Colorado
8 Capítulo 07
A pretora andava de um lado para o outro na sala de jantar, nem muito rápido, nem muito devagar, como se pensasse em tudo que acabara de ouvir, as botas pretas quase não soltavam ruídos, junto com a calça jeans escura, a jaqueta preta, — tendo por baixo a camiseta do Acampamento Júpiter, — o cabelo trançado: era como se estivesse pronta para ir à guerra.
Ela estacou a frente do arco na parede com os braços cruzados de costas para eles, passou a bater o pé no chão seguindo o compasso dos segundos, o que era bem irritante.
"Vai continuar com o suspense até quando?"
— Segundo o que acabaram de me contar. — Começou com a voz de um orador experiente, de alguma forma cada palavra a deixava mais tensa e nervosa do que já estava. — Eu fui contaminada com uma toxina que inibia meu sendo de convivência social e para que nenhum dano fosse causado a ninguém me trouxeram para outro estado. — O som da bota batendo parou, Reyna encarou Nico por cima do ombro. — É isso?
— É... — O filho de Hades ligou o olhar com o seu, quase como se pedisse ajuda de como seguir.
— E falaram com Hylla para achar um lugar isolado. — Ambos a fitaram com curiosidade, mesmo que a pretora já encarasse o arco outra vez. — Ela adora guardas os troféus para si mesma.
Notar o escárnio em sua voz foi tão fácil que Piper ficou feliz de não ser o alvo de tamanha hostilidade.
Reyna virou-se, apoiando as mãos na única cadeira do local, o sorriso sarcástico também lhe deixou com medo.
"Ok, elas realmente não se dão bem."
E Piper ainda achava que sua relação com Drew era ruim.
— Quanto tempo se passou a tudo isso? — Inquiriu o grego da resposta, não pode culpar o garoto por ter se assustado.
— Acho que... — Ele desviou o olhar para o teto, contando, o maxilar de Reyna tensionou mais do antes com a demora.
— Cinco dias. — Respondeu a encarando, Reyna fechou os olhos por um instante e suspirou aliviada.
Conseguia entender as atitudes dela, mas a sensação de seu olhar estava sendo evitado era grande demais para jogar em algum canto.
— E o que inventaram como desculpa para a minha ausência? — Seus dedos passaram a tamborilar a cadeira segurada com firmeza, a qualquer um aquele seria um gesto pequeno, talvez ansiedade, mas a Piper soou como uma ameaça.
Pelo rosto de Nico seu pensamento não fora diferente.
— Que você tinha se machucado quando tentou impedir o Héctor de atirar no Poe. — A fala dele era cautelosa, sabendo muito bem que a pretora ainda se encontrava em choque.
"Como se comigo fosse diferente."
— Se lembra disso? — Nico murmurou com expectativa na voz, os dedos de Reyna pararam de se mexer.
— Eu me lembro de ver Héctor agindo estranho nos Jogos de Guerra, ninguém age furtivamente contra o próprio aliado. — A última sentença foi dita para si mesma, quase como um pensamento alto. — Por que não me lembro de nada? — A voz dela havia perdido o tom assustador de chefe carrancudo, agora parecia apenas irritada consigo mesma.
— Quando Will me deu a poção disse que poderia ter alguns efeitos colaterais. — Lentamente Reyna voltou seus olhos para grego, a surpresa pairou no ar por segundos muito longos até que os olhos dela passassem a refletir raiva.
E não era contra si mesma.
— Me deu uma coisa que pode apagar as minhas memórias? — O sussurro saiu descrente e cada vez mais irritado, como se apenas com a fala pudesse acreditar no ocorrido. — Nico!
— Ele disse que o mais provável era você ter crises de labirintite. — Ele deu um passo para trás.
— Labirintite! — Agora já não havia pose civilizada, ela espalmou as mãos na mesa provando um barulho alto que fez a filha de Afrodite também dar um passo para trás. — Labirinte?!
E de alguma forma essa opção aos olhos dela pareceu pior.
— Você não teve nenhuma crise de labirintite e o remédio fez efeito. — Sua fala racional e pacifica chamou a atenção de ambos, embora a pretora não tenha conseguido sustentar seu olhar por mais de dois segundos.
E isso foi mais assustador do que todas as crises de raiva que ela pudesse ter.
— Ok. — Reyna suspirou a palavra, fechando os olhos para se recompor. — Arrume suas coisas McLean, Nico a levara de volta para o Acampamento Meio-Sangue, para casa ou onde quiser ir. — Dito isso ela andou rapidamente até a sala.
Piper encarou o outro no recinto com dúvida, algo que pareciam compartilhar, antes de seguirem atrás dela.
— O que vai fazer? — Nico a indagou, que por algum motivo aleatório examinava a sala, por fim seguiu até a ponta do sofá e abriu uma gaveta que Piper nunca notou: era um telefone.
— Falar com minha irmã. — Foi a única coisa dita antes de a assistirem subir as escadas de dois em dois degraus e sumir por uma das portas.
— Bom... — Murmurou ele. — A missão terminou, vamos voltar para casa.
***
Mecânico e automático, quase como se seu corpo trabalhasse enquanto seu cérebro permanecia em estado de repouso.
Empurrou as roupas na mochila e a fechou com mais facilidade do que a dias atrás, teve tempo de arrumar a cama e pensar por longos minutos o que faria com os cobertores picotados ainda no chão.
Ela não se lembrava de nada, absolutamente nada.
Era como um maldito remake de seu Momento Jason.
"Que maravilha."
Sentou-se na poltrona, olhando para cada centímetro do quarto, nunca mais o veria na vida, aquele era o último momento que teria para aprecia-lo, o repouso final de seu olhar foi a lareira, como não poderia deixar de ser.
Mesmo nas primeiras horas do dia, o sol estava mais forte do que poderia sonhar em um inverno tão potente quanto o do Colorado, o aquecedor da casa fazia um trabalho ótimo a ponto de sua vontade de acender o fogo ser nula.
Provavelmente seria mais incômodo do que agradável.
Quando examinou as cobertas brutalmente destruídas pareceu a Piper quase impossível que fossem consertadas, já que o algodão de dentro tinha saído e uma parte estava desfiando.
Era melhor jogar fora do que deixar ali jogado.
Estava tentando dobrar tudo da melhor forma possível, — descer uma escada com a visão prejudicada era um ato deveras suicida, — quando ouviu alguém pigarrar.
Dizer que estava surpresa por ver a pretora na porta de seu quarto seria uma mentira deveras deslavada.
— Oi. — Cumprimentou a garota que parecia muito interessa no chão. — Algum problema?
— Não. — Reyna cruzou os braços e se apoiou batente da porta, ela fitou todo o amontoado de cobertas em suas mãos, porém logo veiou a atenção para o quarto. — O que está fazendo?
— Arrumando, vou jogar fora os edredons que você cortou. — Ela fez um som de concordância e a conversa morreu.
Talvez em outro momento, em uma situação diferente pudesse rir, ou até achar a forma envergonhada com que a romana se portava bonitinha, tudo o que Piper sentia era um constrangimento enorme.
— McLean. — Ela respirou longamente, sussurrando como se contasse um segredo, um bem ridículo. — O que eu estava fazendo aqui? — Com muito custo a pretora a encarou. — Tem alguma coisa que eu precise saber sobre... Sobre esses dias? — A frase morreu, mas os olhos escuros gritavam, apavorados, para que lhe desse uma explicação plausível.
Uma que fizesse sentido.
— Dormiu aqui porque você quis. — Deu de ombros, voltando a atenção ao pacote em mãos, amassando-os como podia. — Não tem motivo, Reyna. Foi só um impulso por causa do veneno, não tenho nada para contar a você.
Mesmo que as palavras queimassem sua garganta e cada uma fosse um soco no estômago: não deixavam de ser verdadeiras. Tudo que tinha acontecido nos últimos cincos dias foram apenas impulsos financiados pelo veneno e sua carência e auto piedade.
Por que deveria levar isso adiante?
— Claro. — O alívio na voz dela foi uma facada profunda que tratou de ignorar. — O Nico está pronto para vocês irem para o Acamamento Meio-Sangue, dessa quando também estiver.
Reyna lhe deu as costas e fechou a porta sem esperar uma resposta, um sorriso cheio de ironia brotou em seus lábios.
— Quando eu estiver pronta. — Murmurou para si mesma, degustando a ambiguidade daquela sentença.
***
Diferente da última vez que tomara aquele caminho, Piper não estava com raiva, preocupada, confusa ou com vontade de matar qualquer um que a olhasse torto.
Exceto se topasse com Drew.
Abrindo a pesada porta do chalé um topou com um grande nada.
De todos os chalés do acampamento, um dos que menos gostava era o de Zeus, os constantes trovões, a estátua gigante e intimidadora e até a falta de móveis parecia dizer que ninguém deveria entrar ali.
Sua teoria secreta era que o Rei do Olimpo usava o lugar para seus encontros secretos.
Atualmente havia um pequeno guarda-roupa de madeira, — que parecia alienígena a todo o resto, — uma cama, — que lhe dava a mesma sensação, — Jason não tiveram coragem de tocar os pertences e fotos esquecidas da irmã, era como uma lembrança de que ambos tinham um laço.
E que o punk nunca morreria.
Sentou-se na cama e esperou, segundo seus irmãos fofoqueiros o filho de Júpiter estava treinando com o arco a pouco, não deveria demorar a aparecer, aquele era seu segundo dia de volta e ainda não havia topado com ele.
Não era complicado concluir que estava sendo evitada.
"Não posso deixar as coisas assim mesmo que você queira."
Ainda eram amigos acima de qualquer coisa.
E sua consciência estava pesada pela quantidade de besteiras que disseram um ao outro, esperava do fundo do coração que Jason sentisse o mesmo, não queria fazer papel de idiota.
"E se ele ainda estiver bravo porque eu disse que o cérebro dele tinha sido sugado pelo cabelo?"
Talvez a ideia de ir até lá não tivesse sido uma de suas melhores.
"Mas que droga, desde quando você pensa tanto nessas..."
A porta rangeu.
— Piper? — O filho de Júpiter franziu o senso, como se os óculos enganassem seus sentidos. — O que está fazendo aqui? — Sem a surpresa do começo, mais tenso e receoso ele fechou a porta, andando até ela de um jeito nada à vontade.
Não que pudesse culpa-lo totalmente.
"Pelo menos não está mais bravo."
Ao menos uma briga seria evitada.
— Vim conversar. — Balançou os pés, tão confortável quanto o loiro. — Acho que devemos isso um ao outro.
— É. — Disse, sentando-se ao seu lado na cama, não sentia o olhar dele, Piper tão pouco o encarava. — Acho que sim.
— Eu tive muito tempo para pensar sobre o que aconteceu, sobre ter terminado tudo. — Pela janela viu um bando de filhos de Ares correndo atrás das garotas que substituíram os Stoll.
Pela quantidade de risadas era bem provável que o chalé cinco ainda terias problemas.
— E onde esteve? Nico disse que vocês fizeram um trabalho para os romanos, ele parecia um espião carrasco do 007. — Piper sorriu com a comparação.
— Você não acreditaria se eu dissesse. — Levou o olhar até o dele, quase se desculpando. — Ficamos vigiando uma coisa para eles. — As perguntas ainda eram notórias em sua expressão. — De qualquer forma está tudo bem. — Deu de ombros para encerrar de vez o assunto. — Eu queria me desculpar por ter jogado as minhas frustrações e mau humor em você. — Suspirou, irritada consigo mesmo.
"Agora parece tudo tão idiota."
— Eu estava confusa com meus próprios sentimentos e como você era a pessoa mais perto de mim, acabou recendo o impacto. — Leo tinha sorte de dividir o tempo entre a namorada e a oficina.
Certamente sobraria para ele também.
— Você está confusa, ok. — Jason ajeitou os óculos com o indicador, parecia tão perdido quanto no dia em que discutiram, talvez mais. — Confusa sobre o que?
— Sobre meus sentimentos em relação a você, sobre o futuro e tinham algumas coisas do passado que estavam me incomodando. — O loiro a indagou novamente com o olhar a respeito da última fala, porém Piper preferiu ignorar.
Já tinha sido árduo assumir seu sentimento de culpa uma vez, outra em um espaço tão curto era extrapolar.
— Parecia que a minha vida já estava toda feita, costurada ponto por ponto. — Voltou-se para a porta, sentindo a tensão que estava nele fazer uma pequena migração.
— Ei, Pips. — E talvez seu estado de espírito fosse algo palpável em demasia. — Explique isso direito.
Concordou com a cabeça e respirou fundo.
— Ano que vem nós nos mudaríamos para Nova Roma para fazer faculdade, seriamos os padrinhos de Percy e Annabeth depois que eles se formassem. — Ou ao menos Piper tinha certeza que seria, competir com Grover e Tyson seria complicado. — Depois eles seriam nossos padrinhos quando nos formássemos. — Ou Annabeth seria, Leo era um páreo impossível de ser batido. — Voltaríamos para Nova York para ficar perto do Acampamento Meio-Sangue porque você não gosta do Júpiter.
— Eu nunca disse que não gosto dele. — Piper sorriu, Jason era um péssimo mentiroso.
— Arranjaríamos um emprego, faríamos a preparação para o primeiro filho, teríamos encontros de casais com nossos amigos quando tivéssemos tempo e blá,blá,blá... — Respirou fundo para continuar. — Depois que nossos três filhos estivessem encaminhados...
— Três? — Ele ofegou de espanto, a filha de Afrodite apenas deu de ombros.
— Eu convenceria você a morarmos na Califórnia porque as praias de lá são mais bonitas. — O que era uma verdade absoluta. — Nossos filhos teriam filhos e seriamos um casal de idosos adorados pela vizinhança e que os netos amam porque moramos em um lugar legal, depois morreríamos. — Encarou-o novamente. — Alguma pergunta?
— Quando foi que você pensou nisso tudo? — O romano sequer conseguia disfarçar o espanto e Piper jamais poderia culpa-lo por isso.
— Ontem, quando notei que éramos uma cópia de Helena e Páris, até a arma dela está comigo. — Encolheu os ombros antes de sorrir da cara de compreensão e surpresa exagerada do loiro. — Não me leve a mal, não é como se eu detestasse a ideia. — Todo o divertimento havia saído de seu rosto, não só do seu. — Mas eu só tenho 16 e minha vida inteira já está pronta, como se fosse só sentar e assistir. — As palavras saíram com alívio de sua boca, quase como se elas fossem as culpadas da pressão em sua cabeça. — Não quero isso e acredito que você também não gostaria de viver assim.
Assistiu-o engolir em seco e entrelaçar os dedos, os cotovelos apoiados nos joelhos e o rosto concentrado em algo que Piper não podia ver.
— Então é definitivo? — Soltou um murmúrio conformado e a grega lutou contra si mesma para não pousar a mão em seu ombro, fixou o olhar na janela, apenas para notar a coloração alaranjada tomar o ambiente.
— O que não significa que precisamos nos odiar ou coisa assim. — Era um fato que seu discurso fora completamente improvisado, mas a voz nervosa e agitada seria o bastante para estapear a própria cara. — Deu certo enquanto durou, então não deveríamos...
— O que poderia ser mais forte do que matar gigantes juntos? — Era uma piada, mas nenhum riso foi ouvido.
— Jason...
— Se alguém vir você aqui vamos acabar lavando pratos a noite toda. — O filho de Júpiter se levantou, seu olhar se prendia em tudo que não fosse ela. — E sabe como as fofocas são no acampamento. — Ele deu de ombros como não se importasse.
Piper apenas se levantou.
— Então... — Andou a passos lentos até a porta, sem saber mais o que dizer. — Até depois.
— Até.
Uma brisa suave a atingiu assim que saiu do chalé, porém a grega quase não a notou enquanto rumava para o chalé de número nove.
Desde o começo mentiroso da Névoa eles eram um trio, se ajudavam mutuamente, se Piper não podia ajudar, essa tarefa seria apenas de mais uma pessoa.
***
Paz, essa era a palavra que definia o espírito de Piper nas últimas duas semanas.
Jason não ignorava a conversa que tiveram, mas também não a ignorava. Seus irmãos haviam parado de tagarelar e dar opiniões sobre seu relacionamento, — apenas a fitavam com decepção, — até Drew tinha ficado quieta depois do lembrete de que a única pessoa armada naquele chalé era justamente quem estava irritando.
A constante ideia de que sua vida continuava sem um traçado certo era mais libertadora do que medonha, — afinal, já não havia mais um caminho a seguir, — era como respirar ar puro depois de muito tempo em um lugar abafado cheirando a mofo. A sensação de ter tanto o que pensar sobre a folha em branco que tinha nas mãos se assemelhava ao momento em que soube o quanto era importante para o destino do mundo.
Exceto sobre a vontade de vomitar.
E é claro, finalmente chegara a uma conclusão sobre seu romance, — que não aconteceu, — de verão, — no inverno.
Não importava de que ângulo olhasse, que desculpa inventasse para si mesma, todos os momentos que compartilhou com Reyna estavam no passado, como ela mesma dissera: enterrados bem fundo.
Aquela garota com quem esteve por apenas cinco dias, que mudou sua forma de pensar, a fez entender seus próprios sentimentos, com quem criou intimidade o bastante para se sentir confortável e segura a ponto de falar sobre suas falhas mais graves não existia, era acessível apenas a sua memória.
Levaria o aprendizado e a leveza de seu olhar para o restante da vida, — assim como o ódio pela interrupção precisa de Nico, — o fato de a pretora ter esquecido tudo lhe pareceu quase um presente das Parcas, seja lá o que houvesse sentido no Colorado, a Reyna real não era ligada a eles.
E de fato, Piper estava plenamente consciente e convencida de que a melhor escolha estava tomada, se encontraria com a romana raramente e tudo voltaria ao normal, o que tinha acontecido no Colorado havia ficado no Colorado.
Isso até vê-la estudando seu chalé como se fosse o lugar mais sinistro que já encontrara.
— Não sabia que era tão fã do trabalho do seu pai, McLean. — Piper tinha parado na porta, deveras surpresa, porém seguir o olhar dela para aquele pôster nojento de seu pai só de tanga em O Rei de Esparta foi o melhor banho de água fria de sua vida.
— Essa não é minha cama. — Fechou a porta e vasculhou o quarto em busca de sinais de qualquer outra pessoa.
Por algum motivo a ideia de alguém saber do encontro a deixou nervosa.
"O que pelos deuses você está fazendo aqui?!"
— Quando você...
— Quinze minutos. — Ela continuou a olhar os beliches sem encara-la, as mãos estavam unidas atrás do corpo, mesmo vestida como uma pessoa normal era notório até a quem não a conhecia o militarismo presente.
Era como se a pretora pudesse começar a marchar a qualquer momento.
— E como...
— Nico estava voltando e resolvi pegar uma carona. — Reyna olhou pela janela com atenção por alguns segundos, andou pelo lugar e a expressão de reprovação com a roupa suja amontoada em um canto lhe deu a impressão de que o acampamento havia terceirizado a inspeção. — Eu sei que não é permitido meio-sangues de diferentes divindades ocuparem um chalé sozinhos... — Ela deu de ombros, o som do coturno batendo no piso revelava um passo lento e confiante, Piper não conseguia tirar os olhos dela, a voz macia, cheia de confiança e orgulho, continha ameaças no tom.
Mas a filha de Afrodite sabia que não era isso que fazia seu coração bater a ponto de explodir.
— Não precisa se preocupar com isso. — Reyna parou a sua frente, em sua cabeça vieram as lembranças do motoqueiro estirado no chão.
Exaltara a si mesma a diferença de altura entre eles, mas simplesmente esquecera que era obrigada a olhar para cima para encara-la nos olhos.
"Ela tem a altura da Annabeth, você não tem medo da Annabeth!"
E quem dera o medo fosse seu principal problema.
"Como não é, sua imbecil?"
Trair a si mesma era pior coisa que poderia acontecer.
— Prometo que não vou demorar. — Reyna mostrou seu melhor sorriso diplomático e Piper buscou algo que fizesse seu cérebro pegar no tranco.
— Demorar para que? — Cruzou os braços, simplesmente porque não sabia o que fazer com eles.
— Gostaria de informações. — Ok, a surpresa congelou sua cabeça outra vez. — A respeito do Colorado. — Diferente da outra vez em que a pergunta foi feita o tom não mudara, continuava confiante e preciso. — Nico me disse algumas coisas que aconteceram, mas gostaria de ouvir de você também.
— Por que? — A pergunta saiu meio sem fôlego, o que era compreensível, já que seu coração havia parado. Reyna suspirou, à primeira vista parecia apenas cansaço, mas sua intuição gritava de algum lugar que era irritação.
Pelo que? Piper ainda não sabia.
"Pelo menos o meu cérebro pegou no tranco."
— Mesmo tendo apagado apenas cinco dias da minha memória não me agrada desconhecer o que aconteceu. — Ela deu de ombros, como se não fosse muito importante, a filha de Afrodite fez o possível e rezou aos deuses para que seu sorriso fosse apenas interno.
"Mentirosa."
— Ainda não se lembra de nada? — Seu coração pareceu voltar a bater, ou apenas parar de vez de pura expectativa, uma leve tensão surgiu no maxilar da pretora, os olhos cerraram minimamente e a surpresa bombeou em seu interior por pegar detalhes tão imperceptíveis.
Aquela não era sua Reyna, tinha que se lembrar disso.
"Agora ela é sua Reyna? Que ótimo, Piper!"
— Não. — Mesmo com uma só palavra a irritação não pode ser contida dessa vez. — Nico me disse que passamos um tempo razoável juntas, gostaria que me dissesse o que aconteceu. — A voz voltou com um tom monótono e metódico, o rosto perfeitamente impassível e, muito irritante. — Um resumo seria mais do que o suficiente.
— Bem. — Fingiu pensar em algo, olhando para aquele pôster maldito. — Antes de chegarmos você bateu em um motoqueiro de gangue. — Ergueu o indicador. — Depois fez um sanduíche para mim e pediu desculpas pelo Nico não ter me dito o que iriamos fazer. — A tensão no maxilar aumentou e por algum motivo: ser a razão de seu mau humor a agradou. — Depois me arrastou para ver Sexta-Feira 13 em uma sala. — Ergueu o dedo médio, pensou por um segundo o que Nico deveria ter dito a ela antes de continuar. — Tentou me dar conselhos sobre a minha relação com o Jason. — O anelar se ergueu, assim como uma das sobrancelhas dela, o sorriso de satisfação saiu, arrancar-lhe alguma expressão era difícil, tinha que comemorar.
A grega pouco se importou se ela levaria tudo para o teor negativo, aquela Reyna que se mostrava, orgulhosa e fechada era justamente o oposto da que encontrara no Colorado, era um lembrete permanente de que a ligação construída ali era praticamente um fruto de sua imaginação.
Mas havia duas verdades responsáveis por sua raiva e o aperto sufocante em seu coração.
A primeira era que sua Reyna existia, não era imaginação nem um efeito de uma droga mágica, o próprio filho de Hades tinha dito que era uma manifestação de um eu sem a consciência, uma Reyna sem armadura.
A segunda era que não havia enterrado nada, tudo que sentiu a semanas atrás continuava bem vivo e sólido.
"Talvez você só precise de um final descente."
— Mesmo que tenha acontecido por causa do veneno. — Sua voz saiu com real pesar, provavelmente dirigido a si mesma. — Acho que devo me desculpar por ter a obrigado a fazer o que... — Deu um passo a frente, Reyna a encarou com dúvida, mas não se mexeu, como se nada que pudesse fazer conseguisse afetá-la.
E deuses, isso já era o bastante para lhe dar um soco na cara.
Levou as mãos a ladearem seu rosto e na ponta dos pés, — só Afrodite poderia dizer o quanto isso soava clichê, — colou seus lábios com os dela.
Sendo a tão aclamada pretora romana e o blábláblá de sempre, Piper esperava um fim rápido, que fosse empurrada ou que ela se afastasse, — reflexos para isso certamente existiam, — porém o único movimento além de um leve suspiro de susto foram as mãos dela um ponto abaixo de seu cotovelo, era um aperto firme, mas não afastava ou aproximava.
Era quase como se Reyna não soubesse o que fazer.
Um sorriso de pura satisfação cresceu em seus lábios por instantes apenas, antes de aprofundar o beijo sem dó alguma. E os motivos que fizeram a pretora a corresponder permaneciam ocultos, poderia ser um reflexo ou também sua vontade real, de qualquer forma não lhe importava, sua atenção estava focada em satisfazer um desejo, seu coração batia como uma banda militar por um sentimento muito mais descomplicado e que a semanas não experimentava.
Alegria, simples e pura.
Deslizou as mãos até os ombros dela e se afastou, ainda de olhos fechados em uma tentativa de conservar as sensações o máximo possível.
— Piper... — O grau infinito de descrença na voz dela fez um sorriso se desenhar em seus lábios, ao encara-la pode ver nitidamente a fala personificada em sua expressão.
Era como se Reyna tivesse visto Zeus dançando Macarena em uma lua feita de queijo.
— Foi mal por te assustado, mas eu precisava fazer isso. — Disse, tentando soar calma, era como se tivesse comido um quilo de açúcar. — E não vou dizer mais nada sobre o Colorado porque não é realmente importante para você, vamos deixar as coisas como estão. — Piscou para ela.
Que continuava sem qualquer reação.
— Tchau, Reyna. — Virou-se para a porta de deixou o próprio chalé.
Tentou andar normalmente, mesmo que quisesse correr igual a uma idiota para dispersar toda a agitação borbulhando em seu interior, suspirou de satisfação consigo mesma: acabou.
Ainda não era como ter beijado sua Reyna, — maldito filho de Hades, — mas teria que servir.
"Qual é?! Você não pode reclamar."
Ao menos havia descoberto que tirar a pretora de seu pedestalzinho, — fosse a sua ou não, — era imensamente divertido.
O que importava de fato era que nada em sua vida estava planejado ou definido e, a sensação era a melhor do mundo.
Fale com o autor