Colégio Interno de Iléa — HIATUS
2 Encontro Ao Luar
Notas iniciais
Os olhos de América pareciam que poderiam se fechar a qualquer momento por conta das poucas horas que havia dormido. Em seu antigo colégio, as aulas se iniciavam muito mais tarde, o que lhe dava horas extras e a sensação de um sono bem dormido. Os outros em sua volta pareciam estar na mesma situação que ela, apoiando as cabeças em cadernos, nas mãos ou na própria mesa.
Escutou os barulhos de salto percorrerem a sala, e observou a sua nova professora de literatura. Os cabelos castanhos estavam ondulados nas pontas. Suas feições pareciam serem perfeitas apesar da pouca maquiagem que usava. A camisa social era combinada com uma saia preta justa, que ia até os joelhos.
– Bom dia, alunos! Sou Cíntia, a nova professora de literatura.
Ela repousou os livros que segurava em sua mesa, indo até a frente da mesma, apoiando as mãos, observando-os com atenção.
– Acredito que boa parte de vocês odeia ler, e odeia quando precisam o fazer para alguma analise, certo? – um coro de alunos responder com um "Sim", do qual América não participou. – Minha missão este ano é revolucionar o gosto de vocês pela leitura, e provar que ela pode ser mais divertida do que parece.
América sorriu ao final do discurso da professora, pensando em como havia gostado dela.
O sinal do intervalo tocou logo após o fim da aula, e um grupo de alunos começou a "competir" para ver quem sairia primeiro pela porta. Enquanto aquilo acontecia, América começou a organizar os materiais da aula em seu braço, para leva-los a seu armário. Soltou um suspiro aliviado quando se viu livre do peso em seus braços, indo na direção do dormitório.
Ao entrar se deparou com três das garotas que havia conhecido na noite anterior – que lembrava ser Celeste, Elise e Kriss. Continuou quieta, indo na direção do seu guarda-roupa, guardando o moletom que havia retirado em sua ida ao banheiro compartilhado.
– Ames – chamou Marlee numa tentativa de atrair o olhar de América. – Já conhece elas, certo?
Olhou em deboche para Marlee, se lembrando de que ela mesma as havia apresentado.
– Olá, Celeste, Elise e Kriss! – respondeu, sem desviar o olhar de Marlee.
– Vamos logo para o refeitório, Marlee? – começou Kriss, emburrada. – Estou morrendo de fome.
– Você vem, Ames? – perguntou, já se levantando.
– Claro, também estou com fome – respondeu, fechando a porta deslizante.
•
Já estava sentada na mesa, aguardando as outras garotas terminarem de se servir – o que ocorreu em poucos minutos, quando elas finalmente sentaram. Começaram a conversar sobre suas vidas e outros assuntos, porém América e o resto percebiam que o olhar de Kriss estava perdido em outro lugar. América seguiu-o, vendo que ele dava exatamente na mesa dos – de acordo com o que haviam lhe contado – jogadores do time de Basquete do colégio.
Continuou observando a mesa por algum tempo, imaginando por que diabos as risadas eram tão altas – provavelmente, o motivo seria de uma boa piada. Até que um dos garotos ali sentados cruzou o olhar com o seu, forçando-a a desviar e corar imediatamente.
As garotas suspiraram e se entreolharam, quando finalmente notaram a ausência da voz de Kriss, que até então não havia falado nada. Kriss pareceu ter notado os diversos olhares, pois logo se recompôs, voltando a focar em seu prato de panquecas.
América terminou antes das outras, pediu licença e se dirigiu ao seu dormitório. Aproveitou que o mesmo se encontrava vazio, deitando-se em sua cama, tentando descansar.
Até que seus olhos encontraram algo que não havia de ter colocado na mala.
Era uma foto.
Uma foto dela e de Aspen.
Havia sido no dia em que o mesmo lhe pedira em namoro, superando as expectativas dos seus pais e de todos. Lembrava-se de que havia feito um piquenique com seus pais, e o mesmo havia aparecido. América obviamente havia ficado envergonhada. Minutos antes do entardecer, ele havia começado um lindo discurso e logo depois, feito o pedido que deixara todos impressionados, e América com uma felicidade inexplicável do peito.
Lágrimas começaram a rolar pelo seu rosto. Não de alegria, como fizera tantas vezes depois de observar a foto, mas de tristeza, arrependimento. Os tão famosos "e se..." tomaram conta de sua mente. E se ela não houvesse terminado com Aspen? E se não houvesse ido para o colégio tão sonhado? E se houvesse continuado com ele, mesmo a distância?
Respirou fundo, á fim de se acalmar antes que Marlee entrasse. Não era sua intenção que alguém soubesse sobre o seu término, justamente o contrário. Não contaria à ninguém, começaria uma "vida nova".
– "Novo colégio, nova vida!" – repetiu a si mesma, suspirando e balançando a cabeça afirmativamente.
.
Acordou no meio da madrugada, com a garganta seca. Esticou seu braço até seu criado-mudo, a procura de sua garrafa que ali deixara. Segurou-a, sentindo que estava muito leve. Vazia!
Bufou, já tirando o celular do carregador e verificando as horas no celular. 03h21. Tirou as pernas da cama e seguiu na direção da porta, ligando a lanterna do celular. Começou a andar para qualquer um dos lados, desesperada por água.
Tecnicamente, muito tarde para estar acordada, ainda mais procurando um bebedouro para encher uma garrada.
Onde diabos está o bebedouro? Pensou, o sono começando a fazer presença.
Começou a andar mais rápido, na esperança de encontra-lo e voltar ao dormitório o mais rápido possível. Porém algo lhe encontrou primeiro.
Sentiu algo tropar contra si, caindo sentada em seguida. Ao forçar um pouco a vista, conseguiu perceber que havia uma mão estendida, a qual aceitou de bom grado. Ergueu-se, apertando a mão forte.
Seu celular havia caído na queda e por isso não eram iluminados por nada além da luz do luar que entrava pela janela – que por sorte a altura tomava conta de toda a parede, e haviam diversas – o que deixava o clima angelical.
– Está bem? – ele perguntou com sua voz terna.
– Acho que sim – respondeu, o observando.
Com a iluminação parcial que tinham, América pôde observar os cabelos castanhos e olhos mel a encarando fixamente. Com toda certeza, ele era lindo! Talvez, um dos mais bonitos que havia visto em sua vida inteira.
– Qual seu nome? – ele perguntou com um meio sorriso.
– América.
– Sou Maxon – respondeu, observando a garota que sorria enquanto levava uma mecha de seu cabelo para atrás de sua orelha.
O simples ato, fez com que lhe achasse ainda mais bonita.
– Está tarde. Ou melhor, está cedo. Acho melhor voltar para o dormitório – disse Maxon se virando.
– Espere! – disse a garota, quando ele já se afastava. – Poderia me dizer onde tem um bebedouro?
Ele riu da pergunta, indicando o caminho.
– Obrigada! – ela disse, já começando a voltar-se para o lado oposto.
E ele observou-a até que desaparecesse pela escuridão.
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