Coletânea
1 I Love You...
Corri direto para casa depois que tudo aconteceu. Não pretendia ficar na escola sendo motivo de chacota dos alunos, por causa do meu cabelo, dos meus olhos, da minha aparência...Não queria ficar lá após passar por tamanha humilhação.
Meu nome é Runa Alpha, tenho 14 anos e hoje foi o pior dia da minha vida, pois eu ia dizer para o garoto que gosto os meus sentimentos, mas quando me aproximei, uma garota que pensei ser minha amiga empurrou-me, fazendo-me cair de bunda no chão, deu um beijo demorado nele e depois me chamou de vadia e aberração de circo...Tudo isso na frente da escola inteira.
O pobre do garoto não entedia nada do que estava acontecendo, mas me olhava com pena, o pior tipo de olhar que poderia receber enquanto os outros riam de mim. Isso foi o que mais me doeu...Depois dessa, saí correndo, ignorando as outras aulas que teriam, e cá estamos nós, na minha casa.
Sempre fui um pouco diferente dos outros. Meu cabelo era naturalmente branco, ganhando uma coloração cinza nas pontas onduladas. Minha pele é pálida e muito sensível e meus olhos são heterocromáticos, sendo o esquerdo castanho claro e o direito cinzento. Meu corpo sempre foi muito magro, pequeno, frágil e fraco, o que me causava diversas doenças e dias sem aparecer na escola também. Sempre pensavam que eu era um tipo de aberração, como uma vampira ou algo parecido...Nunca tive amigos, aquele garoto tinha sido o primeiro a me notar. E logo aquela menina tinha se aproximado de mim dizendo que queria minha amizade.
Quando entrei na minha pequena casa, minha mãe estava descendo as escadas com malas que aparentavam serem pesadas nas mãos.
— O que você está fazendo, mãe?- perguntei segurando as minhas lágrimas, não queria chorar na frente dela. Preocupá-la por algo bobo.
— Minha filha...- começara, ela parecia preocupada com algo...E não parecia ser o fato de que estava cedo em casa.- Nós vamos ficar longe daqui por um tempo.- começou, olhando em meus olhos.- Consegui uma estadia numa empresa muito boa, mas é só por três anos. Não é muita coisa se você for ver.- explicara, tentando amenizar a notícia com o último comentário.- Tudo bem pra você?- só nós duas moramos aqui, meu pai nos abandonou quando ainda era uma pirralha e, desde então, minha mãe vem trabalhando muito para nos sustentar sozinha, sem a ajuda de ninguém.- Se você não gostou a ideia, eu posso...
— Tudo bem, mãe.- interrompi, sorrindo amigavelmente. Essa seria uma chance única para poder mudar. Para poder esquecer de todos aqueles alunos metidos.
— Fico feliz que você tenha aceitado bem...- suspirara, sorrindo com alívio.- Eu tomei a liberdade para fazer suas malas mesmo com a possibilidade de você não querer ir, então você pode buscá-las em seu quarto.
— Claro!- exclamei, tentando conter minha alegria e subindo as escadas para entrar no meu quarto.
Peguei as poucas malas em cima da cama e desci rapidamente. Entramos num táxi que chegara momentos após ajustarmos tudo lá fora, ele nos levaria ao único aeroporto da cidade.
Seriamos só eu e minha mãe num apartamento em Sidney, na Austrália. Estou aliviada de poder me mudar para longe de tudo isso.
~~3 anos depois~~
Hoje estou com 17 anos e estou voltando para minha cidade natal, para a escola onde tudo aconteceu. Atualmente, uso óculos em decorrência das horas em claro estudando ou lendo algum tipo de livro, cursei aulas de Judô, natação, além é claro das aulas normais que se tem na minha idade e me aprofundei mais em arte e música. Fiquei um pouco mais alta, estou com 1,64 cm agora. Minha fragilidade continua a mesma, mas estou com o corpo um pouco mais forte depois de trabalhar a resistência.
Hoje já estaria frequentando a escola novamente, confesso estar nervosa, mas não me deixaria abalar por nada como deixava antes.
Chegando lá, bati na porta, estava um tanto atrasada, pois tinha me perdido em pensamentos no caminho. Logo ouvi um "Entre!" impaciente que obedeci prontamente. O olhar de todos voltara-se para mim, alguns rostos eram novos, mas a maioria já conhecia. Uma cidade pequena dificilmente mudava.
— Oi, gente. É bom revê-los depois de muito tempo.- comentei com um sorriso que era tudo menos amigável e receptivo.- Acho que nem preciso me apresentar, mas, por via das dúvidas...- comecei, olhando em volta, memorizando cada rosto novo ou velho.- Oi, meu nome é Runa Alpha e tenho 17 anos. Agora, professor onde eu posso me sentar?- não esperei reação de ninguém, somente olhei melhor para a classe e segui para me sentar na carteira vazia ao lado da janela sem nem mesmo esperar a decisão do professor.
Sentei-me no meu lugar e coloquei meus óculos, começando a copiar o que o professor passava na lousa após recuperar-se do choque. Sabia que tinha muita gente ainda me encarando, mas notei o olhar de alguém sobre mim em especial...Era a mesma menina que tinha me traído. Seu nome era Stella Young e continuava a mesma de sempre. Seu olhar parecia irritado e fuzilador, mas não mais me assustava. Minha reação foi dar o meu melhor sorriso frio e olhar que dizia "Não se meta comigo".
Depois de mais uma aula com aquele professor de Física e outra de Filosofia, deu o intervalo e fui a última a sair, como fazia sempre três anos antes.
No pátio, me sentei num canto mais vazio e perto da janela, não estava com fome o suficiente para encarar a fila enorme de alunos.
Olhando em volta, vi Ryo Umiyo, meu grande amor que ainda não esqueci, me olhando, mas ignorei, não era como se ele tivesse me reconhecido. Nunca tínhamos sido próximos o suficiente para que ele me reconhecesse de primeira.
Contudo, quando percebi, ele já estava bem na minha frente, encarando meu rosto com um olhar descrente. Parecia ter crescido bastante. Estava mais alto e bonito, os cabelos loiros um tanto compridos junto aos olhos negros levemente puxados lhe davam um ar ainda mais belo.
— Você é mesmo a Runa que conheci?- perguntou, intrigado. Isso me surpreendera. Jamais pensaria que ele tivesse me reconhecido.
— Quantas garotas com o nome Runa Alpha você conhece?- brinquei em um tom sarcástico, fazendo-o sorrir.
Aquele sorriso lindo era radiante. Ele ainda conseguia fazer meu coração palpitar somente com um sorriso. Isso era demais para aguentar.
— Sabe de uma coisa...- comecei, pensando se deveria mesmo dizer isso ou não. Sua expressão estava curiosa para mim agora.- Eu sempre quis dizer isso a você, mas me faltava forças...- continuei, respirando fundo e contando a tabuada de trás pra frente mentalmente.- A verdade é...Que eu meio que te a-amo.- fechei os olhos, incapaz de encará-lo, somente tinha sentido seu toque em meu ombro como resposta após segundos de silêncio.
— Sinto muito, mas eu não sinto a mesma coisa que você. Eu...- começou, fazendo-me abrir os olhos e olhá-lo com seriedade.
— Tudo bem, eu já estava preparada para isso...- interrompi com o sorriso mais forçado do mundo, vendo ele ir embora após se desculpar de novo.
Depois desse fora também, não conversamos mais nesse dia e quando era pra ir embora, fui a primeira a sair correndo como uma trouxa. Entrei em casa, fui direto pro meu quarto e comecei a desenhar enquanto ouvia músicas depressivas sobre amor perdido, isso talvez me fizesse esquecer disso e me impediria de chorar.
No dia seguinte, não fui à escola, pois estava passando muito mal, estava vomitando tudo que comia. Minha mãe, preocupada, disse que não me deixaria ir mesmo após meus protestos, mas, pelo menos, convenci-a de ir trabalhar. Logo melhoraria...E eu sabia me cuidar muito bem.
Ainda dói saber que ele não me ama. Mas não consigo compreender...Por que todos os preparos que eu fiz para esse fora não funcionaram?
Alguns meses haviam se passado e continuava triste, mas sem demonstrar, algo que eu aprendi a fazer nesses anos que se passaram para não preocupar minha mãe.
O final de semana chegou e eu estava sozinha em casa, minha mãe havia saído para comprar comida, quando ouço alguém batendo na porta. Fui lá atender e adivinhem quem era. Quem disse Ryo...Errou! Mentira, você acertou.
— O que você está fazendo aqui?- perguntei com confusão, me segurando para não fechar a porta na cara dele por raiva de mim mesma e vergonha de olhá-lo nos olhos após tudo o que aconteceu.
— Eu vim aqui para me desculpar com você por aquele dia lá na escola...- começou, olhando para baixo.
— Tudo bem, você não precisa se desculpar.- interrompi, dando sinal de que fecharia a porta.
— Espera, eu ainda não terminei!- exclamou, se aproximando e me impedindo de fazer o que queria.- Você aceita ser minha namorada?- pediu, tirando do bolso da calça uma caixinha que continha dois anéis de prata bem bonitinhos. Eu não posso acreditar nisso...
— Isso é alguma piada?- perguntei, me contendo para não chorar na sua frente e esperando aparecer um sorriso cruel nos lábios dele enquanto Stella aparecia de algum lugar, rindo da minha cara.
— Não é nenhuma piada, pode acreditar. Depois de muito pensar, eu percebi que também gosto de você.- garantiu, sorrindo para mim e se aproximando mais.- E então, você aceita?
— ...- o olhei, procurando algum resquício de segundas intenções, o que não fui capaz de achar.- Não.- neguei, olhando-o suspirar pesadamente, entretanto, seu sorriso não morreu.- Você vai ter que me provar que me ama de verdade.
— Foi exatamente como eu imaginei...- riu, a expressão meio receosa.- Mas me surpreendi por você ter negado o pedido na hora. Mas...Ainda posso?- disse com o anel menor na mão, apenas assenti, não me importando realmente. O outro ele guardara, pelo visto não pretendia usá-lo enquanto não conseguisse me provar.- Vou começar a pensar em como conquistá-la.- murmurou perto do meu ouvido, fazendo-me rir.- Espero que você tenha gostado...
— Estarei esperando esse dia.- dei-lhe um sorriso presunçoso e desafiador, deixando claro que não seria fácil.- E é claro que gostei do anel. É bonito.- respondi, logo em seguida recebo um beijo rápido e de surpresa dele. O meu primeiro.- ...- estava realmente surpresa e sem reação.- O q...?
— Não importa o quanto você mude, você ainda é minha baixinha preferida!- comenta, segurando-me pela cintura e me erguendo no ar somente para me girar.
— Primeiro que não sou baixa...- resmunguei, fazendo bico enquanto ele ria.- E segundo...Me coloca no chão.- soquei seu ombro de leve, sorrindo.
— Posso entrar ou você vai me enxotar?- perguntou, soltando-me.
— Eu estava assistindo um filme de terror, quer ver também?- convidei sem respondê-lo, sentando no sofá e sendo seguida por ele.- Feche a porta.- pedi quando ele entrou.
— Só se você me abraçar o filme todo.- sorriu de canto ao ver minhas bochechas ficarem levemente vermelhas.- Brincadeira!- riu, fechando a porta e sentando-se ao meu lado no sofá.
Enquanto assistíamos ao filme, minha mãe chegara e sorrira para ele, convidando-o para jantar sem nem mesmo esperar alguma resposta minha ou de Ryo. Ele aceitara de bom grado. Foi bem divertido ter mais alguém para jantar pela primeira vez em anos.
Logo após, ele despedira-se e fora para casa, dizendo que começaria amanhã a tentar me conquistar. Achei graça da pressa, mas estaria esperando pra ver como ele faria isso.
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