Cold eyes, warm hands.

1 Can you feel that?


— Feliz ano novo.

Eu não a conhecia ainda. Ela sorriu discretamente, passando por mim com uma taça de champanhe em mãos, caminhando despretensiosamente na areia. Os fogos de artifício e as ondas mais violentas da maré alta fizeram um bom trabalho abafando a mensagem.

Mal pude formular uma resposta antes que ela tivesse desaparecido em um oceano branco. Acompanhei os movimentos sutis de seu corpo com os olhos. A brisa nos fios rebeldes que se recusavam a permanecer nas tranças, o pulso tenso segurando a bebida, o flexionar do joelho, cada inspiração, dobra e piscar.

Disse a mim mesma que não faria mais aquilo, porque sempre dava errado.

Mas ela parecia diferente.

♣♣♣

Uma semana depois estávamos juntas, na mesma praia. Naquela madrugada bebemos juntas o resto de um espumante barato.

Menti para mim mesma mais uma vez.

April era linda. Desastrada. Cada erro, tropeço, cada torção, corte, arranhão, mordida e cuspe.

Observava sua figura, sob chuva ou sol, luz ou sombra e me perguntava se era aquele tipo de imagem que inspirara grandes pintores, poetas e inventores. Eu poderia pintá-la.

Sentada sobre uma pedra a vi usando as mãos para tirar os vestígios da área da calça. Uma perda de tempo, na minha opinião:

— Como se você não estivesse coberta de areia dos pés à cabeça.

Disse enquanto apoiava minha cabeça em seu ombro. Ela riu comigo.

Olhei para o céu quase todo nublado, um dégradé de milhares de tons de cinza. Alguns raios de luz atravessaram a barreira de nuvens e coloriam os cachos abertos de April, decorados especialmente por vento e areia. Entrelacei os dedos timidamente nos seus fios, puxei alguns grãos de areia:

— Vai dar trabalho.

Não foi uma relação. Ela me parou antes de qualquer outra tentativa:

— Eu vou entrar no mar, vai sair de qualquer jeito.

— Nadar? Em janeiro? A água deve estar congelando. — Eu ri, incrédula. — Você vai morrer de hipotermia.

Deitei-me, sem me importar com a dificuldade futura envolvida em remover os traços de areia das roupas, do cabelo, sapato ou o que fosse.

— São seis da manhã, tá fazendo uns três graus, você com certeza vai morrer.

Ela levantou com uma posição desafiante, um sorriso meigo, deboche pronto nos lábios. A roupa caiu ao chão e vento gélido não intimidou, na verdade, pareceu incentivar.

— Maluca.

Obtive um riso baixo como resposta. A vi caminhando em direção à água, apoiada sobre meus cotovelos. O sol mal havia nascido, pouca luz refletia sobre seu contorno. Um par de olhos castanhos se voltou contra mim antes que ela tocasse a água.

Me levantei. Corri em sua direção. Um pressentimento ruim. De forma alguma parecia prudente deixar que ela entrasse no mar em meio a um inverno que me parecia rígido demais, num mar agitado, em uma praia vazia.

Eram poucos metros, logo segurei seus braços. A água engolia nossos joelhos. Segurei-a como se a minha vida dependesse disso. Nossos corpos se aproximaram, suas mãos cobrindo meu corpo.

Sucessivas ondas cobriram boa parte de nós. Foi como mergulhar em mim mesma, centenas de vezes.

O mar parecia nos expulsar. A água fria parecia queimar sobre a pele exposta ao ar. A beijei brevemente e caminhamos de volta para a areia.

♣♣♣

Ela tinha perdido o brilho nos olhos, e eu não sabia o motivo.

— Alguma coisa mudou.

Não era uma pergunta. A entonação permanecera a mesma.

— Não sei. — Desvencilhou-se dos meus braços, suspirou. — Eu gosto de você mas...

Não. Me recusei a ouvir qualquer coisa depois daquilo. Nada de bom podia vir depois de “mas”. Pude ouvir a frustração, o receio, e até a raiva. Não. Não.

— Por favor, vamos conversar. — Insistiu.

Mas eu não podia deixa-la ir, nem queria.

— Eu te am...

— Mas eu não. — Ela interrompeu abruptamente. — Sejamos pragmáticas.

♣♣♣

Preguiçosamente encostada numa parede com o celular numa mão e o cigarro na outra. Comigo ao seu lado, sempre. Chuviscava, não muito, algo como uma chuva rápida de verão, dessas que se vão tão rápido quanto vêm.

April gostava de usar suas pausas para fumar, algo que ela mesma denominava de maior atitude clichê de pessoas que querem parecer morar num filme europeu alternativo, para me dizer que eu precisava mudar. Falava brincando que eu precisava desistir dela, porque colada assim sob sua sombra e sempre nos mesmos lugares eu nunca encontraria nada.

Quando ela jogou o resto do último cigarro no chão, pisando levemente na brasa vermelha, foi como uma mensagem.

Terminei com você, eutermineicomvocê, eu terminei com você; eu terminei com você!

Ela me apagou.

— Você nunca quis um relacionamento. — A constatação atrasada, no mínimo, seis meses.

April mal podia me encarar, mas respondeu com a voz baixa:

— Não. Eu acho que não.

Perdi todo o medo. Tentei me aproximar, minhas mãos mal alcançaram seu rosto antes que pudesse beijá-la. Suas mãos empurraram, as minhas puxaram. Ela disse não.

Eu disse sim.

Várias vezes.

♣♣♣

O corpo dela parecia relaxado as luzes artificiais que mal iluminavam o cômodo. De alguma forma ela ainda reluzia.

Minha.

Não fazia ideia de quanto tempo tinha assistido ela naquela posição. Não era exatamente como eu imaginava o futuro, mas era bom o suficiente. E pensar que ela não quis ficar, que disse sentir falta de casa.

♣♣♣

— Quando você vai soltar essa arma? — Ao acordar, sua voz trêmula, ansiosa me questionava.

Não respondi. Ajoelhando-me ao seu lado, com uma mão no revólver e outra acariciando seu rosto. E beijei-a pela milésima vez.

— Por favor não. — Outra súplica. — Dói.

Pressionei meu corpo contra o dela. Transbordando de medo. Nós duas.

♣♣♣

Completamente fascinada pela cena que se desenvolvia frente aos meus olhos, pisquei sem acreditar. O tempo praticamente parou e voltou em infinitos momentos sucessivos.

Tingida de vermelho vivo, ela estava completamente intoxicante.

— Vai ficar tudo bem. — Prometi enquanto a segurava em meus braços. Torci secretamente que seus olhos permanecessem abertos por mais tempo.

Não tive resposta, seu corpo pesava sem vida. A areia gélida e úmida sob nossas figuras, tão pequenas. Segurei suas mãos, entrelacei nossos dedos. Nenhum reflexo, mas suas mãos ainda estavam quentes.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!