Com Outros Olhos
2 Prisão
O dia estava lindo.
Minha amiga e eu estávamos no shopping. Nossas mãos estavam carregadas de sacolas de papel vermelhas. O movimento de pessoas no estreito corredor do estabelecimento não nos desanimava, muito pelo contrário. Era até agradável o som dos passos e conversas ao nosso redor.
Fomos ao cinema, compramos pipoca, chocolate e porcarias de todas as espécies. Subíamos e descíamos escadas, fazendo mais e mais compras, aquele gostinho doce da liberdade ainda fresco dentro de nós. Tudo estava perfeito, e havia no ar um sentimento de quem vai viajar para um lugar novo, e fazer algo divertido.
No fundo, acreditava que algo estava errado.
Como quem acorda de um sonho, me vejo de repente rodeada por blocos acinzentados, cercados por muros e mais muros. Não encontro mais minha amiga, que estava ao meu lado há momentos atrás. Começo a vagar, e descubro que aquilo é uma prisão. Olho para meu reflexo em uma janela, e vejo uma garota com cabelos amarrados de qualquer jeito, vestindo um uniforme presidiário cinza, sujo e desbotado, bem mais magra do que deveria.
Atrás dessa garota, havia mais pessoas como ela. Eles se aproximavam aos poucos, amigáveis. Uma sensação de pertencimento me preencheu naquele momento, e foi como se eu já conhecesse todos eles há muito tempo.
Todos me conduziram a um pátio coberto e ficaram de frente pra mim, como um batalhão em frente ao comandante. Seus rostos estavam tão cinzentos quanto suas roupas. Havia uma mulher de cabelos castanhos à minha esquerda, e um homem com uma tatuagem no braço à minha direita. Ele levava uma maleta marrom, e de lá retirou uma pistola. Me entregou, mas ele parecia relutante. Ela era colorida, e era tudo o que havia de colorido naquele lugar. Eu a segurei, admirando suas cores.
E então, percebi o que eu pretendia fazer com ela.
Estava em choque. Suicídio não é algo que passa com freqüência pela minha mente. Fiquei com medo. Medo de doer, medo da sensação de morrer. Apesar de que, dentro daquela prisão, observando aqueles rostos tristes e pálidos na minha frente, a ideia parecia tentadora. A sensação de estar presa a algo sempre me foi insuportável. Mas me faltava coragem.
O homem tatuado, como se tivesse lido meus pensamentos, se ofereceu para atirar. Devolvi a arma a ele sem hesitar, para minha própria surpresa.
Antes que pudesse gritar, ou ser tomada pelo pavor, senti um baque na cabeça. Minha última visão foi uma pequena multidão chorando à minha frente; depois disso, só escuridão. Senti minhas pernas fraquejarem, mas nenhuma dor. A mulher ao meu lado deitou minha cabeça no colo dela e acariciou meus cabelos, e eu ainda podia ouvi-la dizer que logo tudo aquilo ia acabar.
E todo o medo desapareceu. Era uma sensação ótima, libertadora. Como se eu não tivesse mais ligada a nada. Como um pássaro, que pode voltar novamente ao céu.
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