Colors
1 Capítulo único
O moreno observava a fumaça cinzenta escapando pelos lábios da garota sentada ao seu lado, apoiando o tronco com os cotovelos. Os fios ruivos, que se movimentavam com o vento, ganhavam um tom ainda mais vívido sob a luz do pôr do sol. Assemelhavam-se ao fogo ardente e dançante. Gotas de suor escorriam pelo seu rosto, mas ela não parecia se importar. Ela nunca usava maquiagem, a não ser nos dias em que sua mãe, Elinor, vencia a batalha e a obrigava a se vestir como uma “dama” ou coisa do tipo. Em geral, Merida tinha um estilo um tanto desleixado. Naquele dia, usava seus tênis All Star azuis, short surrado e a camiseta preta com a logo da Arctic Monkeys – num tamanho um pouco maior que o dela, pois dizia que camisetas grandes eram mais confortáveis.
A garota leva o cigarro à boca e da mais uma tragada, o que faz Hiccup lembrar-se do copo de açaí em suas mãos que derreteria se ele não acabasse de comer logo. Açaí puro, como ele sempre pedia. E toda vez Merida discutia com ele por um longo tempo sobre açaí puro ter “gosto de macaco”, enquanto ele revidava dizendo que era mais refrescante e não era enjoativo.
Hiccup e Merida eram amigos desde criança. Moravam no mesmo bairro, ela na rua Dunbroch, e ele na rua Berk. Ela na casa de janelas e portão vermelhos, e ele na casa de muro azul. Os dois se conheceram há exatamente onze anos atrás, 22 de setembro, último dia de verão. Merida estava de cara amarrada, acompanhando sua mãe. Usava um vestido rodado verde e sapatilhas que, segundo ela, apertavam seus pés. A carranca deu lugar a um enorme sorrio se abriu no rosto dela quando viu Hiccup sentado no passeio em frente à sua casa, acariciando Banguela, que na época ainda era apenas um filhotinho. Ela soltou-se da mão de Elinor e correu até Hiccup – ou melhor, até Banguela. Desde aquele momento, o garoto soube que a ruivinha de bochechas coradas que brincava com o pequeno Banguela iria metê-lo em muitas encrencas e confusões. Hiccup não tinha certeza se Merida se lembrava deste dia tão exatamente como ele, ou se ela ao menos se lembrava. Talvez 22 de setembro fosse apenas mais um dia como todos os outros para ela, um dia para subir no telhado de uma casa abandonada e fumar quantos cigarros seu pulmão aguentasse, enquanto Hiccup ficava ao lado dela conversando sobre coisas banais ou contando curiosidades sobre coisas que não a interessavam.
Ah, aqueles cigarros, arquiinimigos de Hiccup. Ele já insistira com Merida tantas vezes, e ela nunca dera ouvidos. Mas que mais ele poderia esperar de Merida Dunbroch, a rebelde incontestável?
— Ei, Hicc! – O moreno olhou para a garota, que jogava o que sobrou de seu cigarro fora – Em que galáxia distante de um universo paralelo você estava viajando dessa vez?
Ele riu fraco. – Ah, não. Dessa vez eu estava viajando no tempo.
— Pensando no futuro?
— Voltando ao passado.
A garota sorriu, fazendo sua covinha na bochecha esquerda aparecer. – Você sempre foi bom de memória, né?
Hiccup assentiu com a cabeça, lembrando-se do dia em que percebeu que ele estava perdidamente apaixonado por Merida. Ele tinha acabado de fazer quatorze anos, era magrelo, usava óculos, tomava pílulas PuraT4 para seu problema com hormônios, e acima de tudo, inseguro. Não que ele tenha mudado muito de lá pra cá, ele ainda toma as pílulas azuis e continua o mesmo nerd magricelo, mas naquela época, Merida parecia ser mais... inatingível. A garota nunca foi do tipo que se apaixona, ou que aceita o sentimento facilmente, nem mesmo parece gostar dessa coisa de romance! E foi assim que Hiccup desistiu da sua primeira paixão adolescente, e decidiu que iria esquecê-la namorando Astrid, a loira do time feminino de lacrosse que sempre “deu mole” pra ele. Claro que o namoro não deu certo, e agora Astrid ameaça fazê-lo engolir seu bastão de lacrosse sempre que o vê.
E assim, Hiccup voltou a sua paixão inicial. Quem diria, não?
— Ta afim de aproveitar o último dia de verão? – Merida chamou a atenção dele novamente. – Sabe, antes que aquele clima depressivo do outono comece... – ela sorriu marota.
O outono é a estação favorita de Hiccup, e Merida sabe disso. E ela odeia o outono quase tanto quando odeia o inverno.
— Primeiramente, o outono não é depressivo.
— Como não? Lembra-se do que vem com o outono? Volta às aulas! Se isso não é depressivo, eu não sei o que é.
— Certo, isso é depressivo, mas ainda assim, o outono é a época mais bonita do an...
Não mesmo! – ela o interrompeu – Como pode achar bonito o céu cinzento e as árvores morrendo?
— As árvores não morrem no outono. As folhas delas secam e caem, só isso. E então, quando a primavera chega, as árvores voltam a se encher de folhas.
— Blé! Eu conheço o ciclo da natureza, palhaço. – ela mostra a língua, fazendo-o rir.
— Ok, grande conhecedora da natureza. Qual a sua definição de “aproveitar o último dia de verão”?
Merida sorri e se levanta, puxando Hiccup com ela. – Vem comigo.
⁑
Já estava escurecendo quando eles chegaram ao seu destino – o parque de diversões da cidade. As luzes do lugar se acendiam aos poucos, desde as barracas de bebidas e guloseimas, até os brinquedos. Hiccup se pegou várias vezes admirando a iluminação da roda gigante.
— Nós não vamos na roda gigante, se é o que você está pensando. – Merida disse tirando-o de seus pensamentos – É entediante demais.
— Hum? Não, eu não estava pensando nisso.
— E no que estava pensando então? – ela arqueou as sobrancelhas e cruzou os braços.
— Estava reparando no padrão das luzes. Olhe só: – o moreno aponta para o brinquedo – o trajeto delas demora em média três segundos, desde o círculo central até o círculo maior, começando com branco e em seguida ficando vermelhas, azuis e, por fim lilás. Isso se repete cinco vezes, antes de o padrão mudar; agora toda a roda gigante está iluminada, e a ordem das cores está invertida. Lilás, azul, vermelho, branco.
Hiccup terminou sua explicação e desviou seu olhar para a garota ao seu lado, que o encarava com seus olhos azuis faiscantes, como se esperasse que ele dissesse algo.
— O que foi? – ele perguntou, um tanto incomodado.
— Qual é a lição que eu deveria tirar disso?
— Lição?
— Sim. Moral da história, sei lá. Você sempre diz alguma coisa “nerd” depois dessas explicações sobre coisas totalmente desinteressantes.
Ele da de ombros. – Não tem moral dessa vez. Foi só uma observação.
A ruiva ri e o puxa pela mão, correndo por entre as pessoas à procura da barraca de churros.
Após algum tempo indo de barraca em barraca e comendo tudo o que seus estômagos aguentavam, Hiccup descobriu que o plano de Merida era ir aos brinquedos mais radicais e vomitar até desmaiar.
— Ah, não! – o garoto protestou.
— Por favor, Hicc! – Merida fez bico – Você precisa aprender a aproveitar a vida.
— Eu posso aprender outro dia.
Merida revira os olhos para a resposta do amigo e volta a puxá-lo, ignorando os protestos do moreno. A fila da montanha-russa estava enorme e fazia Hiccup querer voltar para casa e dormir por dias, mas também lhe dava a oportunidade de convencer Merida de que eles deveriam escolher algum brinquedo menos radical. Entretanto, ela não parecia dar a mínima importância para o que o garoto dizia.
Depois de um longo tempo esperando, finalmente havia chegado a vez deles, e o moreno ainda estava decidido a fazer Merida desistir.
— Eu to te avisando, Rida, vai dar merda.
— Se der, e daí? A gente vive pra fazer merda mesmo – ela responde enquanto o puxa para um dos carrinhos, sentando-se ao lado dele.
⁑
Eram cerca de onze da noite quando eles saíram do parque. A noite estava quente e Merida parecia ainda estar a todo vapor. Hiccup, por outro lado, ainda sentia as náuseas do ultimo brinquedo, o kamikaze. Ele definitivamente não tinha a menor vontade de ficar de cabeça pra baixo novamente.
Os dois caminhavam meio sem rumo na beira do Lost Lake, um lago próximo ao parque. Ninguém sabe o porquê deste nome, mas todos o chamam assim. Sem mais nem menos, Merida desamarra seus All Star e os tira com certa pressa, em seguida puxa o maço de cigarros do bolso de seu short e o coloca na areia junto aos tênis.
— O que está fazendo? – Hiccup pergunta sem entender a situação.
— Vou dar um mergulho no lago, e você vem comigo.
— O quê?
— Você tem três segundos para tirar os sapatos! Três, dois...
A ruiva estava decidida, Hiccup podia perceber. Discutir com ela não daria em nada, só lhe restava obedecer e tirar os tênis. O garoto colocou-os ao lado dos de Merida, e tirou a camisa em seguida.
— É nova – ele justificou – Minha mãe vai me matar se eu voltar com ela molhada.
Merida apenas assentiu enquanto observava as sardas fofas espalhadas nos ombros dele. De repente, Hiccup estava sendo novamente puxado pela garota. Ela era elétrica, avassaladora como um furacão, sempre arrastando o moreno para suas aventuras loucas, que ele teimava em dizer que não gostava. Talvez ele devesse agradecê-la, no fim das contas. Era Merida quem trazia toda a diversão para sua vida monótona e entediante.
Subitamente, ambos sentiram o impacto de seus corpos contra a água gelada. A noite não estava quente o suficiente para pular no lago, e eles provavelmente pegariam um resfriado ou, no máximo, uma pneumonia. Mas quem se importava?
Eles emergiram da água quase ao mesmo tempo. Merida gargalhava enquanto afastava os cabelos volumosos de seu rosto, a camiseta agora estava grudada em seu corpo.
— Foi divertido, não foi? – ela sorria como se tivesse acabado de descobrir que o verão duraria mais três meses.
De fato, havia sido divertido, mas Hiccup não queria admitir. Em vez disso, ele jogou água na garota, que gritou um palavrão e riu. O moreno continuou fazendo o mesmo até Merida revidar e começar uma guerra. Em meio aos gritos e ofensas, seus olhares se encontraram, e uma força invisível – que ambos acreditavam existir ali – fez com que se aproximassem mais e mais. Quase por impulso, Merida passou seus braços pelo pescoço de Hiccup, que segurou sua cintura. E então seus lábios se tocaram, dando início a um beijo lento. O coração de Hiccup estava acelerado e tudo ao seu redor parecia girar. Será que ela também gostava dele?
O ar se tornava cada vez mais escasso em seus pulmões, obrigando-os a se separarem. Os dois se encaravam como se esperassem por algo. Hiccup não pretendia desviar o olhar, e Merida parecia tão decidida quanto. Por fim, a ruiva baixou a guarda.
Ela respirou fundo. – Escute, eu não sei por que raios eu fiz isso. Só vamos esquecer, ok?
— Não sei se quero esquecer – Hiccup respondeu quase sem perceber, surpreendendo a garota a sua frente – Eu gosto de você há, tipo, um tempão, Rida. Nunca tive coragem de te dizer isso, e nem sei como eu estou tendo agora, mas eu gosto de você. E eu não vou dizer que não espero que você diga que também gosta de mim, ou que eu não vou ficar triste se você disser que não gosta, mas eu entendo se não gostar, de verdade, eu...
— Hiccup! – interrompeu-o, sorrindo – Eu também gosto de você.
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