Cold
1 Tijolinho por tijolinho
Notas iniciais
Até que ponto uma guerra poderia feri-lo? Não fisicamente, disso ele já sabia a resposta. Ossos quebrados, cortes profundos, hematomas escuros. O corpo conhecia o caminho da dor e também o da cura. A carne se fecha. O sangue, eventualmente, estanca. Cicatrizes aprendem a ser apenas relevos na pele.
Mas e o que ninguém via?
Como se costura um rasgo que não sangra, mas devora o peito por dentro? Como recolher, uma a uma, as arestas de algo quebrado que sequer possui forma física para ser segurado?
O coração de Shun não batia; ele ardia em ondas silenciosas. Sua mente era um mecanismo em pane, engrenagens girando em uma velocidade cruel que ele não conseguia frear. Porque, por mais que a lógica sussurrasse que ele fora apenas um espectador de sua própria tragédia, por mais que repetisse o mantra da inocência nas madrugadas vazias... ainda tinha sido o seu corpo.
Aquelas mãos — agora pálidas e trêmulas — haviam causado o estrago.
Aquela voz — que ele usava para pedir paz — ecoara ordens terríveis.
Os passos haviam partido de seus próprios pés.
A razão compreendia o perdão, mas a culpa era analfabeta.
Os pesadelos o arrancavam do sono como mãos invisíveis que o puxavam para o fundo de um oceano gelado. Acordava com o suor colando o pijama ao corpo, os dedos enterrados nos lençóis, o ar entalado na garganta seca. Às vezes, o mundo real demorava segundos para se reconstruir ao seu redor. Outras vezes, o pesadelo parecia mais real do que o quarto.
E havia o medo. O medo denso, opaco.
Medo de dormir. Medo de sonhar.
Mas, acima de tudo, o terror paralisante de fechar os olhos e despertar descobrirem que ele já não era mais o dono de si mesmo. Mesmo com a guerra findada, o rastro do horror ainda encontrava frestas para retornar.
Shun soltou um suspiro pesado, o hálito quente embaçando o vidro, e sentou-se no batente da janela. Lá fora, a neve caía, estendendo um lençol de pureza sobre o mundo — uma calma que parecia se recusar a entrar em seu peito.
Através da moldura da janela, observou os amigos no jardim. Seiya corria debaixo do céu cinzento como se tivesse resgatado a própria infância por algumas horas. Jabu, com uma concentração teatral, lançou uma bola de neve que explodiu no peito de Seiya.
O Cavaleiro de Pégaso despencou para trás de forma dramática, desaparecendo no branco fofo do chão em meio a risadas abafadas pelo vidro.
Shun sorriu. Foi um gesto breve, minúsculo e frágil, como a chama de uma vela protegida por mãos cansadas no meio de um vendaval.
Ainda existia luz ali fora. E, se ela resistia neles, talvez um dia voltasse a brilhar dentro dele também.
Então, uma voz surgiu às suas costas, quebrando o silêncio como uma pedra lançada em um lago estático.
— É uma visão rara. Você, em silêncio, enquanto o Seiya faz todo aquele barulho lá fora.
Shun virou-se de imediato, o corpo ainda tenso pelos resquícios dos próprios pensamentos.
Encontrou olhos azuis pousados nele com a tranquilidade de quem já estava ali há algum tempo, apenas observando a neve — ou talvez, observando-o. Hyoga segurava uma caneca entre as mãos, o vapor espesso subindo em espirais. O aroma doce e denso de cacau preencheu o espaço entre os dois.
— Oi, Hyoga — saudou Shun, forçando os ombros a relaxarem.
— Oi, Shun.
Hyoga sorriu. Era curioso como alguém moldado pelo gelo eterno conseguia carregar tanto calor no rosto. Seus olhos, que para o mundo pareciam lâminas de cristal, tinham para Shun uma quietude acolhedora.
Ele se aproximou e depositou a caneca no batente largo da janela, bem ao alcance da mão de Shun.
— Chocolate quente — disse ele, o tom de voz suave como a neve que caía lá fora. — Dizem que aquece até a alma. E a julgar pelo seu olhar, você está precisando de um pouco de fogo.
Shun soltou uma risada baixa.
— Então vou precisar de duas canecas. Talvez três.
Hyoga deixou escapar um riso pelo nariz, satisfeito por ouvir aquilo. Ele permaneceu ali, em silêncio, guardando o sorriso de Shun como quem guarda algo raro. — uma estrela teimosa que insistia em brilhar por trás de nuvens pesadas de tempestade.
Hyoga inclinou levemente o rosto em direção ao caos que se desenrolava no jardim.
— O que me diz? — perguntou. — Podemos ir lá fora fazer um boneco de neve. Ou um alvo para o Jabu.
Shun acompanhou o olhar dele. Lá fora, Seiya corria soltando gritos que atravessavam o vidro, enquanto Ikki permanecia imóvel, com uma expressão que sugeria que ele estava a poucos segundos de reduzir o jardim a cinzas. Jabu, por sua vez, gesticulava com uma inocência exagerada, claramente o pivô de alguma confusão.
— Melhor não — Shun murmurou, apertando a caneca quente entre os dedos.
Hyoga desencostou-se da parede e apoiou o ombro no batente da janela.
— Você está perdendo o espetáculo. O seu irmão quase transformou o Pégaso em churrasco agora pouco porque ele confiscou o cachecol dele favorito para "decorar" um boneco. E o Tatsumi está tendo um colapso nervoso porque o Jabu sequestrou todo o estoque de cenouras da cozinha.
Dessa vez, a risada de Shun não foi contida. Ela escapou livre, um som que pareceu iluminar as sombras do quarto. E então, depois que o riso cessou, ele falou;
— Está muito frio lá fora, Hyoga.
Hyoga virou-se para ele, cruzando os braços.
— Shun, eu sou o frio. E eu estou aqui com você. Portanto, por definição, o frio não é o problema.
Shun arqueou uma sobrancelha, o rastro do riso ainda no canto da boca.
— Isso foi uma aula de lógica ou uma ameaça velada?
— Um convite — corrigiu Hyoga.
Ele estendeu a mão. A palma aberta entre os dois era um espaço seguro, uma ponte estendida sobre o abismo que Shun sentia dentro de si.
Lá fora, a neve continuava a cair, transformando o mundo em branco. Mas ali dentro, Shun sentiu que o gelo em seu próprio peito começava, enfim, a ceder.
Ele fixou o olhar na mão estendida, mas não a tocou. Seus olhos buscaram o jardim outra vez. Lá fora, os amigos tropeçavam no branco, rindo com a facilidade insultante de quem ainda sabia respirar sem sentir o peso do mundo nos pulmões.
Por um segundo, ele quis ir. O desejo de ser leve pulsou em suas mãos.
Mas bastou um lapso. Um lampejo escuro atravessando a mente. Memórias bruscas, sensações antigas, o medo surgindo como gelo rachando sob os pés.
Seus dedos se fecharam, apertando o tecido da própria roupa com força. Ele mordeu o lábio, tentando ancorar-se no presente antes que o abismo o levasse.
Hyoga não desviou o olhar. Ele leu a tensão na linha dos ombros de Shun.
— Se isolar do mundo não vai mudar o que aconteceu, Shun. E certamente não vai apagar o que você sente.
Shun baixou a cabeça.
— Eu sei.
Ele se recolheu ainda mais no batente, abraçando os próprios joelhos, como se tentasse ocupar o menor espaço possível no universo. Hyoga então sentou-se ao seu lado. Ombro quase tocando ombro. Não perto o suficiente para invadir, mas o bastante para que Shun sentisse que não estava mais sozinho naquele canto escuro.
— Sabe por que a neve é bonita? — Hyoga perguntou de repente, quebrando a quietude.
Shun piscou, pego de surpresa pela mudança de tom.
— Porque... ela é branca?
— Resposta terrível — Hyoga rebateu.
— Porque cai devagar? — arriscou Shun, um pouco mais atento.
— Menos ruim. Mas ainda passa longe.
Shun soltou um sopro que quase virou riso. A curiosidade começava a vencer a melancolia.
Hyoga cruzou os braços, satisfeito com o progresso.
— A neve é bonita porque ela cobre o estrago. Por um tempo, ela esconde as marcas, suaviza as imperfeições do chão e silencia o barulho do mundo. Mas, quando ela derrete... tudo ainda está lá embaixo. É só então que a gente consegue limpar de verdade, com a terra à mostra.
Shun permaneceu em silênciob processando a metáfora.
— Você acabou de me chamar de sujeira em baixo da neve? — perguntou, com um traço de humor.
— Estou tentando ser poético para te tirar desse quarto. Não distorce a minha arte — Hyoga retrucou.
Desta vez, o riso de Shun foi real. Pequeno, breve, mas autêntico.
Hyoga aproveitou a brecha como o estrategista que era.
— Cinco minutos. É tudo o que eu peço. Você sai, acerta uma bola de neve bem no meio da testa do Seiya e volta para o seu exílio glorioso.
— Cinco minutos sempre viram quinze com vocês — Shun ponderou, olhando para a porta.
— Dez, então. Considere-se um negociador difícil.
— Não quero estragar a diversão deles, Hyoga. Não estou no clima.
Hyoga virou-se totalmente para ele, a expressão suavizando-se.
— Shun... você não estraga ambientes. Você é quem traz a luz para eles. Existe uma diferença fundamental nisso.
Shun permaneceu sem resposta, os olhos fixos nas próprias mãos, como se tentasse ler nelas um mapa que não existia mais.
Hyoga continuou;
— Você não precisa "estar bem" para sair lá fora, Shun. Não precisa sorrir o tempo todo, nem tentar ser a versão antiga de si mesmo para nos agradar. Pode só... existir comigo por alguns minutos. Sem cobranças.
Percebendo que o peso da conversa estava prestes a paralisar o amigo novamente, Hyoga levantou-se de um salto, quebrando a tensão.
— Certo. Última proposta. Se você não vier por vontade própria, eu vou fazer nevar aqui dentro.
— Você não teria coragem. — Shun ergueu a cabeça, as sobrancelhas franzidas em dúvida.
— Oh, eu teria — Hyoga rebateu com um brilho desafiador. — E você sabe que o sistema de aquecimento desta mansão é um desastre. Transformarei este quarto em uma filial da Sibéria em menos de dez segundos.
— Hyoga... — Shun tentou protestar, mas o canto de sua boca já traía um começo de sorriso.
— E tem mais. Se eu congelar tudo, você terá de lidar sozinho com o Abominável Homem das Neves.
Shun soltou um arzinho pelo nariz, entrando no jogo.
— E quem, exatamente, seria ele?
Hyoga abriu os braços com uma dignidade absolutamente absurda, como se estivesse diante de uma plateia.
— Eu, obviamente. Uma criatura rara, loira e extremamente elegante.
Desta vez, Shun riu de verdade — um eco de algo que ele mesmo achava ter esquecido como fazer. Ele cobriu a boca com a mão, mas seus olhos brilhavam com uma leveza que não estava lá minutos atrás.
Hyoga, satisfeito com a vitória, estendeu a mão outra vez.
— Venha logo, antes que eu comece a rosnar e decida que a sua cama ficaria melhor se fosse um bloco de gelo.
Shun olhou para a mão estendida. Depois, buscou o sorriso contido, mas profundamente honesto, nos olhos azuis de Hyoga.
E então, pela primeira vez em muito tempo, ele escolheu algo que não era o medo.
Shun descruzou as pernas e, entrelaçou seus dedos aos de Hyoga.
Os dedos frios de Hyoga, que agora estavam quentes, aqueciam os de Shun, que estavam frios.
Era estranho como o mundo, em sua sutileza, gostava de inverter certas leis para nos ensinar algo.
Antes de se levantar totalmente, Shun lançou um olhar rápido para a caneca abandonada no batente da janela. O vapor ainda subia em fios delicados, dançando contra a luz cinzenta da tarde.
— Meu chocolate vai esfriar — murmurou ele, como quem procura uma última desculpa para não se mover.
Hyoga não parou. Continuou puxando-o com calma em direção à porta.
— Depois eu esquento — prometeu, sem olhar para trás.
Shun arqueou uma sobrancelha, o rastro de uma dúvida divertida na voz:
— O chocolate?
Hyoga olhou de lado, quase sorrindo.
— Também.
Eles começaram a descer juntos.
Ao sair do quarto, Shun percebeu algo que doeu e confortou ao mesmo tempo: estava com saudade.
Saudade daquele corredor silencioso. Do cheiro antigo da casa. Da madeira encerada, das cortinas pesadas, dos quadros alinhados nas paredes. Das mobílias que guardavam memórias em cada canto.
E, principalmente, da presença loira e esguia ao seu lado, que apertou seus dedos ao sentir a hesitação dele nos degraus.
Tudo perto de Hyoga parecia ganhar uma nova saturação. O mundo ficava mais quente, mais nítido, as cores mais vibrantes. Como se a presença do Cisne servisse de filtro para dissipar as sombras e tornar a solidão menos dolorosa.
Não era apenas na Casa de Libra que os dois haviam trocado calor. Na verdade, aquele momento no Santuário fora apenas o primeiro centelha.
Ao longo dos dias, meses e anos, Hyoga vinha entregando a Shun cada grama de calor que conseguia reunir. Eram pequenas brasas mantidas vivas sob a neve russa: o chá deixado na cabeceira, a manta ajeitada sobre os ombros durante o sono, silêncios compartilhados sem cobrança. Era a constância de quem se recusa a ir embora quando o resto do mundo parece distante demais.
Enquanto isso, o coração de Shun — golpeado por guerras sucessivas, perdas irreparáveis e a marca indelével da possessão — havia esfriado. Um inverno interno tão rigoroso que, às vezes, ele mal reconhecia o brilho da própria alma.
Mas Hyoga... Hyoga parecia carregar uma fogueira secreta dentro do peito.
Era esse fogo secreto que o resgatava nas madrugadas em que o ar se tornava escasso e as lembranças retornavam com dentes e garras. Quando os pesadelos partiam o sono de Shun ao meio, Hyoga era sempre o primeiro a acordar...
Passava os dedos por seus cabelos com cuidado paciente. Chamava seu nome em voz baixa. Trazia água. Esperava a respiração desacelerar. Segurava sua mão até o tremor cessar.
Hyoga trazia Shun de volta. Sempre de volta para a superfície.
Naquele instante, descendo os degraus de mãos dadas, Shun compreendeu a verdade mais profunda: ele nunca teria saído daquela escuridão sozinho. Hyoga não apenas o esperou do lado de fora; ele havia mergulhado no abismo atrás dele e o puxou-o, quando ele mesmo pensou que já tivesse se afundado de vez.
Hyoga baixou o olhar para os dedos entrelaçados, percorrendo visualmente o caminho que os unia. Seus olhos viajaram devagar, em uma trajetória íntima: dos nós dos dedos às mãos fundidas, subindo pelos pulsos, os antebraços lado a lado, os ombros quase se roçando... até finalmente alcançar o rosto de Shun.
Quando seus olhares se cruzaram, Hyoga percebeu que Shun já o esperava no meio do caminho. Como se ambos tivessem percorrido aquela estrada invisível ao mesmo tempo, passo a passo.
Shun foi o primeiro a sorrir.
Hyoga sorriu de volta, um gesto que parecia carregar o sol de volta para aquele corredor sombrio.
Ali, sem barulho algum, Shun entendeu: tijolinho por tijolinho, Hyoga estava reconstruindo seu coração machucado.
O cimento era um amor manso. Os tijolos eram feitos de uma paixão silenciosa, assentados um a um... A água da massa era a sua presença constante — a liga invisível que mantinha tudo no lugar.
Nada ali era feito às pressas. Hyoga não tentava erguer palácios em um único dia, nem fingia que o estrago nunca existira. Ele não arrancava as ruínas à força; em vez disso, limpava os escombros com as próprias mãos, sentando-se ao lado da dor de Shun sem medo de se sujar nela. Ele recomeçava, sempre de novo, quantas vezes fosse necessário.
O coração de Shun, que havia desbotado sob o peso da guerra, recebia tinta nova. Pequenos tons retornavam aos poucos, como o amanhecer vencendo a neblina: o dourado de uma risada recuperada, o azul tranquilo de uma tarde em comunhão, o vermelho discreto de um rubor inesperado e o verde resiliente da esperança, que reaprendia a brotar.
Hyoga também erguia um teto novo. O antigo havia desabado quando a culpa invadiu tudo como uma tempestade impiedosa. Agora, havia vigas novas de cuidado e constância sendo colocadas acima de sua cabeça. Um abrigo feito de mãos que seguravam firme e de uma alma que dizia, sem precisar de voz: aqui você pode, finalmente, descansar.
Parte por parte, canto por canto, Hyoga reformava o que o mundo havia quebrado. Não para transformar Shun em outra pessoa, mas para devolvê-lo a si mesmo.
Shun apertou os dedos dele com uma urgência suave. Hyoga inclinou a cabeça, os fios loiros balançando levemente.
— O que foi?
Shun respirou fundo, tentando conter o nó na garganta.
— Nada... só estava pensando que você trabalha demais.
— Trabalho? — Hyoga arqueou uma sobrancelha, confuso.
— Sim — Shun ergueu as mãos entrelaçadas entre os dois. — Você está me reconstruindo inteiro.
— Reconstruir você? Não seja dramático, Shun.
Shun piscou, soltando um riso que ainda carregava um rastro de choro.
— Eu acabei de comparar meu coração a uma casa em ruínas. Acho que o dramático aqui sou eu mesmo.
— Você não precisa ser reconstruído, Shun.
Ele fez uma pausa, deixando a afirmação ecoar.
— Você precisa, no máximo, descansar. Ser cuidado. Ser lembrado de quem realmente é. Porque, mesmo quebrado, exausto ou ferido... você continua sendo uma obra perfeita. Do jeito que está agora.
As bochechas de Shun ganharam cor aos poucos, um calor que subia pela ternura avassaladora daquelas palavras. Vencido pelo carinho, ele desviou os olhos e, sem dizer nada, deixou a cabeça pender suavemente até repousar no ombro de Hyoga..
Hyoga sorriu e inclinou a própria cabeça contra a dele.
— Viu? — sussurrou ele. — Muito melhor do que ruínas.
Eles terminaram de descer os degraus e caminharam até a grande porta que dava para o jardim.
Ao abri-la, Shun parou no umbral. Diante dele, o mundo parecia ter sido restaurado; a neve estava intocada, branca e lisa como uma página em branco esperando pela primeira palavra de uma nova história.
O ar gelado do inverno beijou seu rosto, mas, desta vez, o frio não o fez estremecer de medo, apenas o fez sentir-se vivo.
Hyoga soltou sua mão por um breve segundo. Ele deu os primeiros passos, avançando sobre a superfície fofa e deixando para trás uma trilha nítida e profunda de pegadas no neve. No meio do jardim, ele parou e virou-se.
Ele estendeu a mão mais uma vez — o convite final para que Shun deixasse a soleira do passado e entrasse, definitivamente, no presente.
Shun aceitou. Ao pisar no jardim, sentiu a neve subir pelos tênis e o vento frio bagunçou seus cabelos. O mundo inteiro parecia novo em baixo daquele manto silencioso, como se o branco tivesse o poder de purificar até as lembranças mais densas.
Mais adiante, o caos imperava. Seiya e Jabu travavam uma guerra sem estratégia alguma; Jabu gritava vitória antes mesmo de disparar, enquanto Seiya despencava no chão em derrotas teatrais e escandalosas. Próximo a eles, Ikki resmungava sobre temperaturas absurdas, mas permanecia firme, usando sua presença intimidadora para proteger um boneco de neve que ninguém havia pedido para escoltar.
Perto de uma árvore, Shiryu em vez de um boneco comum, suas mãos moldavam um dragão de neve com cauda longa e expressão serena.
— Está magnífico! — gritou Seiya, aproximando-se.
— Não toquem — Shiryu respondeu calmamente, sem sequer erguer o rosto. — Ainda estou lapidando as escamas.
Shun riu outra vez.
Ele e Hyoga se afastaram um pouco da bagunça geral. Brincavam de forma tranquila, trocando pequenas bolas de neve lançadas de propósito para errar, andando sem rumo, apenas respirando o ar gelado juntos.
Em dado momento, Shun abriu os braços e rodopiou devagar. A brisa fria girou com ele, bagunçando seus cabelos, levando embora por segundos tudo que pesava demais.
Hyoga observou cheio de ternura.
— Vem aqui — chamou ele. — Vamos fazer anjos de neve.
Shun deixou-se cair na superfície fofa, rindo do choque gelado contra as costas. Hyoga deitou-se ao seu lado. Juntos, moveram braços e pernas, desenhando asas e vestes brancas no chão. Quando se levantaram, dois anjos perfeitos repousavam lado a lado.
— O seu ficou bonito — comentou Shun, admirando as formas.
— O meu ficou perto do seu — Hyoga retrucou. — Isso já é o suficiente para deixá-lo bonito.
Shun empurrou o ombro dele, rindo.
Então, Hyoga ergueu a mão e capturou um floco de neve na luva escura — uma estrela de água, minúscula e complexa. Ele a ofereceu a Shun, mas assim que os dedos do menor tocaram o cristal, ele se dissolveu em uma gota transparente.
— Desculpa — murmurou Shun, sentindo que havia destruído o floco.
— Nada disso.
Hyoga fechou os olhos. O ar ao redor de seus dedos brilhou com um cintilar vítreo. Lentamente, ele esculpiu outro floco, maior e mais nítido, em gelo puro e eterno. Tinha o formato de um coração. Ele o depositou na palma de Shun.
— Esse não se dissolve — afirmou Hyoga.
Shun ergueu os olhos, surpreso pela delicadeza do cosmo usado para algo tão singelo. Hyoga sorriu;
— É como o meu coração. Ele vai continuar firme com você.
As bochechas de Shun ganharam um rubor imediato, desafiando o frio.
— Como você fez isso?
— Aprendi alguns truques na Sibéria — provocou Hyoga.
— Convencido.
— Talentoso — corrigiu ele, aproximando-se.
Pararam tão perto que o inverno entre os dois deixou de existir. Hyoga inclinou-se primeiro, encostando de leve a ponta do nariz no dele. Um toque breve. Quase nada, mas que para Shun, era tudo.
Ao redor, a neve continuava a cair, cobrindo as pegadas antigas e abrindo espaço para as novas que eles construiriam. Talvez a cura demorasse. Talvez houvesse noites difíceis e dias em que o peso voltaria a rondar. Mas Hyoga não tinha pressa.
Tijolinho por tijolinho, ele seguiria erguendo aquele abrigo dentro de Shun. E quanto mais paredes levantava com cuidado, mais descobria que não estava apenas reformando uma casa. Estava, finalmente, encontrando o seu próprio lar no coração dela.
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