Coletânea de Poesias.
1 Tenho o frio.
Notas iniciais
Tenho o frio
Nele me encaixo.
Peguei-o em minhas mãos.
Enfiei-o garganta a baixo,
Cerrei-o no coração.
Guardei-o com zelo.
Tenho o frio
Mas ele me encheu de desespero.
Congelou minhas borboletas,
Amorteceu tudo em mim.
O sangue já não corre pelas veias,
Pôs aos meus sentimentos um fim.
Tenho o frio.
Mas não sei se o quero,
Já não tenho escolhas
O frio me fez cego.
Não sinto mais nada,
Meu eu verdadeiro está além.
Tenho o frio,
Ou será que ele me tem?
◊◊◊
Eu me assusto com seu olhar
Tão brilhante
Que reflete o céu sem estrelas
E o macabro luar.
Tudo o que vejo é meu rosto vermelho
Borrado pelas lagrimas e pelo rímel
Como se o verde dos teus olhos
Fosse um mágico espelho.
Transtornada, desesperada
Vejo centenas de mim mesma assim
Ao notar que estou sendo deixada
E você já não se importa nenhum pouco
Com meu gênio ruim.
E eu imploro ao verde e caloroso olhar
“por favor, não me abandone”.
Mas meu reflexo já não posso mais enxergar
Quando você sai, e some.
◊◊◊
Combina tanto comigo,
Dia cinzento,
Dia frio,
Dia molhado.
Parece que minhas lágrimas
Se misturam
Com as gotas que caem
Daquele céu cinza,
Que parece poluído
De tanta melancolia.
◊◊◊
As nuvens que parecem fantasmas
E há apenas os corvos e urubus,
Guardiões da morte,
Contracenando com esse céu poluído.
As pichações, quase poéticas, quase arte
Nas paredes dos prédios
E os seus lábios se movendo enquanto lê esse poema.
Tudo isso é um pouco mórbido
E eu estou apaixonada
Porque eu sei que no momento em que não mais resistir
E finalmente deleitar meus lábios nos seus
Será o meu fim.
◊◊◊
É estranho constatar que meu coração ainda bate.
Pois tinha certeza de ter sofrido um ataque cardíaco;
E isso não tem nada a ver com bebidas ou hipertensão.
O motivo verdadeiro é, veja só que ironia,
O amor que ali dentro habitava:
Era grande demais,
E não podia ser doado a ninguém.
E de tão grande que foi,
Explodiu-me o coração.
◊◊◊
Uma dor lancinante se fez sentida,
Uma faca entrando até o punho em seu peito.
Logo depois chamas lamberam a ferida,
Despedaçando sua alma por inteiro.
Ela não sabia o que se passava,
Apenas sentia o ardor profundo.
Uma névoa densa sua mente anuviava.
E ela pensou que jamais poderia ser salva,
Por ninguém no mundo.
O que acontecia naquele momento?
A dor que estava por fora,
Na verdade era por dentro.
O que fizeram a mim?,
Perguntava-se ela, sem fim.
Um torpor tomou conta de seu corpo,
Antes de descobrir o desgosto.
Já entendia o que estava ocorrendo,
O motivo e a causa da dor por dentro:
Ela estava sendo deixada.
E, na verdade, a facada, era a dor que sentiu
Pela sua vida despedaçada.
Tudo estava explicado:
As labaredas, então, eram, na realidade,
Apenas mais um coração,
Por ele quebrado.
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