Notas iniciais
Eu já tinha postado ela antes, mas agora corrigi, modifiquei, melhorei e re-postei. Espero que gostem! Foi escrita por mim há um ano atrás em alguma aula DD:

Colorido

Colorido. O quadro negro, que era verde, estava colorido. Cheio de palavras, que julgava como meramente legíveis, escritas por gizes coloridos. Não entendia nenhuma delas: não unia as letras para formar sílabas, muito menos as sílabas para formar palavras. Não via as frases ou uma ligação entre uma linha e outra. Aliás, tudo o que via eram as cores. Branco. Rosa. Verde. Azul. Laranja. Ou deveria: reflexo de todas as cores, lilás, verde, azul e alaranjado? Ah, sem conceitos físicos!

Física? Não! Não era essa matéria que o professor – levemente acima do peso, com barba e bigode negros curtos, cabelos encaracolados e olhos verdes – explicava. Aquela voz grossa e forte de locutor de loja de roupas em liquidação ecoava pela sala. As ondas sonoras pareciam bater nas paredes, janelas, mesas, cadeiras e pessoas, porém não chegavam aos ouvidos. Elas, talvez, contrariando as leis da física, desapareciam no ar como se o vazio as engolisse. Ou talvez, dentro das leis da física, elas apenas não podiam encontrá-lo.

Ainda assim não era aula de física que estava tendo.

Aliás, sequer fã de física era. Gostava de biologia! Bases nitrogenadas ligadas por ponte de hidrogênio: adenina com timina – ou uracila se fosse RNA – e citosina com guanina. Lei da segregação independente. Polialelia. Fator Rh. Cápsulas proteicas contendo material genético. HIV. Câncer. Bem, tudo o que envolvia sangue também. Morte!

Oh, finalmente chegou onde estava. Não! Além da cadeira onde sentava agora, num canto qualquer, no fundo, sozinho, invisível. Não! Falava de morte, certo? Era onde estava. Não! Não como estava. Apesar de que o como pode ser usado como comparativo e isso gera certa ambiguidade na frase onde o como poderia ser uma comparação a um morto – o que era uma verdade, parecia um zumbi do clipe do Michael Jackson – ou ao fato de estar de tal maneira – o que era uma mentira, afinal, ainda estava vivo, seja lá o que isso significava.

Malditas regras de português que o fez se perder!

Também não estava na aula de português. Nem biologia – o que era uma pena. Talvez... história?

Ah, não importava! Iria morrer não? Talvez de câncer cerebral onde nem o melhor dos tratamentos o curaria. Leucemia na fila de espera por um doador compatível? Ou assassinado? Depois de ser estuprado e espancado é jogado numa rua escura, sozinho, sangrando, morrendo por hemorragia. Esfaqueado até a morte num assalto?

Bem... iria morrer e tinha quase certeza de que não iria precisar lembrar-se de como a luz se propaga no vácuo ou se reflete; de que há carbonos em moléculas de compostos orgânicos; de que Machado de Assis foi um dos melhores escritores brasileiros e atuou com maestria no Realismo; de que 18 Brumário foi um golpe no qual Napoleão começou a comandar a França e blá, blá, blá.

Iria morrer! Iria morrer e seus amigos se esqueceriam, mesmo que aos poucos, de quem era. Se é que podia chamá-los de amigos. Iria morrer e sua família continuaria com a vida de forma indiferente ao acontecimento depois de certo tempo. Iria morrer e o mundo não pararia de girar por isso. Iria morrer... e a vida não era como na ficção!

Não havia aquele amor romântico mais forte que tudo, um final feliz, um deus ou mais chances. Não iria ressuscitar várias vezes e voltar do inferno por como Dean. Não podia desviar de balas de fogo ou fazer uma luta magnífica como Neo. O mais próximo da ficção que poderia chegar era ser a Rose, vendo quem amava morrer para salvá-lo e acabar idoso e sozinho. Não! Rose foi homenageada com um lindo filme de amor que marcara toda uma geração, ela virou ícone de romance ao lado de Jack e, mesmo que doa nela a perda, ela tem um filme. Um amor inesquecível.

O seu não!

Sabia que com as voltas da Terra, aos poucos, iria se esquecer. Primeiro os pequenos detalhes: a cor preferida dela era azul, a comida preferida era lasanha e odiava refrigerantes. Então, esquecer-se-ia dela: o sorriso, o som da risada, o tom de voz, os olhares. E, por fim, os momentos: quando a fez chorar pela primeira vez de emoção na apresentação da escola, do abraço reconfortante de quando lhe disse a verdade, ela dançando. Iria esquecer. Como se esqueceu de lavar os pratos por estar no vídeo game ou a data de seu aniversário.

Quantas vezes já a magoou por esquecer? A data do aniversário dela... de fazer algo que ela pediu. E quantas vezes já a magoou por motivos bobos em discussões desnecessárias? Por ela não permitir que fosse a festas ou que faltasse aula.

E quantas vezes não disse que a amava? Ou não a abraçou? E não a ajudou?

Ela era tudo o que tinha no final! Quem sempre enxugou suas lágrimas, quem o protegia. E agora, nunca mais teria aqueles braços ao redor em um abraço... aquelas mãos a afagar seus cabelos... aquelas palavras doces e reconfortantes.

Perdeu tudo!

Paixões passavam, apagadas por dióxido de carbono como um fogo fraco que nunca tocou os céus. Amigos vão e vem como um ioiô que com o tempo envelhece, se desgasta, estraga e você tem que comprar outro.

O mundo era assim: vazio, frio, solitário. Só agora, sem ela, percebia.

Don’t Worry be Happy de Bob Marley começou a tocar em volume alto. O toque que anunciava o fim das aulas chegava a ser irritante. Quando se ouve ele no mínimo oito vezes ao dia, se passa a odiar qualquer música. Bem, e naquele dia, tudo que falasse para não se preocupar e ser feliz parecia detestável. Como não se preocupar com o fato de que a mulher que mais amava no mundo todo morreu? Como ser feliz com isso?

Com o barulho de todos saindo da sala como demônios fugindo do inferno, guardava seus materiais na mochila negra. Lento. Calmo. Organizado. Por que a pressa se voltar para a casa não significava mais conforto? Redenção.

Não teria mais o arroz, feijão e carne quentes sobre a mesa com a jarra de vidro cheia de suco de laranja e, ao lado, a vasilha colorida com salada de algo qualquer. Não teria a voz doce e gentil perguntando como foi de aula, sobre seus amigos e amores. Aquela zona de conforto, que nunca notou ter até então, não mais existia.

E não tinha mais o porquê de estar apressado para voltar para casa.

Terminou de guardar seus materiais e se levantou, jogando nas costas sua mochila, em seguida. Olhou para a sala. Tão vazia quanto seu coração parecia estar agora. Suspirou, antes de ajeitar os fones em seu ouvido, ligando uma música qualquer, para então caminhar para sair dali.

Cabeça baixa. Andava no ritmo da música que ouvia. Sequer notou como estava. Mas estava! E ia além. Distraído. Não queria dar-se ao trabalho de voltar a pensar. Sequer na música prestava atenção. Deixou a mente vazia.

Só tornou a sentir que o mundo girava sob seus pés quando seu corpo se chocou com o de outra pessoa e acabou indo ao chão, por tamanha distração. Seus fones caíram de seu ouvido. Assustado, ergueu o olhar. Era um menino desconhecido, loiro, com barba por fazer e olhar sério. Estranhamente o fez lembrar-se de Tony Stark e Steve Rogers, como se fosse uma mistura dos heróis da Marvel. Capitão América e o Homem de Ferro em um só!

— Desculpe...

A voz dele ecoou em tom baixo enquanto oferecia a mão. Perguntou-se se aquilo era um comprimento ou para ajuda para levantar. Dando de ombros tocou a mão dele sentindo o aperto forte que ele deu antes de ser puxar para cima. Levantou-se.

— 'Tá tudo bem, cara? — A pergunta saiu em tom sério e notou o olhar preocupado dele.

Seriam as olheiras? Os cabelos sem pentear? Os olhos vermelhos de tanto segurar o choro naquela semana? O que fez aquele estranho notar que não estava bem? Ou era só uma pergunta por educação?

Bem, já fazia uma semana que sua mãe morreu. Ninguém perguntou como estava. Nem seus avós, pais de sua mãe, nem seus tios, primos. Sequer seu pai ou seu irmãozinho de 10 anos. E, com aquela simples pergunta, tudo pareceu ressurgir dentro de si. Os olhos lacrimejaram, enchendo-se das lágrimas que se negou a soltar em toda aquela semana.

— Não...

Notas finais
Reviews?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!