AMELIA

Depois de ler a primeira entrada do diário, juntamente com Charlie, comecei a perguntar-me a mim mesma do que se tratava tudo aquilo que lera. Porque é que um diário de alguém desconhecido me apareceu como por magia? E a magia nem sequer existe!

—Teorias? – perguntei, olhando para Charlie.

—Aposto que tudo o que estamos a viver agora é uma mentira total, alguém nos fez uma lavagem cerebral, não temos pais, fomos fecundados numa máquina super gira e viemos para este planeta – respondeu, com um ar divertido.

—Estás a querer dizer que os Ifigénios somos nós? – perguntei incrédula.

—Pediste uma teoria.

—Eu acho que prefiro acreditar na possibilidade de eu não ser um clone — ri-me, enquanto pensava na conversa absolutamente impossível que estávamos a ter – e também está na hora de eu ir para o vale dos lençóis ter uma boa noite de sono – referi, olhando para o relógio dos laboratórios, que marcava meia noite e meia.

—Sim é melhor, não queremos que chegues atrasada ao teu primeiro dia.

—Eu nunca me atraso – disse, pegando no diário.

—Amanhã trá-lo, temos que mostrar isso ao Jackson.

—Queres contar-lhe? – perguntei.

—Claro que sim, precisamos de tudo aquilo que nos ajude a perceber o que tinhas e algo me diz que esse diário e o teu acidente estão relacionados.

—Está bem, então. Amanhã cá estarei para o meu primeiro dia de trabalho.

Despedimo-nos com um “até amanhã” e saí das instalações, dirigindo-me para casa.

—Amelia! – olho para trás e reparo em Charlie – se calhar é melhor eu acompanhar-te a casa.

— Não é necessario, a sério.

— Não, eu faço questão, fica de caminho para a minha casa, não há problema.

—Tu não sabes onde eu moro – constatei o que eu pensava ser um facto – ou então sabes!

—Tive que me informar quando estavas em modo “bela adormecida".

—A minha princesa favorita é a Ariel, mas a Aurora também serve – disse, soltando uma leve risada, enquanto nos afastávamos cada vez mais dos laboratórios.

—Aposto que tiveste tempo de ver todos os filmes de princesas com a Sidney.

—Oh sim, foi o melhor programa que tive em tempos.

—Essa doeu – Charlie reclamou, em tom de brincadeira.

—Desculpa, não que eu não goste de estar contigo, mas adoro crianças e posso dizer com toda a certeza do universo e dos planetas ainda não descobertos, que a Sidney é muito divertida, muito querida, muito fofinha, tudo muito mais que tu – disse, entrando na brincadeira.

— Não acredito que me estás a comparar com uma criança! Obviamente que ela é mais fofinha que eu, só é preciso olhar para aquelas bochechas!

—E aqueles olhos enormes – completei.

—Ela realmente é uma menina doce.

—Muito doce – corrigi, sorrindo, enquanto chegávamos perto da porta da minha casa.

—Parece que chegámos.

—Sim… — respondi, encostando-me à porta de entrada.

—Então até amanhã.

—Até amanhã – respondi, enquanto entrava, rodando a chave na fechadura, mas parei e, mais uma vez deixei-me levar pelo instinto. Fui até Charlie e dei-lhe um abraço que durou longos segundos, mas que soube tão bem. Não olhei para ele, apenas fiquei ali, agarrada a ele, enquanto me retribuía o abraço. Soltei-me e voltei para o pé da porta, olhando-o enquanto entrava. A sua expressão transmitia serenidade, enquanto eu estava com o coração acelerado e super nervosa.

Quando cheguei à sala, reparei que Clarisse estava acordada, sentada no sofá, com uma caneca nas mãos.

—Hey – disse, enquanto entrava devagar.

—Olá Amelia, tudo bem? – ela perguntou.

—Claro! Ainda estás acordada?

—Sim, não conseguia adormecer, decidi beber um chá.

—Fizeste bem! Bem, vou-me deitar, ate amanhã!

—Até amanhã! De certeza que te sentes bem? – ela voltou a perguntar.

—Sim, estou bem – respondi com um sorriso.

—Ainda bem!

Entrei no quarto e pensei no quão agradecida estava por Clarisse me ter apoiado e ter estado sempre comigo, enquanto estive em coma. Ela é como uma irmã para mim.