecia uma ideia brilhante para adolescentes de dezesseis anos... e um pesadelo absoluto para qualquer adulto responsável.

— Vai o colégio inteiro, Cami. Literalmente todo mundo — Emma praticamente pulava de animação enquanto tentava me convencer durante o almoço. — Os boatos dizem que até o pessoal das escolas de Dallas foi convidado. Vai ser a festa do semestre.

Abigail segurou o meu braço com uma insistência dramática. — Você precisa ir, Camille. O Luke vai estar lá, o time inteiro vai estar lá. Você não pode passar a primeira sexta-feira do ano letivo trancada no quarto lendo romance.

— Meu pai nunca vai deixar — suspirei, cutucando a comida no prato. — Vocês conhecem o Otto. Ele é um caubói à moda antiga. Festa em casa vazia com adolescentes bebendo não é exatamente o conceito dele de diversão segura.

Emma e Abigail trocaram exatamente o mesmo sorriso ao mesmo tempo. E aquele olhar coordenado entre as duas era, invariavelmente, um péssimo sinal para a minha integridade física.

Naquela noite, encontrei o meu pai sentado nos degraus de madeira da varanda da nossa casa. O sol do Texas já tinha sumido, deixando um rastro de tons roxos no céu, e ele usava a luz da luminária externa para consertar cuidadosamente uma mini cerca de madeira que Florence insistia em quebrar nas suas brincadeiras com os cavalos de plástico.

Aproximei-me sem fazer barulho, sentando-me no degrau logo abaixo do dele, apoiando os cotovelos nos joelhos. — Pai... — soltei, caprichando na suavidade da voz.

Ele nem sequer levantou a cabeça do pedaço de madeira que lixava. — O que você quer, Camille? Pode falar.

Deixei uma risada escapar, balançando a cabeça. — Nossa, que grosseria. Como você sabe que eu quero alguma coisa?

— Você só me chama de "pai" com esse tom de voz doce e arrastado quando está prestes a me pedir para esticar as regras da casa — ele comentou, com aquele tom sábio e calmo de quem já desvendou todos os meus truques há anos.

Fingi uma indignação teatral. — Eu sempre te chamo assim, você que é desconfiado por natureza.

— Claro, claro — ele ironizou, limpando a serragem da calça jeans com um tapa da mão calejada e finalmente erguendo os olhos para mim. — Diz logo, minha filha.

Respirei fundo, juntando as mãos no colo para controlar o leve nervosismo. — Vai ter uma festa amanhã à noite. Na casa de um dos meninos do time de futebol da escola.

Silêncio absoluto. Meu pai apenas continuou me encarando, esperando o resto do veredito.

— A escola inteira vai, pai. Todo o pessoal do primeiro e do segundo ano — continuei, tentando usar a psicologia da maioria.

Ele arqueou uma sobrancelha, voltando a pegar a ferramenta. — A escola inteira não é uma frase que costuma tranquilizar o coração de um pai, Camille. Você sabe disso.

Sorri sem graça, mordendo o lábio inferior antes de jogar a minha última e mais poderosa carta na mesa. — O Aidam vai.

Meu pai parou o movimento da lixa no mesmo segundo. Ele apoiou as ferramentas no banco de madeira ao lado, os olhos fixos nos meus. Otto conhecia Aidam desde que ele era um garotinho que mal conseguia levantar um balde de ração; confiava no julgamento daquele menino quase tanto quanto confiava no seu próprio reflexo no espelho.

— Ele vai dirigindo aquela caminhonete nova que o John comprou? — meu pai perguntou, a voz séria.

Assenti imediatamente, vendo uma brecha de esperança se abrir. — Vai sim. Ele tirou a carteira de motorista oficial no mês passado. E ele prometeu que não vai encostar em um copo de bebida porque está levando o treino a sério.

Otto ficou alguns segundos em silêncio, processando a informação enquanto o vento da noite balançava as folhas do carvalho ao longe. Finalmente, ele soltou um suspiro longo.

— Tudo bem. Você vai com ele.

Arregalei os olhos, um sorriso gigante e radiante dominando o meu rosto. — Sério, pai?! Obrigada!

— Vai — ele me interrompeu, apontando o dedo indicador na minha direção, o tom de voz descendo para aquela gravidade que me fazia lembrar exatamente quem mandava ali. O meu sorriso diminuiu de tamanho na mesma hora. — Mas me escuta com muita atenção, Camille. Se acontecer qualquer coisa naquela casa... qualquer brincadeira idiota, qualquer confusão ou situação que faça você se sentir o mínimo que seja desconfortável ou insegura... você pega o celular e liga para mim. Não importa se for meia-noite, duas ou quatro da manhã. Não importa onde aquela casa fique. Eu vou pegar a caminhonete e vou buscar você no mesmo minuto. Estamos combinados?

Assenti com a cabeça, sentindo um calor confortável inundar meu peito. Meu pai sempre foi exatamente assim: ele não tentava me trancar em uma redoma de vidro invisível para me proteger do mundo exterior, mas fazia questão absoluta de que eu soubesse que, não importava o tamanho do problema, eu nunca precisaria enfrentar nada sozinha na escuridão.

Na noite seguinte, o relógio da cozinha mal tinha marcado sete horas quando o som agudo de uma buzina ecoou no pátio de terra batida. Corri até a janela e vi os faróis da F-150 azul iluminando a cerca. Florence apareceu em disparada no corredor, segurando a barra do meu vestido de viscose escura só para me dar um susto.

— Não esquece de me trazer doce da festa, Camille! Aqueles de chocolate! — ela pediu, com os olhos castanhos brilhando de expectativa infantil.

— Se sobrar algum doce intacto no meio daquela selva de adolescentes, eu trago, Flor — brinquei, dando um beijo no topo da cabeça dela antes de pegar o meu casaco de couro.

Desci os degraus da varanda e puxei a porta pesada da caminhonete de Aidam, subindo no banco do passageiro e fechando-a com um baque firme. O cheiro de estofamento novo e do perfume amadeirado dele dominava o espaço interno. Olhei para o lado e encarei o perfil dele; Aidam usava uma jaqueta jeans por cima de uma camiseta preta, as mãos firmes no volante de couro.

— Preparado para enfrentar a alta sociedade da Trinity fora do ambiente escolar, Wright? — perguntei, ajeitando o cinto de segurança.

Ele girou a chave na ignição, fazendo o motor potente roncar na noite fria do Texas. Um sorriso de canto de lábio, audacioso e perigosamente charmoso, surgiu no rosto dele enquanto ele engatava a marcha e fixava os olhos cor de mel esverdeados na estrada escura à frente.

— Eu sempre estou preparado, tampinha — ele respondeu, a voz barítona vibrando no espaço fechado da cabine. — Mas, olhando o movimento dos carros na rodovia... eu tenho a leve impressão de que essa festa vai render histórias suficientes para o resto do ano inteiro.

A casa de campo dos veteranos parecia uma locação de filmes de Hollywood. A música eletrônica batia no peito antes mesmo de cruzarmos a porta de entrada, e o jardim estava iluminado por luzes neon suspensas que refletiam nos copos vermelhos de plástico espalhados por toda parte. Havia pessoas de Dallas, atletas veteranos e as líderes de torcida desfilando como se fossem donas do lugar.

Assim que entramos, Luke me encontrou no meio do tumulto. Fazia algumas semanas que não nos corríamos de verdade por causa das férias e das rotinas desencontradas. Ele abriu aquele sorriso familiar, me puxando para um abraço rápido que cheirava a colônia e ao ar fresco da noite.

— Você veio — ele disse perto do meu ouvido, parecendo genuinamente feliz. — Achei que o senhor Otto fosse trancar você na fazenda.

— O Aidam foi o meu passaporte — brinquei, mas meu estômago deu um nó quando Emma e Abigail me puxaram dali cinco minutos depois, arrastando-me para o canto dos sofás de couro perto da lareira desativada.

— Chega de conversa, Camille. Hoje é a noite — Emma disparou, os olhos brilhando sob o efeito da música alta. — Faz semanas que vocês estão nessa lengalenga de "nos conhecendo". Você precisa dar o próximo passo e beijar o Luke de uma vez. Todo mundo na Trinity já fez isso.

— Eu não sou todo mundo — resmunguei, sentindo as mãos suarem. O pânico adolescente que eu achava ter enterrado no ano passado voltou com força total. Eu ainda não sabia o que fazer com os lábios, e a pressão social parecia um holofote gigante na minha testa.

Antes que eu pudesse inventar uma desculpa para ir ao banheiro e fugir pela janela, Emma bateu as mãos, chamando a atenção de um grupo que começava a se aglomerar ao nosso redor. Ela tinha uma garrafa de vidro vazia nas mãos e um sorriso puramente maquiavélico.

— Vamos animar isso aqui. Verdade ou desafio, regras da casa.

O anfitrião da festa, um veterano gigante da linha de frente, subiu em cima do centro de mesa e ditou as regras com a voz arrastada: — Sem verdades chatas hoje. É só desafio. E se a garrafa apontar para um casal ou duas pessoas, o desafio é um só: um beijo. Mas tem que ser um beijo digno de cinema, galera. Nada de selinho de igreja, ou o jogador paga prenda.

Meu coração despencou até o dedão do pé. Digno de cinema? Eu sequer tinha estreado o meu histórico romântico e agora tinha uma plateia de cinquenta adolescentes esperando uma performance de Hollywood.

A roda se formou rapidamente no chão de madeira polida. Sentei estrategicamente espremida entre Claire e Abigail, tentando me camuflar. Quando levantei os olhos, o ar me faltou. Aidam estava sentado exatamente à minha frente, com os braços apoiados nos joelhos dobrados, me encarando fixamente por cima da aba do seu boné. Mais para a lateral, a poucos metros, Luke ocupava o seu lugar na roda, com uma postura relaxada, piscando para mim com cumplicidade.

A garrafa começou a girar. O som do vidro raspando na madeira parecia acompanhar as batidas desordenadas do meu peito. Nas primeiras rodadas, um veterano teve que dar um selinho em uma caloura assustada, arrancando gritos e aplausos barulhentos da torcida.

Na quarta rodada, a garrafa girou velozmente, perdeu o ritmo e o bico apontou diretamente para Emma. O fundo? Luke.

O grupo veio abaixo em um coro de "Uuuh!". Olhei para Luke, esperando ver algum desconforto, mas ele apenas riu, levantando-se com aquele charme natural de capitão do time. Emma, que não era boba e nem perdia uma oportunidade, levantou-se com um sorriso vitorioso. Eles se encontraram no centro da roda. Luke segurou o rosto dela com gentileza e a beijou. Foi um beijo esteticamente perfeito, demorado o suficiente para cumprir a regra do cinema, arrancando uivos dos atletas.

Fiquei observando a cena, esperando sentir aquela pontada clássica de ciúmes, o estômago ardendo de posse. Mas... nada aconteceu. O meu peito continuou completamente frio. Pelo contrário, achei divertido ver a audácia da minha amiga. E foi exatamente nesse milésimo de segundo de distração, enquanto eu processava a minha total falta de sentimento romântico por Luke, que Emma voltou para o lugar e girou a garrafa novamente com força.

O vidro rodou, rodou, rodou. O barulho parecia ecoar dentro dos meus ouvidos. A velocidade foi caindo... o bico passou por Abigail, passou por Luke, deslizou devagar pelo chão de madeira e parou.

Apontando exatamente para mim.

Prendi a respiração, olhando para o fundo da garrafa para ver quem seria o meu executor.

O fundo apontava em linha reta para a camiseta branca de Aidam.

O refeitório inteiro da festa pareceu congelar por uma fração de segundo antes de explodir em gritos ainda mais altos. "A filha do capataz e o herdeiro!", alguém gritou ao fundo, rindo. Olhei para o lado de relance e vi o sorriso de Luke murchar instantaneamente, os olhos castanhos dele focando a cena com uma seriedade rígida.

Aidam e eu nos encaramos através do círculo. Meus olhos azuis encontraram os dele, que estavam em um tom cor de mel esverdeado absurdamente escuro, quase completamente verdes sob a luz fraca da sala. Não havia deboche no rosto dele. Não havia aquela pose de garoto convencido que desceu da caminhonete mais cedo. Havia apenas uma intensidade crua, uma eletricidade que parecia faiscar no ar entre nós.

— Vamos lá, Wright! Não amarela na frente da torcida! — o anfitrião berrou, batendo palmas.

Aidam levantou-se primeiro, devagar, sem tirar os olhos de mim. Suas pernas longas se moveram até o centro da roda. Senti meu corpo se mover por puro reflexo mecânico; minhas pernas pareciam feitas de gelatina quando me levantei e caminhei até parar a centímetros dele. O calor que emanava do corpo de Aidam parecia uma barreira contra o resto do mundo. Eu conseguia ouvir a música estourando nas caixas de som, mas o som parecia abafado, como se estivéssemos embaixo d'água.

— Camille — ele sussurrou, a voz barítona tão baixa que só eu fui capaz de captar. O maxilar dele estava travado. — Você quer que eu pague a prenda? Eu posso virar um copo de qualquer troço esquisito se você quiser sumir daqui.

A preocupação dele, o fato de ele estar disposto a passar vergonha só para me proteger do meu próprio pânico, foi o gatilho que me desarmou. Olhei para os lábios dele, depois de volta para aqueles olhos esverdeados que me conheciam desde os seis anos. A verdade me atingiu como um raio: eu não queria fugir. Não com ele.

— Não — respondi, o sussurro firme. — Não ouse trapacear no jogo, Wright.

Um vislumbre daquele velho sorriso de canto apareceu nos lábios dele, misturado a uma respiração profunda. Aidam deu o passo final, eliminando qualquer distância que restava entre nós. Suas mãos calejadas de pegar nas rédeas e na terra subiram devagar, contornando a linha do meu maxilar, os dedos grandes se enterrando nos meus cabelos castanhos com uma firmeza possessiva que me fez estremecer por inteiro.

Inclinei a cabeça ligeiramente para o lado, meus olhos azuis colando nos dele até o último segundo, quando as pálpebras pesaram e se fecharam.

E então aconteceu.

Não foi um esbarrão esquisito de dentes, e nem a sensação nojenta e molhada que ele tinha inventado debaixo do carvalho. O toque dos lábios de Aidam contra os meus foi quente, firme e avassalador. No primeiro segundo, foi como um choque elétrico que percorreu toda a minha espinha, fazendo meu coração dar um solavanco violento contra as costelas. Mas, no segundo seguinte, o instinto simplesmente assumiu o controle de um jeito que a teoria de Emma jamais seria capaz de explicar.

Os lábios dele se moveram contra os meus com uma urgência contida, uma fome que vinha sendo guardada atrás de silêncios e portas batidas durante meses. Minhas mãos, agindo por vontade própria, subiram pelo peito dele, agarrando o tecido da camiseta branca, puxando-o para mais perto até que o meu corpo estivesse completamente colado ao dele. O cheiro de sabonete e do perfume amadeirado dele me envolveu por completo, me deixando tonta de uma forma que nenhuma bebida seria capaz.

O beijo era profundo, intenso, ditado pelo ritmo da respiração ofegante dele contra a minha boca. Era o beijo de cinema que a regra pedia, mas, para nós dois, não havia plateia, não havia jogo e não havia Trinity Christian Academy. Era apenas o Aidam. O garoto que segurava minha mão no riacho, o garoto que dividia o silêncio comigo no luto, e o cara que agora estava fazendo o meu mundo inteiro girar em um eixo completamente novo.

Quando os lábios dele finalmente se afastaram dos meus, de forma lenta, como se doesse romper o contato, eu precisei me segurar nos ombros dele para não cair. Abri os olhos devagar, a respiração completamente cortada.

O estádio — ou melhor, a sala da festa — estava explodindo em gritos, palmas e assobios histéricos, mas o som parecia vir de outra dimensão. Aidam continuou com as mãos espalmadas no meu rosto por mais um segundo, os polegares acariciando minhas bochechas ardentes. Seus olhos cor de mel esverdeados estavam dilatados, fixos nos meus lábios agora vermelhos, com uma expressão de puro assombro. Ele parecia ter acabado de descobrir um continente novo e perigoso.

De relance, vi a silhueta de Luke afastar-se da roda com passos duros em direção à saída dos fundos, o maxilar cerrado de uma forma que mostrava que ele tinha entendido absolutamente tudo.

Nós tínhamos começado aquela noite como veteranos orgulhosos, jurando que as férias tinham colocado tudo no devido lugar. Mas, enquanto Aidam soltava o meu rosto devagar e o barulho da festa voltava a inundar meus ouvidos, a certeza me atingiu com a força de um tornado do Texas: a nossa amizade de infância tinha acabado de ser enterrada sob o chão daquela casa.


A atmosfera na sala da festa mudou de figura no mesmo segundo em que nossos lábios se separaram. O barulho dos veteranos gritando ao redor parecia ecoar em câmera lenta, um zumbido distante que minha mente não conseguia processar. Eu continuava estática no centro da roda, com as mãos trêmulas e a boca dormente, encarando as orelhas e o pescoço de Aidam que ainda ostentavam aquele tom vermelho vivo.

Ele deu dois passos para trás, ajeitando a aba do boné com os dedos instáveis, sem conseguir fixar os olhos cor de mel em mim por mais de um milésimo de segundo.

— Eu... vou pegar um ar — Aidam soltou, a voz barítona saindo tão rouca e falhada que mal parecia dele. Antes que Emma ou Abigail pudessem disparar a primeira piada, ele girou nos calcanhares e cruzou a multidão como um trator, empurrando as portas de vidro que davam para o deck dos fundos.

Senti o chão oscilar sob as minhas botas. Limpei o canto da boca com as costas da mão, tentando ignorar os olhares de choque de Claire e o sorriso de satisfação pura de Emma. Mas o meu estômago despencou de verdade quando olhei para a mureta lateral da sala.

A cadeira de Luke estava vazia.

— Camille... — Emma começou, esticando o braço na minha direção, mas eu agi por puro instinto de sobrevivência.

— Agora não, Emma — cortei, a voz saindo mais ríspida do que o pretendido.

Peguei o meu casaco de couro no encosto do sofá e marchei em direção ao corredor lateral, o mesmo por onde vi a silhueta imponente da jaqueta do time de Luke desaparecer segundos antes. Cruzei a porta da frente da casa de campo, sendo atingida em cheio pelo ar gelado do inverno do Texas. O contraste térmico fez meus dentes baterem.

Encontrei Luke perto do cercado de pedras do jardim da frente, onde os carros estavam estacionados. Ele estava de costas para mim, com as mãos enterradas nos bolsos da jaqueta oficial da Trinity, a cabeça baixa observando o gramado coberto de geada.

— Luke... — chamei baixo, dando passos lentos no cascalho para não assustá-lo.

Ele tencionou os ombros, mas não virou de imediato. Quando finalmente girou o corpo na minha direção, a luz neon azul da fachada da casa bateu no rosto dele. Os olhos castanhos, que sempre me encaravam com aquela calmaria madura, estavam frios. O maxilar dele estava tão rígido que o corte já cicatrizado no lábio parecia uma linha branca.

— Você podia ter negado, Camille — ele disparou. A voz dele não estava alterada; pelo contrário, estava assustadoramente controlada, o que tornou a frase ainda mais dolorosa.

Parei a dois passos dele, cruzando os braços contra o peito para me proteger do frio e do peso daquela acusação. — O quê? Luke, era um jogo de verdade ou desafio. A garrafa caiu. Todo mundo estava olhando e ditando a regra do cinema...

— Não coloca a culpa na garrafa, por favor — ele interrompeu, soltando uma risada curta, cheia de uma ironia amarga que eu nunca tinha visto nele. Ele tirou as mãos dos bolsos, gesticulando em direção à casa. — O anfitrião falou que quem não quisesse cumprir o desafio pagava uma prenda. O Wright se ofereceu para virar a droga de um copo esquisito antes de encostar em você, eu vi o movimento dele. E você disse não. Você quis ir até o centro daquela roda, Camille.

Senti minhas bochechas queimarem, mas dessa vez não era de timidez. Era de culpa. Uma culpa devastadora porque, no fundo do meu peito, eu sabia que ele estava coberto de razão. Eu não tinha tentado fugir.

— Eu só... eu não queria trapacear no jogo, Luke. Nós estávamos em público... — tentei me defender, as palavras saindo desengonçadas, típicas de uma garota de dezesseis anos que não sabe como gerenciar uma crise desse tamanho.

— Trapacear o jogo? — Luke deu um passo na minha direção, os olhos castanhos fixos nos meus azuis. — Camille, o cara segurou o seu rosto como se estivesse pronto para morrer por você. E você agarrou a camiseta dele como se o mundo estivesse desabando. Eu posso ser o quarterback, mas não sou idiota. Digno de cinema? Aquilo não foi uma performance para os veteranos. Aquilo foi real. Mais real do que qualquer coisa que a gente viveu nesses últimos meses.

— Não foi real! — menti descaradamente, a voz subindo um tom de puro desespero. — O Aidam é o meu melhor amigo! A gente cresceu junto, a gente briga por causa de cavalo, pelo amor de Deus, Luke! Nós somos... nós somos quase irmãos!

— Para de repetir essa mentira, porque nem você acredita mais nisso — Luke cortou, a voz descendo para um tom cansado, quase triste. Ele passou a mão pelo rosto, soltando um suspiro longo que formou uma névoa no ar gelado. — Eu passei os últimos meses respeitando o seu tempo. Segurando a sua mão no corredor, esperando você estar pronta para o seu primeiro beijo porque achei que você era especial, que valia a pena a espera. E o seu primeiro beijo acontece no meio de uma roda de festa, com o cara que me deu um soco na cara há um ano.

O silêncio que se instalou entre nós foi esmagador. Eu queria sumir sob a terra vermelha do Texas. Não havia argumentos. Não havia como colar os pedaços daquela vidraça que tinha acabado de quebrar.

— Então é isso? — perguntei, a voz falhando, sentindo as lágrimas de frustração e humilhação começarem a arder nos meus olhos. — Você está terminando comigo por causa de uma brincadeira idiota?

Luke me encarou por alguns segundos, com um olhar que misturava decepção e uma lucidez que me fez sentir terrivelmente infantil. O canto do lábio dele subiu num esboço de sorriso melancólico.

— Terminando o quê, Camille? — ele perguntou, de um jeito suave que cortou o meu peito ao meio. — A gente sequer tinha um rótulo. A gente estava "se conhecendo", lembra? Foi o que você disse para as suas amigas no refeitório. Você nunca se entregou de verdade para o que a gente tinha porque o seu coração já estava ocupado demais morando na fazenda ao lado. Só que você é orgulhosa demais para admitir.

Afastei-me um passo, sentindo o choque daquelas palavras. Terminando algo que a gente nem sabia que tinha. O drama adolescente perfeito, enlatado e doloroso, desabando no meu colo no estacionamento de uma festa de colégio.

— Eu não quero ser o cara que fica no meio do caminho de vocês dois — Luke concluiu, dando as costas para mim e caminhando em direção à caminhonete dos amigos dele, que já o esperavam com o motor ligado. — Boa sorte com o seu "irmão", Camille.

Fiquei parada ali, observando os faróis do carro dele darem a ré e sumirem pela estrada de terra, levantando poeira contra a luz da lua. Eu estava oficialmente sozinha no jardim. Sem o Luke, cheia de perguntas na cabeça e com a devastadora certeza de que o beijo que deveria ter sido apenas uma prenda tinha acabado de incendiar a única estrutura segura que eu tinha construído na Trinity.

A viagem de volta para a fazenda foi um exercício torturante de masoquismo. A F-150 azul-escura avançava pela rodovia deserta sob o breu da madrugada texana, e o silêncio entre nós dois era tão denso que parecia ocupar o espaço de um terceiro passageiro na cabine. Aidam mantinha as duas mãos fixas no volante, os nós dos dedos brancos pela força do aperto, os olhos cor de mel esverdeados focados obsessivamente na faixa amarela da estrada. Eu encarava a janela do passageiro, vendo o meu próprio reflexo desolado contra a paisagem escura que passava correndo.

O rádio estava desligado. Nenhuma música ousava tocar. Minha discussão com Luke ainda latejava na minha têmpora, misturada ao eco do drama adolescente perfeito que tinha acabado de implodir no meu colo.

Quando a caminhonete finalmente adentrou o pátio de terra batida da nossa casa e o motor foi desligado, o clique do cinto de segurança pareceu um tiro no meio do nada. Peguei minha mochila no chão, abri a porta alta e desci, sentindo o cascalho firme sob minhas botas. Eu já estava no segundo degrau da varanda de madeira, pronta para girar a maçaneta e me trancar no meu quarto para o resto do século, quando o som da porta do motorista batendo me fez parar.

— Camille. — A voz de Aidam cortou o ar frio. Estava rouca, baixa, desprovida de qualquer vestígio daquela arrogância de quarterback que ele ostentava.

Girei o corpo devagar, com o casaco de couro apertado contra o peito. Ele estava parado na base da escada, com os cabelos loiro escuros bagunçados pelo vento e as mãos enfiadas nos bolsos da jaqueta jeans. Sob a luz amarelada da luminária da varanda, os olhos dele pareciam quase completamente verdes, cheios de uma urgência crua.

— O que foi, Aidam? — perguntei, a voz saindo cansada, mas sem raiva. Eu estava exausta demais para fingir.

Ele deu um passo à frente, subindo o primeiro degrau. — Você... está bem? Com o que aconteceu lá na festa? O Carter veio atrás de você e... eu vi ele indo embora. Eu sinto muito se estraguei as coisas. De verdade. Se você estiver puta comigo, eu entendo.

Respirei fundo o ar gelado, olhando para a madeira dos meus sapatos antes de cravar meus olhos azuis nos dele. Um sorriso de canto, melancólico mas incrivelmente sincero, surgiu nos meus lábios.

— O Luke terminou comigo, Aidam. Ou o que quer que a gente tivesse — confessei, soltando um suspiro que formou uma névoa no ar. — Ele disse que eu nunca me entreguei de verdade porque meu coração já morava na fazenda ao lado. E quer saber? Ele tem razão. Eu passei o ano inteiro em pânico, com medo de como seria o meu primeiro beijo, com medo de dar errado, de ser esquisito... — Dei um passo para baixo, ficando no mesmo degrau que ele, a distância entre nós sumindo. — Mas eu estou feliz. Estou feliz por ter sido com você. Pelo menos eu sei que foi com alguém que eu confio de olhos fechados.

O maxilar de Aidam travou por um milésimo de segundo, e eu vi o peito dele subir e descer num ritmo descompassado. Ele deu o último passo, invadindo completamente o meu espaço, o calor que emanava dele me envolvendo como um escudo contra o inverno.

— Eu também estou feliz por ter sido com você, tampinha — ele sussurrou, a voz barítona vibrando tão perto que arrepiou cada pelo do meu corpo. — Na verdade... eu não conseguiria suportar a ideia de ver outro cara fazendo aquilo.

Prendi o ar. Aquela confissão foi o prego que faltava na nossa armadura de "quase irmãos". Aidam inclinou a cabeça, os olhos cor de mel brilhando com uma dúvida avassaladora enquanto ele passava a mão pela nuca, visivelmente perdido.

— Mas e agora, Camille? O que a gente faz? Como fica amanhã na escola? No curral?

Torci os lábios, tentando me agarrar à última boia de salvamento da nossa infância. — A gente faz o que sempre fez, Wright. A gente volta a ser exatamente o que era antes. Duas metades da mesma bagunça. A gente finge que foi só o jogo e esquece.

— Esquece? — ele repetiu a palavra, e o canto da boca dele subiu naquele sorriso torto, desafiador e perigosamente intenso. — Você tem certeza de que consegue esquecer isso, Camille?

— Absoluta — blefei, erguendo o queixo.

— Mentira — ele rebateu na mesma moeda. — Você respondeu rápido demais. E eu conheço os seus truques.

Antes que eu pudesse protestar ou xingá-lo, a mão grande e calejada de Aidam subiu pela lateral do meu pescoço, o polegar pressionando a minha pulsação acelerada na jugular. Ele puxou o meu rosto para cima e eliminou a distância.

Dessa vez não havia garrafa, não havia roda de veteranos, não havia regras de cinema e nem pressões da Trinity. Fomos apenas nós dois. O impacto dos lábios de Aidam contra os meus foi imediato e violento, uma colisão de tudo o que vínhamos reprimindo atrás de portas batidas e silêncios cortantes durante meses. Soltei um gemido baixo contra a boca dele quando seus lábios se abriram, aprofundando o beijo com uma fome avassaladoramente madura.

Minhas mãos largaram a mochila no chão da varanda e subiram pelo peito dele, agarrando o colarinho da jaqueta jeans, puxando-o para mais perto até sentir a fivela do cinto dele contra o meu corpo. A língua dele encontrou a minha com uma propriedade que me fez amolecer as pernas, e eu precisei me prensar contra a parede de madeira da casa para não desabar. O cheiro. O beijo tornou-se intenso, urgente, o ritmo ditado pela respiração ofegante que trocávamos no meio do ar gelado de sabonete e o calor da boca dele estavam me deixando completamente ébria, anestesiando qualquer resquício de racionalidade que eu achava que possuía. O mundo inteiro tinha se reduzido àquele toque.

Estávamos completamente perdidos naquela névoa de adrenalina e descoberta quando o som de um trinco correndo estourou o silêncio da madrugada.

— AI MEU DEUS! EU SABIA!

O grito agudo, histérico e absolutamente empolgado rasgou o pátio da fazenda.

Aidam e eu nos separamos num solavanco digno de um susto de coiote, as respirações cortadas e os lábios vermelhos e inchados. Olhamos para o vão da porta da frente.

Florence estava parada ali, vestindo o seu pijama de flanela de ursinhos, pulando com os pés descalços na madeira da varanda e batendo palmas como se tivesse acabado de ganhar o prêmio principal da loteria do Texas.

— Eu sabia! Eu sabia! — ela berrava, com os olhos castanhos brilhando de pura diversão sapeca de irmã caçula. — O Aidam beijou a Camille! Eu vou contar para o papai agora mesmo que você não me trouxe doce, mas trouxe um cunhado!

— Florence, cala a boca! — gritei, sentindo meu rosto queimar num tom de vermelho que faria o terno do baile parecer opaco.

Aidam cobriu o rosto com as duas mãos, soltando uma gargalhada ruidosa e desarmada que vibrou pelo pátio, com as orelhas totalmente coradas, mas sem tirar o braço de trás da minha cintura. A nossa infância estava oficialmente enterrada.