Notas iniciais
Espero que gostem

O único som que se ouvia era o silêncio

Naquele quarto roxo e lilás, com levíssimos, quase inexistentes, toques de vermelho. A música do silêncio dançava entre dois amantes, que um pelo outro não sentiam amor algum, não mais.

-Shaka

Chamou o carneiro, com seus cabelos lilases, macios como lã, e a pele mais branca que marfim. Seu cheiro era doce, afrodisíaco, de lavanda. Sua pele era macia ao toque, seus olhos, um verde brilhante. Uma sereia com pernas.

-Diga, Mu.

Respondeu a flor de lótus sentada no chão, fingindo meditar, apenas aproveitando o silêncio que havia lhe sido proporcionado até àquela hora, o silêncio desesperador, para evitar uma conversa sufocante. A flor de lótus era um rapaz loiro, olhos azuis que permaneciam fechados, mas ele ainda via tudo ao seu redor. Sua tez era como leite, as bochechas levemente rosadas, o perfume de jasmim flutuando a sua volta

Há muito tempo que ambos pararam de descrever um ao outro desta forma que acabei de fazer, secretamente, estavam cansados. Há alguns meses, eram apaixonados, casados pelo próprio amor que superava o poder divino, eles contra o mundo. Agora, queriam um divórcio desse acordo, a flecha do cupido havia se quebrado no peito destes dois jovens, e não havia nada que pudesse ser feito

-Nada só... Me abrace, eu... Me sinto tão mal...

Mu era o nome do carneiro, que se encontrava encolhido na borda da cama, prestes a derramar lágrimas, ansiando pelos braços de seu amigo e amante, queria reascender aquela chama que tinham, a que fez com que se deitassem naquela cama uma noite e não dormissem, a que os deixava acordados na madrugada quando não podiam se ver. Se tivesse esperança de que não havia acabado, por menor que ela fosse, ele teria uma chance, uma chance de fazer com que tudo desse certo, não, era seu romance, não podia dar errado.

Nossa flor de lótus, nosso rapaz, ou Shaka, para os que o conhecem, levantou do chão, uma reclamação quase escapou de seus lábios, mas a segurou antes que se libertasse, ele estava lá, não podia se delatar agora, não podia deixar que ele descobrisse que há muito tempo não sentia mais nada, nada além de companheirismo pelo rapaz de cabelos lilases que já chorava em seus braços agora.

-Mu... Meu amor, aconteceu algo errado?

Perguntou o loiro, com preocupação, mas não falsa, podia estar enjoado, irritado, e até decepcionado com aquele romance que morreu junto com as flores no inverno, mas ainda era seu amigo, seu melhor amigo, seu confidente, e se havia algo errado, ele saberia.

-Não, não... Eu só... Quero que pare de me chamar assim, sei que não me ama, sei que se cansou e está tudo bem, eu também me cansei, então, não me chame mais por esse nome, ele não é meu, não me pertence.

Ele havia desabado, era apenas um pedaço de carne com pele totalmente vazio, porque não tinha esperanças, veria aquilo tudo que construiu por um ano se desmoronar com um terremoto que já havia começado meses atrás, crescendo gradativamente.

-Então... Acabou?

A flor de lótus, agora meio murcha, perguntou. Sentia dor, não a dor que amantes sentem ao se separarem, mas sim a dor que amigos sentem ao se separarem.

O Carneiro se jogou de costas na cama, as molas do colchão sendo apertadas, e depois, sendo soltas, fazendo um barulho conhecido e familiar. Lã lilás espalhada pelos travesseiros, olhos verdes fechados em puro desgosto e tristeza, nossa sereia com pernas, sem seu tritão para protegê-la.

O rapaz loiro fez o mesmo, dando um alto suspiro quando seu corpo se chocou contra o colchão, as mãos sobre a barriga, como uma princesa esperando um beijo para acordar de seu sono eterno, mas ele estava bem acordado, seus dedos fazendo voltas no tecido que cobria seu estômago, uma carícia leve para manter sua mente ocupada, para que não pensasse tanto.

-Shaka... Desde quando?

Perguntou o carneiro, virando a cabeça, apenas para ver o indiano fazer o mesmo, ambos se encarando, as pálpebras de Shaka os separando de um contato visual mais intenso.

-O que? Desde quando o que?

Perguntou o virginiano, os círculos que fazia em sua barriga sendo desenhados com mais rapidez, sob o olhar triste do ariano.

-Desde quando não me quer mais perto de você?

O olhar do jovem Mu era curioso, provocante, esperando uma resposta de sua flor de lótus que permanecia fechada, sem ver a luz do Sol. A flor virou seu corpo, os círculos inexistentes foram apagados, o silêncio se instalando de novo, logo sendo brutalmente expulso pelo indiano.

-Errou Mu, te quero muito, mas não como uma noiva quer seu noivo, o quero como amigo, o amo, daria minha vida por você, mas não quero sentir o toque dos seus lábios contra os meus nunca mais.

Acariciou a bochecha pálida do carneiro de lã lilás, lágrimas fazendo uma trilha escura por seu rosto, doía, doía muito.

-Sinto o mesmo por você Shaka, o amo, o amo muito, mas não assim, esse amor mágico e fantasiado que temos em livros, o amo do modo realista, te amo como um irmão que tem o sangue diferente, nada mais.

Logo grudaram suas testas, o cheiro afrodisíaco de lavanda se misturando ao cheiro calmante de jasmim, que disseram que possuía os mesmos poderes afrodisíacos que o cheiro de lavanda, mas para Mu isso nunca foi verdade, o cheiro de seu amigo não o excitava, o acalmava, fazia seu coração bater mais lento.

-E agora, o que faremos?

A pergunta saiu estrangulada, a força, não queria ser liberta, com medo da resposta. Eram amigos, sempre foram, mas depois de dividir a cama por um ano, não sabiam se era possível voltar a ser como antes.

-Torcemos, e tentamos o nosso melhor.

Foi a resposta do carneiro, o travesseiro manchado com suas lágrimas, assim como o travesseiro do indiano. Ambos sentindo a dor de um término, mesmo que consentido, era doloroso, muito doloroso.

Shaka se levantou, o carneiro sozinho em seu mar de travesseiros e lençóis, memórias e sensações que lhe voltavam a mente como uma estrela cadente, de repente, e rapidamente.

A porta fez menção de ser aberta, mas a mão que iria permiti-la desistiu, segurando a maçaneta com expectativa, sem avançar, porém sem recuar, a dúvida dançando valsa com o silêncio naquele quarto em penumbra

Os pés descalços do lemuriano fazendo um quase inexistente barulho contra o frio chão foram ouvidos, e os braços envoltos na cintura do loiro foram sentidos, e muito bem.

-Mu, o que está fazendo?

Perguntou a flor ao carneiro, que continuava calado, com expectativa pairando ao seu redor, como uma aura.

Nosso carneiro -Shaka por um momento se esqueceu- era um amante. Não só de homens e mulheres como do amor, ele amava o amor, desejava o amor, a luxuria desaparecia na paixão tão grande que Mu tinha pelo amor, maior até do que a paixão que sentia por Athena.

-Shaka... Só... Deixe-me sentir mais uma vez...

Os rostos se aproximaram, a maçaneta foi abandonada para cobrir a boca de Mu, impedir que aquele toque ocorresse, não poderia ocorrer, já haviam terminado, não havia amor ali, qualquer coisa romântica deixava de ser divina e se tornava indecente sem amor

Mas Mu o amava, Mu amava a tudo e a todos, porque era um amante, era seu trabalho, amar até que seu coração não aguentasse mais, e então, mais um pouco, morrer de amor praticamente, tanto amor acumulado que causaria uma explosão, essa era sua definição de um orgasmo.

Os olhos do tibetano brilhavam, pediam, suplicavam por mais um beijo, apenas um último, o último momento de amor que sentiria dos lábios de Shaka de virgem, o que guardaria em sua memória, aquele último toque de lábios que nunca se repetiria, e que não seria confessado a ninguém, ali, naquele quarto, um último beijo que viraria um segredo, um segredo confidencial.

Então, a mão que cobria a boca de Mu se afastou, entregue, havia se rendido. Mu era uma máquina movida a amor, ele necessitava dele, como um viciado necessita de drogas e um doente de remédios, ele necessitava de amor.

Foi um beijo frio, praticamente congelado, que logo foi se esquentando pela língua de Mu que insistia em passear pela boca que conhecia tão bem como a palma de sua mão, logo, estava borbulhando, queimando, causando queimaduras que os marcariam, entre mordidas e lambidas, o último carinho que dois amantes compartilhariam.

Isto é, até que o instinto amante de Mu falar mais alto, e a consciência de Shaka ir a outro mundo, o deixando a mercê daquele carneiro tibetano que já o estava despindo, na ponta dos pés, para continuar com o beijo fervente (malditas diferenças de altura). Os dedos de Mu passeavam pelo corpo maior que o seu, causando cócegas, espasmos e arrepios, enquanto ele mesmo precisou ser segurado pelo quadril para não cair no chão enquanto era acariciado pelo indiano que só não amava o amor tanto quanto Mu porque sua mente não permitia, mas no momento, ela o permitia amar Mu, o que para ele já bastava.

E naquele quarto em penumbra, com os travesseiros manchados com lágrimas secas, dois corpos se juntavam, numa dança mais apaixonada que qualquer outra, morrendo de amores um pelo outro, aqueles dois amantes casaram-se novamente, sob o olhar das estrelas que os observavam através do telhado.

Só bem depois (dois anos, ou será que foram três?) esses amantes seguiram caminhos distintos uma vez mais.

-Lembra-se do nosso amor, amigo?

Perguntou a flor de lótus ao carneiro, ambos mais crescidos, mais sábios. Era uma noite fria, o vento era forte, balançava as pétalas amarelas da flor e a lã exótica do carneiro, as folhas não voavam, não havia nenhuma árvore por ali

-Ora essa Shaka, éramos crianças, tão tolos.

Riu, e sentiu um arrepio que subiu de seu estômago até sua cabeça, lembrou-se das várias e várias vezes que morrera de amores por aquele virginiano, e, Oh Athena, como era bom.

-Nada restou de sua paixão? Lembro que era muito agitado, na cama e fora dela

Sim, ele se lembrava bem, das mãos finas que percorriam todo seu corpo, querendo conhecê-lo melhor, cada vez mais.

-Vamos Shaka, isso é muito antigo, como poderia me lembrar?

Mas lembrava, e muito bem. Alguns meses após seu divórcio definitivo daquele casamento imaginário, o ariano caiu de amores pelo guardião da segunda casa, mas não durou, como duraria? Ele era um amante, mas só um amor o satisfazia totalmente, um amor doce, e quente quando necessário.

-Não pensa em mim, Mu?

O guardião da sexta casa perguntou, roçando seu nariz logo atrás da orelha de Mu, o ar que veio junto com suas palavras sussurrantes se chocando contra o rosto do ariano, derrubando qualquer defesa que ele tinha, deixando suas bochechas coradas. Sempre amara Mu, mesmo que depois de seu divórcio tenha se engraçado com o guardião da quarta casa várias vezes (e foi retribuído, muito bem aliás)

-Penso, claro que penso...

Sussurrou de volta, só a lua era a testemunha daquilo, uma testemunha silenciosa e confiável.

-Não tente voltar ao passado, Shaka... Se concentre no futuro...

Um beijo foi depositado no pescoço de Mu antes que seu amigo o respondesse.

-Mas foi um belo passado, não acha?

Ele sussurrou, um sorriso que Mu não sabia dizer se era sacana ou apenas desafiadoramente sincero.

-Sim, o mais belo passado.

-Ainda lembra da sensação, Mu? Ou isso se perdeu entre as várias memórias que conseguiu?

Um suspiro escapou dos lábios do carneiro, ele lembrava daquela sensação mais do que qualquer outra coisa, a guardou de uma forma preciosa, era seu maior tesouro.

-Hmm... Lembro... Lembro-me muito bem... Era tão completo...

Sim, completo, pois havia a dose certa de prazer e de amor, tudo misturado e colocado naquele momento.

-E quem mais lhe completou, Mu? Algum de seus vários amores conseguiu?

O ariano suspirou uma vez mais, aquelas perguntas o estavam expondo, mas Shaka queria saber, queria saber mais do que havia acontecido, queria ouvir do próprio Mu que só ele havia conseguido fazê-lo sentir algo tão forte como aquilo que sentia, sim eram crianças, sim eram tolos, tolos por terem se divorciado daquilo que nem era um casamento, mas era uma ligação tão forte quanto um.

-Não fale que eram meus amores, Shaka... Não os amei, nunca amei e nunca vou amar ninguém como já amei você, Shaka.

-Como já amou?

-Sinto muito Shaka

Ele o amava, não o ama, o amava.

-Você não é a criatura que precisa de amor para sobreviver, Mu?

Perguntou, apertando a cintura do tibetano, o ama, o ama muito, apenas o seu nome lhe causa uma euforia incrível, talvez fosse sua voz, seu cheiro...

-Preciso, e amo, Shaka. Você me fazia morrer de amor e ressuscitar logo depois apenas para morrer de novo. Mas não posso amá-lo agora...

Ele estava fraquejando, estava mentindo, sua respiração ofegante e suas pernas que estavam cruzadas para esconder qualquer sinal que poderia entregá-lo eram as provas.

-Por que, Mu? O que te impede?

Ele estava quase cedendo, quase, o motivo de estar negando amor de Shaka de virgem nem ele mesmo sabia. Talvez fosse a dor que sempre ficava em seu peito quando estavam separados, ou a preocupação em batalhas e treinos, e agora que eram cavaleiros de Athena, um passo errado, um deslize e você está morto, ele não iria suportar, e por isso tinha medo, porque mesmo que Shaka morresse, ele continuaria amando.

-Shaka, somos cavaleiros de Athena... Ah... Temos responsabilidades a cumprir e... Hmm... N-nós.... Ah... Por favor, pare...

O ariano pediu, suas unhas arranhando o tecido que cobria as costas de Shaka, devido ao ballet que o loiro fazia com a língua na carne sensível do pescoço de Mu.

-Podemos morrer, Shaka...

O ariano estava corado, o ritmo da boca do virginiano em seu pescoço havia diminuído, mas não havia cessado, apenas o bastante para que pudesse falar sem gemer, Shaka conhecia bem os lugares sensíveis de seu corpo

-Eu sei Mu, é por isso que deve amar, ame o máximo possível, pois talvez nunca mais ame de novo. Podemos morrer, por isso, devemos amar, morrer de amor o máximo que pudermos.

E no final era óbvio, de qualquer modo, morreria por amor, ou por tanto amor, ou porque nunca mais amaria.

E sob o teto da casa de virgem, dois amantes se juntaram, amaram e morreram de amor o máximo possível, e quando esse máximo foi atingido, as primeiras cores da manhã já coloriam o horizonte. Se casaram novamente, sob os raios de Sol que espiavam pela janela.

E nem Hades tinha poder para mudar isso agora.

Notas finais
Espero que tenha sido uma experiência agradável, e que tenha ficado... Decente. Rewiews me deixam muito feliz e não dão câncer, então, por favor?

Até a próxima!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!