Coletânea

5 Nunca desista


O que tinha acontecido exatamente? Tinha sido tudo tão rápido demais para conseguir processar...Aquela manhã tinha se transformado num verdadeiro inferno de um momento para o outro para a jovem garota.

Tudo estava tão bem...Era uma manhã linda e ensolarada. Nada poderia dar errado, certo? Como todo dia de semana, a jovem acordara cedo, preparando-se para ir à escola e sentara-se a mesa, sorrindo alegremente para a mulher que fazia o melhor café-da-manhã na opinião da pequena. Como sempre, a mulher lhe sorriria docemente, pedindo para que esperasse um pouco até o café estar pronto. Sempre fora assim...Até mesmo após a morte de seu pai, sua mãe nunca deixou de lhe sorrir.

Enquanto comiam, um pequeno tremor ocorreu. Nada muito grande ou preocupante. Nenhum dos vizinhos, muitos menos as duas garotas, se preocuparam com aquilo.

Tudo estava normal, mesmo quando as duas se despediram, seguindo caminhos opostos, uma para o trabalho e outra para o colégio. Mesmo assim, a menina mais nova não conseguia espantar o pressentimento ruim que sentia enquanto seguia para o colégio. Suas pernas pareciam querer voltar para perto da mãe naquele dia.

Oh...Se ao menos ela soubesse...Se ao menos pudesse ter proferido as palavras que sentira a necessidade de proferir. Se ao menos tivesse impedido a mãe de ir ao trabalho naquele dia tão banal...Talvez pudesse ter impedido o que iria ocorrer.

A pequena sentia um terrível nó na garganta enquanto estava em aula e mal conseguira prestar atenção ao que era ensinado. Mesmo assim, tudo parecia tão normal...Corriqueiro demais.

Então ocorreu...Um terremoto terrível balançara as construções e rachara as ruas. O medo crescera nos corações de todos, porém, não deveriam entrar em pânico. Isso só pioraria tudo.

Mesmo que as coisas já pareciam estar ruins demais, o pior ainda estava por vir...

Uma explosão...Fora isso que todos puderam ouvir logo após tudo se acalmar. E o colégio teve de ser evacuado rapidamente.

Enquanto saía junto da multidão de alunos, a garota vira algo que ficaria marcado em sua memória como o início do pior pesadelo que já tivera. Um pesadelo real e sem volta...

Ficara pálida e perdera o ar de seus pulmões quando viu o fogo na indústria onde a mãe trabalhava se alastrando por entre as casas e prédios perto do local. Os gritos, o cheiro de queimado, a correria...Tudo parecera tão distante quando a ficha caiu e suas pernas lhe traíram, deixando-a cair no chão enquanto olhava para o fogo com olhos arregalados.

Mesmo que a realidade estivesse na sua frente, não queria acreditar. Não conseguia acreditar que aquela indústria estava em chamas, destruída...Muito menos que estas mesmas chamas levaram sua mãe.

Aquele mundo tão belo que dividia com a sua única família fora estilhaçado como socar um espelho com a intenção de quebrá-lo, estilhaços caindo no chão e se partindo ainda mais.

Mesmo não querendo, quando um paramédico puxou-lhe do chão para que saísse o mais rápido possível do local sem que tivesse respirado muito daquela fumaça tóxica, simplesmente deixou-se ser levada para uma ambulância direto para um hospital longe do local.

Com tantos pensamentos e o desespero pesando em si, desmaiara antes mesmo de conseguir ver o hospital pela janela da ambulância, torcendo para que tudo fosse um simples pesadelo.

— Elise Blanc, filha de Lara Blanc...Alguém tem contato com qualquer outro parente dela? Para que possa...- ouviu uma voz longínqua dizer seu nome e o de sua mãe, porém, não conseguira abrir os olhos e, antes mesmo que pudesse perceber, perdera a consciência novamente após sentir uma picada em seu braço. Uma injeção.

Os dias que se passaram foram cinzas e vazios enquanto ficava presa àquela cama de hospital sendo medicada com remédios que lhe davam sono. Uma forma de mantê-la calma.

Algumas vezes, percebia algumas pessoas falando próximas à sua porta sobre algo que não compreendia e nem tinha a miníma vontade de compreender. Sabia que o enterro de sua mãe já tinha passado, porém, ninguém levara-lhe para vê-la uma última vez como forma de preservar sua mente. Porém, de nada faria diferença...Já estava prejudicada demais.

Certa tarde, vira uma mulher entrar com um garoto que deveria ser uns dois ou três anos mais velho que si. Estranhara aquilo e, se não fosse pelos remédios que a dopavam, entraria em pânico e, provavelmente, tentaria fugir. Mesmo que para isso, tivesse que arrancar o cateter de seu braço.

— Boa tarde, Elise.- a mulher pronunciara-se, tentando sorrir de forma amigável para ela, mesmo assim, Elise somente encarara-a.- Eu sou Esther, irmã de seu pai e este é Caleb, seu primo.- apresentara-se após perceber que não receberia nenhuma palavra da garota que tinha um olhar vazio e uma expressão sem vida na face.- Nós viemos para buscá-la. Iremos cuidar de você a partir de hoje.

A pequena não tivera nem chance de questionar, quando se dera conta, já estava dentro de um Sedan laranja ao lado de Caleb com destino à nova casa em que teria de ficar. Era menor de idade afinal.

Mesmo tendo sido apresentada à toda família. Como à Ivan, marido de Esther, e aos quatro irmãos de Caleb. Mesmo que aquela família tentasse inclui-la em seus hobbies e passeios, ainda sentia-se deslocada. Afinal, nunca nem sequer soube da existência de uma irmã de seu pai...

Teve uma tarde que não pudera mais aguentar e acabara por fugir, deixando que suas pernas lhe guiassem para onde quer que fosse. No fim, acabara desabando perto de uma velha fábrica de doces, nos limites da cidade vizinha à sua.

Não queria mais correr, andar ou respirar...Só queria que tudo acabasse logo. Enquanto observava a entrada daquela fábrica abandonada, encolhera-se contra uma parede, deixando que toda e qualquer emoção que tivesse escondido transbordasse em forma de lágrimas grossas e abundantes.

— Elise?- ouvira uma voz atrás de si que fizera-a engatar a própria respiração e se encolher ainda mais, escondendo o rosto para que Caleb não visse sua face.- Imaginei que você viria para o lugar mais longe que conseguisse...- comentara, aproximando-se lentamente. De todos da casa em que estava agora, Caleb fora o que mais tentou fazê-la se sentir bem e em casa. Como ainda tentava.- Você sabe...Todos estão preocupados com você.- sentara-se ao lado da menina, tentando olhar para o rosto escondido da mesma.- Elise...

Mesmo tentando chamá-la, a garota não movera um músculo sequer, mantendo o rosto escondido entre os joelhos. Não queria ser vista assim. Tão frágil...Só queria ficar sozinha.

— ...- a próxima ação do garoto surpreendera Elise, que só fizera arregalar os olhos enquanto sentia-se ser abraçada pelo mais velho.- Eu sei que dói, que você só quer ficar sozinha...- sussurrou.- Mas isso só te fará sentir pior. Sei que você se sente deslocada entre a minha família, mas tente conversar um pouco mais...Isso te faria tão bem.- continuou, abraçando-a ainda mais forte.- Tudo vai ficar bem...A vida não é tão cruel quanto parece. Um dia você vai estar tão feliz e estas feridas estarão cicatrizadas.

Por mais que a menina estivesse tentando não chorar na frente de alguém, após estas palavras não fora capaz de manter tantas emoções presas. As lágrimas que tinha conseguido parar voltaram em uma quantidade maior e a garota acabara por responder ao abraço, chorando alto.

Mesmo se sentindo sozinha, Caleb passou a sempre estar do lado da mais nova, procurando sempre ajudá-la e sempre estar perto dela. E isso acabou por fazer que ambos desenvolvessem sentimentos que iam muito além da amizade. E assim a vida recompensou o que tinha tirado da menina cinco anos depois.

Notas finais
OC's: Elise, Caleb, Lara (mãe de Elise), Ivan (pai de Caleb), Esther (mãe de Caleb), Johan, Jordan, Chris e Maria (irmãos de Caleb). Mais outra história bobinha para vocês~! Espero que tenha gostado, perdoe-me qualquer erro e uma revelaç...Deixa pra lá. Um dia vocês descobrem. Eles ainda podem aparecer bastante. Até o próximo~!