Cold Heart Novel
4 Capítulo 04
Notas iniciais
Me levantei com alguns papeis na mão com um olhar de medo.
— Me desculpe Danilo. Eu vi um pedaço do desenho embaixo da mesa, puxei e sem querer um monte de folhas caiu no chão. Me desculpe por mexer nas suas coisas... – Expliquei.
— Tudo bem... – Disse Danilo relaxando.
Ele se abaixou e juntou bastantes folhas no meio, não pude mais ver o desenho que mais me chamou a atenção, me abaixei para ajudar, peguei algumas folhas e entreguei para ele que pegou sem olhar para mim e guardando os desenhos na mesma gaveta que ele tirou o envelope de fotos.
— Eu achei seus desenhos muito lindos. – Soltei.
Danilo olhou para mim surpreso, eu sorri. Para minha surpresa deixei-o sem graça novamente.
— Obrigado Julien. – Murmurou. – Por favor, não conte para ninguém sobre esses desenhos?
— Não... Não conto.
— Promete?
— Prometo.
Voltei para casa muito feliz e guardei as fotos na minha gaveta.
— Vou levar para a faculdade e mostrar para minha professora.
Eram 15:30, meu pai chegou mais cedo do trabalho, eu estava na sala assistindo televisão.
— Você, para cozinha agora! – Ordenou meu pai.
Meu estomago deu um embrulho desconfortante, meu pai estava de mau humor. Fui para a cozinha.
— Porque você saiu primeiro sem avisar para ninguém? – Perguntou meu pai apoiando suas duas mãos na cadeira olhando para mim.
— Eu queria ir mais cedo ao hospital...
— Sem avisar a ninguém! Você sabe que eu odeio quando você sai de casa sem avisar para onde você vai! – Retrucou meu pai.
— Mas eu deixei o café pronto para vocês...
— Não me interessa o café, você está proibido de sair de casa sem avisar alguém aqui de casa, está me entendendo?
— Me desculpe, eu... Não achei que iria te irritar só porque saí primeiro... Eu...
— Você é um irresponsável, se eu não tivesse aqui seus irmãos há essa hora estariam morrendo de fome e perdidos por aí.
— Mas pai, eu já disse que deixei o café pronto na cafeteira e meus irmãos sabem se virar muito bem sem minha ajuda...
— Você é um egoísta! Não quero mais que isso se repita! Onde já se viu? Já tenho que aguentar você sair por aí se divertir a noite inteira e voltar para casa de madrugada.
Eu não falei mais nada, meu pai saiu da cozinha e foi para o seu quarto resmungando. Eu estava parado na cozinha em estado de choque, não sabia do que estava sendo acusado, só porque eu saí primeiro de casa ele queria dar um de pai? Sempre que ele brigava comigo, me humilhava me fazendo sentir um lixo por qualquer besteira que eu fazia, me sentia culpado por achar que ele fazia de propósito, mas depois dessa discussão isso prova que eu estava certo. Será que meu pai me odeia? Ele estava descontando a sua raiva ou mau humor em mim?
Corri para o meu quarto com os olhos enchendo de lágrimas, mas evitei que ele caísse olhando para cima tentando pensar em outra coisa, respirando fundo. Peguei as fotos que o Danilo me deu e fiquei olhando para elas e fazendo de tudo para esquecer o ocorrido de agora a pouco.
— Essas fotos são incríveis.
No dia seguinte esperei meu pai e meus irmãos saírem primeiro como sempre, não estava fazendo isso porque meu pai me deu uma bronca, pois não estava nem aí com ele, eu faria isso de novo e sem medo, é um absurdo ele ter discutido comigo por causa de uma coisa tão fútil. Naquela manhã eu estava de mau humor e quem não estaria?
— Eu já falei para não colocar açúcar demais no café, ele está todo melado. – Reclamou meu pai fazendo careta depois de ter engolido um gole do café e colocou a xícara no pires fazendo um barulho insuportavelmente alto. – Será que nem café você sabe fazer Julien?
Meus irmãos que também estavam na mesa tomaram o café sem reclamar, eu tomei-o e achei que exagerei um pouquinho no açúcar, mas não acredito que estava melado como meu pai disse.
— Maggie disse que você não foi para a faculdade ontem, posso saber por quê? – Indagou ele.
— Eu derrubei café na minha camiseta, tentei tirar a mancha com água, mas piorou. Resolvi voltar para casa.
— Não quero que você fique faltando da faculdade, eu estou pagando caro por ela! – Reclamou ele.
— Você sabe que você não precisa se preocupar com o pagamento da faculdade, eu posso procurar um emprego e pagar...
— Já está pensando em desistir da faculdade para trabalhar em qualquer coisa? Vai dar essa desfeita para o seu pai que está pagando a faculdade para você?
— Não pai, eu pensei em trabalhar e fazer faculdade ao mesmo tempo...
— E como ficam seus irmãos se nunca parar em casa? Já não fica nem em casa direito, você só pensa em si mesmo?
— Eu só quero ajudar a pagar minha faculdade e não te dar mais problema.
— Não, você não vai trabalhar. Vai continuar nessa faculdade até terminar, se não quer me causar problemas então eu não quero mais saber de você querendo desistir.
— Eu não quero desistir da faculdade.
— E é bom mesmo que não desista! Eu também não quero mais que falte!
— Eu não vou mais faltar... – Disse.
Quando cair uma lata de tinta na minha cabeça, eu irei para faculdade passar vergonha sem problemas, pai.
— Eu espero vocês dois no carro daqui a 10 minutos. – Disse meu pai para os meus irmãos se levantando da mesa e saindo da cozinha.
Fui despertado pelo despertador depois de tirar um cochilo, estava na hora de eu ir para o hospital. Com muita preguiça me levantei, lavei meu rosto e desci na cozinha para tomar café de novo. Vesti minha camiseta vermelha e preta, calça justa e tênis de couro marrom, escovei meus dentes e peguei minha bolsa.
Mercedes estava no portão me esperando.
— Bom dia Julien.
— Bom dia Mercedes.
Andamos e conversamos até o ponto.
— Não te vi ontem, aconteceu alguma coisa? – Perguntou ela.
— Não, está tudo bem, fiquei com vontade de ir ao hospital mais cedo. Acordei animado. – Respondi.
— Meu filho me entregou seu recado, você gostou dos meus bolinhos?
— Eles estão maravilhosos como sempre, desculpe não ter passado na sua casa.
— Tudo bem, que bom que você gostou. Estou surpresa que o Danilo conversou com você, eu não entendo esse menino. Ele quer falar com você depois que você chegar da sua faculdade, pode passar lá em casa?
— Posso sim. – Respondi.
— Meu filho não foi grosso com você, né? – Indagou ela preocupada.
— Não, Dona Mercedes, imagina. Seu filho é muito educado.
— Ele é um garoto tão sério, mas me surpreende com tanta gente que ele traz em casa, cada garota bonita e educada, mas nunca me conta se namora alguma delas.
— Sério? Ele traz muitas garotas para o quarto dele?
— Traz, mas eu avisei para ele, se ele engravidar alguma garota antes de se casar, vai levar um belo cascudo. – Rimos. – E depois vai se casar com ela.
— Isso é o certo. – Complementei.
Aqueles desenhos tem alguma relação com aquelas pessoas que ele leva para o quarto? Ele pede para essas pessoas posarem para ele? Já que estávamos nesse assunto, eu não pude evitar perguntar.
— Dona Mercedes, ele leva amigos também?
— Hã? No quarto?
— Sim.
— Leva. Uma vez ele levou um garoto muito bonitinho parecido com você. Deve ter sido colega de trabalho. Meu filho briga comigo toda vez que pergunto o que ele apronta no quarto com tantos amigos lá dentro. – Disse ela soltando um suspiro.
O ônibus da Mercedes chegou primeiro como sempre e fiquei esperando o meu.
— Oi Julien. – Disse André chegando e sentando do meu lado no banco.
— Oi André, tudo bem? – Apertei a mão dele.
— Não te vi ontem.
— Peguei o ônibus mais cedo. Mas, você conseguiu chegar na sua escola?
— Eu quase errei de ponto. – Disse ele rindo.
— Sério? – Perguntei rindo e imaginando aquela cena. – Como eu disse daquela vez, você se acostuma.
André ficou olhando fixo para mim com um sorriso, conheço aquele olhar.
— O que está achando da escola? – Perguntei.
— Tá da hora. Mas a minha escola anterior era melhor.
— Você morava aonde?
— Eu morava em San Juan.
— Por que veio para Santiago?
— Meus pais se separaram e vim com minha mãe morar aqui com a minha vó. Essa cidade tem bastante gente bonita. – Disse André olhando em meus olhos e eu ri.
— Que bom. Essa é uma cidade tranquila, com um tempo você nunca mais vai querer sair daqui.
Nosso ônibus chegou e subimos juntos. Paguei minha passagem para o motorista e sentei, André sentou do meu lado e ficamos conversando mais um pouco.
— Vamos combinar de nos ver hoje à noite? Vou me encontrar com alguns amigos.
— Eu gostaria, mas eu já combinei de me encontrar com meus amigos, quem sabe na próxima? – Disse eu.
— Você tem Whats?
— Eu não uso. – Menti.
— Então me passa seu número.
— Na próxima eu te passo, porque seu ponto está chegando.
— Beleza, eu vou te cobrar. – Disse ele se levantando.
— Pode cobrar. – Respondi com um sorriso.
Entrei no hospital, cumprimentei a recepcionista que já estava acostumada com minha visita e passei pelo segurança da porta de entrada que era alto, rosto redondo e um pouco barrigudo olhando para mim com olhar de malícia. Ignorei e segui meu caminho. No corredor encontrei com Alícia conversando com uma mulher de pele bronzeada, cabelo curto e repicados, um olhar que não me agradou, estava vestindo uma saia longa com estampa de onça, blusinha preta e rasteirinha.
— Bom dia Julien. – Disse minha amiga.
— Bom dia Alícia, tudo bem?
— Tudo, essa é Thaís. – Disse ela para mim. – E ele é o Julien, meu amigo do hospital que eu te falei.
— Ah, então você é o Julien? – Disse ela surpresa.
— Sim, o original. – Rimos.
— Estávamos falando do gatão do hospital, você viu o perfil dele que te mandei? – Pergunta Alícia enquanto olhava para ela sem graça.
— Ah, ontem eu falei com ele... Ah, era com você com quem o Johnson foi conversar? – Interpelou Thaís para mim.
— Sim...
— Sério? Me conta migo o que rolou? – Perguntou Alícia muito ansiosa.
— Ele me pediu desculpa porque esbarrei nele e derrubei meu café em cima de mim.
— Vocês viraram amigos? – Pergunta ela com brilho nos olhos enquanto Thaís assistia nossa conversa.
— Ah... Sim... – Respondi.
— Ahh, nos apresenta para ele.
— Não viramos tão amigos assim. – Disse eu com tom sério, aquele assunto estava me entediando.
— Ah, mas mesmo assim.
— Você já deu em cima dele? – Pergunta Thaís.
— Ah desculpe? – Disse eu incomodado com aquela pergunta.
— Ah, a Alícia já me disse que você é gay. Eaí? Já tirou uma casquinha dele? – Disse ela com descaramento.
— Alícia, podemos conversar por ali a sós? – Disse eu me virando para ela.
— Ah claro. – Nos afastamos da amiga dela. – O que foi?
— Por que você disse para ela que eu sou gay?
— E não é? – Perguntou ela com uma cara de deboche.
— Estou te perguntando o porquê que disse para uma desconhecida sobre a minha sexualidade! – Perguntei com tom áspero.
— O que é que tem? Ela é minha amiga! – Disse ela.
— Não me interessa, para mim ela é uma desconhecida, então você não tinha o direito de espalhar para suas amigas sobre minha vida!
— Me desculpe, Julien. Eu não sabia que isso ia te incomodar tanto. Eu não sabia que você não era assumido.
— A questão não é me assumir. Você por acaso sabe por que minha mãe está naquela cama?
— Ela se suicidou... – Balbuciou ela. – Julien... Você acha que foi sua culpa? – Pergunta com estranheza.
— Acho que não precisamos discutir sobre isso. Por gentileza te peço para não espalhar sobre minha sexualidade... Mais ainda... – Disse saindo de perto dela e ignorando a Thaís.
— Julien... – Ela chamou minha atenção, mas ignorei e continuei andando.
Fiquei com raiva dela, ela não tinha o direito de espalhar para as amigas dela que eu sou amiguinho gay dela. Mesmo não sabendo que eu era assumido, ela ainda não tinha direito. Não era questão de esconder minha masculinidade e nem qualquer outra coisa minha, era por causa da minha família, meu pai me proibiu de me assumir para todo mundo para evitar fofocas sobre o suicídio da minha mãe e estragar a reputação dele que sempre odiou a ideia de ter um filho gay, mas chegamos a um acordo de que eu poderia seguir com a minha vida do jeito que eu quiser, mas ninguém deveria saber. E aquela tal Thaís está pensando que sou o quê?
Continuei caminhando até o quarto da minha mãe bufando de desconforto quando me encontro com Johnson conversando com mais duas enfermeiras. Rezei para que eu não fosse visto por ele...
— Oi Julien!
— Oi Johnson! – Respondi com um sorriso gentil.
Johnson despediu das duas mulheres que estava conversando e veio até mim esticando sua mão. Lá vem mais um aperto forte.
— Tudo bem? – Perguntou apertando forte minha mão.
— Tudo bem.
— Você está indo visitar sua mãe?
— Sim.
— Posso te acompanhar, gostaria de conhecê-la.
— Claro, pode vim. – Respondi, comecei a andar e ele me seguiu.
— Não tem dia que eu não venho ao hospital e deixo de conversar com alguma funcionária ou uma visitante. É como se eu fosse uma pessoa famosa. – Prosseguiu ele.
— Imagino. – Ri.
— Sério, é bem chato. Tem dia que eu só quero ver minha esposa. Mas a família dela me obrigou há vir todo dia. Não que eu odeie é claro, mas só queria um dia de paz aqui no hospital para ver minha esposa.
— Em todo lugar é assim?
— Sim... Meus amigos dizem que sou sortudo, mas para mim tem sido estressante. – Contou.
Eu ri do seu desabafo até que chegamos ao quarto da minha mãe, abri e entramos.
— Sua mãe é muito parecida com você. – Disse ele.
— Mãe, esse é o Johnson, Johnson essa é a minha mãe Marieta. – Disse eu.
— Você tem costume de conversar com ela? – Indagou ele.
— Sim, me achou esquisito?
— Não, que isso. É que eu nunca conversei com minha esposa. Na minha cabeça ela sempre está dormindo e não ouve nada. – Disse ele com aquele mesmo olhar de culpa.
— Converso um pouco com a minha mãe para tentar esquecer que ela está em coma. – Disse me dirigindo até a minha mãe e pegando em sua mão e fechando meus olhos. – Acredito que conversando com ela, ajuda a fazer voltar para nós.
Olhei para o Johnson com um sorriso e ele retribuiu com um sorriso gentil.
— Gostaria de apresentar minha esposa também. – Disse ele.
— Seria um prazer. – Disse me levantando e beijando no rosto da minha mãe.
Johnson me levou até o quarto da sua esposa que era no corredor do outro lado, quando chegamos vi a mesma mulher que eu vi nas fotos, estava mais magra e com um rosto pálido, mas mesmo assim estava bonita.
— Amor, quero te apresentar ao meu novo amigo. – Disse Johnson.
— Eu achei que você não conversava com sua esposa. – Falei.
— Não conversava, mas aprendi que devo conversar mais com minha mulher e esquecer que ela está em coma. – Disse ele sorrindo para mim.
Sorri para ele e continuou.
— Esse é Julien, Julien essa é a minha esposa Laura.
— Muito prazer Laura. – Disse eu. – Ela é muito bonita.
— Sim, ela é muito bonita. – Disse Johnson olhando para ela. – Você tinha que ver ela no casamento, ela estava tão linda.
— Imagino ter sido muito lindo a cerimônia.
— Foi.
— Eu vou pegar um café, quer também? – Perguntei colocando a minha bolsa na poltrona.
— Quero sim, valeu Julien.
Saí do quarto e andei pelo corredor. Parei de andar porque esqueci de pegar meu dinheiro, queria comprar um doce para mim na máquina do hospital, voltei para o quarto e ao chegar perto da porta.
— Me perdoe Laura... – Disse Johnson com uma voz chorosa.
Fiquei parado sem reação, abri a porta fazendo barulho para ele perceber que eu voltei. Vi que ele estava secando os olhos com o braço esquerdo.
— Desculpe Johnson, eu esqueci de pegar meu dinheiro por que fiquei com vontade de comprar um doce na máquina do hospital. – Disse eu naturalmente indo até minha bolsa sem olhá-lo para ele não perceber.
Ele apenas riu e dei uma olhada rápida para ele e segui para fora do quarto. Estava andando devagar e pensativo. Ele disse “Me perdoe” para a mulher dele, será que ele também estava se sentindo culpado pelo ocorrido? Eu estava muito curioso, queria saber o que estava acontecendo, saber por que Johnson estava se culpando.
Peguei dois copos pequenos de plástico e servi o café, fui para a máquina de doces, coloquei uma moeda e peguei uma barra de cereal de chocolate. Voltei para o quarto com bastante cuidado para não derrubar na minha roupa como daquela vez. Chegando lá, a porta já estava aberta e Johnson estava esperando por mim na outra poltrona. Entreguei um copo para ele e sentei na poltrona onde estava minha bolsa.
— Não esbarrou em mais ninguém né Julien? – Perguntou Johnson.
— Haha, você é muito engraçadinho Johnson. – Disse eu tomando um gole de café e abrindo a barra de cereal. – Quer um pedaço?
— Não, valeu! – Johnson tomou um gole do café. – Você faz faculdade de quê?
— Eu faço de história
— Quer ser professor?
— Eu adoraria, mas eu quero trabalhar como pesquisador, estudar com livros antigos, documentos, fotos...
— Ossos de dinossauro? – Completou Johnson.
— Isso também. – Disse rindo. – Eu amo estudar o passado.
— Legal cara. Eu nunca fui bom em história na época em que eu estudava. Digamos que eu era o bagunceiro da sala. – Contou ele rindo.
— Aposto que você era o popular da sua escola.
— Acertou! Como sabia? – Indagou Johnson.
— Eu sempre acerto em meus palpites. – Comi mais um pedaço do meu cereal.
Johnson e eu conversamos mais um pouco até que a hora de eu ir para a faculdade chegou.
— Uau, a hora passou rápida e tenho que ir correndo para o ponto de ônibus.
— Não precisa se preocupar com ônibus, eu te levo até sua faculdade no meu carro. – Disse Johnson.
— Muito obrigado mesmo Johnson, mas não posso aceitar.
— Dessa vez eu não aceito “não” como resposta! Vamos, deixa de ser teimoso que eu te levo.
— Humm... Ok, se você insiste. Mas só dessa vez! – Exclamei pegando minha bolsa e esperei na porta o rapaz beijar sua esposa e se despedir.
Fomos até o estacionamento, ouvi um barulho de alarme sendo desligado e Johnson abriu a porta de frente em um HB20X preto para eu entrar. Quando entrei, embriaguei-me com o cheiro de couro novo do carro, vi um monte de botões, alavancas, GPS, tudo modernizado e luxuoso. Quando Johnson entrou no banco de motorista, o cheiro do seu perfume veio forte em meu nariz, foi a mesma coisa com o Danilo, mas aquele cheiro de colônia cara era bastante agradável.
— Gostou do carro? – Perguntou ele olhando para mim.
— É muito bonito. – Respondi com um sorriso gentil. – O carro é muito bonito.
— Também está pensando em ter um veículo próprio?
— Na verdade não, mesmo precisando eu me acostumei a viajar de carro dos meus amigos e do meu pai, quando ninguém me oferece carona eu vou de ônibus.
— Sério? Você é o primeiro cara que conheço que diz que não quer um carro.
— Sou uma caixinha de surpresa.
Ele riu com um sorriso bonito que me deixou sem graça. Guiei Johnson até a minha faculdade com dificuldade porque era a primeira vez que fazia isso e ficamos rindo como dois adolescentes quando errávamos de rua.
— Que bom que você não quer ter um carro, imagine o trabalho seria te ensinar a dirigir, hahaha. – Disse Johnson brincando comigo.
— Sem graça. – Olhei para a frente um pouco envergonhado.
— Estava brincando, não precisa ficar com vergonha.
— Eu não fiquei com vergonha! – Disse para ele.
— Que bom. É essa sua faculdade? – Indagou Johnson encostando-se à calçada no meio de dois carros.
— É aqui mesmo, ah, meu amigo está ali na frente me esperando. – Disse eu apontando para perto do portão. Rodrigo estava mexendo no celular, ele estava muito elegante com o cabelo jogado para cima.
— Aquele garoto é seu amigo? – Indagou Johnson.
— Sim, gostaria de apresentá-lo. – Disse abrindo a porta. – Rodrigo! Vem aqui.
— Oi Ju! – Cumprimentou Rodrigo indo em minha direção enquanto eu dava a volta na frente do carro.
— Quero te apresentar um amigo. – Johnson abaixou a janela, percebi que Rodrigo demonstrou surpresa ao vê-lo. – Esse é Johnson, conheci-o no hospital.
— Muito prazer, eu sou Rodrigo. – Disse meu amigo apertando a mão dele, mas sempre discreto.
— O prazer é todo meu. Agora vou indo, boa faculdade aí Julien.
— Obrigado Johnson. Até mais!
— Falou! – Disse ele fechando a janela e indo embora com o carro.
Rodrigo e eu caminhamos até dentro da universidade, meu amigo deu uma ultima olhada para trás.
— Parabéns Julien, que gatão de homem, está com tudo! – Disse ele rindo.
— Claro que não bobo. Ele é só um amigo. – Eu disse em minha defesa.
— Hum, amigo? Sei.
— Apenas amigo e nem pense que eu estou pegando porque ele é recém-casado e é muito hétero.
— Ah, que pena... Porque vocês formam um lindo casal.
Eu ri com o comentário dele.
— Só você mesmo para inventar uma coisa dessas. Acredite, ele é mais hétero que todos os rapazes dessa universidade.
— Fala sério, quase a metade da faculdade são só gays e lésbicas! E você já atraiu a atenção de vários deles até héteros, porque não vai atrair a atenção desse Johnson?
— Já disse que ele é recém-casado. A mulher dele é muito bonita.
— Mas enfim, está pronto para hoje à noite? – Rodrigo indagou ansioso.
— Muito, estou louco para ver como está o Michel.
— Eu também!
Passamos por alguns colegas, alguns rapazes me olhando e comentando com o amigo do lado como sempre.
— Então eu passo na sua casa umas 21 horas, pode ser? – Perguntou Rodrigo quando chegamos na minha sala.
— Eu te ligo. Acho que irei discutir um pouco com meu pai sobre isso de novo.
— Ai, Ju... Mas liga mesmo, podemos ir até antes para a gente conversar mais um pouco.
— Tudo bem. Até mais tarde.
— Tchau! – Rodrigo foi até sua sala.
Cheguei em casa, quando cheguei perto do meu portão me lembrei de Danilo, ele queria falar comigo, não contive minha curiosidade e fui até sua casa. Depois de 10 segundos que apertei a campainha, Danilo saiu e abriu o portão e convidando a entrar com um sorriso no rosto.
— Vamos para o meu quarto. – Disse Danilo indo até o seu quarto enquanto eu o segui. – pode sentar.
Sentei em sua cama, vi que o mesmo desenho que derrubei ontem no chão estava em cima da mesa dele, olhei diretamente para o Danilo.
— Desculpa por ter te assustado ontem... – Disse ele envergonhado.
— Não... Desculpe a mim, eu não devia ter mexido nas suas coisas sem sua permissão...
— Não se desculpe, eu te entendo. – Danilo foi até sua mesa e pegou um monte de folhas e me entregou. – Eu decidi te mostrar meu trabalho... Você disse que gostou. – Disse ele ainda envergonhado e olhando para o lado.
— Sério? Posso ver?
Ele assentiu e encostou-se à mesa.
Vi aquelas mesmas mulheres deitadas na cama se expondo, me encantei com todos os detalhes, sombreamento, expressão dos rostos. Mudava de folhas, uma mulher de cabelo claro, cabelo escuro, cabelo longo, rosto mais redondo, pernas longas. Uma mulher sentada, outra em pé comendo uma maçã. Até que parei em um desenho de um homem muito bonito na mesma posição das mulheres deitado na cama, não estava nu, mas estava de cueca e sua expressão no desenho era de luxúria.
— Seu amigo? – Perguntei.
— Sim... Gostou?
— Ficaram ótimos, todas essas pessoas são reais?
— Eu convido meus amigos e ficantes posarem para mim... – Disse Danilo envergonhado.
— São lindos, todos são muito lindos. Eu não sabia que você desenhava tão bem. – Disse olhando para ele, Danilo virou para mim surpreso.
— Se você quiser eu posso desenhar você...
— Seria uma honra, mas não sei se faria poses como essas pessoas porque sou muito tímido.
— Não precisa ficar com vergonha. Eu te ajudo a perder essa timidez.
— Mesmo que eu pose, meu corpo não é legal, meu corpo é sem graça e feio. – Disse olhando para ele envergonhado.
— Eu duvido. – Disse Danilo olhando para mim com uma expressão diferente. – Me mostre.
— O quê? – Perguntei.
— Tire sua camisa que quero ver se seu corpo é feio.
Olhei para ele com um pouco de surpresa e sem reação. Esse era um pedido incomum que eu nunca esperava do filho da minha vizinha.
FIM DO CAPÍTULO 04
Continua...
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