Coletânea do M
2 Mil Palavras
Notas iniciais
Olhei por bastante tempo a página em branco. Eu queria escrever, expor o meu sentimento. Juro, eu queria muito. Mas sobre o quê? Tudo é clichê. Tudo já foi dito... Ou talvez eu esteja exagerando.
É. Exagero faz parte de mim como o mar faz parte da Terra. É em grande quantidade. Profundo, sabe?
Às vezes me pergunto: O que estou fazendo? Nunca soube a resposta. E, agora, que tomei coragem para escrever, eu tenho medo de tropeçar nas palavras, chorar em cada tecla, sentir em cada escrita essa chama que está viva em mim.
Será que é tão difícil apagar? Porque teve uma nevasca em meu peito, mas esse maldito fogo continua aceso! Não importa o quanto eu assopre, não importa o frio que eu sinta, ele permanece ali... Mesmo não sendo mais grandioso, ele continua iluminando e aquecendo-me sempre.
É nesse momento que eu devo parar de escrever, não é? Do que adianta ler várias e várias vezes a mesma coisa sobre sentimentos, se nada nos levará a lugar algum?
O.K.
Eu sinto muito. Não vou parar por aqui, não posso, é automático. Eu dou uma pausa para encarar qualquer ponto da sala e respirar, mas não consigo parar de escrever. Ouço aquela música de fundo que consegue compreender exatamente o que se passa. Até mesmo a melodia se encaixa. O que chega a ser assustador e perfeito.
Paro. Mesmo querendo escrever muito, minha mente parece tomar domínio do que faço.
A barra começa a piscar e eu não tenho ideia de como prosseguir com esse... Texto? Já não me encontro em perfeito estado para definir o que escrevo. Chego a rimar sem querer.
Mais uma pausa.
Não é possível que eu ainda pense nesta pessoa. Eu já tentei de tudo para esquecer, deduzo por mim que não devo mais seguir em frente. Uma hora temos que parar. O cansaço será maior. Mas, então, entra em cena aquela pequena chama no meio do frio. É como se, além da esperança, também estivesse guardado as lembranças de tudo o que vivemos e a lembrança de que eu ainda... Droga!
Dói, meu caro. E é uma dor estranha, diferente, não sara tão depressa como um arranhão. De vez em quando deito no chão e a dor me acompanha e deita ao meu lado. Então eu ouço... “Deixe-me ir... Você precisa me deixar ir...”. É uma voz de choro.
Eu sei que eu deveria deixa-la ir. Eu a permito que vá embora e que me deixe em paz, pelo amor de Deus, mas... Eu não sei como tirá-la de mim, entende?
Eu já tentei esquecer, tento ainda. Mas lembra da pequena chama? Que droga de chama... Ela é como a Lua, o Sol, tudo no Universo. Por mais que o dia ou a noite estejam nublados, você sabe que, atrás do cinza, atrás da escuridão há o satélite natural da Terra, há a Estrela que aquece nossa alma. Há um infinito...
Como fugir disso?
Mais uma vez. Paro. Barrinha piscando em sincronia com meu coração.
Eu o amo.
Não me pergunte o porquê, porque eu só sei que o amo.
Mas nunca tive coragem de dizer. Estar perto dele me faz parecer uma idiota por completo. Eu me embolo com as palavras e... É tão complicado.
Bastou uma noite. Uma única noite para eu sentir algo inexplicável. Eu estava perto dele, mas tão distante e invisível. Meu coração se apertou, como se realmente alguém o apertasse dentro de mim e o que eu mais queria era arrancá-lo, para ver se, assim, a dor sairia junto.
Minha garganta fechou, como se eu estivesse engasgada com algo. Meus olhos tentavam permanecer o maior tempo fechados. Meu corpo ficou cansado e eu só queria um abraço de qualquer pessoa. E olha que eu odeio abraços.
Mas um carinho naquele momento foi necessário. Ninguém sabia o que se passava comigo. Foi melhor assim. Sofri em silêncio.
Eu o vi indo embora. Não trocamos palavras, olhares, despedidas. Nada. Éramos dois estranhos. Que saco! Eu deveria ter ficado feliz, sei lá! Era sinal de que... Ele deveria ir mesmo e levar o que eu sentia. Mas ele foi e o sentimento ficou.
Sabe? Eu não fiquei com raiva. É inexplicável! Mas, por mais que tenha me machucado, por mais que... Meu Deus! Eu não senti raiva.
Isso é amor? Porque, eu posso até ter admitido que o amo, mas estou torcendo muito para que alguém me dê uma tapa, agarre meus ombros, me sacuda até minha cabeça começar a ficar tonta e diga: “Não! Isso não é amor! Isso... Isso não é nada.”.
O dia. A noite. Tanto faz. Eu nem tenho mais noção de tempo.
Estou perdida.
Tudo ao meu redor se move, entretanto eu continuo parada.
Eu sei que devo continuar minha vida. E irei. É que... Nesse momento em que escrevo... Meu pensamento para, meu sentimento aflora e eu não consigo controlar. É fácil alguém aparecer na minha frente e dizer que vai ficar tudo bem.
Eu sei que vai.
Mas nesse momento em que escrevo...
Nesse momento...
Eu não sei. É difícil.
Vou começar do zero. Mais uma página em branco. A barrinha continua piscando. Resolvo apagar tudo que está escrito acima.
Não dá. Meu dedo trava na tecla e a barrinha volta a piscar, meu coração toma um novo ritmo e minha mente se volta para ele.
Como eu queria que ele soubesse... Mas sou totalmente inexperiente neste assunto. Tenho medo e isso é arrasador. Estou convivendo com isso dia após dia. Hora se arrastando atrás de hora. Mas não tem fim.
Todos têm problemas. Inúmeros. O meu não é o menos importante tampouco o que precisa ter destaque.
Por isso escrevo. Sabe... Não quero ninguém ouvindo minha voz fraca, nem vendo meus olhos lacrimejando.
Aqui ninguém me vê, talvez nem leia. Mas eu pouco me importo. Quando escrevo tento achar em minhas próprias palavras um jeito de me confortar.
Desisto por hoje. Talvez amanhã eu continue. Ou não.
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