O Homem de Merda

Vejo teatro para fugir à realidade,

Mas me encontro calado, incapaz de expressar a minha vontade.

No palco, uma história de amor é contada,

Dois amantes caminham pela mesma estrada.

Isto me faz pensar às vezes,

Será que existe um amante para o homem feito de fezes?

O show chega ao fim

E a plateia aplaude,

Mas não existe em mim

Tal habilidade.

Nem a direita, nem a esquerda.

Não posso aplaudir

Porque as minhas mãos são feitas de merda.

Caminho para fora e reparo na minha perda.

Pedaços meus ficaram para trás

Formando um rastro de merda.

As pessoas se afastam e me desprezam,

Mas não me desfaço nem tenho pressa.

Outras vomitam no pavimento.

Eu também vomitaria,

Se não fosse um homem feito de excremento.

Dia a dia

Todos reféns da condição humana.

Sorrisos que escondem drama.

Viver perdido por ser a opção sana.

Pessoas incompletas buscando distração.

Falsos profetas de bocas abertas pregando tentação.

Não mais do que peças,

Ferramentas sem emoção.

Num tabuleiro dispersas

À espera de instrução.

Se movendo sem pressa

Numa única direção.

"A quem isso realmente interessa?" — pergunta a multidão.

Meu andar cessa, mas não chego a uma conclusão.

E por mais que alise as minhas arestas,

Não adquiro forma nem definição.

Olham para cima porque não querem ver o chão.

E há quem diga que não,

Que o mundo é perfeito e que está tudo bom.

Mas mesmo surdo escuta esse som.

O mundo só é justo para quem tem dinheiro na mão.