Coletânea
8 Encontro as escuras /RoChu/
Notas iniciais
– Vamos, tio Yao! Você tem que deixar! Por favor! Dê uma chance. – implorou Lien novamente.
– Vamos tio, deixar a gente fazer uma conta para você em um site de encontros e relacionamentos não vai matar você. — completou Leon.
Yao simplesmente ignorou os jovens e sentou-se à mesa com um de seus tão apreciados chás. Já fazia três dias que seus sobrinhos mais novos diziam que precisava namorar de novo, porém ele não entendia porquê, estava muito bem assim.
– Eu concordo tio Yao. Você deveria deixar com que tentem. E se acabar encontrando uma garota legal? – sorriu maliciosamente Yong. – Ei Lien, que tal criar uma conta pra mim nesse site?
O chinês levantou uma sobrancelha para o garoto, que se encontrava deitado no sofá.
– Faça isso você mesmo, idiota. – retrucou a vietnamita.
O coreano riu.
– Faça isso pelo seu primo amado. Se eu encontrar uma garota legal, posso ir morar com ela, então você teria mais espaço em casa. – acrescentou brincalhão.
Uma coisa que o moreno mais velho percebeu, foi o olhar do seu sobrinho mais novo para o coreano. Sabia que o rapaz de Hong Kong gostava muito do mais velho. Ali naquela casa nenhum deles tinha relação sanguínea, Yao adotara todos os jovens asiáticos ao se mudar, não queria mais morar sozinho, portanto não se importava se houvesse algum tipo de relação amorosa entre eles.
– “Primo amado” é o caramba, você é só um grande preguiçoso que não faz nada! – ralhou a garota.
– Yao-san, eu realmente acho que você deveria aceitar a proposta da Lien-san. É uma boa oportunidade, afinal você não tem um relacionamento desde que nos adotou não é?
Todos ficaram quietos. Os quatro olhares se voltaram para o japonês que tranquilamente bebia seu chá. O rapaz baixo de cabelos negros era o que falava mais abertamente sobre o fato de nenhum deles ter relação sanguínea.
– Tudo bem. – concordou com um suspiro. – Nesse ponto você tem razão Kiku, eu não saio com outras pessoas faz muito tempo.
O japonês não estava completamente errado, porém havia muito mais por trás da falta de interesses do chinês por arranjar uma namorada, do que apenas o fato de morar e ser responsável por quatro jovens. Seu passado fora difícil nesse ponto. Era algo que nunca conseguiria esquecer.
– Eba! – gritou Lien. – Vem tio Yao, você tem que estar junto para preencher o perfil.
Depois de meia hora, e muitas perguntas por parte do dono da casa, finalmente a vietnamita conseguiu atingir seu objetivo.
– Bem, então vamos ver como ficou. – a garota abriu a página do perfil.
Yao correu os olhos por tudo que estava escrito ali. Sua idade, moradia, seus gostos e aparência estavam todos ali. Alguns fatos sobre seus gostos haviam sido alterados, por exemplo, na descrição dizia que ele gostava de ir a festas, o que não era verdade, Yao nunca gostou de festas ou baladas. O nome que as pessoas veriam quando entrassem no seu perfil seria “China”, o que na opinião dele era ridículo, porém Leon insistiu que esse fosse seu nome, alegando ser perigoso usar verdadeiro.
– Perfeito! – comemorou Lien, — Com certeza o tio Yao vai conseguir uma namorada, rapidinho!
– Você deveria estar preocupada consigo mesma. Que tipo de garota aos 16 anos, ainda não tem namorado? – retrucou Yong. – Mas realmente ficou bom.
A mais nova parecia se segurar para não estrangular o coreano a qualquer minuto. Yao ainda observava sua página de perfil.
– Isso não vai acabar bem-aru. – suspirou.
– Deixa disso tio, tudo vai dar certo. – Leon parou ao seu lado sorrindo.
– Eu realmente espero que você esteja certo-aru.
O dia passou como se aquele estranho episódio nunca houvesse acontecido. Yao trabalhava em um restaurante café oriental, seu horário começava às nove horas da manhã, e acaba às oito horas da noite, com um curto intervalo para o almoço.
Quando seu turno acabou o chinês passou direto em um supermercado que ficava à poucas quadras de sua casa. Yong lhe mandou uma mensagem no meio da tarde dizendo que a geladeira estava praticamente vazia. Levou mais ou menos uma hora para comprar tudo que precisava. Assim que passou no caixa sentiu o celular vibrar novamente no bolso.
– Alô? – atendeu.
– Alô? Tio Yao? – ele ouviu a voz da vietnamita do outro lado da linha.
– O que foi Lien-aru?
– Eu só queria te contar que várias pessoas já acessaram seu perfil. Você só tem ele há um dia e já conseguiu acessos, não é ótimo? – comentou animada.
– Só isso? – suspirou. – Tudo bem, eu acabei de sair do supermercado, tinha algo que você queria-aru?
Distraidamente ouvindo a garota falar, Yao acabou por se desequilibrar, e o fato de um rapaz apressado estar indo em sua direção não contribui em nada. O chinês derrubou suas sacolas indo de encontro ao estranho, que acabou sendo derrubado. Uma pilha de papéis voou para todos os lados.
– Meu Deus-aru. — Yao se levantou correndo. – Você está bem-aru?
Nervoso, o chinês se concentrou em ajudar o homem desconhecido a levantar-se.
– Tudo bem. – respondeu o estranho com um sotaque que ele não reconheceu. – Espero que você não tenha se machucado.
Yao juntou rapidamente todos os papéis caídos.
– Estou bem. Me desculpe-aru.
– Não peça desculpas.
Rapidamente o chinês entregou as folhas ao desconhecido. No primeiro instante que viu o rosto do rapaz sentiu-se vidrado por seus olhos, eram de um violeta tão límpido quanto a mais pura ametista. Por traz daquela cor límpida Yao também percebeu tamanha frieza, que o fez ter medo, e uma súbita vontade de recuar para longe.
– Obrigado. – seu sorriso era frio e desprovido de humor ou gentileza.
– Não tem de quê-aru. – respondeu, porém o desconhecido já havia se afastado, deixando-o na calçada desconcertado.
Naquela noite, Yao deitou-se em sua cama com o acontecimento da tarde rondando sua mente. Quem poderia ser aquele rapaz? Sabia que até descobrir algo aqueles olhos de ametista frios como gelo o atormentariam até em seus sonhos.
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Na manhã seguinte o oriental mais velho sentia-se completamente esgotado.
– Bom dia tio. – cumprimentou-o Yong
– Bom dia-aru. – cumprimentou de volta.
– Tio Yao! Vem aqui, você tem uma solicitação de encontro. – Lien gritou animada.
– Como assim? Ele só tem o perfil há um dia. É impossível isso acontecer tão rápido. – o coreano se intrometeu na conversa.
– Não sei como. – disse a menina pulando de alegria – Mas já tem um convite.
Kiku, que estava na cozinha, juntou-se a eles para ver o que estava acontecendo.
– Vamos ver... – começou a mais nova.
– Espera um minuto. – pediu Yong.
– O que foi? – perguntou Kiku.
– Eu tenho que chamar o Leon. – o rapaz saiu correndo.
– O Yong-san está dizendo que quer arranjar uma namorada, mas é evidente que ele gosta do Leon-san. – Kiku comentou casualmente.
– O que? – Lien como mágica soltou-se do computador.
– Não vá me dizer que você não percebeu-aru?
– Lien-san, desculpe-me a ousadia, mas está na cara que o Yong-san e o Leon-san gostam um do outro.
Yao afirmou com a cabeça, fazendo a vietnamita ficar ainda mais surpresa.
– Bom dia pessoal. O Yong me disse que o tio conseguiu um encontro, é verdade? – Leon chegou bocejando na sala.
– Bom dia, Leon. É sim. – Lien tentou disfarçar o choque pela surpresa anterior.
Todos se reuniram em volta da garota. Yao novamente observou seu perfil. “A pessoa do qual gostaram é o China, não eu” pensou, o que não deixava de ser verdade.
– O nome de usuário dessa pessoa é Rússia. – a vietnamita passou rapidamente os olhos pela página. – Parece ser uma boa pessoa... Só tem um aparente problema.
– O que é? Ela não mora na mesma cidade que a gente? – perguntou Leon.
– Ela mora sim é que...
– Não é “ela”, é “ele”. — Completou Kiku.
Todos os olhares se arregalaram. O mesmo pensamento passava pela cabeça de todos, “Um homem?” O único que parecia achar tudo perfeitamente normal era o japonês, que mantinha uma calma expressão em seu rosto.
– E agora tio? Como você vai recusar esse convite? – perguntou Leon.
Kiku lançou para Yao um olhar de cumplicidade. Por ser o mais velho, e mais observador o japonês sabia sobre o segredo do chinês.
– Não vou recusar o convite-aru. – respondeu o chinês sereno.
– Hã? – Young indagou.
– Eu vou aceitar sair com esse tal de “Rússia”-aru.
Os três mais novos presente soltara uma exclamação de espanto, enquanto o mais velho sorriu.
– Acho uma ótima ideia Yao-san.
Agora os olhares se moviam de Kiku para Yao.
– Tio Yao, você é gay? – perguntou Leon.
O chinês não pode deixar de soltar uma risada, não imaginava que seriam tão diretos.
– Não sei se posso dizer isso. Nunca senti atração por mulheres, e a primeira pessoa pela qual me apaixonei foi um homem.
O sorriso triste que surgiu nos lábios do chinês deixou claro que sua primeira experiência amorosa não deu certo. A mais nova sentada em frente ao computador levantou-se, indo em direção ao tio.
– Meu deus tio Yao! Porque você não contou isso pra gente antes? E até você Kiku? Isso foi muita sacanagem comigo! – gritou alegremente.
O japonês riu, enquanto os outros três ficavam atônitos. Lien abraçou o tio com toda força, esboçando um sorriso enorme.
– Você não deveria esconder algo tão incrível de mim assim, tio Yao!
O chinês não pode evitar começar a gargalhar também
– Tudo bem-aru. Agora que você já sabe pode me soltar Lien? Não estou conseguindo respirar-aru.
– Tudo bem. – a vietnamita atendeu-o. — Então, você tem que marcar uma data para o encontro.
Dessa vez Yao se sentou em frente ao computador. A sua volta era uma grande confusão de risos, conversas e sugestões.
– Calma pessoal-aru.
Yao, em resposta ao convite perguntou onde poderiam se encontrar. Em menos de um minuto um resposta já havia chegado.
“Podemos sair pra jantar?”
– Ele está online. Tio a sorte está batendo na sua cara hoje. – Yong comentou.
– Não seria batendo à sua porta? – perguntou Leon.
Em resposta o coreano simplesmente deu de ombros.
– Tá, tá, vocês dois. – Lien fez gestos com as mãos. – Vão para um quarto se querem se pegar, nós temos mais o que fazer aqui.
– Deu-aru! – de repente Yao falou chamando a atenção dos três.
– O que? – perguntou Yong.
– O Yao-san marcou o local e a data do encontro.
– Onde vai ser? – perguntou Lien curiosa.
– Nós vamos nos encontrar em três dias, no restaurante Valsa Com As Estrelas, às oito horas-aru. – respondeu Yao.
– Tio Yao, esse é o melhor restaurante da cidade! – gritou Lien. – Estou tão empolgada!
Yong levantou uma sobrancelha.
– Parece mais que você vai sair com esse cara, e não o tio.
– Cala a boca, Yong. Eu estou feliz pelo tio Yao.
– Ok-aru. Agora vocês tem que tomar café para ir pra escola. – o chinês os dispensou.
– Mas tio!
– Por favor, tio Yao!
– Qual é! Como assim?
– Vamos, sem discussão-aru.
Todos se dirigiram até a cozinha protestando. Mesmo ouvindo as reclamações dos sobrinhos Yao estava se sentindo feliz, depois de tanto tempo finalmente iria sair com alguém de novo.
Às vésperas do encontro, os quatro jovens arrastaram o chinês para o shopping, pois Lien insistiu que o tio precisava de roupas novas e apropriadas para a ocasião, depois os dois sobrinhos mais novos insistiram que precisava cortar o cabelo, porém nem com todos os pedidos do mundo Yao deixou que o levassem em um barbeiro. Acabou que os cinco asiáticos chegaram em casa tarde da noite. Yao nunca se divertiu tanto, e seus sobrinhos sentiam o mesmo, era o típico dia em família que nenhum deles nunca teve.
Naquela noite, um pensamento voltou à cabeça do chinês, era rapaz que bateu com ele na rua. A lembrança dos olhos dele fez a cabeça do oriental latejar, desde o primeiro momento sabia que deveria lembrar-se de algo relacionado àqueles olhos. Mais uma vez, como há três dias, isso perturbou seu sono.
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Yao nunca se sentiu tão nervoso. Não havia dormido bem à noite, teve pesadelos com os belos olhos violeta. Esse fato o estava perturbando, sabia que estava esquecendo-se de algo, porém não fazia ideia do que era. Para piorar sua situação, sua amada família havia ligado para seu trabalho pedindo que fosse liberado hoje. Ficaria o dia todo em casa, sem nada para se distrair. O único que havia ficado lhe fazendo companhia era Kiku, para alívio de Yao. Os dois eram próximos como irmãos, e ele nunca conseguiu esconder nada do japonês.
– Yao-san, você não está somente por causa do encontro não é? – comentou casualmente o mais novo.
Yao deu mais um gole em seu chá, enquanto pensava no que deveria falar.
– Eu não sei, me sinto perturbado-aru. – ele suspirou. — Três dias atrás eu encontrei um rapaz, muito estranho, os olhos... Eram como ametistas, límpidos e frios. Eu fiquei com medo, aquilo não foi normal.
Kiko parou para pensar um pouco. Yao sabia que aquilo não tinha sentido, porém era verdade.
– E também... Tem algo... Eu me esqueci, algo relacionado àqueles olhos. Eu deveria lembrar, porém simplesmente não consigo-aru.
– Yao-san, eu acho que você não deveria se preocupar. Você só viu esse sujeito uma vez, as chances de se encontrarem de novo são mínimas. Não fique preocupado, hoje é um dia feliz. – ele sorriu.
Yao suspirou.
– Tudo bem. Espero que você tenha razão-aru. Rezo pra que de tudo certo essa noite.
Kiku soltou uma risadinha.
– Vai ficar tudo bem.
Cinco horas da tarde, Lien, Yong e Leon chegaram. A primeira coisa que a vietnamita insistiu em fazer foi ajudar o tio a se preparar.
– Lien, eu não sou uma mulher que demora duas horas para me arrumar-aru. – retrucou Yao.
– Bem, eu e o Leon vamos estar na sala, qualquer coisa chamem. – anunciou Yong.
– Vão para um quarto! – gritou Lien.
Da sala só se ouviam risos por parte do rapaz de Hong Kong e xingamentos por parte do coreano. A garota ria, sabendo que seria todas as ofensas lançadas se dirigiam à ela.
– Eles são perfeitos um para o outro. – disse dando de ombros. – Agora, você vai tomar um banho, tio Yao.
A garota o empurrou para o banheiro. Depois de um curto espaço de tempo o chinês estava saindo do banho.
– Bingo! Agora sua roupa nova. – o chinês agora era puxado em direção ao seu quarto.
Assim que entrou lá viu Kiku arrumando a roupa comprada ontem à tarde.
– Bom, acho que não vou ajudar aqui também. – começou a vietnamita. – Tio Yao, se esse cara não te quiser, eu vou considerar a possibilidade. – ela olhou-o no espelho de cima a baixo – Você é muito lindo, e tem um corpo incrível.
O chinês corou muito, e por sua cara ao sair do quarto a garota percebeu isso.
A roupa que haviam escolhido era típica da China, todos concordaram que era o tipo de vestimenta que melhor apresentava o chinês. Assim que terminou de se vestir Lien começou a trabalhar. Como o cabelo de Yao era comprido, a jovem oriental insistiu em arrumá-lo.
Depois de meia hora para secar o cabelo, e mais meia para arruma-lo – Yao ainda se perguntava o porquê a garota levou tanto tempo — ele estava pronto.
O cabelo havia sido preso em uma colinha que caia para a direita, o cabelo cobrindo uma parte da camisa branca de seda, em estilo chinês. A calça comprida era preta, feita de um tecido fino que ele não reconheceu.
– Você está tão lindo tio Yao! – falou Lien.
– Com certeza. – os três rapazes concordaram.
Yao olhou-se no espelho. Estava um pouco diferente de sua aparência usual. Não que não gostasse, só era... diferente.
– Está na hora. Se você quiser chegar dentro do combinado, tem que sair agora tio. – Leon chamou.
O restaurante em que marcaram o encontro ficava longe da casa de Yao, e como ele não sabia dirigir, teria que ir caminhando, nesses momentos dava graças a Deus por não se cansar facilmente. Depois de alguns minutos de caminhada, e ainda dentro do horário, chegou ao local marcado. Mesmo que Lien dissesse que aquele era o melhor restaurante da cidade, não era um lugar grande, sua fama estava na qualidades dos pratos.
Depois de ficar um tempo parado observando a fachada do local Yao finalmente tomou coragem para entrar. Um homem estava parado na porta recebendo os clientes.
– Com licença, o senhor tem reserva? – perguntou educadamente.
– Bem... Eu vim encontrar um alguém, ele fez a reserva no próprio nome-aru. Acho que seria... Rússia. – respondeu meio hesitante.
– Ah, sim. O seu acompanhante o espera. – o garçom o conduziu até a mesa.
Foi conduzido até um canto do restaurante onde um rapaz de cabelos prateados estava sentado de costas. Por algum motivo, Yao sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
– Eu estou atrasado-aru? – perguntou.
– Não. – o rapaz respondeu. – Eu que cheguei muito cedo.
Assim que o rapaz se levantou Yao levou um choque. Reconheceria aqueles olhos em qualquer lugar. Belos, limpos e frios como duas ametistas. Era o rapaz que ocupou seus sonhos noite anterior.
– Prazer, sou Ivan Braginsky. – ele sorriu.
Yao tentou manter-se o mais tranquilo possível, porém, novamente a sensação de esquecer algo importante lhe acometeu. Aqueles olhos lhe passavam essa sensação, precisava lembrar, só necessitava de uma pista.
– Prazer, sou Wang Yao-aru.
O rapaz sorriu, porém não foi um sorriso natural, isso ele tinha certeza. Depois o analisou por completo.
– Se me permite dizer, estas vestes orientais ficam muito bonitas em você.
O chinês corou diante do comentário, como um reflexo levou uma das mãos ao rosto desviando-o.
– Obrigado.
– Vamos sentar?
– Claro. — respondeu o oriental.
Tinha decidido aproveitar a oportunidade para perguntar tudo que conseguisse para seu estranho acompanhante, talvez se ele falasse Yao conseguisse lembrar. Os dois sentaram-se frente a frente, pouco depois um garçom lhes ofereceu os cardápios.
– Então... O que você gosta-aru? – Yao perguntou.
Ivan, até agora concentrado no cardápio, levantou os olhos rapidamente e esboçou um sorriso.
– Bom, se está falando da comida do restaurante, eu gosto de pedir o prato número quatro.
O chinês olhou rapidamente o prato do qual o rapaz a sua frente falou, parecia ser uma boa escolha.
– Também-aru, mas o que você gosta de fazer nos dias livres-aru?
Ivan riu, deixando o chinês um pouco envergonhado, e sem saber o motivo do acontecimento. Por que uma risada o deixaria sem graça?
– Eu não tenho nenhum hobby em particular. Na verdade, quase nunca paro de trabalhar, por não ter o que fazer sozinho.
Yao encarou sua estranha companhia, que tipo de gente fazia isso?
– Então, onde você trabalha-aru?
O chinês sabia que não deveria fazer tantas perguntas, porém sua curiosidade era tão forte e genuína, que não conseguia ficar calado.
– Eu trabalho em uma clinica particular. – comentou olhando de novo para o cardápio.
– Você é médico-aru? – perguntou Yao surpreso.
– Sou, — ele voltou a sorrir ao ver a expressão do chinês – quando era criança fiz uma promessa. Se conseguisse sobreviver até a adolescência me tornaria um médico.
Por um milésimo de segundo Yao viu um flash branco passar por sua cabeça. Agora ele tinha certeza, se continuasse perguntando conseguiria todas as respostas.
– Por que sobreviver-aru?
O lábio inferior de Ivan tremeu o que fez Yao ter ímpeto de abraça-lo naquele momento. O rapaz suspirou.
– É que na minha infância eu “morava” num orfanato. Meus pais sofreram um acidente, minhas irmãs e eu ficamos sozinhos. Estávamos longe de casa, o acidente aconteceu na China, porém nós morávamos na Rússia. Iryna trabalhava para podermos comer, Natasha ia para uma escola sustentada pelo governo e eu ficava na rua. Prometi que se conseguisse superar isso me tornaria um médico.
Yao sentiu-se quebrado. Teve uma vida difícil também, porém a do russo a sua frente parecia ter sido muito pior.
– Eu... Sinto muito. Essa pessoa para a qual você fez a promessa deve ter sido muito importante-aru. – Yao baixou o tom de voz.
– É verdade. – Ivan falou seco. – Se não fosse por ela eu não estaria aqui agora.
Antes que pudessem falar algo mais o garçom chegou.
– O que desejam senhores?
– Eu quero o prato número quatro, por favor, e uma dose de Vodca. – pediu o russo.
Yao o olhou surpreso. Vodca? Ele pretendia ficar bêbado?
– Eu gostaria do mesmo prato que ele, e um chá-aru.
– Sim senhores. Trarei em um minuto.
Com a saída do garçom o silêncio pairou entre os dois.
– Então... O que aconteceu depois-aru? – perguntou.
Ivan riu.
– Aos treze anos nós fomos adotados por uma família russa, que nos levou de volta. Consegui acompanhar os estudos e entrar na faculdade de medicina. Agora moro aqui com minhas irmãs.
O chinês nunca havia se sentido tão triste por causa de uma pessoa que não conhecia. Mesmo usando aquilo com artificio para lembrar-se, sua curiosidade e carinho pelo russo estavam crescendo.
– E você? Conte-me sobre a sua vida.
No primeiro momentos Yao desconfiou, seria seguro contar para um estranho sobre sua vida? Porém, havia algo naquele rapaz que não o deixava mentir. No segundo em que encarou novamente aqueles olhos violeta, sabia que havia perdido.
– Eu moro em uma casa com meus quatro sobrinhos. Eles não são meus sobrinhos de verdade, eu os adotei quando vim pra cá, por não querer continuar sozinho. Nunca conheci meus pais, morava num orfanato. No colégio sofria muito por causa do meu cabelo comprido-aru. Minha vida inteira vivi na China, até que resolvi sair pela Ásia, onde achei minha “família”-aru.
Ivan sorriu pra ele.
– Sinto muito.
– Tudo bem. Tive uma pessoa que me ajudou muito em todos os aspectos.
A conversa continuou até os pratos chegarem. Durante a refeição o silêncio reinou até a atenção de Yao ser voltada para o copo do russo.
– Vodca-aru? – perguntou.
Ivan riu divertido.
– É a bebida mais comum da minha terra. Sou muito forte contra vodca. Não serei derrubado facilmente.
Assim que ambos acabaram a refeição a conversa foi retomada. Vários assuntos foram abordados. Yao gostava de estar na presença do russo, aquilo o fazia se sentir bem. Durante um assunto de mínima importância, o chinês sentiu-se cair novamente naqueles olhos violetas.
– Yao? Yao? Tudo bem? – perguntou o rapaz.
Como um choque o oriental acordou.
– Me desculpe. É que eu me perdi... – respondeu embaraçado.
O russo sorriu, como se fosse um piada que apenas ele entendesse. Depois um suspiro pesado passou por seus lábios.
– Dentre tantas coisas para lhe serem familiares, você tinha que lembrar logo dos meus olhos? – seco desviou o rosto.
– Hã? – Yao ficou atordoado.
Como assim familiar? Eles se conheciam?
– Você realmente não se lembra de mim?
Yao continuou parado encarando o rapaz a sua frente. Não sabia o que fazer. Ivan levantou-se.
– Tudo bem. – depositou o dinheiro em cima da mesa. – Vem comigo.
Ele puxou o chinês, indo em direção à saída. Tinha esfriado no tempo que passaram no restaurante, um arrepio passou pelo corpo de Yao.
– O que foi Ivan-aru?
Sem responder o russo o puxou para um abraço, deixando Yao confuso.
– Pode ser que assim você se lembre. “Eu não vou te deixar. Vai ficar tudo bem, Yao”.
A nostalgia atingiu o chinês. A memória passou claramente por sua mente. Um garotinho de sua idade, maior que ele, o estava protegendo de um grupo de meninos que estavam tentando usa-lo com cobaia, assim que o grupo foi embora o garotinho se virou. Tinha olhos de um tom violeta tão lindos que fizeram Yao querer encara-los para sempre. O garoto o ajudou-o a levantar, porém Yao chorou de dor, cansaço e raiva, então o menino o abraçou. O chinês sentia-se minúsculo com aqueles braços de urso a sua volta. Assim como uma reza, baixa e calmamente o garoto falou “Eu não vou te deixar. Vai ficar tudo bem, Yao”.
Suas memórias nunca estiveram tão claras. Lembrou-se do dia que conheceu Ivan, de como ficaram juntos, de como o russo foi embora, e de como aquela foi sua primeira e desastrosa paixão. As lágrimas vieram, porém Ivan não o soltou enquanto chorava.
– Por quê? Por que você foi embora Ivan-aru? – perguntou assim que conseguiu se controlar.
– Eu tive que ir. Não deixaram ir me despedir de você. Nunca queria ter ido embora, porém tinha que cumprir minha promessa. A promessa de que eu me tornaria um médico, e poderia curar suas feridas.
O abraço foi desfeito e o russo limpou uma lágrima de Yao.
– Eu prometo não ir embora de novo, certo? Só me deixe ficar com você. – pediu o russo.
Desde o momento que se encontraram, Yao tinha certeza que Ivan nunca havia sorrido de verdade, ele lhe pareceu seco e frio como gelo.
– É claro que eu deixo-aru. – Yao voltou a chorar.
Porém, agora o chinês tinha a mais concreta certeza, que Ivan não estava fingindo, o russo realmente estava feliz.
Enquanto caminhavam no parque Yao se perguntava como havia esquecido. O mais provável era que a dor e a tristeza houvessem bloqueando suas memórias, mas não havia certeza.
– Ei, Ivan, t-t-t-tem uma coisa que eu quero te dizer-aru...
– O que foi Yao? – perguntou o russo.
Yao sabia que seus sentimentos estavam claros, porém precisava falar, não queria cometer o mesmo erro.
– Naquela época você foi muito importante pra mim-aru. E quando você embora eu fiquei muito pior do que qualquer um pode imaginar, e me arrependi profundamente de não ter te contado meus sentimentos. – Yao desviou o olhar – Eu te amo, Ivan-aru.
Sem ter tempo para reagir o chinês teve seus lábios capturados pelo russo. Foi um beijo leve, porém o suficiente para fazer Yao corar até a raiz dos cabelos.
– Eu te amo, Yao. Sempre te amei – Ivan arrumou uma mecha rebelde do cabelo do oriental. – Desde a primeira vez. Por isso não desisti. Por isso continuei vivendo.
O coração de Yao estava aliviado, uma ferida de muitos anos foi remendada com aquela simples frase. A felicidade nunca lhe pareceu tão fácil de ser encontrada. O chinês sorriu, estendeu seus braços ao redor do pescoço do russo juntando seus lábios. O beijo ficou mais profundo, matando a saudade da separação.
Suas línguas dançavam avidamente, num ritmo proposto pelo russo. Deixando-se levar Yao aproveitou a sensação de ter a boca da pessoa amada na sua, sabia que a cada beijo ficaria mais viciado no gosto de hortelã e álcool da boca do rapaz de olhos violeta. O beijo desesperado pareceu durar anos, mas não o bastante para os dois. Separaram-se relutantes em busca de ar.
– Vamos. – Ivan pegou Yao no colo. – Temos 14 anos para compensar.
O chinês riu segurando-se no russo.
– Não se preocupe, temos bastante tempo a partir de agora-aru.
Para qualquer um que por ali passasse seria estranho ver um rapaz alto e robusto carregando um homem pequeno e esmirrado. Disso Yao tinha certeza, porém não ligava à mínima, estava feliz, e nada mais importava.
– Onde nós vamos-aru?
Ivan o ignorou e continuo caminhando. Enquanto ria de um russo mudo e feliz que o carregava no colo, Yao pensou no que aconteceu alguns dias antes. Se não tivesse concordado em fazer a conta no site, aquilo não teria acontecido. Agora achava que ter um encontro as escuras não era nada mal.
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