Dizem que o tempo cura todas as feridas e resolve todas as pendências. Mentira. O tempo é apenas um cúmplice silencioso que ensina as pessoas a enterrarem seus segredos mais fundo e a esconderem melhor aquilo que sentem.

As semanas que se seguiram à briga no campo de futebol foram uma agonia arrastada. Aidam cumpriu cada dia da suspensão imposta pela diretoria da Trinity, limpou os vestiários após o horário das aulas e engoliu o orgulho para pedir desculpas formais ao treinador, ao diretor e ao resto do time. Por último, ele enfrentou Luke Carter. Luke aceitou o aperto de mão com aquela postura impecável de capitão. Sem revides, sem provocações barulhentas. Disse apenas que esperava nunca mais na vida precisar passar por uma situação daquelas. Aidam concordou, o maxilar rígido. Porque, no fundo, nem ele conseguia explicar a força do impulso que o dominara.

Durante todo aquele período de penitência, nós nos transformamos em dois estranhos dividindo a mesma propriedade. As mensagens de texto evaporaram, e as nossas tardes sob o velho carvalho viraram fumaça. Ainda nos cruzávamos diariamente, mas a dinâmica leve e barulhenta da infância havia sido substituída por um descompasso desconfortável.

Foi sob essa névoa de silêncio que dezembro chegou, trazendo o inverno rigoroso do Texas e o tradicional Baile de Inverno da Trinity Christian Academy.

Eu estava sentada na beirada da minha cama, encarando o teto, quando Amália Wright cruzou a porta do meu quarto carregando uma enorme caixa branca com um laço de fita de cetim.

— Posso entrar, Camille? — ela perguntou, a voz suave cortando a melancolia do cômodo.

Sorri de lado, ajeitando a postura. — Desde quando você pede permissão para entrar na minha casa, madrinha?

Amália devolveu o sorriso, com aquela elegância natural que parecia emanar dela. — Desde que você virou uma jovem mulher e começou a fechar a porta para o mundo. — Ela colocou a caixa pesada sobre o meu lençol. — Abre. É para hoje à noite.

Levantei a tampa de papelão cuidadosamente, afastando as folhas de papel de seda perfumado. Meu fôlego simplesmente sumiu, entalado na garganta. O vestido era de um azul profundo, denso, quase da cor exata do céu do Texas poucos minutos antes de a noite cair por completo. O tecido escorria com uma fluidez impressionante até a altura dos meus tornozelos, e pequenas aplicações de cristais discretos na costura brilhavam como constelações quando a luz cinzenta da janela as alcançava. As alças eram finas, e a cintura ficava marcada na medida exata. Era uma peça madura, deslumbrante e desprovida de qualquer cafonice. Exatamente como a própria Amália.

Levei as mãos aos lábios, os olhos azuis arregalados. — Amália... isso é....

— Seu — ela me interrompeu, antes que eu pudesse começar a formular a minha lista de protestos sobre o preço daquilo. — E não ouse discutir comigo, Camille Otto. Conheço esse seu olhar de orgulho ferido a quilômetros de distância.

Ela se aproximou, sentando-se ao meu lado e envolvendo minhas mãos frias com as suas, sempre quentes. — Você merece entrar naquele salão se sentindo a garota mais bonita e confiante do Texas.

Senti minhas pálpebras arderem, as lágrimas ameaçando borrar a visão. — Obrigada. Eu não sei nem o que dizer.

Amália esticou os dedos, acariciando a lateral do meu rosto com uma ternura de mãe. — A sua mãe... a minha querida amiga... ela teria enlouquecido de orgulho escolhendo um vestido com você para essa noite. Como ela não está aqui, deixei que eu assumisse essa loucura por ela.

O nó na minha garganta apertou tanto que a única resposta que consegui dar foi me jogar nos braços dela, apertando-a com força.

Luke chegou exatamente às sete e meia, a personificação do herói de romance de colégio. Ele vestia um terno azul-marinho sob medida que contrastava perfeitamente com os seus olhos castanhos, o cabelo impecavelmente alinhado e o corte no lábio totalmente cicatrizado. Quando terminei de descer os degraus de madeira da varanda da nossa casa, segurando a barra do vestido azul para não tropeçar, ele ficou completamente estático na terra batida, me encarando como se estivesse diante de uma miragem.

Sorri, sentindo um calor súbito subir pelo pescoço, de pura timidez. — O que foi? Está muito estranho? Exagerado?

Luke soltou uma risada baixa, balançando a cabeça devagar, os olhos brilhando de um jeito que acelerou meus batimentos. — Camille... você está absolutamente monumental. Linda não chega nem perto do que você está agora.

Meu pai, que observava toda a cena sentado na sua cadeira de balanço na varanda com o seu melhor paletó, soltou um pigarro divertido. — Eu avisei para você no vestiário, Carter. Essa menina aí ainda vai me dar muito trabalho com os rapazes do condado.

— Pai! Pelo amor de Deus! — corei na mesma hora, protestando.

Luke e meu pai caíram na gargalhada, mas os olhos de Luke logo voltaram para mim, fixos, intensos. Como se ele estivesse tentando tirar uma fotografia mental daquele segundo exato e guardá-la em um lugar seguro.

O salão de eventos da Trinity havia sido completamente transformado. A iluminação de lâmpadas incandescentes derramava um tom dourado e aconchegante sobre o piso de madeira polida, guirlandas de pinheiro natural perfumavam o ambiente exalando o cheiro do inverno, e flocos de neve artificiais pendiam do teto alto, girando com o vento dos aquecedores. No centro da pista, um pinheiro gigante brilhava com luzes pisca-pisca. A banda tocava versões acústicas e sofisticadas de músicas de fim de ano, e o burburinho das conversas criava uma atmosfera quase mágica.

Tudo parecia perfeito. Até que a corrente de ar frio da porta de entrada me fez girar o corpo, e meus olhos colaram na silhueta de Aidam Wright.

Ele tinha acabado de cruzar o portal do salão. Usava um terno preto clássico, a gravata perfeitamente ajustada e os fios loiro escuros jogados para trás com uma elegância madura que me atingiu como um soco no estômago. Presa ao braço dele, com os dedos cobertos de anéis, estava Ashley Montgomery. O vestido vermelho dela era um escândalo de decotes e fendas, exigindo a atenção de cada alma viva naquele recinto. Eles eram, sem sombra de dúvidas, o casal mais magnético e intocável da noite.

Por um instante suspenso, meu peito contraiu-se com um sentimento confuso, denso, que me recusei a catalogar. Era uma mistura de estranheza e um incômodo agudo. Eu nunca, em toda a minha existência, tinha concebido a ideia de ver Aidam dividindo o mundo e um espaço romântico com outra garota que não fosse da nossa bolha.

No mesmo instante, Aidam ergueu o rosto e seu olhar cor de mel esverdeado cruzou o salão em linha reta, ignorando a fofoca de Ashley no seu ouvido, e cravou-se em mim. Ele congelou por três segundos inteiros. Seus olhos desceram lentamente pelo caimento do meu vestido azul e voltaram para o meu rosto. E então, o canto da boca dele subiu bem devagar naquele sorriso torto que pertencia a nós dois. O mesmo de sempre. Só que consideravelmente mais triste.

A batida da música mudou, e Luke deu um passo à frente, bloqueando a minha visão de Aidam e estendendo a mão.

— Quer dançar, Cami?

— Claro — assenti, tentando afastar a distração enquanto ele me guiava para a pista de dança.

Estávamos nos movimentando ao ritmo suave da música quando notei, por cima do ombro de Luke, uma movimentação. Aidam havia deixado Ashley perto da mesa de ponche e caminhava firmemente na nossa direção, as mãos escondidas nos bolsos da calça do terno. Meu coração deu um solavanco desordenado.

Ele parou exatamente ao lado de Luke. O ambiente ao redor pareceu tencionar.

— Carter. Posso falar com você um minuto? — Aidam pediu, a voz barítona saindo num tom baixo, desprovido de qualquer hostilidade.

Luke olhou para mim rapidamente, avaliando se eu estava confortável, e depois encarou Aidam com firmeza.

— Claro. Vamos ali.

Os dois deram cinco passos para o lado, afastando-se de mim. Fiquei observando a distância, a ansiedade me corroendo. Não consegui captar o áudio por causa do som da banda, mas vi o momento exato em que Aidam estendeu a mão direita — a mesma mão do soco — na direção de Luke. Luke hesitou por um milésimo de segundo, mas apertou-a com firmeza. Eles trocaram algumas palavras curtas e sérias. Então, Aidam desviou o olhar para mim de soslaio, e Luke acompanhou o movimento, esboçando um sorriso de canto compreensivo antes de os dois caminharem de volta.

Aidam parou na minha frente. Suas orelhas estavam ligeiramente rosadas e as mãos voltaram para os bolsos, o sinal clássico de quando ele estava prestes a desabar de nervoso.

— Oi, Camille — ele soltou, a voz rouca.

Um sorriso involuntário brotou nos meus lábios. Fazia quase um mês que não ouvia ele pronunciar o meu nome daquele jeito.

— Oi, Wright.

O silêncio que se formou entre nós durou poucos batimentos, mas pareceu uma eternidade inteira. Respirei fundo, deixando o orgulho de lado.

— Senti falta do meu melhor amigo. De verdade.

Os olhos cor de mel dele mudaram instantaneamente de tom, brilhando sob as luzes douradas, como se as minhas palavras tivessem tocado exatamente no ponto que mais sangrava na sua armadura.

— Eu também senti sua falta, tampinha. Mais do que você imagina.

Aidam pigarreou, quebrando a intensidade e virando-se para o cara ao meu lado. — Bennett, eu perguntei se eu poderia roubar a Camille para dançar uma única música com ela. Se você não se importar, claro.

Luke me encarou com aquela maturidade absurda que me desarmava.

— Só depende da decisão da Camille, Wright. A escolha é dela.

Encontrei o olhar de Aidam novamente. Havia uma súplica silenciosa ali, um pedido mudo não de perdão completo, mas de uma trégua. De uma chance para consertar o que tínhamos quebrado.

Assenti com a cabeça. — Uma música. Só uma.

Luke sorriu, dando um passo para trás. — Aproveitem a dança.

Antes que o clima ficasse estranho, Ashley Montgomery materializou-se ao lado deles, o vestido vermelho balançando. Luke, com o seu charme nato de quarterback bem-educado, inclinou o corpo na direção dela e estendeu a mão.

— Ashley, já que o seu par me roubou a Camille, me concederia a honra dessa dança?

Ashley piscou, genuinamente pega de surpresa pelo flerte do capitão, e abriu um sorriso radiante.

— Claro, Luke. Vamos.

Os dois se afastaram em direção ao centro mais movimentado da pista. Girei o corpo devagar, voltando toda a minha atenção para o garoto loiro escuro na minha frente. Aidam tirou a mão direita do bolso e a estendeu para mim, com a palma voltada para cima. Era o mesmo gesto exato que ele fazia quando tínhamos dez anos e ele precisava firmar meu corpo para atravessar o riacho lamacento ou subir no telhado do celeiro.

Coloquei minha mão sobre a dele. A pele dele continuava quente, áspera e absurdamente familiar. E, pela primeira vez desde aquela noite fatídica no estádio, o peso no meu estômago cedeu, dando espaço para a estranha certeza de que talvez ainda existisse um caminho de volta para nós. Ou, quem sabe, um território completamente novo.

Caminhamos em silêncio até um ponto mais reservado da pista. As luzes do salão diminuíram um tom, tornando a atmosfera mais intimista, e os primeiros acordes suaves da música Lucky começaram a ecoar pelas caixas de som.

Sorri de lado, sentindo a melodia me contagiar.

— Eu amo essa música.

Aidam assentiu, puxando meu corpo um centímetro mais perto. — Eu sei que ama, Camille.

Levantei uma sobrancelha, desafiando-o com os olhos azuis. — Como você sabe?

— Você canta o refrão aos berros toda vez que ela toca no rádio da caminhonete do seu pai enquanto a gente volta do curral — ele disparou, com aquele tom de superioridade divertido que eu tanto sentia falta.

Deixei uma risada baixa escapar contra o peito dele. — Você presta atenção demais nos meus defeitos, Wright.

A resposta piadista morreu nos lábios dele antes de sair. Em vez de rebater com ironia, Aidam apenas espalmou a mão esquerda com um cuidado extremo na curva da minha cintura, os dedos firmes pressionando o tecido azul do vestido como se eu fosse feita de vidro e ele tivesse medo de ultrapassar uma barreira invisível. Aproximei minha mão livre do ombro largo dele, sentindo os músculos tensos sob o tecido do paletó.

Era uma sensação bizarra. Nós já tínhamos nos abraçado milhares de vezes, já havíamos dormido embolados no sofá da mansão assistindo a filmes de terror e já tínhamos caídos um por cima do outro na lama da fazenda. Mas dançar... colados daquele jeito, com os corpos sintonizados em um ritmo lento... aquilo era um território perigoso e totalmente diferente.

Ficamos nos movendo devagar durante alguns segundos, até que Aidam quebrou o silêncio, a voz saindo direto do peito dele, grave e rústica:

— Eu preciso te pedir desculpas, Camille. De verdade.

Olhei para cima, encarando o maxilar dele. — Eu sei, Aidam. Eu vi você conversando com o Luke agora há pouco. Fico feliz que vocês tenham se acertado.

— Não — ele balançou a cabeça de leve, fazendo com que seus olhos cor de mel esverdeados focassem diretamente nos meus, com uma intensidade que fez minhas pernas fraquejarem sob o vestido. — Eu não estou falando do Carter. Estou falando de você. Eu estraguei uma noite que era importante para você. Fui um moleque egoísta.

Prendi a respiração, sentindo o calor da mão dele na minha cintura parecer dez vezes mais intenso. O salão ao redor parecia ter sumido, transformando-se em um borrão de luzes douradas e casais distantes.

— Naquele momento... — Aidam fez uma pausa, engolindo em seco. O pomo de adão dele se moveu e eu vi o quanto ele estava lutando para encontrar as palavras certas. — No campo. Eu vi quando você fechou os olhos.

Meu coração deu um solavanco violento contra as costelas.

— Eu achei que você fosse beijá-lo — ele continuou, os dedos apertando um pouco mais o tecido azul do meu vestido, um reflexo puramente involuntário.

Apertei de leve os ombros dele, tentando manter os meus próprios pés firmes no chão. — E...?

Ele respirou fundo, desviando os olhos por um breve segundo antes de cravar aquela imensidão cor de mel esverdeada de volta na minha direção. — E eu me senti muito desconfortável. Insuportavelmente desconfortável.

Franzi a testa, sentindo uma confusão deliciosa e assustadora começar a tomar conta dos meus pensamentos. — Desconfortável, Aidam? Como assim?

Ele assentiu, a linha do maxilar endurecendo de leve. — Eu simplesmente não gostei, Camille. Não gostei de ver.

A sinceridade crua dele me desarmou por completo. Toda a mágoa que eu vinha guardando nas últimas semanas evaporou, sendo substituída por uma curiosidade que me fez sorrir de canto.

— Deixa eu ver se entendi, Wright... Você deu um soco no quarterback da escola, foi suspenso por dois jogos e quase acabou com a reputação da sua família só porque... não gostou da cena?

Ele fez uma careta engraçada, as orelhas ficando instantaneamente vermelhas. — Quando você coloca nesses termos, parece bem pior.

— Porque foi pior! — exclamei, deixando uma risada escapar.

A tensão que vinha nos sufocando há semanas finalmente quebrou, e Aidam acabou sorrindo junto, aquele sorriso de canto que sempre desarmava qualquer bomba entre nós. Mas eu não mudei de assunto. Continuei deslizando meus olhos azuis pelo rosto dele, buscando respostas nas entrelinhas.

— Mas sério, Aidam... Por que você se importa tanto se eu beijo o Luke ou qualquer outro cara?

Ele ficou em silêncio. A banda continuava destilando a melodia suave de Lucky, preenchendo o salão enquanto o mundo girava ao nosso redor. Depois de alguns segundos que pareceram durar horas, ele soltou um suspiro pesado.

— Porque... Acho que essas coisas deveriam ser especiais.

Inclinei um pouco a cabeça para o lado, analisando-o. — Especiais?

— É — ele deu de ombros displicentemente, fingindo uma indiferença que os olhos dele desmentiam. — Acho que o seu primeiro beijo deveria ser com alguém de quem você realmente goste. Alguém que importe.

Fiquei quieta por um momento, absorvendo o peso daquilo. Ele continuou me olhando, esperando.

— Você gosta dele, Camille? — a pergunta dele saiu direta, quase sem ar.

Abri a boca, mas nenhuma resposta imediata se formou na minha língua. A verdade era que eu nunca tinha parado para analisar o que sentia sob uma perspectiva real. Luke era gentil, educado, engraçado e respeitava o meu tempo de um jeito incrivelmente maduro. Eu adorava a companhia dele. Gostava de quando ele segurava a minha mão no corredor e gostava de me sentir importante para alguém. Mas... aquilo era o amor avassalador dos livros? Ou era só o conforto de ser aceita na Trinity?

Baixei os olhos para o nó da gravata dele, incerta. — Talvez... Acho que talvez eu goste.

Minha própria resposta pareceu flutuar de um jeito estranho no ar. Levantei o rosto de novo, buscando o olhar dele. — Mas como a gente sabe?

— O quê?

— Que gosta de alguém de verdade. Desse jeito que você está falando.

Aidam soltou uma risada curta, meio sem graça, o peito vibrando contra o meu. — Você está perguntando para a pessoa errada, tampinha.

— Ué, por quê? Você nunca gostou de ninguém? Nem da Ashley?

Ele ficou alguns segundos completamente imóvel, os olhos mudando de tom sob as luzes douradas, brilhando com uma intensidade que me fez perder o fôlego por um instante. — Não sei.

— Como assim não sabe, Wright?

Ele sorriu de um jeito tímido, um daqueles sorrisos raros que ele só mostrava quando estava desarmado de toda a sua arrogância texana. — Se eu soubesse responder a essa pergunta, Camille... provavelmente conseguiria responder à sua também.

Deixei uma risada leve escapar. — Nós dois somos um desastre completo nesse assunto.

— Bastante — ele concordou.

Continuamos nos movendo pela pista, o silêncio voltando a nos envolver, mas agora era um silêncio elétrico, carregado de uma proximidade que começava a queimar. Foi então que uma ideia completamente absurda, daquelas que só surgem na mente de uma adolescente de quinze anos movida a adrenalina e chocolate quente, passou pela minha cabeça.

Um sorriso travesso nasceu nos meus lábios. E, claro, Aidam percebeu no mesmo milésimo de segundo.

— O que foi? Que cara é essa? — ele estreitou os olhos, desconfiado.

Olhei bem no fundo daqueles olhos cor de mel esverdeados, colando meu corpo um milímetro mais perto do dele na pista. — Você acabou de dizer que o meu primeiro beijo tem que ser com alguém em quem eu confie de olhos fechados.

— Aham.

— E de quem eu goste de verdade.

— Isso. Exatamente.

Assenti lentamente, fingindo uma seriedade acadêmica. — Então, seguindo puramente a sua lógica... Talvez eu devesse beijar você primeiro, só para ter um parâmetro de comparação antes de decidir qualquer coisa com o Luke.

O mundo ao redor pareceu simplesmente parar. A música continuou tocando, mas para nós, o tempo congelou.

Aidam estacou no meio da pista de dança. Seus olhos se arregalaram de uma forma que eu nunca tinha visto na vida. A reação física foi imediata: as orelhas dele ficaram vermelhas primeiro, um tom de fogo que subiu rapidamente pelas bochechas até cobrir o pescoço inteiro.

Pisquei duas vezes, chocada com o poder da minha própria provocação, e não consegui segurar a gargalhada.

— Meu Deus, Aidam! — apontei para o rosto dele, rindo alto. — Você ficou completamente vermelho! O herdeiro dos Wright está parecendo um pimentão!

Ele soltou a minha mão rapidamente, passando os dedos pela nuca, olhando para os lados completamente sem jeito, tentando recuperar a pose de bad boy do Texas. — Eu não fiquei vermelho, Camille. Para de inventar coisas.

— Ficou sim! Está nítido!

— É o calor desse salão. Esses aquecedores estão no máximo — ele resmungou, ajeitando o paletó com uma pressa cômica.

Olhei ao redor do ambiente, rindo ainda mais da desculpa esfarrapada. — Aidam... está fazendo cinco graus lá fora e tem gelo artificial caindo do teto.

Ele murmurou um xingamento baixo que eu não consegui entender, mas o canto da boca dele acabou cedendo. Um sorriso tímido e rendido apareceu no seu rosto. — Você fala cada idiotice que eu vou te contar...

Ainda rindo da cara dele, inclinei o corpo para a frente e apoiei a minha testa por alguns segundos no ombro do seu terno, deixando o cansaço das últimas semanas ir embora. — Relaxa, poste. Era só uma brincadeira.

Aidam não respondeu de imediato. Senti o peito dele subir e descer num suspiro demorado antes de ele colocar a mão de volta na minha cintura, suave, mas firme.

— Eu sei — ele sussurrou perto do meu ouvido.

Mas, enquanto a música ia chegando ao fim e nos movíamos juntos sob a luz dourada do Texas, nenhum de nós dois teve a certeza absoluta de que aquilo tinha sido apenas uma brincadeira.