Com Amor, Sasuke
1 O Retorno
Notas iniciais
O Retorno
Sakura
Eu só poderia ter jogado pedra na cruz ou algo do tipo. Pior, acho que literalmente cuspi na cara de Jesus porque aquilo definitivamente era o meu maior pesadelo se tornando realidade. O que eu jamais achei que iria acontecer, o que eu temia todas as noites e durante todo santo dia, e o que agora estava escancarado na minha cara: a volta de Sasuke Uchiha.
Reli a carta atrasada pelos correios pela terceira vez, tentando absorver definitivamente aquelas palavras.
Querida Sakura, quero parabenizar você por ter mandado tantas energias negativas para mim durante esses últimos anos porque, veja bem, deu certo, e agora terei que voltar para essa cidade de merda. Isso mesmo, estou voltando pra San Diego e só de pensar que vou ter que olhar para essa sua testa grande tenho que me preparar psicologicamente. Mas primeiro agradeça Itachi por isso, é culpa exclusiva dele que aceitou uma proposta de emprego nova e tem que voltar pra Califórnia (sei que na verdade ele voltou mesmo por causa de Izumi) e achou uma boa eu ir junto com ele já que nossos pais inventaram de viajar ao redor do mundo como dois adolescentes sem filhos (deixo aqui minha indignação e inveja) e como mais novo tenho que ir aonde Itachi vai, pelo menos por enquanto, então pedi transferência e vou fazer o semestre ai, na mesma faculdade que a sua (dizem que o meu curso é bom nesse campus então vou ter que me arriscar cruzando com você, Deus me ajude) o que é uma pena para mim mas sei que uma grande honra para você, é claro. Na real, não estou muito feliz em voltar, clima praiano não faz mais parte de mim, estou acostumado ao frio canadense, mas disso você já sabia. Até perguntaria como andam as coisas ai mas daqui duas semanas poderei ver pessoalmente essa sua cara feia e as tragédias da sua vida ao vivo, até lá, rezo para que você tenha pintado seu cabelo de qualquer outra cor porque, convenhamos, você já tem 19 anos e rosa não é legal.
Com todo ódio, Sasuke.
PS: Provavelmente essa carta vá chegar atrasada por conta dos correios, mas não se preocupe amor, em poucos dias você irá ver meu lindo rosto.
Amasso o papel e jogo longe de mim, contendo um grito frustrado enquanto amaldiçoou a mim mesma por ter sido burra e não ter notado os sinais. O caminhão vindo a semana inteira na casa ao lado, minha mãe me perguntando com um sorrisinho provocador se eu sabia dos vizinhos. E eu acreditei realmente que teria novos vizinhos, achei que os Uchiha teriam vendido essa casa depois de terem ido embora dois anos atrás, mas não, eram eles de volta. Quem dera se fosse Mikoto e Fugaku, eles eram um amores, se fosse só Itachi eu adoraria também, mas Sasuke? Sasuke? Não, jamais. Eu queria ele nas profundezas do inferno.
—Ei, por que está com essa cara de dor? –Karin, minha melhor amiga diz ao meu lado, depois de ter saído do banheiro. Praticamente todo fim de semana ela dormia na minha casa ou eu na dela, e nesse momento ela estava aqui, me encarando confusa, porque claramente eu estava exalando desespero por todos os meus poros.
—Meu pior pesadelo aconteceu. –Me jogo na cama, olhando o teto. –Sério, me mate agora.
—Seria um prazer amiga mas desembucha.
Ela sentou ao meu lado, penteando seus cabelos vermelho fogo, enquanto me encarava por trás dos óculos, ainda confusa.
—Sasuke.
Ela continua me encarando como se aquilo não tivesse respondido nada, bufo irritada.
—Sasuke, o cara que odeio, está de volta.
Ela estreita os olhos, ainda perdida no meu desespero.
— Sasuke, o cara que você troca cartas estranhas? O que que tem? Está de volta da onde?
—Porra Karin já te falei que ele era meu vizinho, nós nos odiamos, vivemos brigando, ele foi embora pro Canadá tem dois anos e agora do nada está de volta.
Ela encara a janela do meu quarto que ironicamente é de frente para a janela do quarto de Sasuke, espero que nessa mudança ele troque e durma em outro cômodo. Ou sei lá, simplesmente desapareça da face da terra, seria melhor.
—Agora entendi porque toda essa mudança na casa ao lado, mas não entendi ainda porque esse desespero todo, Sakura, você fala com ele direto, se são inimigos porque mandam cartas? Tipo pelo amor de Deus estamos no século 21.
Sempre que alguém me via escrevendo as cartas me perguntava isso, mas bem, vejamos, eu e Sasuke somos complicados e aquilo tinha virado costume nosso, longa história, mas de qualquer forma nossas cartas não são necessariamente elogios ou qualquer coisa amigável, na verdade, sempre nos alfinetamos e deixamos claro o quanto nossa presença é uma desgraça um para o outro e como esses anos longe tem sido como viver no país das maravilhas. E aliás, quanto mais você sabe do seu inimigo, melhor, porque né: mantenha seus amigos próximos e seus inimigos mais ainda.
—Não é nada demais, -Resmungo. –Só é bom se manter atualizada sobre seu inimigo, e se essa droga de correio não tivesse atrasado, eu estaria preparada. Eu poderia, sei lá, estar em outro lado do mundo agora para evitar essa situação. Não duvido nada que foi coisa daquele demônio, atrasar de propósito o envio só para eu não ter a chance de fugir.
—E você fugiria para onde garota? –Ela riu em descrença.
—Sei lá, enviaria uma carta para meu pai falando se por um acaso ele poderia me acolher.
O que era uma piada porque bem, eu nem sabia onde meu pai morava.
Ela riu mais uma vez, negando com a cabeça.
—Não seja ridícula, é só um cara.
Não, Sasuke não era só isso. Mas eu sabia porque ela pensava assim, ela não o conhecia. Karin tinha se mudado fazia um ano, não conhecia muitas pessoas da cidade e nos tornamos amigas instantaneamente no primeiro dia de aula do primeiro ano da faculdade, mas toda a minha relação complicada com Sasuke durante a infância e colegial ela tinha perdido, então só sabia o pouco que eu contava.
—Você não conhece aquele demônio, ele fazia da minha vida um inferno! –Tampo o rosto, ainda indignada com tudo, querendo me esconder num cômodo de casa e nunca mais sair.
—Que horror, espero ficar longe dele então. –Ela caminha até minha janela, ainda penteando os cabelos enquanto observa a mudança da casa ao lado, mas em dado momento ela para e fica estática enquanto eu sofro da minha crise existencial. E antes que eu possa soltar mais um resmungo de frustração, ela exaspera quase em um grito. –Por Deus, Sakura corre aqui.
Franzo o cenho com o tom dela e me levanto da cama indo em direção a janela.
—Eu não sei quem é aquele cara mas eu faria tudo o que ele quisesse. –Ela começa, e eu olho na direção me deparando com a figura conhecida mas ao mesmo tempo carregada de mudanças.
Ele estava mais alto, pálido, devido ao clima frio canadense que não lhe propiciava tanto sol, ele também nunca curtiu muito pegar um bronzeado, não combinava com ele. Os cabelos pretos agora estavam mais longos, até os ombros, rebeldes e mais pretos do que costumava me lembrar, tinha tatuagens cobrindo completamente o braço esquerdo (ele tinha comentado das tatuagens mas desde quando ele decidiu começar a ser um gibi?), com músculos proeminentes que o deixavam ainda mais gostoso com aquela camisa branca, segurando uma caixa enorme da mudança.
E enfim, era ele.
Sasuke sempre foi bonito, lembro de odiá-lo por isso, pela sua pele perfeita, cabelo perfeito, corpo perfeito e olhos intensos. Mas agora, ali, depois de dois anos, eu não tinha palavras pra expressar o quão esculpido aquele desgraçado estava. Naquela distância, sem saber quem ele era, eu poderia facilmente ficar caidinha por ele, como Karin estava, mas eu o conhecia bem demais para saber que sofreria com um coração partido, então exatamente por o conhecer o suficiente me contento com o medo principal que é evitar ter uma ficha criminal porque ele é absurdamente irritante e eu o mataria com toda certeza.
Antes que eu pudesse dizer alguma coisa para Karin, ele se virou na direção da minha janela eu me escondi rapidamente, me jogando no chão.
—Mas que porra?! –Karin grunhiu, me olhando como se eu fosse maluca, o que de fato não era um equívoco.
—Ai merda. –Massageei meus joelhos pelo tombo desesperado. –Ele quase me viu, cacete.
Karin olhou para mim e para a janela, repetindo o ato três vezes antes de murmurar um “ta de brincadeira” para mim.
—Você ta’ de sacanagem com a minha cara que aquele gostoso é o Sasuke? Sakura pelo amor de Deus você troca mensagens com esse deus grego e nunca me disse nada?
—Eu disse tudo a você, sua maluca.
—Mas não disse que ele era bonito assim, porra amiga eu não conseguiria odiar um cara desses.
—Ah conseguiria sim, você está falando isso porque não o conhece. Ele é uma praga, Karin, e isso automaticamente o torna repugnante.
Ela revirou os olhos.
—Ok, me diga o que ele fez então, quem sabe eu te dou algum crédito, porque pela beleza dele ele já garantiu uns 100 pontos comigo.
Bufo indignada, jogando um travesseiro nela.
—Como começar? Pelo mais básico tipo ele cortando meu cabelo na sala de aula? Quebrando minha boneca favorita? Jogando ovos em mim durante o percurso da escola? Falando para todos os garotos que eu tinha herpes fazendo assim com que ninguém me chamasse para sair ou quisesse ficar comigo? Dentre outras coisas horríveis.
Ela revirou os olhos, mais uma vez.
—Qual é, são coisas de criança, agora vocês são bem crescidinhos.
—Qual é uma porra! –Quase gritei. –Esse cara fez minha infância e adolescência ser um inferno, na maioria das vezes. Lidar novamente com ele, ainda mais na faculdade, com certeza, é a última coisa que eu quero.
—Mas é uma coisa que eu quero muito porque, porra, ele é um gato, desculpa amiga. –Ela fez um sinal abanando as mãos sobre o rosto, ridícula, mas eu entendia, ele era realmente muito bonito.
Quando penso em argumentar mais, minha mãe abre a porta do quarto trazendo duas xícaras de achocolatado.
—Pensei que desceriam para o café meninas. –Ela estendeu as xícaras em nossa direção e a peguei em desânimo. –O que foi? Por que está com essa cara?
—Sua filha está tendo uma crise existencial pelo vizinho novo, ou não tão novo assim. –Karin responde por mim.
Minha mãe ri baixinho, se sentando na beirada da cama.
—Ah, isso? Achei que sabia querida, eu disse que vizinhos iriam voltar para cá, voltar, não se mudar, achei que sacaria de primeira.
Não sei onde ela achou que aquilo seria óbvio para mim, em nenhum dos meus dias eu pensei na remota possibilidade de Sasuke voltar. Mas ela queria me provocar, era óbvio, minha mãe sempre adorou minhas brigas de cão e gato com Sasuke, dizia que era amor encubado e coisas do tipo, não conseguia aceitar nosso ódio recíproco.
—Sem crise, você e Sasuke sempre trocam cartas um para o outro, achei que agora eram amigos. –Ela murmura.
Ri em descrença.
—Você sabe muito bem que não sou amiga dele, mãe. Nunca gostamos um do outro.
—Mas vocês dois apesar disso sempre foram muito próximos, Sakura, e agora tenho certeza que se darão bem, pelo o que soube ele estará na sua faculdade.
Inferno, quanto mais esse assunto entrava na minha mente mas eu me perturbava com a ideia de Sasuke rondando os corredores do campus. Meu ano definitivamente estava arruinado.
—Ok, ok. Vou indo nessa. –Karin pega sua mochila e checa o celular. –Minha mãe vai fazer umas compras e quero garantir roupas novas para amanhã, segundo ano Sakurinha, espero que esteja preparada.
Eu estava, até essa manhã.
—Farei o possível para me animar. –Disse num muxoxo, me deitando na cama novamente.
—Dona Mebuki diga a sua filha para não deixar o vizinho inimigo e curiosamente muito gostoso dela estragar o ano que juramos que seria perfeito, independente de tudo?
Ambas me encaram com os rostos cheios de expectativa.
—Você ouviu. –Minha mãe reforça a argumentação de Karin, me dando um peteleco na testa.
Solto um suspiro alto e sorrio decidindo que sim, Sasuke não estragaria nada. Eu não deixaria, ele nem se atreveria. Somos maduros agora, certo?
Certo?
Fora que o campus é enorme então dificilmente eu o veria, e teria todo o cuidado do mundo para evitar cruzar com ele na vizinhança. Farei o meu melhor.
Assim que vejo Karin ir embora junto com minha mãe, aproveito o momento para rolar para o chão e pegar a caixa embaixo da minha cama. A caixa de sapato que pintei do mesmo tom do meu cabelo guardava várias cartas que Sasuke trocou comigo desde a infância, somada com as cartas dos últimos anos dele fora, eu as guardava porque sempre fui uma fodida colecionadora, tenho apego emocional em qualquer coisa, e também porque adoro cartas, sempre gostei de escrever e quando era criança, nas vezes que eu e Sasuke ficávamos de castigo por atormentar um ao outro ou quando queríamos falar nos falar na escola, foi a maneira que achamos de nos comunicar, isso e o telefone de latinha que fizemos, e que até hoje liga meu quarto ao dele.
Pego a primeira carta que ele me mandou, na quarta série.
Sakura Haruno eu te odeio e seu cabelo é fedido, na próxima vez que me dedurar por estar colando na prova para a professora Kurenai cortarei a cabeça da sua Barbie fora.
Com todo ódio, Sasuke.
E esse maldito cortou, e eu cortei a cabeça de seu max steel e do seu capitão américa como vingança. Sorri com a lembrança, eu também nunca deixava barato.
Pego outra, do ensino médio.
Não acredito que pintou seu cabelo de rosa, rosa? Sério mesmo, Sakura? Sei que seu nome tem significado e coisa e tal mas porra, rosa? Com seus fodidos e enormes olhos verdes? Todo mundo não para de olhar para você por causa disso, enquanto eu mal consigo olhar. Mas tudo bem, de qualquer forma eu entendo, você quer chamar minha atenção, então um cabelo rosa choque pareceu ser uma boa opção, mas é uma pena, não funcionou comigo.
Com todo ódio, Sasuke.
Bufo indignada, eu sabia que se parasse para ler as outras cartas teria uma síncope, com certeza essa era a confirmação de que Sasuke sempre foi um babaca comigo e até duas semanas atrás, na sua carta de anunciação sobre sua volta, nada tinha mudado.
Todas as cartas que trocamos tinham coisas legais até, mas que não quis ler no momento, porque boa parte também continha nossos xingamentos incansáveis e lembranças torturantes do que fizemos um para o outro.
Ouço barulhos na cozinha e resolvo descer porque, ficar no meu quarto o dia todo não ajudaria muito (por mais de por um lado eu achar que sim), mas no meio da escada consigo ouvir a risada da minha mãe, e outra voz junto dela. Não preciso me aproximar muito para reconhecer e sentir meu sangue borbulhar.
O desgraçado estava na minha casa.
Me aproximando como uma gata, tomando cuidado para não fazer barulho, pude ver que ele estava encostado na bancada da cozinha conversando com a minha mãe que segurava uma torta nas mãos.
—Ai querido muito obrigada! Fico tão feliz que você e seu irmão voltaram. –Ela começa, colocando a torta que possivelmente ele trouxe como agrado, em cima da mesa. Maldito, ladrão de mães.
—Muito obrigado senhora Mebuki, a ideia não era eu voltar com Itachi a princípio, mas ele insistiu com que eu fizesse um semestre aqui na nossa cidade natal antes de eu checar novas oportunidades fora.
Reviro os olhos enquanto continuo escondida no canto da escada, me aproximando lentamente para poder observar de esguelha.
Aquela praga de perto parecia ainda mais bonito, como é que pode? Eu queria jogar alguma coisa naquele rosto perfeito.
—Ah entendo. E seus pais, tudo bem com eles?
—Sim sim, tudo certo, devem estar nas Maldivas essas horas, estão viajando muito, curtindo a adolescência perdida depois de terem engravidado tão jovens.
—Deve estar sendo difícil para você e seu irmão terem eles longe tanto tempo não é? Mas saiba que podem contar comigo para tudo, eu sei que seus pais fariam o mesmo pela Sakura.
Ele sorriu aquele estúpido sorriso gentil enquanto agradecia.
—E ela, como ela está? –Sasuke pergunta, enquanto desencosta da bancada, cruzando os braços.
—Aquela preguiçosa deve estar dormindo de novo. SAKURA!
O grito dela me assusta tanto que tombo para trás e minha presença se torna visível para todos.
Vejo o estúpido sorriso de Sasuke crescer mais ainda quando me olha, e eu estava no meu pior estado, pijama rosa com estampa de jacaré, cabelo num coque embaraçado e profundas olheiras.
Ele mal voltou e já começou ganhando.
—Ah veja ela está aqui, por que estava se escondendo? –Minha mãe questiona, me fazendo já fracassar em qualquer desculpa que eu poderia dar.
—Não estava.
É tudo que digo, querendo dar meia volta e subir correndo para o quarto porque a ideia de ter sigo flagrada por esse cretino num péssimo estado me deixa puta. Eu deveria estar linda e radiante de modo que a presença dele se tornasse insignificante, mas agora me sinto um patinho feio encolhida pela grandiosa beleza dele que surgiu de forma esmagadora na minha casa, com passe livre dado pela minha adorada mãe.
—Tudo bem então, vou dar um oi para Itachi e ver se ele precisa de ajuda, conversem vocês dois, sei que são amigos.
E ela simplesmente sai e me deixa com aquela criatura sozinha.
Fico chocada demais e me volto para ele.
Sasuke continua me encarando com aquele sorriso arrogante dele, me avaliando de cima a baixo como se eu fosse um ser de outro planeta, erguendo a sobrancelha em deboche pelo meu pijama patético, e então se aproxima um passo de mim, tornando sua presença ainda maior e sufocante, fazendo até mesmo o ar parecer estar comprimido, e me fazendo inconscientemente prender a respiração por não acreditar que realmente estava passando por aquilo.
E ele continua me encarando com aqueles olhos irritantemente negros de um jeito intenso até demais, beirando ao estranho, enquanto solta num tom despretensioso, quase sedutor, do jeito que ele sabe que me irrita, e me chamando do que eu mais odeio que ele me chame.
—Oi amor, sentiu minha falta?
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