Coletânea de Palavras Vivas e Mortas
7 O Homem de merda e dia a dia
O Homem de Merda
Vejo teatro para fugir à realidade,
Mas me encontro calado, incapaz de expressar a minha vontade.
No palco, uma história de amor é contada,
Dois amantes caminham pela mesma estrada.
Isto me faz pensar às vezes,
Será que existe um amante para o homem feito de fezes?
O show chega ao fim
E a plateia aplaude,
Mas não existe em mim
Tal habilidade.
Nem a direita, nem a esquerda.
Não posso aplaudir
Porque as minhas mãos são feitas de merda.
Caminho para fora e reparo na minha perda.
Pedaços meus ficaram para trás
Formando um rastro de merda.
As pessoas se afastam e me desprezam,
Mas não me desfaço nem tenho pressa.
Outras vomitam no pavimento.
Eu também vomitaria,
Se não fosse um homem feito de excremento.
Dia a dia
Todos reféns da condição humana.
Sorrisos que escondem drama.
Viver perdido por ser a opção sana.
Pessoas incompletas buscando distração.
Falsos profetas de bocas abertas pregando tentação.
Não mais do que peças,
Ferramentas sem emoção.
Num tabuleiro dispersas
À espera de instrução.
Se movendo sem pressa
Numa única direção.
"A quem isso realmente interessa?" — pergunta a multidão.
Meu andar cessa, mas não chego a uma conclusão.
E por mais que alise as minhas arestas,
Não adquiro forma nem definição.
Olham para cima porque não querem ver o chão.
E há quem diga que não,
Que o mundo é perfeito e que está tudo bom.
Mas mesmo surdo escuta esse som.
O mundo só é justo para quem tem dinheiro na mão.
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