Colorado
2 Capítulo 01
Foi quase como se Quione estivesse lhe dando uma colher de chá, — isso sendo incrivelmente esquisito, — assim que Reyna estacionou o carro à frente do chalé ao pé da montanha, flocos tímidos de neve começaram a cair do céu, os primeiros daquele começo de inverno.
O vento frio a fez abotoar a jaqueta jeans quando saiu do Mustang azul royal, feliz por ter chegado a um ambiente que poderia ser quente de verdade, — embora a fachada do chalé tivesse o visual moderno das casas em Los Angeles, nada agradável, — Nico parou ao seu lado, as mãos no bolso tinham justificativa, porém não parecia ser o frio.
— Você pode ir destrancando tudo? A Reyna e eu vamos tirar a bagagem. — O filho de Hades tirou um molho de chaves do bolso da blusa, sorriu agradecida por ter seu desejo de deixar os flocos sozinhos adiantado.
Levou uma das mãos até a dele, mas estacou quando viu Reyna circular o carro e parar ao lado do garoto, seu rosto estava sério, o que fez Piper engolir em seco, sem saber como agir, a romana deu um tapa na mão de Nico para que ele soltasse seu passe em direção ao calor.
— Vou olhar primeiro. — Sem fazer questão de explicar nada, apenas com aquela frase, Reyna se virou, andando em direção ao chalé.
— Reyna, está tudo bem. A Hylla disse que olhou tudo antes. — O grego tentou convence-la, parecendo cansado, não que ele fosse o único.
— Isso não faz diferença. — O tom de sua voz era firme e Piper se pegou olhando para as mangas sujas novamente antes de ela entrar na casa.
Seu companheiro de viagem suspirou alto antes de começar a se mexer, abriu a porta do carro para pegar as chaves.
— Pelo menos agora a gente pode conversar. — Murmurou para o ar gélido, irritado com a pretora, a descendente de Afrodite apenas o observou ir até o porta-malas minúsculo e abri-lo.
— Ok. — Era justamente o que vinha querendo desde o começo. — O que aconteceu? — Andou até ele, ajudando a levar as mochilas.
— Há três dias, nos últimos Jogos de Guerra, um soldado da Legião jogou um veneno em um desafeto. — Resmungou, como se estivesse revoltado com a ideia. Pegou sua mochila vermelha e uma com estampa militar que ninguém precisava lhe dizer que pertencia a pretora. — A Reyna notou e impediu. — Nico fechou o porta-malas, finalmente olhando para ela. — Mas a flecha pegou nela. — Semicerrou os olhos ao vê-lo se afastar.
"Ela pareceu muito bem há 2 horas, quando bateu naquele cara que tinha quase o dobro do tamanho da Clarisse."
Reyna sequer tinha o tamanho de Clarisse!
Seguiu-o, subindo as escadas da varanda simples e moderna, entrando no chalé.
Por um segundo, Piper achou que estava em uma casa vizinha a sua em Hollywood, novamente: não era bom.
A sala de estar era grande e espaçosa, uma das paredes em um tom morno de vermelho sendo acompanhada pelo restante delas cor creme, o sofá escuro de canto se encontrava no meio do recinto, — o que era contraditório, — havia uma lareira próxima a poltrona, — que infelizmente não estava acesa, — não arriscaria dizer quantas polegadas tinha a TV, só sabia que era enorme, havia um tapete felpudo marrom, quase tão convidativo quanto o sofá, a sala de jantar se entendia em tons de mogno, estranhamente tendo apenas um lugar a mesa e, atrás dela um arco e flecha tecnológico junto a um óculos de visão noturna pendurados na parede, quase como um troféu.
Tudo que precisava era um lugar aconchegante e simples para espantar o frio e anseios, mas claro que esperar por algo assim era muito.
"Maldito azar..."
— Que lugar é esse? — Indagou, sua curiosidade sobre Reyna se tornou um segundo plano.
— Uma propriedade das Amazonas. — Nico se adiantou, contornando o sofá em direção as escadas. — A Hylla emprestou para gente. — Continuou a segui-lo, querendo respostas e colocar aquela bagagem pesada em algum lugar.
Subindo as escadas, Piper não deixou de notar que todas as luzes estavam acesas.
— O carro também. — Completou assim que chegaram ao segundo andar, o filho de Hades parou por segundos, olhando para as portas como se tentasse adivinhar algo, por fim abriu a primeira.
— E por que estamos aqui? — Se Reyna estava envenenada por que não estava sendo assistida por um médico? Ele tinha efeitos colaterais?
"Ela jogou um cara enorme pela vitrine."
Não fazia sentido.
— É complicado. — Suspirou, sua paciência para desculpas havia se tornado nula.
Nico adentrou o que Piper descobriu ser um quarto, adornado por inteiro com cores neutras e claras, tinha uma janela, que no momento se encontrava fechada, na parede ao lado da cama uma mesinha de centro, — que não estava no centro, — junto a duas poltronas, havia uma porta que poderia ser do closet ou do banheiro.
Ele jogou a mochila na cama, aparentemente aquele já era seu.
— Já ouviu falar de um veneno chamado Lágrimas de Mandrágora?
— Não. — Respondeu prontamente, tomando a dianteira na exploração, voltando ao corredor. — Onde a Reyna está? — Aquilo também tinha sido esquisito. — A irmã dela não é confiável? — Ao menos fora isso que parecera.
— É. — Abriu a segunda porta, à frente da primeira, tendo a confirmação de que era outro quarto. — Mas as duas não se dão muito bem. — Seu tom dizia claramente que escondia alguma coisa, rolou os olhos.
"Isso é um filme de suspense por acaso?"
— O que esse veneno faz? — O quarto em questão lhe pareceu mais aconchegante que o anterior devido ao azul bebê, a janela era alta e ficava acima da cama de casal, mas o que lhe deixara feliz fora a lareira, a filha de Afrodite deixou sua mochila na poltrona a frente do motivo de sua escolha e saiu.
— Reyna?! — O grito a pegou tão desprevenida que a fez dar um pulinho para o lado, Nico se encontrava preocupado, isso qualquer um notava com facilidade, porém não significava que relevaria a situação.
"Eu, definitivamente, não aguento mais isso!"
— O que esse veneno faz? — Inquiriu, seu tom não deixando espaço para réplicas, o filho de Hades suspirou com cansaço aparente e andou até a porta ao lado de seu novo quarto.
— Você já ouviu falar da teoria de Freud? — Abriu a porta e jogou a mochila de Reyna no primeiro móvel que achou, o que acabou sendo uma cama, virando-se para ele em seguida com os braços cruzados.
— Pare de me enrolar. — Murmurou entredentes, o grego levantou as mãos em sinal de rendição.
— Estou falando sério, isso é importante. — Continuou a sonda-lo, buscando por brincadeiras ou mentiras, mas tudo que viu foi preocupação e sinceridade, suspirou por fim, cedendo.
— Sobre o ser humano ser como um iceberg? — Nico assentiu, mas antes de começar a falar fechou a porta.
"Ótimo, me deixe mais nervosa."
— Freud dizia que somos divididos em id, ego e superego. — Caminhou até um baú acolchoado aos pés da cama, sentando-se, dando-lhe margem para fazer o mesmo. — O id são os impulsos, o ego é você mesmo e o superego a consciência, tipo o capetinha e o anjinho na cabeça dos personagens de desenho.
Ele passou a rodar o anel de plástico em seu polegar, como se estivesse perdido em pensamentos, Piper adoraria que seu instinto lhe dizendo que aquilo era apreensão estivesse errado.
— O Lágrimas de Mandrágora é um veneno antigo e proibido. — A memória de duas horas atrás voltou a sua mente sem ser convidada. — Em grandes quantidades leva a pessoa a loucura. — Engoliu em seco, olhando para a porta marrom, os olhos de Reyna estavam vermelhos. — Em pequenas doses confunde a cabeça, era uma boa forma de se livrar de pessoas sem que parecesse um assassinato, tirava a credibilidade e acabava com tudo. — A filha de Afrodite se remexeu inquieta sobre o baú, romanos eram assustadores. — Ele está banido a séculos e é muito difícil de ser feito, mas pelo visto ainda tem gente que sabe confeccionar. — Ele parecia perdido em pensamentos, como se refletisse sobre as próprias palavras.
— Não tem um antídoto? — Will era um ótimo médico, as filhas de Hécate também eram muito boas com poções, talvez pudessem ajudar, Nico apenas meneou negativamente, já conformado.
— A Reyna não foi exposta o suficiente para o dano ser permanente, uma hora isso vai passar. — Crispou os lábios, aquela afirmativa não pareceu muito promissora.
— E você não sabe quanto tempo isso vai levar. — Sua fala o fez coçar a cabeça, frustrado com a verdade.
"Agora começou a fazer sentido, não dá para deixar uma pretora com a mente instável no comando."
Porém, isso não a deixava mais tranquila.
"Ela jogou um homem enorme por uma vitrine e quebrou o nariz dele."
Novamente: ele era maior que Clarisse.
E ela não.
— Tem certeza que é seguro ficar em lugar isolado com uma pessoa mentalmente instável que sabe lutar kung fu? — A cada palavra que saía de sua boca o frio na espinha se tornava mais intenso.
"Você é maluco, Nico!"
— Claro que é! — Ele pareceu ofendido com a menção da ideia. — Reyna nunca faria nada contra nós. — Apenas concordou quando o olhar do filho de Hades não recuou. — Ela não está mentalmente instável. — Semicerrou os olhos, eles eram amigos próximos, entendia a defesa da romana, mas aquilo era negação demais. — Só perdeu a consciência.
"Hã?"
— Como assim? — Cruzou os braços, sem entender o que pelos deuses realmente estava acontecendo, a raiva voltando como se nunca a tivesse deixado. — Dá para explicar o que está acontecendo direito?
— É o que estou fazendo. — Disse pausadamente, também com a calma indo para o Tártaro. — Eu não falei daquela coisa do Freud? Ela perdeu o superego. — Talvez aquilo fosse uma boa forma de solucionar as dúvidas de um psicólogo, mas não as de Piper. — Sabe quando você se irrita tanto que poderia matar aquela pessoa? — Drew veio a sua cabeça automaticamente. — O superego freia essa vontade. — O grego voltou a girar o anel, como se quisesse algo para se ocupar.
— E nós estamos sozinhos com alguém sem freio em um fim de mundo. — Aquela ideia era tão idiota que Piper ficou irritada com a própria intuição.
E não era preciso ser um gênio para saber que o caso fora abafado, provavelmente nem os romanos sabiam ao certo o que ocorreu a pretora.
"Como é que você falha em uma coisa dessas?!"
— Os romanos respeitam a força. — Ele olhava a porta com uma expressão tensa, porém o tom pedia para que relevasse e entendesse. — Por isso seguiram o Octavian, a Reyna não está em condições de liderar ninguém, mas ela não deixa de ser uma boa referência. — Respirou fundo e fitou-a, apreensivo, como se quisesse convencê-la a não fugir pela janela. — Você pode imaginar o que poderia acontecer se ela continuasse no romano?
"Motoqueiro enorme no chão com o nariz quebrado."
Era apenas isso que precisava saber.
Foi sua vez de respirar fundo, Reyna sempre acreditara neles, mesmo depois do Argos II destruir parte do acampamento, viajara milhas e mais milhas por um simples bilhete de Annabeth, lutara lado a lado consigo na guerra. Ela entre todas as pessoas precisa de ajuda e, não negaria a quem já havia feito tanto.
Suas outras opções eram voltar para sua mansão vazia ou para o Acampamento Meio-Sangue.
"Nada animador."
— Ok. — Suspirou a palavra por fim. — Eu já estou aqui mesmo. — Nico sorriu em agradecimento e voltou o olhar para o chão.
— Eu a chamei porque se as coisas saírem do controle a Reyna vai escutar você. — Ele se levantou do baú, passando a andar até a porta, deixando a confusão em sua face.
— Por que ela me ouviria? — Aquilo era esquisito, que tipo de poder místico tinha sobre a pretora?
— Por causa do charme. — Respondeu com banalidade, um bico se formou em seu rosto, seu cérebro tinha congelado?
O filho de Hades abriu a porta e virou para a esquerda, provavelmente voltando para o andar de baixo. Escorreu para a cama, deixando que o corpo cedesse, deitando-se sobre o colchão seus olhos se focaram no teto branco sem realmente ver alguma coisa, os músculos relaxaram pouco a pouco, toda a tensão da viagem saia gradativamente, ela tinha dormido tanto, mas no momento lhe pareceu pouco, como se todas as horas que dispôs para descansar não tivessem tido efeito, seus olhos fecharam sem que pudesse evitar, aquela cama era tão macia.
"Deuses, onde você foi se meter?"
Isso tudo porque só queria alguns dias de folga, era muito irônico que estivesse em uma missão com a garota que tinha uma queda por seu namorado, justamente porque não queria mais vê-lo.
"Ex, ex-namorado."
Suspirou, sem vontade alguma de pensar naquela última conversa detestável.
Deu aos pulmões a tarefa de relaxa-la, respirando profundamente, caçando com afinco coragem para levantar. Se espreguiçou de forma lenta, abriu os olhos apenas quando sentou-se na cama, tinha que continuar explorando a casa e ainda haviam detalhes que queria esclarecer com Nico, mas quando seus olhos tiveram a visão da porta enquanto traçava seus afazeres, qualquer plano evaporou de sua mente.
Parados ladeando a única saída do quarto, dois pares de rubi a encararam sem expressão.
Com a respiração presa na garganta Piper permaneceu parada, olhando de um para outro, sem saber o que fazer, como sair e, pelos deuses! Eles não estavam no Mustang.
Era uma miragem? Cansaço? Um sonho?
"Pesadelo."
Eles pareciam estátuas recém-construídas, polidas como se nunca tivessem visto um ambiente externo, reluziam comprovando que seus nomes foram bem pensados, os olhos vermelhos a fizeram engolir em seco, se lembrando dos que eram castanhos por natureza. A filha de Afrodite nunca havia chegado a observa-los com atenção, os cães que delatavam mentirosos a sua dona nunca lhe pareceram realmente ameaçadores e, fora nessa ideia que sua mente se focou.
"Eles não têm motivo para fazer nada."
Aurum levantou o focinho, farejando o ambiente.
"Eu nem estou falando!"
Argentum se levantou quando recolheu as pernas para cima da cama, era apenas impressão ou seu coração estava realmente quase saindo pela boca?
"Por que? Por que você teve a ideia idiota de vir nessa missão maluca ao invés de voltar para casa?!"
O galgo prata andava lentamente com os rubis cravados em sua pessoa, o vermelho refletia sua própria imagem, atônica, muda, petrificada.
"Mas que mer..."
Um som estridente a fez dar um pulinho sobre o colchão, Aurum e Argentum olharam para a porta com as orelhas levantadas, seguindo para fora do quarto rapidamente a procura do fornecedor do assovio.
"Ok, eles foram embora: ok."
Respirou fundo, rezando a todos os deuses que Reyna se recuperasse logo.
***
— Náuseas, lapsos de memória, insônia, boca seca e o Will disse que talvez cause labirintite. — Nico listava os sintomas das pílulas a garota sentada de pernas cruzadas sobre a mesa, que fingia não escutar, Piper apenas não queria ser notada. — Não vai curar, mas ajuda, é tipo um tratamento. — Ele colocou o vidro de remédio na mesa, ao lado dela, Reyna não pareceu se importar, mais preocupada em encarar o arco junto aos óculos de visão noturna.
— Não vou tomar algo que me dá labirintite. — Murmurou irritada, embora o sentimento parecesse ser conjurado pelo que via. — Vai me inutilizar em uma batalha.
O grego suspirou, parecia não ter ideias de como convencê-la.
— É uma suposição, você pode só ficar com a boca seca. — Ele cruzou os braços, olhando para a amiga com irritação. — Quer ficar aqui até quando?
— Eu nem precisava ficar aqui. — Reyna passou a girar o anel em seu dedo, quase como uma tentativa de se acalmar. — Estou perfeitamente apta.
— Você quebrou o braço do Héctor nos Jogos de Guerra. — O tom dele lhe dizia que aquela não era a primeira vez que jogava o fato na cara dela.
"Olha onde você foi se meter."
— Ele atirou a flecha mesmo depois de ter sua comandante ordenando que não atacasse, na Roma Antiga o braço não estaria mais lá. — A prata em seu dedo foi acariciada como se pensasse seriamente na ideia.
"Deuses."
— Não estamos na Roma Antiga e isso é errado, tem sorte que o Frank deu um jeito de encobrir tudo. — Era estranho ver Nico tentando falar como um irmão mais velho, principalmente quando a ouvinte era quem era. — Nós já estamos aqui, duvido que você queria desperdiçar o tempo da Piper desse jeito. — Se a filha de Afrodite estivesse comendo, teria engasgado.
"Por que você tem que me botar no meio?!"
Reyna virou minimamente a cabeça para encara-la, os olhos fixos nos seus eram responsáveis por deixá-la tensa e paralisada, como se ela fosse algum tipo de valentona medonha, a pretora poderia simplesmente estar pensando em manda-la para casa, refletindo sobre a fala do grego ou planejando um assassinato.
"Pare com isso, você já matou titãs! Não deveria ficar com medo dela."
Reyna também havia matado um titã: com um pano abençoado.
"Eu não fiz nada! Ela não tem direito de estar brava comigo."
Será que o que Nico chamava de Id ligava para lógica?
"Deuses, por que?"
Piper notou que uma das mãos dela procurava o vidro com as pílulas na mesa, porém era impossível desviar sua visão, a cor brilhante de mogno era crua demais para conseguir fazer alguma coisa, seu coração batia descompassado e ela nem sabia o porquê.
— Tudo bem. — A concordância foi expulsa de sua boca em um tom neutro e contido que lembrava muito a pretora: quando Octavian ainda era um problema. — Vamos fazer do seu jeito. — Finalmente deixando que seus olhos repousassem no vidro, Reyna pescou uma pílula e a pós na boca, engolindo sem ajuda de água.
— Ótimo. — Gostaria que a alegria na voz do filho de Hades a contagiasse, ao menos assim estar congelada não seria um problema. — Vamos comer alguma coisa, estou morrendo de fome.
Piper seguiu Nico com o olhar, que casualmente atravessava a sala de jantar para chegar até a cozinha, tratou de rumar para o mesmo local, temendo ficar a sós com a romana, só os deuses sabiam do que ela era capaz naquele estado.
"Sua idiota..."
Quando chegou ao local o grego estava fuçando na geladeira side by side preta, Piper não deixou de notar que o resto do ambiente possuía a mesma coloração, com a exceção do chão e de duas das paredes.
"Aparentemente a irmã da Reyna não gosta de nada muito colorido."
Sentou-se no banco disposto na ilha da cozinha, ali se encontrava uma superfície negra que se parecia muito com uma chapa, do outro lado um saco de pães de forma, sustentou o rosto com um dos braços, se perguntando enquanto o observava retirar um saco de maçãs do eletrodoméstico se deveria simplesmente ir dormir.
— Tem muita coisa aqui. — A surpresa e satisfação em sua voz foram compartilhadas silenciosamente pela filha de Afrodite.
Nico colocou o saco de maçãs junto a uma caixa de suco de laranja na ilha, voltando a ter o rosto escondido pela porta enorme da geladeira.
— O que aquele remédio faz? — Puxou a sacola de pães para mais perto do começo do amontoado de comida, Piper não queria mais do que um copo de suco, porém pelo que pode ver o garoto mais novo comia bastante.
— Will disse que é tipo um diurético. — Dessa vez sua mão trazia uma caixa de leite e um salame pela metade. — Ou um daqueles sucos que limpam o organismo, seus irmãos usam muito. — Rolou os olhos, se alguma revista adolescente dissesse que passar excrementos de morcego na cara era bom, eles o fariam.
— E ele limpa quanto? — A grega esfregou as mãos uma na outra, nunca tivera muitos problemas com o frio, mas de fato, estava longe de ser sua estação preferida.
Principalmente quando tinha que bancar a babá de uma garota mais velha que sabia kung fu.
"Em lugar isolado e que ninguém de fora sabe onde é."
— Não sei muito bem. — Admitiu com um sorriso sem graça nos lábios. — Mas ajuda. — Suspirou, nem ao menos uma previsão?
"Que sorte você tem, McLean."
O filho de Hades desviou o olhar por cima se seu ombro, com uma expressão de dúvida.
— Por que vocês estão falando de mim como se eu não estivesse aqui? — Piper engoliu o grito de susto com dificuldade, agarrando a borda da ilha, ficando muito quieta enquanto Reyna se movia pela cozinha.
"Que porcaria de bota é essa que não faz barulho?!"
— Você não estava aqui. — Nico resmungou contrariado, se pondo a procurar nos armários, a pretora apenas continuou a sondar o local, parando para observar a neve caindo por uma das janelas fechadas.
— Tem um vilarejo a alguns quilômetros. — Olhou pela grande janela com um tom sério e calmo, recostando o ombro na parede e cruzando os braços. — Mas o chalé é cercado por uma floresta em todas as direções. — A filha de Afrodite entendia que saber dos detalhes era importante, principalmente para meio-sangues, entretanto o olhar dela era tão estranho, como se estivesse fascinado e muito satisfeito. — Uma ótima base.
— Vai poder agradecer sua irmã depois. — Nico comentou de forma displicente ao colocar os potes de pasta de amendoim e geleia na ilha, a romana o encarou com descrença antes de apertar os braços cruzados e soltar um eu não vou fazer isso a contragosto e baixo, voltando-se novamente para fora.
Atitude que arrancou um sorriso de seus lábios, quem diria que uma aspirante a psicopata fazia bico? Ainda com o divertimento em mente tratou de pegar o saco de pães e alcançou a menor faca no faqueiro no centro da ilha, talvez fosse melhor fazer um lanchinho antes de dormir.
O grego deu uma mordida forte na maçã, já procurando outras vítimas para saciar sua fome, havia notado que depois da guerra o apetite de Nico aumentara, mas daquela forma?
"Will faz mais bem a você do que eu imaginava."
Ou talvez fosse só a fase de crescimento.
Esticou a mão para a pasta de amendoim, tendo sua diversão quebrada por ter novamente os olhos vermelhos cravados em seu rosto, tratou de desviar os próprios, sentindo o corpo ficar tenso.
"Deuses..."
A única coisa que rezava para não acontecer naquela viagem era ter que ficar a sós com Reyna.
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