Colhedores
2 Comandante
Notas iniciais
No momento em que eu a fiz dizer não para o destino, nada, exatamente nada aconteceu. Ela se sentiu aliviada, até um pouco mais feliz.
Dias se passaram, eu continuava rejeitando coisas que não eram para serem rejeitadas e aceitando coisas que não eram para serem aceitas. Eu mesmo estava traçando a vida dela.
É claro que os outros Colhedores ficaram irritados comigo, porque eles estavam fazendo os seus trabalhos e eu acabava os atrapalhando, mas os únicos que poderiam me deter, eram os membros do Conselho, que estavam muito mais ocupados com o passado disso e ou o futuro daquilo de milhares de outros humanos.
Os dias foram se passando e se passando, logo se tornaram meses e então anos. Vi que se eu mudasse uma coisa aqui ou ali, para o bem dela, nenhum de nós sofreria.
Estava tudo bem, até que Beth encontrou o homem com quem se casaria. Ele era compositor, cantor, um homem bom, o seu nome era Edward, ambos ainda eram muito novos quando se conheceram, mas se apaixonaram. Eu tive que dizer sim por ela.
À medida que eu e o Colhedor dele fazíamos isso acontecer, menos eu queria que isso acontecesse. Comecei naqueles tempos, a me perguntar o que aconteceria se eu parasse de fazer os comandos, ela não morreria se não casasse com ele, certo? Então porque eu tinha que fazer a humana que eu amo amar outro humano? Por que ela não poderia me amar? E se ela soubesse da minha existência? Ela se apaixonaria por mim também?
Quando comecei a recusar os convites de Edward para que eles se encontrassem, não vi que isso iria causar um grave problema. Vi-me parado no tempo, Elizabeth estava com o dedo no botão de rejeitar a ligação, mas ela não clicava, nem piscava, sequer podia ouvir a sua respiração. Percebi que não conseguia sair daquele segundo.
Então ouvi uma voz:
– Você está apaixonado por ela.
Olhei para trás:
– Conselheiro.
Fiz uma breve reverencia ao ser vestido com um terno totalmente branco que agora estava no quarto de Elizabeth.
– Sabe que isso não deve acontecer Colhedor.
– Mas não está acontecendo. Não estou apaixonado por ela.
Tentei rir.
Então me vi num lugar completamente branco, não conseguia sequer ver uma sombra. Apenas um dos conselheiros, o mesmo que estava no quarto comigo:
– Não ouse mentir para O Conselho!
Olhei para trás. Os outros membros do conselho gritavam e esbravejavam comigo. Nós estávamos numa espécie de tribunal, os membros do Conselho agora me olhavam de cima enquanto eu parecia estar no centro de um salão. Eram seis deles:
– Eu não estou mentindo.
– Você desenvolveu um sentimento por ela!
O sexto gritou:
– Não senhores, eu não estou!
Os seis conversaram privadamente por um tempo:
– Acha que não percebemos que você muda as coisas á todo momento Colhedor? Nós somos os olheiros de tudo. Nada nos escapa!
– É injusto faze-los sofrer para nada!
– Colhedor, seu trabalho não é achar algo injusto. Seu trabalho é fazer as coisas acontecerem.
– Mas eu sinto que é injusto!
Eles pareceram espantados:
– Sente?
O segundo perguntou:
– Não deve ter sido a palavra certa, mas... É, eu sinto. Olha, a Elizabeth é uma filósofa, não deve se contentar com poucas coisas.
– É ela que deve achar alguma coisa.
Um disse na ponta:
– Como ela pode achar alguma coisa se nós mandamos em tudo que ela acha?!
O outro se perguntou fazendo todos se entreolharem:
– Ele tem que se afastar da humana!
– Está o defendendo do próprio castigo?!
– Ele está apaixonado por ela! Ele pode mudar o destino!
Eles começaram uma discussão:
– Calados.
Uma voz mais alta ecoou pelo salão. Então eles se calaram:
– Comandante.
Eles disseram a uma só voz:
– Colhedor, você aceitaria o fardo de duas almas gêmeas não conseguirem se amar por seu ato egoísta?
– Eu estou tentando a proteger, não é egoísmo.
– Proteger de quê?
– De se machucar, esse homem vai tirar sua sanidade!
– Ser humano é se machucar Colhedor.
– Mas isso não faz sentido algum.
– A vida humana não tem algum sentido.
– Senhor, eu não estou sendo egoísta.
– Você nunca vai tê-la, mas não quer que ninguém a tenha também. Isso é um ato egoísta.
– Comandante, se eu pudesse explicar... Você iria entender.
– Explicar o que? Que você é um Colhedor apaixonado e egoísta?
– Eu não estou apaixonado Comandante, só preocupado.
Ele estalou os dedos. Maçaneta se fez presente na sala:
– Maçaneta?
O Conselho nos avaliava:
– O que você disse que o Colhedor de Elizabeth fez?
O Comandante o perguntou:
– Ele apelidou Elizabeth.
– Apelidou de quê?
Ele me olhou:
– De Beth.
Eles novamente pareceram espantados:
– Qual o problema?!
Eu perguntei:
– E ele demonstrou de que maneiras ama-la?
– Ele estava muito preocupado com ela. Bom, ele a chamava por esses apelidos e ficava próximo demais dela.
– Como próximo demais?
– Próximo ao ponto de ela perceber sua presença.
O Comandante me olhou, levantou uma de suas sobrancelhas, num ato sarcástico que ninguém além de mim notou:
– Já falou com Elizabeth?
– Nunca.
Respondi:
– Por que está tão preocupado com ela?
– Porque eu a amo...
O Conselho me condenou a passar o resto da eternidade amando Elizabeth, sem poder fazer nada.
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