Colorblind

1 Capítulo 1 - Batalha Naval


I –

A primeira coisa que você precisa saber é: o amor não existe.

Exigia certa concentração.

O pincel mergulhava na tinta marrom e espalhava-a delicadamente pela parede ainda branca. Guiando com precisão, vez ou outra a mão largava-o para levar um cigarro aos lábios.

Marrom não era exatamente uma cor muito alegre, mas não necessariamente triste. Não, marrom não poderia ser tomado por uma cor triste, embora fosse uma escolha estranha para as paredes de um quarto.

Os móveis foram arrastados para o centro, e cada vez que se virava Brendon batia acidentalmente no guarda-roupa. Ele balançava um pouco, mas permanecia de pé. O garoto sabia que não cairia, mas não conseguia desviar o olhar até que estivesse estático de novo.

Havia também uma cama, tão branca e lisa quanto o guarda-roupa, com uma cadeira e uma enorme luminária sobre ela, além de uma pequena mesa esquecida perto demais da parede.

E isso era tudo.

A oeste, uma grande janela com cortinas brancas curtas, agora abertas e deixando a lânguida luz do sol se pondo invadir o quarto.

Três portas. Leste, norte, leste. Uma delas era uma passagem secreta, disse Andrew, mas Urie ainda não havia descoberto para onde daria. Não lhe parecia tão secreta assim.

Decidiu que estava pronto. Não havia muita coisa a ser feita antes que a tinta secasse. Começou a tirar cuidadosamente a fita ao redor da janela e das portas.

Acomodou uma máquina de escrever sobre a mesa. A fita havia se soltado e caía em delicados espirais sobre as teclas.

Seria neste quarto, tão desprovido de cores, que, aos poucos, surgiria uma quantidade de palavras suficiente para encher algumas estantes. Elas continuariam ignoradas por um longo tempo, em despeito às acusações do seu autor. Dezenas de razões poderiam ser dadas para isso, mas Brendon preferia uma em especial, que dizia respeito à imaturidade e chuvas ocasionais em Boston.

Mas as cores... Elas estariam ali na primeira oportunidade.

Embora nem todos pudessem vê-las.

Há uma segunda coisa, na verdade, mas por enquanto ela não será revelada, porque entra diretamente em conflito com a primeira.

II –

- Vamos sair um pouco. Tomar um café, não sei. Onde vai dormir esta noite? O cheiro de tinta é quase insuportável. Posso arrumar um lugar no meu quarto. Você não se importa, não é? Está terminando. Até que ficou bonito. Quer ajuda?

Andrew tinha o cabelo curto, muito curto. E isso ainda incomodava Brendon. Ele via nos fios que ressurgiam um aviso muito sutil das possíveis conseqüências de sua ausência. Brendon deveria ter estado ali e segurado a mão do irmão em cada seção de quimioterapia. Deveria ter apoiado seu corpo fraco a cada enjôo e ter sido aquele que se lembraria da hora de tomar remédios — Brendon poderia ter sido o doador que o pouparia de tudo isso. Ele não esteve, ele não segurou a mão de ninguém, ele não se lembrou de nada. Ele não doou nada – não naquele tempo. Agora Brendon sentia que precisava odiar alguém por isso, mas não conseguia encontrar um alvo que parecesse justo o bastante.

- Obrigado, Andrew. — Brendon riu fracamente, tirando o excesso de tinta de suas mãos com um tecido que o outro pensou ter sido uma camiseta — Um café seria ótimo.

Andrew abriu um largo sorriso, amontoando os jornais em um canto e pegando a jaqueta do irmão.

x

Windy City.

Há quanto tempo Brendon não vinha ali? Dois anos ou cinco? Foi nas últimas férias de verão que passou com o pai, antes de perderem temporariamente o contato. Na última ligação, fora convidado a morar com ele. Depois não era mais seu pai, era outra voz que dizia ter péssimas notícias.

Max era um homem simples e importante. Brendon nunca fora capaz de definir a profissão do pai; a cada visita, estava envolvido em novos projetos, como ele mesmo gostava de chamar o entulho acumulado na sala de estar. Não havia muita graça quando a bagunça era entre livros de números e calculadoras, mas a coisa ficava realmente interessante quando envolvia barcos em miniatura ou lápis de cor. Max impunha certo respeito a todos que encontrava, o que deixava o filho de peito estufado e fazendo o possível para acompanhá-lo aonde ia.

Ele morava sozinho em uma casa amarela de dois andares, grande o suficiente para abrigar confortavelmente uma família e um cachorro. Brendon nunca entendeu por que não havia nada disso ali — muito menos por que ele próprio não estava ali, mas preferiu evitar perguntas. Se ele estivesse ali o tempo todo, lembrou-se, não estaria em Boston. E, obviamente, não estar em Boston significa estar a centenas de quilômetros do mar.

Havia outra pessoa ocupando seu lugar nos dias restantes do ano. Ele não sabia disso e, aparentemente, essa pessoa também não. Só soube da existência dela quando recebeu sua ligação, há cinco meses. As notícias ruins.

- Dois cappuccinos.

Brendon encarava o homem à sua frente. Ele era bonito, mas jamais conseguiria descrevê-lo direito – e, acredite, ele tentaria. Isso provavelmente se dava ao fato de Andrew ser incapaz de manter uma expressão pregada no rosto por muitos milésimos de segundo. Elas mudavam constantamente para refletir suas emoções, que corriam muito mais rápido do que ele próprio pudesse acompanhar para ter algum controle sobre elas.

- Desculpe. Eu deveria ter vindo antes. Eu deveria ter estado aqui, mas não pude.

Andrew sorriu ternamente em compreensão, embora ainda incerto de como reagir.

- Tudo bem. Eu posso cobrar isso depois -, suspirou, falhando em seu esforço para manter um sorriso. — Você não sabia, certo? Eu mesmo não sabia. Não havia como... Eu estou feliz que esteja aqui comigo. Você não precisava disso. Poderia ter continuado com sua mãe, talvez pudesse ter até comprado seu próprio apartamento. Mas está aqui.

- Sim, estou -, murmurou, mas sua interrupção foi ignorada pelo outro.

- Eu não entendo por quê só agora. Ao contrário do que ele insinuou, não teria te odiado, de maneira nenhuma. Por Deus, queria ter te conhecido antes. Queria saber que não éramos apenas eu e ele. Queria, sei lá, ter te ensinado a andar de bicicleta.

- Teria me derrubado.

- Provavelmente.

Brendon adorava a praia. Aprendera a surfar com pouca idade e desde então jogava-se contra as ondas do Atlântico, embora esse não fosse o único motivo a prendê-lo no litoral.

Ele gostava da areia fina e branca que se enfiava por entre os dedos dos pés. Gostava do cheiro de água salgada e protetor solar, da sensação de leveza e liberdade que o invadia, de observar as pessoas entregues às cores e aos ventos. Gostava de como se sentia observando o mar e o céu disputando um limite, algo que ele cansou de esperar e por fim aceitou o azul e o sol estendendo-se em incontáveis comprimentos de olhar.

“Há praias em Chicago”, dizia Max, pacientemente.

“A água é gelada demais”, retrucava Brendon.

“A espuma branca invadindo a cidade...”, ainda insistia.

“Mas não é infinita”, e punha um ponto final na discussão.

- Com licença? Seus cafés estão aqui. Meu nome é Theo, caso precisem de...- O garçom não parecia ter a intenção de terminar a frase, mas voltou a mesa antes de ter se afastado muito. – Vocês vêm aqui com freqüência? Sou novo neste lugar. Neste emprego, eu quero dizer. Vocês não têm idéia de como aquela Lourdes pode ser assustadora.

Andrew continuou encarando o avental torto com o nome do lugar dobrado na altura do peito e o pires, alternadamente, sem saber o que fazer. Brendon riu dos dois.

- Eu venho aqui todos os dias, de manhã. Sou Brendon, e esse é meu irmão Andrew — e abriu um sorriso grande o suficiente para fazer o aspirante a garçom suspirar aliviado e retribuir generosamente.

- É um prazer conhecê-los -, disse, acenando com a cabeça saindo então apressado para outra mesa.

- O que foi isso? — Andrew suprimiu uma gargalhada, procurando o biscoito no pires e assoprando o excesso de açúcar.

- Seja um pouquinho mais perceptivo, And. O cara não tem idéia do que fazer aqui e está tentando ser gentil com os clientes para compensar a falta de habilidade. Ele não conseguiu nem mesmo amarrar o avental de maneira apropriada. — Apontou para o garoto, que anotava um pedido, com o tecido da camisa preso no enorme laço em suas costas.

E Brendon, naturalmente, sorriu mais uma vez e cutucou-o, tendo um resmungo como resposta antes de ser ameaçado com uma xícara quente.

Brendon considerou tudo que havia acontecido desde que chegara ali, há dois dias, e logo concluiu que seria absolutamente fácil conviver com o irmão. Talvez ele não falasse tanto o tempo todo como tinha feito até ali, mas isso provavelmente se devia ao fato de estar nervoso com as mudanças e com a emocionante perspectiva de ter seu banheiro ocupado justamente quando precisasse, ou de outra pessoa abrindo sua geladeira e andando pelos corredores à noite. Isso poderia ser superado.

Dentre tantas coisas a ser feitas nos próximos dias, teria de se apresentar na universidade e decidir em detalhes sua nova rotina – algo como horários, livros necessários para cada aula e lugares em que gostaria de estar no intervalo delas sem precisar de mapas e escalas.

Brendon testou um gole de seu café. Estava feliz por poder começar de novo. Estava feliz por ter Andrew ao seu lado e uma gigantesca oportunidade se estendendo à sua frente. Era tudo tão novo e excitante que temia estragar tudo assim que tivesse a chance. Ele não era muito bom com isso – lidar com sua própria vida -, dissera sua mãe.

Desencorajar as pessoas, aliás, era uma habilidade muito característica dela. Talvez fosse por isso que Max havia desistido, quinze anos atrás.

III –

As cortinas estavam encharcadas. Fechar a janela à noite não era de seu feitio. Adivinhar quando uma fina garoa poderia se tornar um dilúvio também não.

A água no chão foi a primeira coisa que sentiu ao levantar-se da cama.

Bela recepção, resmungou, enquanto chapinhava os pés pelas poças espalhadas pelo quarto, tentando encontrar a porta. No entanto, deteu-se em frente à janela, quando a brisa leve e gelada atingiu seu rosto, para tragar a névoa e debruçar-se no parapeito. O sol derramava preguiçosamente seus primeiros raios sobre os prédios enfileirados pela calçada como grandes peças de um brinquedo sem cor e sem atrativos.

Brendon foi pego subitamente pela vontade de pintá-los, assim como fez com seu quarto.

Aquilo era bom. Os fios de vento desenhavam os contornos de seu rosto, atravessavam sua camisa e penetravam em sua pele. Ele não queria que parasse. Não queria que o sol terminasse de nascer.

Não hoje.

- Bom... Dia? Brendon? — Andrew analisou-o dos pés à cabeça. Pés molhados, camiseta amassada, nenhuma calça, cabelo em todas as direções. Havia também uma marca do travesseiro em sua bochecha esquerda da qual preferiu desviar o olhar para não rir.

Brendon suspirou. Viu seus planos de evitar a ascensão do sol serem destruídos, amassados e arremessados contra a parede pelo tique-taque irritante do relógio na cozinha.

A casa não lhe parecera tão silenciosa assim antes.

- Uh, bom dia. Terno legal. Eu me esqueci de limpar o quarto depois da festa de ontem, então acho que é melhor começar antes que você se dê conta do estrago.

- Ah... Panos no armário da lavanderia. Espero que tenha sido divertido.

- Não muito, a cerveja acabou cedo.

Andrew abriu um enorme sorriso – Brendon começava a notar como isso era freqüente -, enquanto apertava a gravata e corria os olhos pela copa, procurando algo que pudesse ter esquecido.

- Tenho de ir para o trabalho agora, então estou te deixando completamente sozinho na cidade. Há cópias das chaves do apartamento na sala e o telefone de uma babá ao lado.

- Eu sobrevivo.

- O café ainda está quente, se quiser.

- Cereal?

- Nenhum cereal, desculpe. Volto ao meio-dia. Comporte-se. – Andrew piscou, girando nos calcanhares e quase batendo na porta ainda fechada.

E então ali estava ele, Brendon Boyd Urie – por teimosia da mãe, não levava o sobrenome do pai -, abandonado à própria sorte em Chicago, com um bule do pior café que já provara na vida esfriando no balcão, cortinas encharcadas e pesadas molhando o que restava de seco em si, e uma incontrolável vontade de chutar o relógio sem números que informava febrilmente a passagem dos segundos da parede sul da cozinha.

Seu quarto já estava devidamente seco e precariamente organizado quando foi procurar comida na geladeira a fim de não desmaiar na rua. Tudo que encontrou fora uma garrafa de suco de laranja pela metade, um pacote de rosquinhas e geléia de limão, o que o obrigava a ir a um supermercado e vestir um casaco.

Ao procurar as chaves, encontrou com elas um endereço e o nome de um restaurante rabiscado com pressa em um pedacinho de papel. Sorriu. Então era assim que Andrew mantinha-se vivo.

“Não há mar em Chicago, mas há lagos.”

“E qual a utilidade deles?” resmungou Brendon, entediado.

Max coçou a barba rala e encarou a miniatura que estava montando.

“Vamos brincar de Batalha Naval!”

“Chega de jogos de tabuleiro, pai.”

Max sorria. Ergueu o filho no colo e saiu apressado de casa, ajuntando dois casacos de lã jogados perto da porta e atirando-os dentro do carro.

Agora sim, pensou Brendon, seus dedos miúdos tentando afrouxar o cinto de segurança. Aonde quer que estejamos indo, é bem mais divertido do que fazer pizza caseira.

Sentiu-se orgulhoso de si por lembrar-se com exatidão do caminho até o Café que fora no dia anterior. Theo parecia completamente perdido entre tantas mesas e pedidos, mas sorriu ao reconhecê-lo e apressou-se até sua mesa.

- Café! — explodiu Brendon, ainda ofegante pela caminhada. – E, ahm, qualquer coisa pra comer.

- Vou verificar se temos esse prato, senhor. — Theo fez uma reverência e saiu correndo para a cozinha, exibindo o laço mal feito no avental às suas costas.

“Não sei, Senhor Max. Todos já foram embora, está escurecendo e o tempo não é dos mais favoráveis. Talvez devesse deixar o passeio para outra ocasião.” O homem olhava para o carro, onde uma criança de seis ou sete anos analisava o porta-luvas. “É o seu filho?”

“Por que não posso usar o barco que eu mesmo construí? Vamos lá, Carl, eu conheço esse lago melhor do quê você e o seu pai juntos.”

“É arriscado. Ainda mais com uma criança.”

“Eu assumo os riscos. Dê-me a chave.” Max lançou-lhe um olhar gélido e estendeu a mão. Relutante, Carl deixou a chave cair sobre ela, dando de ombros e andando em direção à ponte.

- Espero que panquecas e mel atendam suas expectativas, Sr. Urie.

- Eu também espero. Theo?

- Sim?

- Pode se sentar um instante?

- Se a Lourdes aparecer de repente, a culpa é toda sua.

- Quem- Ah. — Brendon pode enxergar uma mulher maquiada demais, colorida demais e com rugas demais no caixa, berrando com uma atendente. — Não mesmo. Ela me assusta.

Theo sorriu, sentando-se no banco oposto e soltando o avental. — Odeio esta coisa. Não serve em mim. Você quer dividir as panquecas, é? Não aceito. Detesto mel.

- Na verdade, eu preciso saber onde posso encontrar um supermercado por aqui.

- Seu mentiroso! — as sobrancelhas arquearam-se, incriminando-o. — Nem conhece a cidade, como pode vir aqui todos os dias?

- Certo, certo. — Brendon tentava falar e comer as panquecas ao mesmo tempo. Não estava funcionando. — Mas agradeço se me perdoar e disser logo onde diabos encontro um.

Theo pareceu analisá-lo por alguns instantes. — Três quadras ao norte. O que está fazendo em Chicago?

- Estudando. Literatura. — O garoto fez um gesto intraduzível com a mão livre e voltou sua atenção para o café. O outro devolveu algo como “Ahhm” e fez menção de sair ao ver Lourdes se aproximar, mas permaneceu sentado.

- Este é o meu telefone — murmurou, rabiscando um guardanapo. — Ligue-me, se estiver perdido pela cidade. — E então saiu.

IV –

- Eu fiz compras hoje de manhã.

- Uhm?

- Precisava encontrar alguma utilidade para aquela geladeira.

- Ah, claro. Bom, é por isso que eu como aqui durante a semana.

- E no final de semana faz dieta?

Andrew tomou o último gole de seu suco e ficou observando Brendon terminar o almoço.

- Há um jantar beneficente no sábado. Você sabe, um monte de médicos se esforçando arduamente pra ficarem bêbados e usando um hospital cheio de crianças com câncer como desculpa.

- Parece legal! — Brendon tentou animá-lo, dando tapinhas em sua mão. — Precisa de ajuda para escolher a gravata?

- Também. Mas eu queria que você fosse comigo.

- Ah. — Seu olhar murchou e ele recolheu o braço para debaixo da mesa. – Veja bem, Andrew, eu não sei se é uma boa idéia. Provavelmente é uma péssima idéia. Nós deveríamos...

- Eu preciso levar alguém. Você precisa ir a algum lugar -, apontou. Brendon arqueou uma sobrancelha. — E levar Gabrielle está fora de cogitação.

- Quem é Gabrielle?

- Minha namorada. — Andrew pigarreou, procurando mais alguma gota de suco no copo. — Você vai? -, olhava-o suplicante. — Por favor?

- Smoking, bebidas esquisitas, comidas com nomes impronunciáveis... E pessoas com o triplo da minha idade, não é? — Andrew concordou com um aceno de cabeça. Suspirou, derrotado antes de entrar em guerra. — Será divertido.

Brendon centralizou a máquina de escrever sobre a escrivaninha. A fita já muito gasta fora enrolada novamente e encaixada nos pinos certos. Girou o botão lateral, deslizando a folha branca para dentro.

E, com a força da tempestade dentro de si, os tipos começaram a chocar-se um contra todos os outros.

Não havia cores no céu. A chuva noturna lavara os restos de sol do dia que, para ele, brilhara como nunca mais. Ainda sentia o cheiro de lilás no beiral da janela, tocava o verde do muro úmido e ouvia as notas agudas do laranja que se balançava nas calhas do telhado.

Ele permaneceu alguns minutos encarando o primeiro parágrafo, distraído na tinta borrada, nas falhas dos caracteres, nos espaços desiguais entre as linhas. Respirou fundo. Evite analisar demais, aconselhou-se. Apenas escreva. Desembarace a fiação sem antes desligar a corrente elétrica.

O homem de olhos acinzentados derrubou seu corpo sobre a cadeira de balanço, tentando manter-se indiferente à tontura que o movimento dela lhe causava. Estava tão velho. Sentia as ruínas rangendo por dentro. Para frente, para trás, para frente, para trás, para trás, para trás. Ele não sabia voltar. Cada caco de luz que se quebrava contra seu rosto compunha as cores de sua alma de volta ao branco. Ele não podia lidar com isso.

“Eu sou o que carrego”, dizia o homem de olhos acinzentados. “Eu sou as reticências.” Mas, naquela manhã de poças de água sujas de tinta e nuvens estilhaçadas, ele sabia que estava errado. As mãos juntavam-se em conchas e carregavam para fora de si a água que apagaria o incêndio ao seu lado. Uma, duas, cinco, seis, quem está contando, afinal? Suas íris azuis tremeluziam ante ao fogo que consumia seu mundo cinza ardósia.

“Meu querido, meu querido, preto e branco não são cores”, dizia-lhe a moça no vestido vermelho-indiano. “São o buraco negro. Cores engolem umas às outras.” E tomava-lhe o cigarro para os próprios lábios.

O homem de mundo incendiado respirava suas chamas e continuava a balançar-se sem nenhum ritmo. Para frente, para trás, para trás. É o vento contrário, dizia ele. É culpa do vento. Estava perdido no segundo ponto – nem reticências, nem ponto final. Ele não podia enfrentar isso.

“Apresse-se com a água se quer salvar o celeiro”, costumava aconselhar-lhe a moça no vestido vermelho-escarlate. “A palha queima rápido e os animais estão assustados.”

Se em vez de ponto-ponto fosse ponto final, ele estaria livre. Livre do calor e livre de si mesmo. Se voltasse a ser reticências, haveria uma chance. Chance de quê?, pois não há janelas se não há portas. Ninguém quer olhar para fora quando não consegue entrar.

“Você é cinza e você é só cinzas e você ainda está tentando entrar no prédio em chamas. Oh, querido, você não pode apagar o incêndio só com o fôlego em seus pulmões. Você assopra e revive as brasas. É preciso queimar junto.”

O carrinho estava emperrado. Péssima hora. O homem era a palha ou o cavalo acuado? Precisava consertá-lo e sabia que as chances de conseguir eram tão grandes quanto as de salvar o homem. Quem teria peças para uma máquina tão antiga?

Levantou-se, pescoço dolorido e olhos estreitos. O sol ainda não chegara à janela.

Encarou a folha; mais dois centímetros e estaria digitando no rolo. E seu conto estava confuso. Ele se sentia confuso. Não conseguia equilibrar as palavras sobre sua língua, tampouco acomodá-las no papel sem que soassem tumultuosas.

Brendon tirou a folha da máquina e jogou-a para dentro do guarda-roupa. Havia um guardanapo em seu bolso. Discou o número que havia sido rabiscado nele e em alguns minutos estava correndo escada abaixo.

V –

A música é ensurdecedora.

Há pelo menos três caras chupando outros no mesmo banheiro que ele.

Alguém passa e toca seu corpo, mãos rápidas que deslizam sobre a camisa e vão embora. Ele não se move.

Sente o cheiro de vodca em si mesmo. Não consegue focalizar algo por muito tempo, as pupilas se escondendo nas íris escuras. Sente vontade de rir e não o faz porque, apesar de todo o lixo na corrente sanguínea, ele está consciente.

E Ryan odeia isso.

Está sentado em uma confortável poltrona de couro preto, ao lado de uma pequena mesa de mármore com tampo de vidro temperado. O banheiro é enorme e branco. E preto. E movimentado.

Sobre a mesa, uma pedrinha branca. Só uma grama. Deixou as outras duas no saquinho, dentro do bolso direito — por precaução. Um único dedo apóia a pedra enquanto a dilacera com um objeto metálico que encontrou na caixa de madeira ao lado. Tira o cartão de estacionamento do bolso esquerdo e transforma o que sobrou dela em uma comportada fileira de meninas em vestidos alvos ajoelhadas em frente ao altar para a oração matinal. O que está acontecendo com ele, afinal?

Nada que já não tenha acontecido antes.

Ryan atendia todo tipo de gente. Gente cansada, gente triste, gente doente, gente como ele. Ryan sorria para elas e as ouvia pacientemente. Ryan procurava destacar as qualidades de cada um e clarear seus defeitos, fazendo-os encara-los de outras perspectivas. Quase sempre dava certo. Nem propaganda, nem devoção – a chave do sucesso é a hipocrisia.

Fora do consultório, porém, ele a repudiava. Era preciso vestir uma máscara para atuar, mas não para viver.

O fato de estar ali provava isso.

Inalou o que pôde e tratou de sair dali, tentando driblar os que estavam ocupados próximo à porta. Do lado de fora, a cena não era muito diferente – apenas algumas luzes e dançarinos “profissionais” acrescentados.

Ele estava sozinho naquela noite, o que estava se tornando um hábito. Havia, claro, a desvantagem de não ter quem leva-lo para casa depois... Mas quem disse que Ryan iria para casa?

VI –

- Por que você não tenta com um computador?

- Eu tenho um, mas não é a mesma coisa.

- Você só quer escrever, não é? Não acha que seria muito mais fácil poder salvar e imprimir quantas cópias quiser depois?

- Eu não quero só escrever. – resmungou Brendon.

Theo equilibrava-se no meio fio, pedindo polidamente a todos os transeuntes que “dessem o fora se não quisessem provocar um acidente”. Brendon andava ao seu lado, cabeça pendendo para o vazio, e uma imensa necessidade de cafeína brotando em seu corpo.

Subitamente Theo parou, deixando Brendon à deriva. Sacou seu celular com um sorriso de quem sabe a cura da gripe, mas não vai contar a ninguém.

- Aplauda, por favor.

- O quê?

- Meu irmão conhece alguém disposto a vender uma máquina de escrever a você.

- Obrigado, Theo. – Brendon quase sorriu. Esforçou-se, ao menos. – Será que podemos ir ao Café agora?

VII –

Andrew desconfiava de que nem ele próprio sabia o que estava fazendo. Tentava convencer-se de isso não era tão importante quanto parecia. Por que precisava fazer diferença? Eles estavam ali agora. Agora não cura passados, mas ajuda a escoar as faltas e excessos. Suas mãos corriam apressadamente pela fila de gravatas, escolhendo por fim uma que, mesmo que se esforçasse, não conseguiria dizer como era. Não era importante, era? Ele não queria que fosse. É difícil perdoar quando não se tem certeza sobre qual foi o erro cometido.

VIII –

Uma semana foi o tempo que levou para Brendon descobrir a diferença entre os ares de Boston e Chicago. Chegava a seus pulmões com mais facilidade agora, embora o gosto fosse o mesmo. Uma semana indo ao Café, conversando com Theo, vendo Andrew tentar faze-lo rir (e conseguindo, na maioria das vezes) e freqüentando a universidade. De repente o oxigênio parecia se solidificar dentro dele. Voltava, aos poucos, a ser o que gostava de ser, já sem a empolgação inicial e a insegurança que ultrapassava os limites usuais. Brendon tentava se convencer de que tudo ficaria bem a cada manhã seguinte.

Talvez estivesse certo. Tudo estaria dentro de seus planos. Concluiria o curso, escreveria seus livros, faria amigos, seria o melhor irmão que conseguisse. Talvez até encontrasse uma garota.

Talvez ainda estivesse certo. Talvez ele só resolvesse mudar de planos. Abandonaria a faculdade, ou trocaria de curso, iria trabalhar em uma loja de materiais para construção, escreveria artigos para uma revista e colocaria um piercing no supercílio.

Talvez sua vida entrasse no caos criado por ele próprio. Talvez as coisas saíssem de seu controle, ele esquecesse quais eram os planos, abandonasse o que amava.

Há sempre aquele maldito talvez.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.