Notas iniciais
Essa ficzinha fiz de presente para a linda da Mrs.Fox, a pedreira ♥ ahsuahsuhausha Espero que gostem ;)

O barulho dos saltos fez todos os homens se calarem. Há algo místico naquele som somado à velocidade com que é reverberado que faz os homens se calarem e se curvarem quase que imperceptivelmente. Além de elegância — e dores — o salto transmite poder, e é impossível não parar para ver quem anda de forma tão confiante quando o som se faz presente.

Os homens pararam as batidas na parede, o arrastar de sacos, o barulho da furadeira para ver ela passar. Ao contrário do que se esperava, nenhum deles fez qualquer comentário malicioso, ou qualquer de outro tipo. Eles não ousaram depois do som dos saltos ser materializado em forma da mulher poderosa que já se esperava usá-los.

A rebeldia dos cabelos rosas voavam curtos enquanto andava rápido pelo corredor daquela construção. A calça de alfaiataria preta era bem modelada à seu corpo e a camisa de mangas ¾ conservavam a imagem profissional que ela exalava. E os saltos nudes. Como pés descalços que foram feitos para pisar daquela forma e mostrar poder em toques-toques.

Os passos cessaram, os homens engoliram em seco.

— Hozuki Suigetsu.

Não foi uma pergunta.

Os homens se olharam. A voz era tão suave, mas tão impressionante imponente naquele corredor vazio.

Ela suspirou e olhou para trás. O primeiro que ela bateu os olhos verdes deu um passo incerto para trás e tentou buscar ajuda com os olhos, mas os outros voltaram a fingir fazer o que faziam.

— Cadê?

— No fim do corredor… — ela virou-se antes que ele terminasse. Ele olhou com uma careta para os colegas de profissão que voltaram a olhá-la até parar em frente à última porta daquele corredor e abri-la intempestivamente.

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Sasuke tentava entender as anotações de seu sócio enquanto o mesmo tentava explicar empolgado sua genial ideia. Foi rápido, a porta se abriu e uma mulher de expressivos — e irritados — olhos verdes entrou no cômodo que usavam como “escritório” naquele dia.

— Hozuki Sugeitsu…

— Sou eu.

Sasuke olhou do sócio para a mulher. De primeira percebeu que foi um erro o tom maliciosamente imbecil que Suigetsu usou, ás vezes a falta de bom senso dele era enervante. Sasuke quase pôde ver uma veia saltar na têmpora dela.

— Sou Haruno Sakura — fechou a porta atrás de si sem ao menos olhar para trás, os olhos claros fixavam-se no rapaz de cabelos descoloridos.

Ao ouvir o sobrenome Suigetsu arregalou os olhos e olhou, sem discrição alguma, para Sasuke. O moreno resumiu-se em escorar-se na janela que haviam aberto no dia anterior e esperar o que vinha por aí.

— Haruno? — Suigetsu limpou a garganta — Prazer em conhecê-la, senhora.

Estendeu a mão que permaneceu no vácuo do espaço entre eles.

— Quem lhe deu a liberdade de mudar o projeto original?

A pergunta foi incisiva.

— Oras, veja bem… — Suigetsu se atrapalhou em suas próprias palavras e Sasuke começou a se divertir com os olhares desesperados, que começavam a ficar muito mais evidentes, sendo lançados em sua direção. — Seu.. pai… — continuou incerto movendo as mãos nervosamente.

Olhou para a mulher que deu um bufar impaciente e cruzou os braços. Mulheres que se impunham eram novidade para Suigetsu, que sempre preferia lidar com pessoas abaixo do que ele imaginava ser sua personalidade. Sasuke a olhou mais atentamente, sabia exatamente o porquê dela estar daquele jeito e sabia como reverter a situação, mas seria bom para o ego e pra o aprendizado de Suigetsu passar por aquilo.

— Meu pai? — a mulher franziu o cenho confusa por um instante.

— A planta assinada por seu pai… — Suigetsu se atrapalhou novamente e pegou a planta que havia marcado com grafite para, inutilmente, mostrar a assinatura.

Sasuke ajeitou-se e pareceu que ela o via pela primeira vez ali. Os dois se olharam brevemente antes que ela fervesse para cima de Suigetsu, e Sasuke logo percebeu que tudo havia saído do controle mais cedo do que imaginara.

— Viu “Haruno S.” e já pensou… — ela passou as mãos pelos cabelos e Sasuke percebeu o escuro abaixo dos olhos sendo cobertos por uma maquiagem que precisava ser retocada. Ela se aproximou da planta e virou para a sua direção apontando um cômodo em particular. — O que é isso? — perguntou como se falasse com uma criança pequena.

— Área de serviço… — Suigetsu parecia desconfortável, mas Sasuke havia deixado de lado sua diversão e se aproximou para ver a unha pintada de vermelho apontando para onde Suigetsu havia feito alterações.

— E por quê diabos você resolveu mudar essa parede? — deslizou pelo desenho de grafite feito por Suigetsu.

Sasuke reparou que havia alguns traços de caneta e nanquim nos dedos dela.

— Oras — Suigetsu pegou um pouco de confiança — Esteticamente…

— Esteticamente? — ela perguntou debochada e suspirou em seguida tentando manter a calma — Esteticamente você vai apagar isso e fazer do jeito que eu projetei.

— Espera, você não deve entender muito de construção civil, então eu posso te explicar… — Sasuke quis tapar a boca de Suigetsu, quis calá-lo antes que abrisse a boca, mas tudo foi por água abaixo com o olhar analítico e cheio de significado que Suigetsu deu à ela dos pés à cabeça.

Sakura abriu a boca minimamente, e dava para ver sua língua passando pelos dentes de forma lenta, perigosa. Ela olhava dentro dos olhos de Suigetsu enquanto absorvia tudo o que ele havia falado.

Sakura respirou fundo, e Sasuke fez o mesmo.

— Sabe que posição é essa? — ela disse calma demais, continuando sem esperar a resposta dele. — Das quatro às seis da tarde é onde o sol está batendo, o horário que estou na minha casa e posso aproveitar para fazer serviço de mulher, porque disso entendemos né? Pois bem, sem essa parede, o sol consegue alcançar até a cozinha, passando pela sala e o corredor — ela deslizou os dedos pela planta — Tendo uma diminuição significante do uso de energia elétrica para iluminação. — ergueu uma sobrancelha esperando que ele reagisse.

— Olha, moça…

— Eu sei como pessoas como você pensa, senhor Hozuki — Sakura cuspiu as palavras não tão mais calma, mas com uma classe que era sufocante — E tenho um conselho que deveria levar para a vida. Comece a pensar como uma mulher, talvez se torne um profissional menos medíocre.

Sasuke se arrependeu de não ter cortado Suigetsu quando ele abriu a boca da primeira vez. Na verdade deveria tê-lo cortado quando mostrou as modificações que gostaria de fazer. Atitudes assim eram facilmente revertidas num feedback negativo. E isso era tudo que eles não precisavam no momento.

Pensou no que deveria falar, iria arrumar aquela situação, mas o celular dela tocou e um suspiro cansado da parte dela o fez aguardar.

— Haruno Sakura — atendeu indo em direção a porta — Tudo bem, só um segundo — disse a pessoa do celular tapando o aparelho com uma mão ao se virar para os dois homens — É bom não tentar mais nenhuma “ideia genial”, senhor Hozuki, sem antes passar por minha aprovação. Não costumo aceitar um segundo erro.

E assim como entrou, ela se foi. Apenas os sons do salto eram ouvidos nos ecos do corredor silencioso.

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Sasuke tirou o colete de segurança e o capacete. Teria rido de Suigetsu se o caso não acabasse o atingindo de alguma forma também. Depois dela ter saído, Suigetsu humildemente apagou o desenho que havia feito e retomou o projeto original. Olhando as plantas com mais atenção, porém Sasuke teve algumas ideias que poderia incrementar a proposta do projeto.

Estaria mentindo se dissesse que estava ligando para o número que estava naquele cartão só para repassar suas ideias, havia um clima tenso para quebrar e deveria fazer a parte sensata da sociedade e mostrar que um não generaliza os outros.

— Haruno Sakura — A voz parecia cansada, percebeu. Um pouco arrastada, mas ainda forte.

— Boa noite, senhora Haruno — cumprimentou abrindo a porta do carro e guardando os projetos no banco de trás — Aqui é Sasuke Uchiha da empresa Hebi.

Escutou um bufar e preferiu ignorar.

— Explodiram alguma coisa em minha ausência?

Ele respirou fundo, mas entendeu que não tinha como reclamar sobre isso, principalmente com ela.

— Tenho certeza que já saberia antes mesmo da explosão ocorrer — ele disse calmo sem mostrar sinais de sarcasmo.

— Exatamente. O que quer?

— Depois de… — pensou na melhor palavra enquanto retirava um pouco de cal que caíra nas pontas do cabelo pelo retrovisor — ouvir a conversa entre a senhora e meu sócio, vi que algumas coisas podem ser acrescentadas para otimizar o bom uso de energia solar.

Ele aguardou algum corte vindo dela, e ficou satisfeito de saber que era uma mulher acima de tudo profissional.

— Continue — ela disse em tom brando.

Sasuke olhou as horas no relógio de ouro em seu pulso e soltou um suspiro alto.

— Já jantou, senhora Haruno?

— Não. — a resposta foi rápida e curta — Me encontre no bistrô da Avenida principal em meia hora.

E ela desligou sem ao menos uma despedida educada. Sasuke esfregou a testa e passou a mão pelos cabelos. Estava suado, com cheiro de construção, e pela forma como ela falou, não haveria discussão sobre o horário do jantar. Vencido, jogou o celular no banco do passageiro e saiu com o carro em frente da bela casa que construíam.

Sasuke chegou com 15 minutos de antecedência e se surpreendeu com a pontualidade dela. Usava a mesma roupa de mais cedo, fato que acabou sobrepondo ao fato de chegar na hora. Já passavam das nove horas da noite, e aparentemente ela ainda trabalhava.

Rapidamente foi reconhecido e os saltos foram seguidos por um garçom solícito que lhe puxou a cadeira para que se sentasse.

Ela estava exausta, e era algo que Sasuke entendia muito bem. Os olhos caídos, os ombros relaxados, o pedido inicial por uma xícara de café…

— Só de olhar já percebo que posso conversar civilizadamente com o senhor. — ela disse aceitando sua xícara fumegante e já se preparando para olhar o cardápio.

— Peço desculpas pela falta de tato de meu sócio.

— Não se preocupe com isso — ela abanou a mão parecendo mais interessada nos pratos a sua frente, então o deixou esperando enquanto o garçom detalhava os ingredientes que iam num prato que se interessara.

Sasuke a observava. Se tivesse a conhecido em outra ocasião, com certeza teria feito mal julgamento dela e pensado se tratar de uma mulher delicado e tímida. As bochechas eram coradas naturalmente, via isso já que a maquiagem já se desgastava, tinha olhos grandes dando uma falsa sensação de meiguice. Era muito bonita e parecia ser muito mais jovem do que deveria ser.

— Vinho, senhor Uchiha? Ou prefere champanhe? — ela questionou de súbito o fazendo dar de ombros para disfarçar a surpresa. — Vinho, então.

Era decidida e independente, algo que qualquer homem inteligente achava imensamente atraente.

Os dois fizeram então o pedido de seus pratos e Sakura o questionou sobre o motivo do convite. Sasuke, sabendo em que terreno trabalhava, apontou o uso de claraboias e placas de energia solar para aquecimento do chuveiro. Sakura escutava tudo atentamente e começou a dar sinais entusiásticos de empolgação.

— A água pode ser reutilizada… — Sakura parecia brilhar a cada nova ideia que surgia em sua mente, e Sasuke se surpreendia com a facilidade que ela tinha em aderir suas opiniões.

— … assim a garagem pode ficar mais espaçosa — ele utilizava um guardanapo para desenhar o que veio em sua mente. — Acredito que a senhora e seu marido tenham mais de um carro.

— Ótima ideia — Sakura parabenizou já esperando a sobremesa. — É sempre revigorante conversar com pessoas inteligentes, senhor Uchiha.

— Compartilho da mesma felicidade — ofereceu um sorriso natural depois de conseguir deixá-la mais calma. Viu-a olhar em sua direção de uma forma estranha e lhe sorrir de volta.

— Parece ser jovem demais para ter uma construtora, senhor Uchiha. — Sakura observou mudando o âmbito da conversa.

Sasuke sentia-se relaxado, enfim. Havia sido uma discussão empolgante sobre planejamento imobiliário e agora sentia-se mais a vontade para poder falar sobre si com ela.

— Obrigado pelo elogio — acompanhou a sobremesa dela com uma taça de vinho — Estudo desde a adolescência, mas já passo dos trinta.

Sakura ergue uma sobrancelha surpresa e voltou para sua taça de doce de frutas.

— Tenho certeza que sou mais velho que a senhora…

— Senhorita — o interrompeu com um sorriso pequeno entre a colher que segurava entre os lábios. — Não vou falar a minha idade — gracejou e Sasuke riu. — Estava indo tão bem, Sasuke. — o reprovou rindo em seguida.

Ouvir o próprio nome vindo da boca dela foi no mínimo estranho, dava uma liberdade e intimidade que ele não havia proposto. Mas não era algo ruim, gostou de saber que havia subido no conceito dela a ponto de poder ser mais casual.

Ele sorriu de canto deixando um rascunho de riso escapar como sopro enquanto agitava a própria taça. Naquele momento conversava, simplesmente com uma mulher inteligente e interessante.

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— Ela chegou — resmungou Suigetsu entrando no cômodo que Sasuke usava para trabalhar.

Haviam se passado três dias desde o jantar, haviam conversado amenidade sobre o cotidiano até que um deles bocejasse e vissem que já era hora de finalizar aquela reunião.

Sasuke não ligara para ela, mas se viu atento a qualquer coisa que achasse importante para ter uma desculpa para tal. Inúmeras vezes pensou o quão interessante seria tê-la em sua equipe, mas então lembrava-se do sorriso fácil e dos olhos astutos. Do quão perigosamente sedutora ela sabia ser quando não se tratava de serviço, mas era algo que ele pensava ser afetado sem a intenção dela, já que parecia natural ter uma presença tão marcante.

Na noite anterior havia saciado um pouco da sua curiosidade pesquisado o nome dela nas redes sociais e, com grande surpresa, a viu tendo a esposa de seu melhor amigo como amigo em comum. Viu algumas fotos que não estavam bloqueadas, até que achasse sua atitude estranha demais e esquecesse a solicitação que pensara em enviar.

Mas assim que Suigetsu desabafara, o som dos saltos logo fizeram presença e Sasuke só teve tempo para limpar o suor na manga dobrada da camisa azul.

— Boa tarde, senhores — Sasuke segurou o impulso de não fazer o mesmo que Suigetsu e olhá-la dos pés a cabeça.

Usava um vestido bordô de corte clássico e social. Não havia decote acentuado, somente um mínimo decote quadrado e elegante. O comprimento ia apenas alguns dedos acima do joelho e não havia fenda ou qualquer detalhe que mostrasse mais do que devia. Era roupa de trabalho, discreta, séria e bem alinhada. Mas nela parecia tão sexy que era até desconcertante olhar por muito tempo. A maquiagem dessa vez estava retocada e os olhos nunca pareceram tão destacados, assim como os lábios pintados de vinho. O perfume dela chegou a ele como um tapa e precisou respirar fundo e desviar os olhos para os papeis em sua mesa para clarear a mente.

— Boa tarde, senhorita Haruno. — respondeu depois de Suigetsu murmurar algo atrapalhado. Ergueu um pouco os olhos somente para vê-la segurar um sorriso. Ele lhe sorriu de canto voltando para a planta em mãos. — Algum problema?

— Na verdade — ela deu alguns passos até ficar mais próximo dele, aproveitando para olhar o cômodo que estava. — Gostaria de ver com meus próprios olhos como está indo. — parou os olhos nele, tão séria que destruiu qualquer ideia de descontração que tivesse passado pela cabeça dele.

— Seria ótimo o Sasuke mostrar, não é? — Suigetsu sugeriu já tirando o dele da reta — Fique a vontade, afinal a casa é sua… — deu uma risada sem graça pegando algumas caixas pequenas.

— Vai precisar de equipamento de segurança, não pode andar assim pela construção. — Sasuke disse sério sem tirar os olhos de seu projeto.

Suigetsu retardou sua saída esperando um “Eu ando do jeito que eu quero, seu machista nojento.” vindo dela, mas tudo o que ouviu foi:

— Claro, tem algum sapato que caiba no meu pé?

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Sasuke mostrou cada cômodo já construído depois que ela colocou o colete com detalhes florescentes, o capacete e o menor sapato de segurança que encontraram, ainda ficando grande no pé dela.

Ele apontava com rara paciência cada detalhe, significante ou não para ela. Sakura o seguia e olhava tudo com a mesma paciência. O horário dos trabalhadores havia passado, e Suigetsu havia ido com eles sem se despedir de Sasuke, mas não haviam terminado de ver tudo o que estava sendo feito.

Sakura bateu a mão num interruptor e a luz iluminou o cômodo que começava a ficar escuro por conta do pôr do sol. Sasuke sentiu idiota ao perceber o tanto que demorara e ainda mais com o que isso poderia significar para ela, mas a olhando não viu qualquer resquício de estranheza da parte dela.

— Já anoiteceu — ele apontou e bateu com a caneta na base de madeira da janela. — Talvez se puder vir amanhã eu posso…

— O que acha desse cômodo ser o quarto principal? — ela perguntou o interrompendo como se ele nem tivesse começado a falar.

Sasuke franziu as sobrancelhas, mas não contrapôs, apenas observou o cômodo espaçoso com visão analítica.

Era um quadrado perfeito, com chão ainda em cimento e marcações no chão para onde seria um banheiro em breve. Haviam duas janelas médias toda em vidro com moldura em madeiramento, e no chão algumas lonas usadas para que o gesso do teto não sujasse mais do que já sujaria. Mesmo assim, ele conseguia ver detalhes de um quarto decorado com bom gosto, onde cada móvel poderia ficar, o closet que poderia ser construído ali, a cama…

— É uma boa escolha, acho até que cabe fazer uma varanda — apontou para o lado de fora.

Sakura aproximou-se mais e olhou na direção que ele olhava.

— Magnífico.

Os dois ficaram em silêncio olhando para a janela que seria demolida para fazer a entrada da varanda que ele propôs. Havia somente montanhas de areia e pedra do lado de fora, mas Sakura conseguia ver um jardim ali, e talvez até plantasse uma árvore bonita e pequena apenas para fazer uma sombra sobre os banquinhos que colocaria…

— Tenho que parar de pensar um pouco nessa casa — colocou a mão na cabeça e riu.

Sasuke a olhou de soslaio e a viu retirando os sapatos e sentando-se sobre a lona jogada no chão. Ele não soube o que fazer a princípio, mas não queria sair dali.

— Muito cansada? — perguntou escorando-se na parede perto dela.

— Nem imagina o quanto — passou a mão pequena pelo rosto e suspirou.

Sasuke viu muito do que não deveria ver dela em si.

— Qual o motivo disso? — perguntou sem se refrear, sentando-se na mesma lona que ela.

Os dois olhavam para frente.

— Preciso sair de casa logo. — ela respondeu baixo passando a mão novamente pelo rosto — Complicado, esqueça isso.

Sasuke aquiesceu e apoiou os braços estendidos nos joelhos dobrados.

— Eu gosto desse cheiro — ela disse passando o dedo pelo chão de concreto cru — Cheiro de construção, sabe? — o olhou de canto com um sorriso pequeno.

Ele sabia, não se comparava com o cheiro da chuva, mas para quem vivia aquilo, conseguia transformar até cimento e cal em poesia.

— Eu só trabalho com plantas — ela disse mais uma vez, Sasuke estranhara o fato dela puxar assunto, mas agradecia o fato de não ser ele a ter que fazer isso quando queria ficar mais um pouco — Mas é aqui que a mágica acontece. — ela continuou — Tudo começa com uma ideia, uma sugestão. Então conhece-se o terreno, o deixa nivelado como deseja, as bases são feitas e solidificadas, os pilares de sustentação são levantados e então as paredes são feitas. — ela gesticulava lentamente enquanto Sasuke mergulhava na voz dela. — Neste processo são vistos os defeitos e os acréscimos que podem ser feitos, mas toda a estrutura principal já está feita.

— Depois vem os detalhes — Sasuke continuou conseguindo visualizar novamente o quarto todo pronto — E essa pode ser a parte mais cara — riu junto dela.

— Sim, aí você vai achar que vai estar tudo pronto, mas de vez em quando algumas reformas terão que ser feitas… — Sakura suspirou — E um dia vai querer algo novo, deixando o velho para trás e voltando a construir mais uma vez.

E então Sasuke se viu preso na analogia dela, a olhou de canto enquanto ela olhava a parede pensativa.

— E aqui estou eu falando em construção mais uma vez — ela riu, mas somente sua boca sorria, seus olhos não. Virou-se completamente para ele e os olhos pareceram brilhar com algo que lhe veio a mente, algo que Sasuke não estava preparado — Vi que curtiu uma foto minha de quatro meses atrás…

Sasuke congelou, tentou rir mas sentiu-se imensamente imbecil. Desviou os olhos para as mãos enquanto pensava em algo que fosse minimamente aceitável.

— Estava curioso sobre você — preferiu ser franco.

— Tem muito o que aprender — ela riu, dizendo como se fosse muito mais velha e experiente que ele.

— É, fui pego… — comentou sem graça coçando a nuca.

A próxima coisa sensata a se fazer era se levantar e sair dali, talvez pedir desculpas e fingir que nunca aconteceu.

— Relaxa — ela o segurou pelo braço quando se mexeu para começar seu plano de fuga. — Também queria saber mais sobre você.

Sasuke umedeceu os lábio, vendo as bochechas dela colorirem-se um pouco mais e um sorriso despontar dos lábios pintados. Virou-se para ela e sorriu sentindo o perfume invadir seus sentidos mais uma vez.

— Não tem muito o que saber sobre mim- disse mais baixo, sabendo bem que clima havia se instalado ali, e tentando não pensar que tudo aquilo fora armado por ela, porque se fosse era extremamente excitante.

— É solteiro e gosta de Ramones… — ela soprou e riu quando ele ergueu as sobrancelhas surpreso. — E é muito amigo do marido da Hinata… Viu, é assim que se faz.

Sasuke deixou um riso breve escapar. A ansiedade e a expectativa começavam a borbulhar em seu estômago, subindo até sua garganta e lhe aguçando o paladar.

— Não cheguei à procurar seu estado civil — ele mentiu erguendo uma sobrancelha.

Ela fez um perfeito “o” com a boca e riu.

— Touchè.

Ela esperava algo, ele sentia que sim. E aquilo era maluco demais, mas ela parecia lhe chamar com os olhos. Ou melhor, ordenar com os olhos.

Ela não recuou quando ele afagou seu rosto e retribuiu quando a beijou sem mais demora. Ela o abraçou de volta e deixou ser deitada naquela lona. Ele desenhou as linhas do corpo dela como uma obra arquitetônica de valor. Mordeu a pele do pescoço e recebeu um gemido risonho dela aceitando o sexo casual mais imprevisível que já tivera.

Na noite seguinte seguinte saíram para jantar, mas não conversaram sobre as obras. Continuaram se vendo até que se deram conta que a casa estava pronta e aquilo entre eles ainda não tinha acabado.

E como na analogia de Sakura, a planta foi desenhada e o projeto foi lançado, as bases foram construídas sem que percebessem. Logo as colunas estavam pé e as paredes levantadas. Seria mentira dizer que não houve discussão sobre alguns detalhes e erros na planta, mas juntos chegaram à um acordo e os detalhes mais caros enfim foram programados.

Anos depois, a garagem maior que Sasuke propusera, agora cabia o seu e o carro dela. Além da bicicleta da garotinha que ele trazia da escola àquela hora.

Quando mais nova e o conhecera, Sakura ainda pensava que construções podiam ficar obsoletas e deveriam ser abandonadas. Mas ledo engano, com os anos aprendera que restaurar era melhor que reconstruir, muitas vezes. E que as bases podem ser tão fortes, que se torna impossível deixar de fazer planos em cima dela.



betado por Mirys