Coletâneas

34 Conversa.


Dois amigos estão conversando, besteiras e amenidades comum a conversas leves entre amigos, quando passa um senhor e logo depois uma criança correndo.

O amigo diz: -Vê se pode quase derruba o senhor. Essas crianças deviam ter mais respeito.

Sorrindo o outro concorda.

— Respeito é fundamental, mas não somente para a criança. O senhor também está precisando de um pouco mais dele.

O mesmo aponta para o senhor que vinha a um passo lento em frente a um jovem que pedia incessantemente por licença, o velho resmungava e continuava em seu passo lento.

— O que há de errado?

— Ora meu amigo, o que custa a ele parar sua caminhada e dar um passo para o lado para que o jovem apressado passe e ambos sigam seu caminho? A criança não estava certa por passar correndo, tão pouco ele por não deixar o outro passar.

—Se bem lhe conheço, e eu o conheço bem, está tentando chegar a algum ponto com isso certo?

—Se não me conhecesse seria de se estranhar, com tantos anos de amizade, está, de fato, certo. Porque quando a criança passou foi falta de respeito e quando o senhor agiu errado foi desculpável?

A idade pode nos deixar lentos, fracos, com a memória ruim, o os ossos frágeis, nossa pele enruga, o corpo perde a beleza da juventude, os cabelos ficam brancos e os dentes caem, mas o caráter, amigo meu, a alma não se muda. Isso independe da idade.

—É um teimoso, é o que digo. O senhor é lento pela idade, fazendo o jovem esperar ele está ensinando duas lições muito importantes: A de que o tempo passa e outra sobre a paciência.

—Pois eu acho o jovem muito paciente, eu mesmo já teria me virado e feito outro caminho ou empurrado o velho. Onde já se viu tanta falta de educação. Idade não desfaz isso não.

— Então defende a criança.

—Eu acuso o velho! Ambos estão errados, mas ao seus olhos só há uma vítima e muitos culpados. Será que a culpa não está na sua vítima?

Idade não é doença, deveria significar experiência, não imunidade. As leis, seja as jurídicas, as da ética ou dos bons hábitos e costumes se aplicam a todos independente da sua idade.

—A idade nos concede sabedoria...

—Há, mas me permita descordar!

—Já me interrompeu mesmo...

—Quieto e me deixa falar. Onde estava? Há sim!

A sabedoria significa possuir um conhecimento e coloca-lo em prática. Tendo isso em vista devemos considerar que em algum momento da vida o velho foi apresentado aos nossos costumes corriqueiros de sociedade, também chamados de educação, entretanto apesar de sua avançada idade fica claro que ele não faz uso desse conhecimento, sendo assim não age sabiamente.

Um sorriso triunfante é exibido ao final da fala e o outro amigo fica lá o olhando por um tempo antes de dizer:

—Já não disse que é um teimoso? Não gosto de ser repetitivo.

Um "Ará!" triunfante é proferido e os dois se aquietam no espaço e tempo.

Quando o silêncio já perdura a uns bons minutos vem outra enquete a atormentar suas mentes. Sem que percebam e como costume dado pelo tempo dizem no mesmo momento:

—Como somos amigos?

Ambos riem um do outro e aquele que a pouco exibia um sorriso triunfante diz:

—Faz anos que nos conhecemos e somos amigos íntimos, entretanto dificilmente chegamos a um acordo. Todas as nossas conversas por mais simples que sejam se revoltam em discussões e discursos, apesar de saber que parte disso seja minha culpa, eu falo demais, somos muito divergentes. Como nossa amizade sobrevive a tanto?

Após um tempo em silêncio, um tempo que pode ter sido um segundo ou uma hora, responde.

—Amigo meu, meu querido amigo, somos muito diferentes e é isso que mantém nossa amizade. O comum vira rotina e de rotina ficamos fartos. Vivemos a anos em nossas conversas em meio a bicadas e resmungos, porém sempre acabamos bem e juntos, como os bons amigos devem acabar.

Se concordamos em tudo que graça haverá em conversar? Se tivermos sempre a mesma opinião qual seria a razão em escutar? E se nunca reclamarmos um do outro que graça os outros veriam em nós?

Somos amigos por sermos distintos e isso o que nos uni, e fico feliz que seja assim, minha mulher agradece, também, ela diz que sempre que retorno de nossas conversas eu tenho algo interessante para falar e que sempre quando tem de falar mal sobre mim ela recorre a você.

Uma gostosa gargalhada é ouvida e com a mão sobre os ombros um do outro voltam para casa.

Amigo meu, querido amigo, se você está lendo isso saberá que é você, mas eu nunca iria admitir em voz alta a ti: por vezes até que tens razão.