Colorado

1 Prólogo


Notas iniciais
Oooooooooolá pessoas o/

Depois de incontáveis vezes parando e retomando essa fic ela finalmente foi concluída, é quase um milagre ;-;

Sem mais delongas (porque não tenho criatividade para essa sessão): tenham uma boa leitura ^^

Piper estava um tanto cansada.

Viajar de carro nunca fora algo que tivera seu apreço, principalmente porque houvera a necessidade de pegar um voo de Nova York até a Califórnia, apenas para descobrir que a missão em questão tinha como início o Colorado.

"Se eu soubesse disso teria esperado vocês em Denver!"

E por que pelos deuses Nico simplesmente não os transportava até o lugar?

A filha de Afrodite suspirou e molhou o rosto na pia do banheiro, tentando deixar o cansaço de lado, fez o possível para dormir por boa parte das dezessete horas, — o Argos II era muito mais rápido que aquele Mustang azul de no mínimo trinta anos, — o filho de Hades simplesmente lhe dissera que aquilo era necessário quando mandou uma mensagem de Íris na semana passada e que explicaria tudo quando chegassem ao seu destino. Enxugou o rosto com uma toalha de papel e saiu do banheiro do posto de estrada.

Por que tinha concordado em participar daquela palhaçada?

"Por que aqui ninguém encara você?"

Olhou para os lados procurando seus companheiros de viajem sem que pudesse localizar nenhum, Reyna havia ido comprar comida e Nico também fora até o banheiro, mesmo com o vento frio da madrugada naquele começo de inverno, Piper decidiu esperar fora do carro, já passara tempo o suficiente nele e suas pernas precisavam de um pouco de movimento.

"Isso é tão esquisito."

Foi um impulso que a movera a aceitar o pedido do filho de Hades, a exatos seis dias o Acampamento Meio-Sangue se tornara um lugar hostil e pouco acolhedor, precisava de outros ares e uma forma de aplacar sua raiva.

O que melhor que uma missão para isso?

"Mas não fazer ideia do que está acontecendo só me deixa irritada."

Ter Reyna como companheira de viajem também estava sendo incômodo.

Era verdade que haviam se entendido depois da guerra, a pretora se tornara parte da grande família por quem batalhou junto a seus amigos, lutaram ombro a ombro, aparentemente havia desistido de Jason, — aliás nunca fora realmente um problema na relação dos dois se parasse para pensar, — entretanto depois da conversa as margens do lago de canoagem se encontraram mais um ou duas vezes.

A sensação de que eram estranhas só se tornava maior a cada vez que seus olhares se chocavam, Piper só estava tentando juntar coragem para puxar algum assunto e descobrir se era apenas sua imaginação ou se os olhos castanhos sempre tiveram aquele tom avermelhado.

Mas a pretora sempre notava e a fitava pelo reflexo do retrovisor, quase como se questionasse o que ela queria ou que fazia ali.

"Pergunte ao Nico..."

— A Reyna ainda está lá dentro? — O pulinho de susto foi impossível de ser contido, depois de suspirar e se acalmar o suficiente virou-se para a esquerda, Nico tinha os olhos fixos na pequena loja ao lado do estacionamento, mas os desviou para ela quando notou seu olhar irritado, sorrindo sem graça.

O filho de Hades havia melhorado bastante seu convívio social desde que começara a namorar Will, entretanto aquele velho hábito de chegar de fininho não tinha sumido.

— É o que parece. — Murmurou, cansada: física e mentalmente.

"Nem a Reyna sabe o que estou fazendo aqui, o que você está aprontando, Nico?"

Já não se via capaz de aguentar mais tempo sem saber.

— Acho que vou ver se está tudo bem. — O comentário saiu de forma banal e distraída, o que não a fez acha-lo menos esquisito.

— Tenho certeza que a Reyna sabe comprar comida. — Contrapôs semicerrando os olhos, ele nem fez questão de encara-la, apenas continuou a olhar para a loja.

"Você quer me evitar com essa desculpa esfarrapada?"

— Qual é a missão? — Indagou, se contorcendo para não usar o charme.

O filho de Hades continuou a olhar para a construção, parecia incerto, por fim coçou a cabeça, voltando-se para ela.

— Temos que vigiar a Reyna por algum tempo. — Sussurrou, aparentando nervosismo, Piper cruzou os braços.

"Mas do que você está falando?"

— E por que temos que vigia-la? — Não tinha ouvido nada de estranho, era a pretora, não uma criminosa, e se o fosse, por que precisavam dela para isso?

"Simplesmente não faz sentido."

— Eu disse que explicaria quando chegássemos lá. — Arfou, indignada com a resposta. As mãos do filho de Hades foram até o bolso da blusa negra e grossa estilo canguru, seu timbre de voz dizia claramente que se sentia na defensiva, tentando parecer calmo quando não detinha esse sentimento.

— E onde é esse lugar? — Seu tom impositor o fez desviar o olhar para o asfalto do estacionamento. — Estamos rodando há horas sem que você me conte, por que temos que ir de carro? — Aumentou o tom de voz sem que notasse, Nico tinha o dever de dizer o que se passava, tinha o direito de saber para o que fora arrastada! — O que a Reyna vez? Foi suspensa? Alguém está perseguindo ela? Por que não ficaram no Acampamento Meio-Sangue ao invés de um buraco no Colorado? Como ninguém ficou sabendo de algo assim?

Sabia que as perguntas tinham saído rápido demais, mas o fato não era nada importante, queria respostas e não ligava se ele não quisesse lhe contar, Nico inspirou longamente e tirou o cabelo bagunçado pelo vento da testa.

— É meio complicado. — Deu de ombros, sem realmente ligar para toda sua raiva.

"Deuses!"

Teria adorado continuar a discussão para que sua consciência não ligasse para o uso do charme, isso se um estrondo não tivesse a feito se assustar.

Piper girou 180 graus puxando Katoptris, pronta para enfrentar o Minotauro e um titã se fosse o caso, Nico fez o mesmo, a espada do Éstige em sua mão, apenas para verem um homem enorme deitado no chão a frente da loja.

O asfalto estava coberto de cacos de vidro da vitrine, o homem, — que mais parecia um clichê de motoqueiro gordo de gangue, — continuava deitado, atordoado com...

"Alguém jogou ele pelo vidro?"

Aparentemente sim, por mais que aquilo fosse bizarro, — mais de cem quilos com toda a certeza, — Piper assistiu-o se levantar meio atordoado, tirando os cacos de vidro da jaqueta preta e massageando o peito.

Como se a cena já não fosse esquisita o suficiente, a luz que vinha de dentro da loja de conveniências subitamente foi diminuída de alcance, uma sombra cumprida levou Piper a observar seu dono.

— Mas que... — Nico sussurrou, personificando sua descrença também.

Reyna saltou a curta distância da base da vitrine arruinada até o chão da sarjeta, ela não tinha mudado em nada desde que a vira minutos atrás, a blusa de frio do Acampamento Júpiter continuava com ela, mas no momento se encontrava com os botões abertos, carregava consigo algumas sacolas.

— Não vai pedir desculpas? — A pretora indagou com a firmeza de alguém não estava simplesmente pedindo, deixando as sacolas cuidadosamente no chão.

— Desculpas?! Eu vou matar você, sua desgraçada! — Ele correu na direção dela, sua raiva era tanta que até os passos pareciam descarregar a emoção e, Piper não queria sequer imaginar o que aconteceria se chegassem ao alvo de sua cólera, conseguiu dar dois passos até Nico segurar a manga de seu casaco, forte o bastante para impedi-la de continuar.

— Quer entender o porquê de estar aqui? — Indagou com uma calma fingida emergindo em seus olhos escuros, indicou com um aceno o confronto iminente. — Então observe.

Ele não a soltou, portanto acatou a sugestão. Reyna deu dois passos largos e ágeis para a direita, desviando do ataque com facilidade, as mãos foram para os bolsos de sua blusa, gesto que enfureceu seu adversário ainda mais, a respiração dele pode ser ouvida a distância, quase como uma versão mais humana do Minotauro, alguns homens apareceram no buraco da vitrine, estavam vestidos com jaquetas e outros adereços de motoqueiros, junto deles se destacava um senhor idoso, usando um suéter típico do natal e com a cabeça grisalha, foi com alívio que notou que nenhum parecia ter a intenção de entrar na briga.

A filha de Belona continuava a desviar dos socos do homem sem muita dificuldade, já ele parecia cansado, algo lhe dizia que Reyna estava o fadigando de proposito, porém não deveria ser segredo algum a ninguém que em um soco acertado ela não teria como continuar, apertou sua adaga com força, sem entender porque Nico negava ajuda a sua melhor amiga.

A pretora desviou de mais um soco pela esquerda, deu mais três passos largos para trás, correndo em seguida até ele, saltando e chutando suas costas com força, fazendo um som seco ecoar pelo estacionamento silencioso, o homem caiu no asfalto como um saco de batatas, Reyna andou despreocupadamente a sua frente enquanto estalava os dedos, esperando com uma calma descomunal que ele começasse a se erguer.

Ele era tão grande que mesmo de joelhos poderia desferir um soco em sua face, porém naquele momento quem deu o gancho fora a romana, jogando-o no chão novamente, tamanha a força que se aplicara, sem se dar por satisfeita Reyna debruçou-se sobre ele, sentando em seu peito, dando mais uma prova de quem havia ganhado a luta.

— Prometeu que daria meu enterro embaixo desse concreto, por acaso não tem palavra? — Puxou-o pelo lenço vermelho pendurado em seu pescoço, socando seu rosto pela terceira vez, mesmo com a iluminação precária Piper pode ver com nitidez o sangue espirrando, para o asfalto, no rosto dele e nas mãos dela. — Peça desculpas e jure que nunca mais vai tirar proveito desse lugar. — A voz de Reyna não era alta, mas toda a imponência que ressoava era o suficiente para que não fosse ignorada.

A filha de Afrodite observou a pretora se abaixar um pouco mais, apenas para suspirar de irritação crescente e socar seu nariz com força, não se surpreenderia se tivesse o quebrado.

— Não para mim. — A raiva em sua voz a fez estremecer, o sangue pingava de seu punho fechado.

Era um fato consumado de que já havia visto cenas horríveis, vivido situações que lhe davam calafrios até hoje, matado monstros e se banhando em seu pó dourado, em missões ou na guerra, mas nunca em toda sua vida presenciara uma briga de rua de verdade, nunca atacara outro ser humano daquela forma tão voraz e violenta, mesmo em momentos em que Drew merecia um belo de um tapa, — ou mais do que isso, — jamais se vira capaz de agredi-la de verdade, ver aquilo a lembrou de um dia dizer a Reyna em sua despedida que ela não era filha verdadeira de uma deusa da guerra, já que buscava tanto pela paz.

Ali, olhando para toda a brutalidade, Piper entendia o que de fato significa ser filho de um deus violento.

— Peça desculpas a quem você prejudicou por anos. — A voz firme não dava direito de réplica, o punho continuava fechado e erguido, pronto para quebrar outras coisas.

— Desculpe! — O medo em seu tom nasal era óbvio, dito em alta velocidade para que não se machucasse mais. — Juro nunca mais roubar esse lugar!

— Esse? — A pretora afastou mais o punho.

— Nenhum! Eu juro pela minha mãe. — Acrescentou quando ela apertou seu lenço.

— Ótimo. — Murmurou, com real satisfação. — E eu não me importo que tenha que vender a moto ou hipotecar a casa, vai devolver tudo o que tirou dessa loja. — Socou seu rosto por uma última vez, a cabeça perdeu para baixo evidenciando o desmaio, apenas então a romana se levantou, fitou os homens que apenas olhavam a cena, metade recuou, a outra levou as mãos para cima, admitindo derrota. — Se vocês fizerem alguma coisa achando que eu não saberei, volto e pessoalmente vou arrancar seus dentes com um alicate. — A calma e seriedade presentes em sua voz fazia a espinha de Piper gelar, mesmo que a ameaçada não fosse ela.

Reyna pegou as sacolas e andou em direção ao carro, como se nada tivesse acontecido, Nico puxou seu braço para que andasse quando as portas foram destrancadas, a pretora se sentou no banco do motorista e colocou as sacolas no bando de trás, pondo o cinto de segurança e ligando o carro enquanto eles se aproximavam, ainda em choque.

O filho de Hades se acomodou no outro banco da frente depois da grega se sentar ao lado das sacolas, o silêncio era incômodo, porém se via agradecendo por ele, já que dizer algo naquele momento seria impossível.

— Tem água, refri, salgadinhos e sanduíches na sacola. — Reyna informou enquanto fazia o Mustang se mover. — Vocês deram sorte, eram os últimos. — Piper olhava para o banco de Nico fixamente, sem coragem de encarar aquela que falava de forma tão rotineira, como se não tivesse acabado de espancar uma pessoa e ameaçar outras dez.

— Valeu, mas acho melhor chegarmos primeiro, falta pouco. — Felizmente seu companheiro de viagem sabia disfarçar.

O silêncio continuou, apenas sendo quebrado pelo ronco do motor, aos poucos a filha de Afrodite se acalmou, seus olhos sendo atraídos para a motorista sem que pudesse evitar, passaram pelo chão do carro, subindo levemente até o banco cor creme.

Os nós de suas mãos estavam mais limpos do que supôs a princípio, o sangue estava secando e cobria parte das costas de suas mãos no volante, que era apertado com firmeza, as mangas brancas se encontravam sujas de terra e com respingos de algo mais escuro, pelo retrovisor Piper tinha a visão apenas de seus olhos, concentrados na estrada, aquele tom vermelho de antes sobrepujava o castanho normal e, soube no mesmo segundo que tinha algo de errado com ela.

Muito errado.

Notando seu olhar, Reyna a fitou pelo espelho também, a indagação firme continuava presente, virou o rosto para o lado da janela de maneira instintiva.

Algo lhe dizia que aquela seria a missão mais perigosa e difícil de sua vida.

"Pelos deuses, onde é que eu fui me meter?"

Notas finais
Algo errado não está certo.....Algo muito errado não está nada certo e.e

Por hoje é só pessoal, até semana que vem o/