Colisão
6 6. O que faz um laço de fita
Notas iniciais
Parecia a milésima vez que Anthony piscava para espantar o sono, mas as letras miúdas dispostas sobre as páginas à sua frente continuavam embaralhadas em uma massa disforme. Suspirando, ele largou a pena que segurava e passou uma das mãos pelo cabelo, sentindo a frustração varrer seu espírito. Por que ele não podia terminar uma tarefa tão simples? Podia entreouvir o barulho ritmado do relógio enquanto os ponteiros tiquetaqueavam os segundos, depois os minutos, então as horas... horas preciosas que ele poderia estar gastando em outro lugar. No entanto, lá estava ele, enfurnado no escritório àquela altura da noite, um prisioneiro das próprias obrigações.
— Pensei que estivesse vindo para a cama. — Surgiu a voz de Kate de repente, tirando-o de seu torpor. Anthony ergueu o olhar, surpreso, para encontrar a sua esposa escorada no vão da porta, uma das duas sobrancelhas erguidas em uma expressão desafiadora. Ele estivera tão imerso nas próprias lamentações que não notara sua presença até ela se manifestar.
Por um momento, o visconde só a encarou, sentindo o peso da beleza dela cair sobre o seu corpo cansado. Os cabelos escuros de Kate estavam presos em uma trança lateral que caía pesadamente sobre o ombro direito, e ela vestia uma camisola de tecido fino, com partes de renda, em um tom amarelo suave que fazia maravilhas em contraste com sua pele de ébano. Kate pareceu perceber que o fizera ficar sem palavras, pois abriu um sorriso de lado e começou a remexer no xale à volta de seu tronco languidamente, dando passos suaves em direção ao centro do cômodo.
Despertando do torpor, Anthony pigarreou e desviou os olhos para baixo.
— Eu me juntarei a você em um instante, meu amor. Só preciso terminar isso primeiro. — Se se permitisse subir com Kate para os aposentos do casal, tinha certeza de que não terminaria o que precisava ser feito naquela noite, talvez nem na manhã seguinte. Postergar o prazer de passar a noite com a esposa nos braços parecia o melhor incentivo para finalizar tudo mais depressa.
— Você disse a mesma coisa uma hora atrás. — Ela pontuou, vindo para cada vez mais perto de sua escrivaninha. Anthony já podia sentir o aroma de sua colônia espreitando pelo ar. — A nossa cama é muito grande sem você, e fria. Eu preciso esquentar os pés.
Anthony não pôde conter a risada que lhe escapou ao ouvir aquela declaração.
— Ah, quer dizer então que é só para isso que eu sirvo?
— Claro que não. Eu também preciso de alguém para repor a lenha na lareira durante a noite.
— Ah! Bom saber que tenho algumas utilidades, para variar.
Em perfeita sintonia, Anthony afastou a cadeira de baixo da escrivaninha e se virou a tempo de receber o peso de Kate no colo. Ela rapidamente se aninhou a ele, enrolando os braços em volta de seu pescoço. Não sendo capaz de resistir, o visconde a puxou para mais perto e a apertou com firmeza, enterrando o nariz na curva delgada de seu pescoço para respirar aquele cheiro gostoso que só ela tinha. Porém, ao contrário do que imaginara, Kate não estava interessada em distraí-lo do trabalho. Ela apenas se inclinou e depositou um beijo demorado em sua boca, daqueles que deixavam Anthony com vontade de mais. E ele estava prestes a aprofundar o beijo quando Kate afastou o rosto do dele, sussurrando em seu ouvido:
— Você é sempre útil, meu amor. Termine isso logo. Estarei te esperando lá em cima.
Com um suspiro sôfrego, Anthony assentiu e a libertou do aperto de seus braços, esperando que ela se levantasse. Antes de sair, Kate ergueu as mãos até a trança e desenlaçou a fita que a prendia no lugar. Suas madeixas onduladas foram se soltando uma a uma, caindo em cascata ao redor de seus ombros. Aquilo era uma provocação, e ela sabia que ele estava consciente disso, mas nenhum dos dois disse nada, apenas se encararam enquanto ela deixava cair a fita sobre a mesa, virando as costas e se dirigindo calmamente para fora do escritório, sumindo na escuridão.
Como ele poderia se concentrar depois daquilo? Anthony até tentou retornar à papelada olvidada na escrivaninha, mas as curvas sinuosas da fita de cetim branco puxavam seu olhar de volta para si sempre que ele posicionava a ponta da pena para escrever, pois o faziam se lembrar de outras curvas sinuosas e macias o aguardando sobre o colchão da cama.
— Maldição. — Ele praguejou baixinho, fechando os olhos, antes de esticar a mão e tomar a fita nos dedos, incapaz de resistir àquele pedacinho de sua esposa. Com cuidado, Anthony a enrolou nas mãos e a levou ao nariz, aspirando a fragrância que há pouco tempo ele tivera à disposição. O tecido tinha segurado um pouco do perfume de lírio, mas não muito. Anthony reclinou o corpo no encosto da cadeira, cotovelos escorados em ambos os seus braços, e brincou com o cetim nas palmas das mãos, ondulando a fita no ar para liberar mais daquele aroma viciante.
Até que algo chamou a atenção de seu olhar.
Ele não havia percebido antes por estar curvado sobre a mesa, mas agora que seu tronco estava completamente ereto, sua linha de visão mudara, e ele era capaz de enxergar que, bem no meio da pequena fresta que Kate deixara aberta na entrada do escritório, havia uma pantufa felpuda.
Não era a mesma que Kate estava usando quando saiu daqui?, Anthony se perguntou, distraído.
Franzindo o cenho em confusão, ele se levantou e se dirigiu até lá para examinar melhor o objeto. De fato, aquele era o chinelo de Kate, e ela o estava usando quando entrara no escritório. Anthony ergueu os olhos para examinar os arredores, tentando enxergar alguma coisa na penumbra. Mais adiante, a outra pantufa fora largada despreocupadamente no meio do primeiro lanço das escadas, um tufo macio de pelos brancos reluzindo à luz das poucas velas acesas.
Intrigado, Anthony seguiu pelo corredor e recolheu o segundo chinelo, pretendendo guardá-los lado a lado no topo da escada para que Kate pudesse calçá-los no dia seguinte. Uma vez lá, porém, ele divisou o xale cor creme estirado de todo comprimento no chão.
Um sorriso foi tomando conta de seu rosto enquanto ele se dava conta do que realmente estava acontecendo. Seguindo a trilha de roupas que Kate fora deixando pelo corredor, descobriu que a camisola também havia sido descartada, desta vez a poucos centímetros da porta do quarto.
Sentindo o coração começar a pulsar dentro do peito em expectativa, Anthony empurrou a porta o mais silenciosamente que conseguiu, deparando-se com a imagem de Kate esparramada entre os lençóis. Ela estava completamente nua.
Se antes a visão dela o deixara desconcertado, agora então ele estava atônito.
A primeira coisa que capturou seu olhar foi o longo cabelo dela emoldurando seu rosto anguloso. A segunda foi a mão que deslizava com parcimônia por toda a extensão de pele desde o pescoço até a barriga, indo se aconchegar no espaço entre as pernas, onde se curvou por poucos segundos antes de retornar para cima e pender no ar, um dedo estendido para chamá-lo para perto.
— Você esqueceu isso. — Ele brincou, referindo-se às pantufas que ainda segurava nos dedos.
Vendo que Anthony não se movera do lugar, Kate deu de ombros e retornou à tarefa de acariciar a si mesma, fechando os olhos e soltando um pequeno suspiro de prazer.
— Muito atencioso da sua parte pegá-los para mim. — Ela respondeu, sem olhá-lo.
— Quer que eu os coloque em algum lugar?
— Hm... ao meu lado da cama está bom. Obrigada.
Obedecendo ao seu comando, Anthony se moveu pelo cômodo e circundou a cama, dirigindo-se para o lado em que Kate costumava dormir. Em nenhum momento seus olhos deixaram o corpo dela, ou mais especificamente a mão que deslizava para cima e para baixo sobre as dobras de sua feminilidade, acariciando a pele em círculos lentos. Maldição. Ele já era capaz de sentir sua ereção crescendo com força dentro da calça, mas não queria arruinar aquela provocação tão cedo.
Soltou um pigarro, querendo clarear a voz.
— Pronto. Deseja algo mais, Viscondessa?
Anthony teve de conter o sorriso quando um dos olhos de Kate se abriu para espreitá-lo, a dúvida clara em sua expressão. Mesmo ele estava encontrando dificuldades para entender como estava conseguindo se manter tão calmo diante daquela visão. Ou talvez não tão calmo, pensou, quando um dos dedos dela mergulhou para dentro, seguido de outro, e a outra mão subiu para agarrar o seio. Desta vez seus olhos estavam presos em cada reação do rosto dele, cada respiração irregular que irrompia de suas narinas, o modo como seus olhos escureciam e o desejo inflamava suas veias até que a ereção entre as pernas estivesse tão dura que não havia maneira de disfarçá-la.
— O que o senhor deseja, Visconde? — Ela finalmente disse, abrindo um pouco mais as pernas a fim de lhe dar melhor acesso à sua intimidade. — Achei que tivesse tarefas para terminar.
Anthony soltou um riso incrédulo, pouco antes de os olhos brilharem com luxúria.
— A minha única tarefa, no momento, é foder essa bocetinha linda com a minha boca.
— Oh. — Desta vez, foi a vez dos olhos dela brilharem. — É mesmo? E depois?
— Depois... — Ele se aproximou da cama a passos lânguidos, desabotoando um por um os botões da camisa, jogando-a para o lado para que pousasse bem ao lado da camisola de Kate. — Depois eu vou te comer com tanta força que você vai ver estrelas.
Kate se ergueu nos cotovelos e capturou o lábio inferior entre os dentes, sorrindo lasciva.
— Eu gosto desse seu plano.
— Gosta? Que bom, porque... — Sem aviso, Anthony agarrou-a pelas panturrilhas e a puxou de encontro a seu corpo, ouvindo-a soltar um gritinho de surpresa pela brusquidão. Abaixando-se para ficar de joelhos diante dela, ele levou cada uma das pernas dela para descansar sobre os seus ombros, iniciando uma carícia suave em suas coxas enquanto posicionava o rosto sobre a pélvis, levando um instante ou dois para inalar a fragrância que ela exalava. Por Deus, ela era divina, e ele queria devorá-la inteirinha. — Hm... porque essa tarefa eu vou cumprir à risca.
Ao fazer tal declaração, Anthony ergueu os olhos e encontrou o olhar dela. Ele adorava observar sua face se iluminar pelo desejo pouco antes de descer a boca sobre seu sexo. E assim que seus lábios fizeram contato com a carne macia, sentiu um rugido de puro prazer subir pela garganta.
Kate estava totalmente úmida, e seu gosto era a coisa mais deliciosa. Ele a sentiu afundar a mão em seus cabelos, puxando os fios com força para extravasar o tesão, e aquilo de repente foi demais. Anthony até gostaria de ficar mais tempo de joelhos lhe dando prazer, mas não sabia se era pelo dia longo de trabalho ou pela fome que sentia dela, descobriu que não iria conseguir chupá-la por muito mais tempo, não quando a ereção pulsava de forma tão dolorosa.
Com um barulho de sucção, ele se afastou um pouco de Kate, que soltou um muxoxo de protesto pela falta de seus lábios. Anthony se apressou em mergulhar dois dedos dentro dela, socando-os com força enquanto, com a outra mão, tentava abrir a própria calça.
Compadecida de seu sofrimento, Kate ergueu o tronco e pousou a mão sobre a dele.
— Deixa que eu faço isso. — Ela disse, e logo substituiu Anthony em sua tarefa. A viscondessa traçou com os dedos o tecido de sua calça a fim de acompanhar o volume que já se acumulava lá dentro, dando um apertão glorioso que enviou espasmos por seu baixo ventre. Sua resposta foi aumentar o ritmo dos dedos dentro dela e, por um instante, ambos ficaram trocando carícias, os olhos presos no rosto do outro na intenção de acompanhar de perto cada reação que despertavam. Mas logo, Kate deu um jeito de libertar o pênis de Anthony de sua dolorosa prisão, observando-o saltar para fora em um movimento duro e rápido.
Ela sorriu para ele, meneando a cabeça em desaprovação.
— Acho que alguém está ansioso por pular as tarefas. Que coisa feia, senhor Visconde.
Anthony soltou mais um rugido.
— Eu prometo que vou te compensar. — Respondeu, e, em um único movimento, voltou a derrubá-la no colchão. Desta vez a brusquidão não a pegou desprevenida, e Kate tratou logo de abrir as pernas para que ele pudesse se acomodar no meio delas.
Presos na visão inebriante de seus corpos unidos, ambos acompanharam enquanto Anthony deslizava para o interior de Kate. Ele não conseguiu segurar o gemido de prazer que lhe escapou da boca. Aquela era a melhor sensação do mundo, estar enterrado no corpo dela, cercado por seus braços, imerso em seu aroma delicioso. Logo, seus quadris começaram a trabalhar, iniciando um vai e vem que terminou de envolvê-lo naquela bruma de luxúria.
Kate, da mesma forma, fazia o possível para mover os quadris de encontro aos dele, cada encontrão provocando um som de fricção que ecoava pelo aposento parcamente iluminado. Os dois se embolaram um ao outro, afoitos para acirrar ainda mais a distância, misturando seu suor, engolindo seus gritos, dispostos a levar o outro à loucura.
À certa altura, quando sentia os gemidos de Kate em uma crescente ao pé do ouvido, Anthony a puxou pelos quadris e os virou até que ele pudesse se sentar na ponta da cama, com ela escarranchada em seu colo. Ele adorava observá-la montar nele, e encontrava um prazer ainda maior ao ver o seu rosto perfeito contorcido pelo prazer selvagem.
— Olhe para mim. — Ordenou, assim que ela começou a impulsionar os quadris contra ele. Kate soltou um grunhido, empurrando seu tronco contra o colchão a fim de encará-lo de cima. Com um meio sorriso nos lábios, ela se inclinou um pouco até que seus narizes estivessem bem próximos, e começou a mover o corpo em velocidade estupenda. Anthony sentia o sexo sendo engolido pelo dela, e não resistiu ao impulso de espalmar ambas as mãos em seu traseiro redondo, dando um apertão tão forte que tinha certeza de que deixaria marcas na manhã seguinte.
Não que ela fosse se importar.
— Goza pra mim, goza. — Ele murmurou em seu ouvido, querendo levá-la ao limite. Kate respondeu aumentando ainda mais o ritmo, os dedos puxando seus cabelos sem piedade, até que, de repente, seu corpo foi acometido por um tremor tão intenso que ela perdeu o controle dos movimentos, jogando a cabeça para trás e abrindo a boca para soltar um grito engasgado, o som mais sensual que ele já ouvira na vida.
Depois disso, desnecessário dizer que ele não conseguiu durar muito mais, sentindo os espasmos do próprio orgasmo tomarem conta de seu corpo e o levarem ao paraíso.
Um tempo considerável se passou antes que Anthony conseguisse acalmar a respiração agitada, dentro do qual Kate permaneceu estirada sobre ele, pressionando-o contra a cama. Sua mão subiu para encontrar os cabelos dela, escovando-os para trás a fim de observar seu rosto. Os olhos dela estavam fechados, mas, ao sentir que Anthony a acariciava, ela os abriu, presenteando-o com um de seus sorrisos acanhados. Ele achava uma graça que, mesmo depois de ter cavalgado sobre ele com total desinibição, Kate ainda pudesse olhá-lo como se aquela fosse a primeira vez que fizessem amor, como se ela não o tivesse seduzido, para início de conversa.
— Você esqueceu a porta aberta. — Ela murmurou, despertando-o de seu devaneio.
— O quê?
— A porta. Você a deixou aberta quando entrou no quarto.
Confuso, Anthony afastou o olhar de seu rosto e observou que ela tinha razão. No calor do momento, imerso que estava na imagem do corpo dela esparramado nos lençóis, Anthony deixara a porta completamente arreganhada. A camisola de Kate ainda estava no mesmo lugar, iluminada pela luz das velas dispostas pelo corredor.
Ele foi forçado a rir do próprio desespero.
— Por Deus, será que algum dos empregados nos viu? — Anthony sussurrou, apenas meio preocupado com o fato. Não seria a primeira vez que um criado os pegaria em uma situação daquele tipo. Provavelmente também não seria a última.
— Você não deveria rir. Agora são apenas os empregados, mas e se fossem nossos filhos?
— Sorte a nossa que ainda não os temos, não é mesmo?
Kate não respondeu logo, seus lábios retorcidos em uma expressão pensativa.
— Sim, sorte a nossa... — Por enquanto, ela completou em pensamento.
Mas aquele ainda não era o momento de contar a ele.
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