Sou Senhora de mim

Não sou dona da minha vida

Minha pele não conta

A senzala que cresci

Eu tenho sangue negro

Escrava de senzala

Dona da casa grande

Eu tenho sangue negro

O vermelho do meu rosto

Não vem do calor

Não é desse Sol que tinge minha pele

É do meu passado

Do índio que derramou teu sangue

Do ser que me deu a vida com a própria vida

O sangue que corre sob minha pele

É mulato nessa pele cor de creme

Meu sangue não é azul

Meu sangue é vermelho

É escuro e verdadeiro

Eu tenho sangue negro

O meu cacho não me deixa mentir

Não é negro como carvão

É negro como o escravo e sua servidão

Minha pele não conta

Tudo que eu sou

Eu sou a negra da senzala

Eu sou o índio que sangrou

Eu sou a dona da terra

Sou o estranho em terra nova

Eu tenho sangue negro

Mas não só de negro se faz meu sangue

Meu sangue é mulato

Misturado

Miscigenado

Meu sangue não deixa enganar

Meu passado de índio, negro, imigrante

Por de branco senhor

De azul manchado

Eu sou a história

Por que a história se escreve com sangue

Eu tenho sangue negro

Negro e azul

Azul e vermelho

Eu tenho sangue roxo

Eu tenho sangue de cor

Mesmo que ele não apareça em minha pele

Não nego o que sou,

Não nego minha história

Eu tenho sangue negro,

Mas não só de negro é feito meu sangue.

Não só de sangue é feita a história.