Colors

1 Começando com um término horrível e gatos videntes


Notas iniciais
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Todo mundo coleciona alguma coisa. Alguns colecionam selos, outros figurinhas, discos de vinil, hqs, esmaltes, bonecas e mais uma infinidade de coisas.
Está vendo aquela loira, toda arrumadinha, no meio do restaurante, falando com uma estátua em forma humanoide? Sou eu. Prazer, Amélia.
— Então, aí chegou um cara mó escroto e...Mudando de assunto, eu quero terminar.
Lembra-se do lance do colecionador? Então, no meu caso; coleciono decepções amorosas: vinte e dois anos, trinta e sete crushes e entre eles; dois namoros completamente fracassados. Correção: três namoros completamente fracassados.
—Oi?- Perguntou ele sem demonstrar expressão alguma. Como sempre.
—Tipo... Você já se perguntou o que temos em comum?
Ele continuou a me fitar com aquela cara de paisagem de sempre. Essa criatura se chama Lucas. Namoramos há dois anos. Bem, acho que de todos os caras que já me apaixonei; ele é talvez o mais bonzinho... Não. Ele está em segundo lugar. Não brigávamos com tanta frequência... Na verdade, sequer brigávamos. O que acontecia era eu gritando e ele calado. E não só nas brigas, em tudo.
—Funcionamos por dois anos Amélia. Porque não funcionaríamos agora?
—Porque, Lucas... As coisas não são como uma equação matemática. Elas... Eu preciso me renovar sabe? A gente... Tá estagnado há tanto tempo que parece que estamos congelados.
—Não estou entendendo como que uma fórmula que funciona por tanto tempo, de repente não funciona mais. Você sempre gostou do nosso relacionamento...
Perdi a paciência.
—Lucas, entenda: EU.NÃO.SOU.UMA.EQUAÇÃO. As pessoas mudam. Eu mudo, e na verdade... Gosto de mudanças. Detesto coisas fixas e imutáveis... E nosso namoro chegou a um ponto que simplesmente não avança.
Ele assentiu com a cabeça e foi isso. Só isso. Nem um “o que podemos fazer para melhorar”, ou um alguma resistência. Em seus olhos não conseguia ver sentimento algum. Era a mesma expressão de quando nos beijamos pela primeira vez. A mesma de quando me declarei. Ele era sempre o mesmo... De um jeito frio; ou melhor, indiferente. Ele se despediu sem mudar o tom de voz e saiu andando como se nada tivesse acontecido.
Suspirei, já saindo do restaurante e pegando meu capacete. Toda a rua estava decorada com coisinhas de ano novo e toda aquela baboseira. Era dia 27 de dezembro... Que dia pra terminar um namoro ein Amélia? Achei minha BMW em meio das outras motos estacionadas e logo parti pra casa, acelerando o máximo possível para chegar logo.
Terminar um namoro era sempre uma merda. Agora, terminar um namoro que, no bom sentido, já era uma merda e perto do ano novo, era uma Bosta. Chegando no apartamento, com os olhos marejados, me sentindo um resto de aborto de urubu, joguei o capacete no sofá e quase imediatamente escutei um miado.
—Pelo menos alguém está de bom humor...
Era Annakin, meu gato preto. Sinceramente começava a achar que ele que era o verdadeiro amor da minha vida. Bom... Sobre mais cedo... Eu sou uma bosta. Segui para o meu quarto, tirei as lentes de contato, a maquiagem... Até por fim a verdadeira eu aparecer: uma criatura de um metro e meio, cabelo loiro escuro, preso no alto da cabeça com várias mechas rebeldes, olhos castanhos; os quais são naturalmente enormes, e um par de óculos grandes, quadrados e que diminuíam consideravelmente meus olhos. Por fim, coloquei um pijama de corujinhas azuis, deitei na cama e chamei Annakin para deitar comigo.
—Anni?
Meu gato surgiu com alguma coisa na boca. À medida que foi se aproximando, percebi que eram cartas. Mais precisamente, três cartas de tarôt. Do MEU baralho de tarôt. Ele sentou no meu colo e percebi que as cartas estavam organizadas em leque, todas viradas com as costas pra cima. Exatamente como num jogo de tarôt.
—As vezes você me dá medo, Anni...
Peguei as três cartas e as virei uma por vez. A primeira representava o passado e era o quatro de copas: simbolizando tédio. A segunda, representando o presente, era os enamorados de cabeça para baixo: resumidamente o término de uma relação. Arregalei os olhos e respirei profundamente. Sinceramente não se tinha mais medo do baralho ou do gato. Annakin me fitava com aqueles olhos amarelos como duas luas cheias. Não poderia ter adotado gato melhor. Por fim, virei a terceira e última carta, o futuro.
—Seis de copas?- Annakin miou em resposta.- Eu tenho medo de você, Annakin. Sério mesmo...
Para os desenformados, seis de copas no tarôt; simboliza ,basicamente, a volta de um amor antigo. Ri de nervoso quando percebi meu coração dando um pitizinho. “Cê fica na sua aí core, fica bem quietinho aí que a ultima coisa que preciso nesse momento é falsa esperança. Já tive uma por dois fuckings anos.” Para distrair a cabeça e consolar o coração, resolvi escutar música.
“Tryin' to get control
Pressure's takin' its toll
Stuck in the middle zone
I just want you alone
My guessing game is strong
Way too real to be wrong
Caught up in your show
Yeah, at least now I know”
“Perfect Illusion”, Lady Gaga. Um pequeno aprendizado para a vida: nunca coloque no aleatório. A música começou e com ela, minhas lembranças com Lucas. Ele era tão bonzinho... Tão compreensivo... Que beirava ao descaso. Deixei que as lágrimas rolassem; mesmo tendo certeza da minha decisão.
Eu sei, eu sei... Provavelmente devem estar se perguntando: “ Mas Amélia, se você tinha tanta certeza, então porque está chorando como se estivesse numa novela mexicana?” Cara, eu curto sentir as coisas. Tipo, sentir intensamente. Talvez seja por isso que meu relacionamento (se é que poderia chamar disso) foi uma merda. Ele sentia de menos e eu demais. Exemplificando: em um filme cujo o final é daqueles “mindblow” eu costumava arregalar os olhos, colocar as mãos no rosto e puxá-lo para baixo, me transformando no quadro “O grito”; já ele mantinha a mesma expressão inexpressiva de todo santo dia e me olhava como se eu fosse idiota. Os opostos se atraem? É... Nem tanto.
Infelizmente a música e toda a intensidade foram interrompidas quando uma certa criaturinha começou a ligar:
—Mel?- Atendi secando as lágrimas.
—Festa. Dia 31. As nove. Sem reclamações.
Suspirei. Melissa era a minha melhor amiga desde os dois anos de idade. Eu amo ela com todo o meu ser e a considero como irmã; entretanto... Seu principal talento era me arrastar para os roles mais aleatórios possíveis. Iam desde aula de fazer omelete vegano no supermercado até a festa mais louca (no mal sentido), promovida pela atlética mais louca (no sentido literal), de uma faculdade que não era a sua. E o role da vez se encaixava nesta categoria.
—Miga, você sabe que...
—Nem vem. Você vai comigo nem que eu tenha que te arrastar monamour. Pode levar a planta que você chama de namorado...
—A gente terminou.
Houveram uns segundos de silêncio e então um grito:
—DEUS É PAI!!!
Não preciso nem dizer o quanto ela detestava o Lucas.
—ATÉ QUE ENFIM VOCÊ TERMINOU COM A PLANTA! COISA MUDA, SEM REAÇÃO,SEM EDUCAÇÃO,CALCULADORA HUMANA ASSEXUADA DO CARALHO,FICA VEGETANDO NESTA VIDA, AMEM JESUS OBRIGADA POR ILUMINAR O DEDO PUTREFADO DA MINHA AMIGA E...
—Eu to bem mal, obrigada por perguntar...
—MAL?! MAL PORQUE? VOCES NAMORARAM DOIS ANOS E NEM SEQUER TR...
—Não vejo necessidade de esfregar isso na minha cara...
—Mais um motivo pra ir miga... Se libertar, conhecer gente nova, gente com pegada... Que te pega pela cintura com tesão e...
Já estava ficando corada.
—Mas eu detesto festas.- Respondi.- Detesto gente bêbada...
—Falou a bonita que nunca deu pt na vida né?
—...
Aquele dia foi louco.
—Mas mesmo assim, não sei.
Então seu tom de voz mudou; e podia jurar que havia um violino ao fundo.
—Você nunca mais saiu comigo...
—Saímos antes de ontem, Mel.
—Foi só você entrar na faculdade, que começou a me esquecer...
—Miga, estamos no último ano e nos falamos todos os dias.
—Só quer saber das suas amiguinhas de arquitetura...
—Se eu aceitar ir nessa festa, você para com o mimimi?
—Com certeza.- Disse ela com o tom de voz normal.
Dei um longo suspiro e disse:
—Ok então... Eu vou com você.
Ela comemorou do outro lado enquanto eu lamentava mentalmente.
—De qual atlética que é a festa?- Perguntei.
—Medicina.
Annakin olhou para mim como se estivesse me chamando de louca por ter aceitado o convite. As festas de medicina são de longe as mais pesadas. Antes, achava q iria morrer nessa festa. Agora tenho certeza.
—Vai ser bem louca a festa, você vai ver!!
—Imagino...- Respondi arrependida.
Por fim nos despedimos e me desmontei na cama, com Annakin em cima de mim. Isso Amélia, termine com a criatura e vá numa festa. Toma aqui seu prêmio de biscate do ano. Ah, fodasse, não é como se eu fosse pegar todo mundo, encher (muito) a cara ou algo do tipo...
Annakin miou sarcasticamente.

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Puta que me pariu. Eu estou locassa.
—Mel sua lindaaaa!!!! Cadê a minha catuaba?
Melissa deu um ataque incontrolável de riso e m deu a garrafa vazia.
—Você bebeu toda a minha catuaba?! Sua vaca, vou quebrar essa garrafa na sua face!
—Mas você bebeu as outras duas!!
—Era de cervejaaaa...
—Era nada!! Vamo roubar mais do open então!!
Segurei-a pelos ombros, a fim de me equilibrar.
—Não miga... Roubar é errado.
—Vai pro inferno menina! Foi você que roubou!!
—... No inferno tem catuaba?
—Deve ter... Não sei, sei lá. Porque esse chão tá girando??
Demos outro ataque de riso incontrolável e nos dirigimos ao bar abraçadas. Alguns marmanjos tentavam chegar na gente, mas nossa desculpa era sempre a mesma:
—Estamos juntas, lindo...- Eu respondia abraçando a Mel romanticamente.
—Não somos “abeas corpus”, mas te damos essa liberdade.
—Miga, não é isso que tem que responder!!!-Ríamos mais um bocado e a puxava para o bar.
O bar em si estava cheio, com dois barman. Melissa agarrou no meu braço, me desiquilibrando e fazendo um som o qual lembrava um ataque de asma.
—MEU.DEUS.
—Que foi??- Consegui me apoiar num pilar, que logo depois descobri ser um cara muito alto.
—Dá uma olhada naquele barman!!
Estreitei os olhos mas não conseguia distinguir forma alguma. É nisso que dá perder uma das lentes de contato...
—O velho?- Perguntei.
—Naaaaao... O alto, ruivo, cheio de tatuagem!!
—Que tem?
—É meu.- Ela afirmou.
—Pode ficar...
Repentinamente cometi o erro de olhar em volta e perceber o quão lotado aquele lugar minúsculo estava. Quantas pessoas tinham em minha volta. Os amontoados... Num lugar tão pequeno. Tanta gente... Eu tinha enchido a cara justamente para não notar nesse tipo de coisa; mas agora já era tarde demais: minhas pernas já não aguentavam mais meu peso e meus pulmões se recusavam a funcionar. Precisava de ar. Espaço. Urgentemente. Agora. Neste instante.
—Amélia?
—Ar...- Foi tudo que consegui sussurrar
Não sabia mais se a tontura era da bebida ou da falta de ar. Minhas pernas perderam todas suas forças e então fui apanhada pelo braço surpreendentemente forte de Melissa. Olhei para o alto confusa.
Não era a Melissa. Ele era asiático. Tinha rosto oval, sem barba e olhos amendoados. Eles me encaravam preocupados e naquele momento, se estivesse bem, me arrepiaria da cabeça aos pés, pois a previsão do meu gato se concretizara.
—Hiro?- Então perdi completamente os sentidos.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.