Colegas

28 Capítulo 27


PSM: Sam

Três palavras, apenas três palavras podem mudar sua vida por completo.

O mundo parou para nós.

Tori ficou calada, como se a informação ainda estivesse sendo processada e antes que alguém pudesse dizer, fazer ou pensar em algo ela desabou no chão. Seu choro era penoso e dolorido demais de se ver. Freddie parou quase derrapando o carro e quando saiu, era óbvio, já havíamos descoberto. Eu não conseguia pensar direito, se Freddie sabia disso tudo, se aquilo era uma grande brincadeira se esse dia realmente esta acontecendo... Talvez daqui a pouco Alex me acorde aos berros anunciando o primeiro dia de volta as aulas; eu não sabia mais o que era real.

Não sei como, mas estávamos agora na sala do sr. Stuwart. Cat chorava como uma criança e Carly estava trancada no banheiro vomitando. Alex era a sã entre nós, eu estava completamente sem chão. Olhava a escada que dava para o quarto dela na esperança dela pular de lá e anunciar sua grande pegadinha.

Eu estava esperando.

Porém, nada. Então ouvimos alguém correndo pela grama e escancarar a porta.

Liam apareceu.

Ele estava com o cabelo desgrenhado e os olhos inchados, acho que descobriu por outra pessoa e só veio confirmar. Porém, assim que viu Tori tendo convulsão de choro ele nem sequer olhou para nós, deu as costas. O vi correr sem rumo pela longa estrada até não o ver mais.

Parece que o dia não passava, o tempo que estamos ali tentando digerir apenas três palavras pareciam horas, pelos meus calculos já devia ser de noite, mas não, se passaram apenas meros minutos.

Freddie trouxe um copo de água para o sr. Stuwart que estava completamente acabado, e por um momento não pensei em mim e nem em Miley, mas pensei no homem que perdeu todas as mulheres que amava, agora ele não tinha a mais ninguém.

Esse pensamento foi o que me trouxe para sobriedade e finalmente ele nos encarou nos olhos. Tori foi lavar o rosto e Carly tinha voltado de seus vomitos no banheiro.

–Há umas semanas, -começou ele- na verdade, uns dois meses, ela tinha descoberto um tumor no cérebro. Ficou em silêncio todo esse tempo. Bom, aparentemente não tinha cura mesmo e nem chance de um prolongamento de vida, o que a levou achar que não devia contar para ninguém. Ela aproveitou essa tal viagem que vocês fariam para falar, já estava se sentindo muito mal. Ela sabia que dois dias depois que vocês partirem eu voltaria para o hospital onde eu trabalho para meu plantão e foi lá onde deixou uma carta. Era o tempo que ela tinha para aproveitar um pouco e... enfim. Assim que li a carta, preparei logo a ambulância para buscá-la, liguei para ela e ela me pediu sigilo, para não contar a vocês. Falou que estava muito tonta e a cabeça latejava de uma forma insuportável. Aceleramos e mesmo assim ela insistiu que dava para ir andando, sem que ninguém soubesse. Assim que ela entrou na ambulancia ela estava perdendo os sentidos... antes mesmo de chegarmos de volta, ela... ela tinha partido.

Ficou um minuto de silencio, todo mundo tentando repensar na partida repentina de Miley. Tori levantou as pressas e foi ao banheiro. Em poucos instantes ela havia voltado com a cara amarelada. Billy prosseguiu.

–Falhei como pai! Salvei varias vidas e não consegui salvar a de minha filha. Quando chegamos no hospital, levamos ela direto para a sala de cirurgia e realmente não tinha como, o tumor estava do lado onde o é responsável pelo coração e os sentidos. Foi uma madrugada turbulenta para mim, me deram calmante e tranquilizadores, quando eu acordei já era noite do outro dia. Ela estava no IML, não tive coragem de entrar lá para vê-la, não consegui dormir mais, não consegui encarar o mundo, só fiquei aqui...

Finalmente vi o estado da sala, cheia de bebidas espalhadas pelo cômodo, coisas quebradas no chão...

Como eu disse, o dia não passava, horas e horas e o sol nem sequer se mexia. Os pais de Freddie, a minha mãe, e outros vizinhos foram até lá. E aquele homem conhecido como boa pinta, sempre feliz estava ali, desmoronando nos braços de Pam.

Marissa nos levou até a casa dos Benson onde disse palavras bonitas sobre juventude e morte, algo em sua voz extremamente aveludada nos acalmou, ou deve ser a água com gosto que ela nos deu que nos deixou meio zen.

Quando eu acordei já era, finalmente, noite. Estava deitada no quarto de Carly, Tori e Cat dormiam lá também. Carly saiu do banheiro com Alex, as duas pareciam ter acordado a pouco e estavam conversando no banheiro para não acordar.

Nós três decemos com as caras abatidas e marcadas pelo colchão. Tomei um suco de laranja porque meu corpo exijia glicose. Ouvia vozes no final do corredor, onde era o escritório do pai do Freddie. Ele me contou que estava tendo uma conversa séria e resolvendo tudo que deve ser resolvido. Fiquei feliz de saber que Billy não estaria sozinho nessa.

Tori desceu acompanhada das outras meninas, demos a ela um pouco de suco também e ela parecia bem melhor.

–Tori. — disse Freddie voltando. — Isso é para você. — ele estendeu um envelope pardo e amassado para ela. Era de Miley.

–Vou... ler em voz alta. — foi a primeira vez que a ouvi dizer algo depois daquelas três palavras.

“ Minha querida e meiga Tori,

Não me odeie!

Eu não sei se de fato vou ter coragem de entregar esta carta a alguém, mas se eu entregar, com certeza absoluta será a Freddie, então, não grite com ele. Sam não fique com ciúmes, Carly não brigue por ele não ter te contado; não façam nada com ele. Freddie é esperto demais para que eu o enganasse, ele já havia reparado quando eu me desequilibrava a toa e sentia vontade de desmaiar, ele sabia que estava acontecendo algo, eu sabia que ele sabia. Enfim, vou contar a vocês tudo que devem saber.

Foi há dois meses atrás. Eu comecei a ter meus primeiros sintomas, não queria ir no hospital do meu pai, eu não queria que ele soubesse porque estava muito tonta e enjoada, achei que poderia estar gravida, porém como os sintomas estavam vindo muito forte e o teste deu negativo eu fui em outro hospital. E lá descobri o meu tumor. Fiquei o dia inteiro no hospital porque os médicos tentavam ver se tinha alguma jeito de pelo menos diminuir ou retirar esse tumor. Não era possível, eu poderia morrer no meio da cirurgia. O tumor estava fincado ao cerebro numa parte muito vital dele. Não tinha jeito! Lembro das palavras do doutor: minha filha, aproveite a cada segundo da sua vida, quando os sintomas começarem a vir de forma gradativa e fixa, conte seus dias ou até, sua horas.

Eu me senti péssima. Voltei para casa no intúito de contar a vocês, mas no meio do caminho eu fiz outro trajeto: não sabia meu tempo de vida, então veria minha mãe. Ela estava lá, morando de alguel com uma amiga, naquele momento eu não senti raiva por ela ter me abandonado, por abandonar nossa casa, eu só queria um abraço e então contei a ela. Pela primeira vez, passamos um dia maravilhoso. Conversamos, passeamos e ela me compreendeu, chorou, mas estava convicta de que se era para acontecer, aconteceria. E disse, que se eu quisesse realmente aproveitar cada instante com quem amo, eu não deveria contar, e ela estava certa. Consigo imaginar todos vocês chorando, tentando serem bons amigos e fazendo coisas caseiras para não comprometer minha saúde e chorar a cada hora que passarmos juntos. Eu não queria isso.

Até agora eu não me arrependi. E acho que nem vou.

O clima natalino me fez querer deixar alguma explicação a vocês, e acima de tudo, deixar os meus pensamentos.

Eu os amo. Intensa e vivamente.

Vocês fizerem dos meus últimos dias os melhores.

Não chorem por mim, fiz de tudo para poupá-los disso.

Com muito amor,

Miley.

Tori terminou de ler e ficou em silencio olhando com detalhe a caligrafia da carta. Depois suspirou pesadamente.

Todos nós estávamos abalados, porém, parecia que algo mudou depois desta carta: Agora era concreto. Ela havia morrido, e lutou cada segundo dos seus últimos dias para viver conosco.

PSM: Carly

A escola foi suspensa para nós do terceiro ano. O diretor Franklin disse algumas palavras de Miley para a escola e como respeito, pintamos seu armário de preto onde as pessoas poderiam sempre colocar suas cartas e presentes até o final do semestre.

A pior parte estava por vir: o velório.

Eu estava na sala esperando Freddie descer. Depois que Tori leu as últimas palavras de Miley, algo em Freddie ficou abalado. Ele tinha suspeitas de que Miley tinha algo muito grave, talvez alguma DST perigosa ou algo do tipo, que realmente prejudicasse sua vida. Mas não sabia que seria tão rápido. Ele contou para mim que assim que ela alegou passar seus últimos momentos com a mãe é que ele viu que era bem mais grave do que pensava, chegou a pensar em abrir a carta, mas se conteve. Agoniado a cada dia sem noticias delas e a cada dia sem, era mais uma confirmação do óbvio. Senti um pouco de pena dele, ao mesmo tempo percebi que ele foi bem forte e Miley tinha razão de ter confiado a ele, jamais uma de nós teria suportado tal fardo.

Miley tinha razão em ter escolhido ele para essa grande missão.

Quando ele desceu com a blusa que mais odiava, uma preta social eu percebi que ele estava péssimo.

–Não foi sua culpa, não podia ter feito nada. — disse beijando sua testa.

–Eu sei... Mas me sinto culpado do mesmo jeito.

Minha mãe e meu pai já estavam lá, fiquei feliz de eles estarem dando todo o suporte ao pai de Miley que realmente não teve condições nem de escolher em qual caixão a filha dormiria eternamente. Minha mãe sempre foi uma mulher doce, com palavras ternas, ela sabia exatamente o que dizer na hora certa. Meu pai, cuidou de toda parte burocrática junto com a mãe de Sam. Pam tem um certo carinho pelo senhor Billy também.

Quando cheguei a igrejinha de Nashville fiquei feliz de todas já estarem ali. Estávamos todas com vestidos pretos.

–Oi. — disse Cat sorrindo fracamente para mim. Ficamos na sombra de uma árvore esperando os sinos soarem para enfim entrarmos, prolongaremos a nossa entrada ao máximo.

Assim que os sinos soaram entramos juntas de mãos dadas. Vimos de cara o caixão de nossa amiga no altar e ao seu lado um quadro com uma foto sua: sadia, sorridente, jovem.

Caminhamos até o caixão e Sam soltou um gemido de dor e de emoção. Ela estava linda!

–Parece que está dormindo. — comentou inocentemente Cat.

–Fez uma ótima escolha, Carly. — elogiou Alex. Eu que escolhi suas roupas.

–Achei que ela ia gostar. — comentei segurando o choro.

Sentamo-nos ao lado do senhor Billy que parecia bem melhor do que nos últimos dias.

–Obrigada meninas. — comentou ele baixinho.

O padre falou sobre Miley, falou coisas que deve dizer a todos os jovens que morrem cedo de mais. De que ela tinha uma vida pela frente, porém se esse foi o caminho escolhido por Deus ela estaria melhor. Eu não escutei de fato sua palavras, porque ele não conheceu a passoa maravilhosa que era Miley e nem a honra de falar sobre ela.

Sam foi a primeira a levantar e dizer algumas palavras sobre ela. Ela falou de todas as pegadinhas que Miley fez e arrancou alguns sorrisos de recordações das pessoas, adorava isso em Sam, ela sabia que tinha pessoas para fazerem se sentirem melhor. Disse também que trocaria tudo, todos os trotes, todas as peças, todas as brincadeiras que fizera para que pudesse ter passado mais tempo com Miley.

Alex foi bem breve, somente agradeceu, nós sabíamos o agradecimento, então, ninguém a mais precisava sabê-lo.

Eu me recordei de um momento na minha vida que foi apagado com o tempo, quando eu perdi meus pais e os pais de Freddie me adotaram, não devia ter mais que cinco anos. As pessoas pegaram no meu pé, me chamavam de órfão mal amada, me empurravam quando me viam e Miley vendo isso, os encarou, disse que eu não deveria ter medo, que ela também não tinha uma mãe que a amasse e que os pais de Freddie me amavam como se fossem de verdade, dividimos o nosso lanche naquele dia, não dando bola as pessoas começaram a me aceitar e conheci Cat, nunca mais falei com Miley. Eu impliquei tanto com ela, chamando-a de nomes horrorosos, e só queria que Miley soubesse de que ela teve amigas que a amou como uma mãe também.

Finalmente foi Tori. Ele levou alguns minutos para falar, ela não parava de olhar de relance para Miley.

–Ainda estou esperando que ela acorde. — ela disse sorrindo fracamente, arrancando olhares compreensivos. — Bom, Miley, já que está confortável de mais para levantar, pode continuar aí. — fiquei feliz por depois de dois dias ela está conseguindo reagir a morte bem. — Eu te amo. — ela disse. — Não sei dizer a intesidade, mas amo como uma irmã, não, bem acima disso! Você é a pessoa que me dá equilibrio, que me faz tão bem. Não importa aonde esteja, eu sei que vai estar comigo. Sempre foi assim, não é? — ela ainda olhava a adormecida Miley, como se conversasse com ela pela última vez. — Prometemos nunca te esquecer se prometer não arranjar confusões aí em cima, tá? — ela disse e as pessoas riram. — Vamos sentir saudades, mas essa dor será a prova de que você valeu a pena para muitas pessoas. Obrigada por existir e nos dar a oportunidade de ter vivido em sua vida.

Cat foi a última. Ela olhou para Miley e sussurrou alguma coisa para ela.

–André, por favor. — André levantou e começou a tocar algumas notas suaves em seu violão. Cat começou a cantar. -Eu me sinto infinitamente feliz, estou com vocês...

Não podia estar melhor, eu sinto vocês.

Estou com tanta fome que sinto cheiro de pão francês.

Mas isso não importa porque eu tenho vocês.

Olhei para as meninas e sorrimos. Era a música que Miley inventou na casa de campo do Freddie, a última vez que estávamos todos juntos, que ela estava bem, que estávamos felizes e unidos. Cantamos juntas e algumas pessoas como Zack, Code e Jesse batiam palmas. Quando vimos, a igreja toda acompanhava como podia a musica, ou batia palmas.

–Mas isso não importa porque eu tenho vocês. — Cat terminou de forma suave olhando diretamente para Miley. Cat deixou escorrer uma lágrima feliz e todos bateram palmas.

Tínhamos uma certeza, Miley estava bem.

PSM: Cat

O velório acabou e estávamos conversando no jardim do cemitério após o sepultamento. E finalmente ele apareceu.

Liam.

Ele estava de terno, segurando um lírio branco nas mãos. Primeiro ele só ficou observando, esmagando o lírio em suas mãos. Ajoelhou-se ao lado da lápide e disse algumas coisas que, pela distacia, não conseguimos ouvir, e nem queríamos lhe tirar a privacidade.

Tori fez menção de ir lá, mas Sam disse algo em seu ouvido que a conteve. Nos distanciamos um pouco mais para lhe dar mais privacidade com Miley e antes de ir, o vi de joelhos chorar impiedosamente, chorar como nunca vi um homem chorar. Seu corpo tremia incontrolavelmente e seu rosto vermelho e afogado em lágrima, ele se encolheu sem se importar se alguém o vi ali, daquele jeito. Depois de minutos agoniantes para nós que assistíamos a cena, ele parou, depositou o lírio em sua lápide e disse suas últimas palavras.

Fomos embora sem que ele nos visse ali. Foi tudo muito horrível.