Cold
1 Capítulo 1
Notas iniciais
POR DAMON
Em 2013 começou a construção do Titanic II, a mais semelhante réplica do Titanic. A primeira viagem iria refazer o trajeto que o primeiro (e naufragado) navio fez. E, pra isso, todo mundo tinha que estar no espírito da coisa: roupas de época, sem técnologia... é, ia ser difícil, já que estamos em pleno século vinte e um.
A maioria dos passageiros passava dos trinta, já que muitos jovens não iam desistir do Facebook e Twitter para estar em um navio onde celulares, notebooks e afins não poderiam entrar.
Eu estava ali só de curioso que era. Será que esse Titanic afundaria também? Seria muito azar, e irônico, já que o casco do navio deveria ser mais resistente.
Estavam todos no salão, comemorando o primeiro dia de viagem. Já eu,estava andando lá fora, observando como o mar parecia negro. Letal.
Uma garota estava apoiada na grade, olhando pra baixo, parecendo entediada. O que eu disse sobre os jovens?
—Que merda de viagem. -Murmurou.
—Falar sozinha é normal?-Ela se endireitou, olhando pra mim.
—Você me assustou,cara. -Suspirou. -Sinto falta do meu celular.
—Aposto que sim.
—E você, feliz em estar nessa... coisa?-Dei de ombros.
—Apenas vim por curiosidade.
—Se arrependeu?
—Agora não tanto. -Sorriu.
—Bom saber. -Ajeitou o vestido azul que usava, combinava com o colar em forma de coração.
—Esse... colar...
—Ah, é uma cópia do Coração do Oceano. Meus pais são viciados em aterfatos antigos e... coisas antigas. -Deu de ombros. -Por isso estamos aqui. Preferia estar em casa.
—Sabe que vai demorar, não sabe?
—Isso se o navio não naufragar, como o primeiro. -Rimos.
—Não duvido disso.
—Espero que não aconteça, não sei nadar.
—Como se chama?
—Promete não rir?
—Por que riria?
—Promete, ou não?
—Prometo.
—É Rose. -Ri. -Você disse que não ia rir!
—Seus pais devem amar Titanic, de verdade.
—Queriam que meu nome fosse Rose DeWitt McKlair, sendo o último meu sobrenome oficial. Eles são... doidos. Mas boas pessoas. E você? Não se chama Jack, não é?
—Não. Damon Salvatore.
—Ah, seria muito coincidência, não seria?
—Seria, sem dúvida. -Passou por mim e começou a andar, eu a segui. -Pretende tentar se jogar da proa do navio?
—Não, não tenho motivos para me matar. Eu acho. Preciso entrar no Facebook!
—Vai sobreviver. -As batidas do relógio, dentro do navio, foram ouvidas. Rose suspirou.
—Hora de ir pra cama. Meia noite.
—Eu posso acompanhá-la até seus aposentos, senhorita?-Ela riu.
—Ah, claro, nobre cavalheiro. -Entrelaçou o braço com o meu. Encontramos poucas pessoas nos corredores. Eles realmente iam dormir a meia noite. -É aqui, obrigada. -Se afastou, ajeitando o cabelo. -Nos vemos amanhã?
—Eu acho que não tenho pra onde fugir.
—Engraçadinho. Boa noite, Damon.
—Boa noite, Rose DeWitt.
—Ei!
***
No dia seguinte, eu estava esperando Rose perto da cabine dela. De acordo com as regras, ela se vestia como se estivéssemos em 1912 ainda. Continuava com a réplica do Coração do Oceano.
—Olá, Jack, digo, Damon. -Sorriu. -O que faz aí?
—Vim te buscar. Mas vou embora,se quiser.
—Não, claro que não. É bom ter compania. -Começamos a andar até o salão de jantar. -Meus pais simplesmente me largaram. Eles querem saber tudo sobre o navio.
—Você não se interessa?
—Sinceramente? Não. -Rose escolheu uma mesa e se sentou, assim como eu. -Então,o que faz fora daqui?
—Eu? Nada.
—É um improvisador, então.
—Que?
—Improvisador. A vida é uma peça de teatro, temos nossos papéis e um texto decorado. Mas você... improvisa. É um improvisador.
—Nunca pensei dessa forma. E você?
—Meio improvisadora. Queria ser estilista, mas... não sei. Meus pais sempre me arrastam com eles. Não querem me deixair... "sair do ninho". Mas talvez eu leve jeito pra coisa. Eu mesma fiz os vestidos pra essa maldita viagem.
—Uau. Parabéns, são ótimos.
—Sério?
—Arrã.
—Obrigada.
—Então, vai ao baile?
—Não sei. Preciso de um par.
—Isso, me ignora, DeWitt.
—Está me chamando pro baile?
—É, estou.
—Então... okay. Obrigada pelo convite. Nos encontramos na escadaria. -Piscou,sorrindo.
—Como quiser.
***
—Não deveria estar de vermelho?
—Está me chamando de Rose?-Retrucou.
—É o seu nome, não é?
A garota terminou de descer as escadas, cuidando para não tropeçar no vestido preto, brilhante. Rose era linda, simplesmente.
—Rose DeWitt. -Provoquei.
—Se me chamar assim de novo, Salvatore, sua história será mais trágica que a de Jack Dawson.
—Mais do que morrer congelado na frente do amor da sua vida?
—Vou pensar em alguma coisa, sou uma garota criativa. Vamos?
—Vamos.
Acho que toda a tripulação estava presente. Por mais que houvessem vestidos chamativos entre as mulheres, todos paravam para olhar para Rose. Ela tocou os cabelos negros, tentando disfarçar o rosto vermelho.
—Por que estão olhando pra mim?-Sussurrou, se inclinando na minha direção.
—Acho que porque você está linda.
—Estou mesmo?
—Sim.
—Obrigada.
—Quer dançar?-Fez que sim, o sorriso aumentando ainda mais. Ela era legal. -Onde estão seus pais?
—Incomodando qualquer um que saiba algo sobre o navio.
—Seu namorado não quis vir com você, na viagem?
—Está tentando descobrir se eu tenho namorado, não está?
—Sim.
—A resposta é não. E a sua namorada, não quis vir também?
—Que namorada?-Riu.
—Bom saber, Damon Dawson Salvatore.
—Ah, Rose, querida. -Alguém chamou. A garota suspirou e se virou para olhar.
—Oi, mãe, pai.
—Descobrimos coisas interessantes...
—Depois vocês me contam, okay?
—Quem é esse seu amigo?-O pai de Rose perguntou.
—Esse é Damon. Damon, esses são meus pais. Jocelyn e Anthony. Vocês dois não tem mais o que fazer, não?
—Sim, sim. Vamos falar com o capitão agora. Com licença. -E se afastaram. Rose revirou os olhos e voltou a dançar comigo.
—Eles são irritantes...
—Não parecem tão ruins. -Comentei.
—Diz isso porque não convive com eles. "Descobriram ossos de dinossauro sei lá aonde, querida, faça as malas, nós vamos lá!", "Rose, vamos pro Egito visitar as pirâmides!", "Rose, vamos logo, estamos indo ver ruínas lá no fim do mundo!". É sempre assim. Pretendo sumir por uns tempos quando chegarmos em Nova York. Preciso de liberdade.
—Então vem comigo. Vamos pra onde você quiser.
—Te conheci ontem, bonitinho você pode ser um psicopata.
—Temos tempo até chegarmos lá. Nem chegamos no ponto do naufrágio ainda.
—Eu sei. Só de pensar que vamos passar ali... me dá uma sensação estranha... não tem ideia.
—Sabe que estamos em um super navio, não sabe? É bem mais resistente, seguro. Não vai acontecer nada.
—Tomara que esteja certo. Eu não sei nadar. -Tive que rir, a morena me acompanhou. -Sério, não sei.
—Isso seria um problema. Fora a água fria.
—Odeio água fria. Pensando bem, foi uma péssima ideia entrar nesse navio.
—Estamos há um dia de distância de Southampton, sabia?
—É. Não tem volta. Mas pelo menos tem mais botes salva-vidas.
—Isso aí. Mais calma agora?
—Talvez. Sabe desenhar?
—Por quê?
—Talvez eu queira um retrato como o que o Jack fez pra Rose. -Aproximei o rosto do dela, querendo beijá-la, porém, uma senhora, perto de nós, limpou a garganta de forma exagerada, chamando nossa atenção.
—Não pode, crianças. -Ela disse, repreensiva. -Não se fazia isso naquela época.
—Se fazia pior. -Murmurei. Rose segurou o riso.
—Você não tem como saber disso, garoto.
—Na verdade, é bem óbvio como era. -Sorri pra senhora de cabelos brancos e saí dali, puxando Rose atrás de mim, que ria abertamente.
—Você viu a cara dela?-Perguntou, quando chegamos no convés. -Foi hilário!
—Velha metida.
—Isso aí. Intrometida. Então... vai continuar onde estava antes da velha senhora interromper?-Ri.
—Posso?
—Se quiser. -Deu de ombros. Puxei Rose pela cintura e a beijei, com a força, ela bateu com as costas na parede, passando os braços pelo meu pescoço. Eu estava louco por isso.
Todos estavam do lado de dentro, ninguém pra nos pegar no flagra. Se bem que eu nem estava preocupado com isso, muito menos Rose. Ouvimos o som de tecido rasgado e interrompemos o beijo.
—Rasguei seu vestido. -Sussurrei,passando a mão pela pele exposta, um longo rasgo na coxa esquerda.
—Eu costuro depois.
—Então eu posso rasgar mais?
—Só se for necessário. -Sorriu. Beijei o pescoço dela, enquanto Rose, a Rose que devia ser ruiva, apertava meu ombro. -Ninguém vai nos ver, vai?
—Só se vierem pra cá. Aí sim.
—Seria ruim.
—Seria. Aviso se ouvir alguém chegando.
A beijei de novo. Não havia ninguém fora nós, ali fora. O som da água batendo no navio era a única coisa que a audição humana de Rose poderia ouvir, mas eu, vampiro, ouvia a agitação vinda de dentro do Titanic II. As pessoas conversavam, riam, música tocava.
Era como um fantasma vivo do Titanic, cruzando as mesmas águas, como se fosse um ritual. Algo me fazia crer o poderia vir a acontecer. Mas, século vinte e um, técnologia, material bom, mais resistente. Poderíamos ser atores na mais nova tragédia marítima vista pelo mundo?
—Talvez devêssemos sair daqui. -Rose disse,me empurrando de leve. -Está frio.
—Quer ir pra onde?
—Sua cabine ou a minha? Não, espera. Eu... você... eu não sou uma vadia, desculpe. -Começou a andar, abraçando a si mesma.
—Eu não disse isso.
—Mas fiquei parecendo uma. Só... conheci você ontem... e... sei lá,não quero me afastar de você, entende? É... inexplicável, mas errado.
—Temos tempo até chegarmos em Nova York. Vamos nos conhecer melhor até lá?-Sem compulsão. Não com Rose, com a estranha e diferente Rose.
—Claro. -Voltei a beijá-la, Rose correspondeu, passando os braços em volta do meu pescoço com rápidez. Ambos ouvimos Jocelyn chamá-la. -Droga. Preciso ir.
—Rose... ignora.
—Não. Eu tenho mesmo que ir. Nos vemos amanhã, meu Jack?
—Claro, Rose DeWitt. -Sorriu e começou a se afastar, sem tirar os olhos de mim. Ela era incrível.
***
Naqueles dias seguintes, Rose eu começamos a conversar mais e nos agarrar menos. Não ficamos mais sozinhos, pois sabíamos que coisas iam acontecer se ficássemos. Nós éramos vistos o tempo todo, juntos. A velha senhora que tinha nos repreendido naquela festa, era Marye Koladauski, uma mulher de setenta e nove anos, que agia como se estivéssemos em 1912 ainda.
Ela sempre nos olhava feio, como se Rose e eu estivéssemos quebrando regras. O que, um cara não pode ser amigo de uma garota?
—Definitivamente, ela deve ser mais velha do que parece. -Rose alfinetou, quando Marye saiu da nossa linha de visão.
—Deve mesmo.
Eu descobri que os pais de Rose gostavam de agir como se ela ainda fosse uma criança. Eram superprotetores ao extremo, o que a deixava louca da vida.
Rose e eu compartilhamos várias histórias, naqueles quatro dias, fomos nos conhecendo melhor, e, cada vez que o dia quinze se aproximava, ela ficava mais preocupada quando o assunto era o navio. "O mar está pronto para nos engolir, Damon, eu sei disso".
Eu sempre tentava distraí-la. Não havia chances de afundarmos, havia? Esperava que não.
Em uma dessas distrações, eu praticamente arrastei Rose até a proa do navio. Ela começou a rir na hora.
—Está brincando, não está?
—Não. -Respondi, empurrando-a. -Banque Rose DeWitt, de verdade, por favor. -Ela abriu os braços e começou a cantar My Heart Will Go On a plenos pulmões. Rose era meio louca, com toda certeza. -Rose!
—Jack! Eu estou voando!-Rimos. Alguns passageiros passaram por ali, e pelas caras que fizeram, nos achavamos doidos. Isso nos fez rir ainda mas.
***
Quinze de abril. Rose eu estávamos do lado de fora, olhando para o mar. Frio. Mortal. Bem abaixo de nós. Não era convidativo, era assustador.
Havia um casal, afastado de nós, eles estavam de mãos dadas, conversando animadamente. Rose estava apenas ali, como se não ouvisse nem visse nada. Dia quinze. Dia que o Titanic I afundou.
—Sabe que não vai acontecer, não sabe?-Perguntei. Ela não olhou pra mim, estava com uma réplica de um vestido de Rose. Quando falei sobre isso, um pouco antes, ela apenas deu de ombros e disse: "Gosto de réplicas, assim como meus pais".
—Quão fria é?-Fez um gesto para a água, com a cabeça.
—Muito. O suficiente pra matar. A maioria dos passageiros do primeiro Titanic morreram de hiportemia.
—Eu sei. Seremos mais a morrer assim?
—Não vamos morrer, Rose.
—Estamos quase lá, Damon. É meia noite agora, não é?
—Sim. Mas se fosse seguir sua lógica, já teríamos batido em um iceberg. Rose, esse navio tem radares e tudo mais, é rico em técnologia. Saberiam de um iceberg no caminho faz tempo. Não vai acontecer nada.
—Você promete?
—Sabe que não tenho como saber. Mas... as chances de algo acontecer... são poucas.
—Você tem razão. Desculpe incomodar com isso.
—Não tem problema. -Sorriu. O casal entrou no salão. Outra festa, para honrar os sobreviventes do Titanic I. Todos estavam lá dentro. -Estamos sozinhos?
—Parece que sim. -Me aproximei dela.
—Damon... isso não vai prestar.
—Não mesmo.
—No primeiro Titanic haviam carros guardados, não haviam?
—Sim. Onde quer chegar?
—Aqui também tem, não tem?
—Tem. -Seu sorriso aumentou.
—Me leve lá.
—O que quer com os carros?-Se aproximou, para sussurrar a resposta no meu ouvido.
—Ir para as estrelas. -E se afastou, indo para a entrada. Refleti por alguns segundos.
—Rose, espera!
Começou a correr, eu fui atrás dela. Atropelamos algumas pessoas que estavam indo para o salão, e reclamavam quando eram acertadas por nós. Não ligamos.
Rose chegou primeiro. Haviam vários carros, muito antigos, ali. Era como voltar no tempo. Estranho, legal, assustador. Indefinível. A garota escolheu um carro, com um pouco de força extra, eu consegui abri-lo. Ela praticamente pulou para o banco de trás.
—Realmente tem certeza disso?-Perguntei, seguindo-a e fechando a porta.
—Tenho. -Ela riu. -Papai sempre disse que se eu tivesse minha primeira vez no banco de trás de um carro, ele me mataria. Mas papai não precisa saber. Mando em mim mesma.
—Você realmente é viciada em Titanic. -Riu de novo, descendo a alça do vestido.
—Promete que, mesmo depois disso, ainda vai olhar na minha cara, e em momento algum, fingir que eu não existo?
—Eu não seria tão idiota.
Isso, porque naqueles poucos dias, eu comecei a gostar dela. Não era amor, era...quase isso. Talvez com o tempo,eu pudesse me apaixonar por ela. E essa ideia, que antes seria absurda, estúpida e idiota, agora me parecia boa. Rose parecia sentir isso, era correspondido, com toda certeza.
A deitei no banco, ajudando-a com o vestido. "Sem rasgos essa noite", brincou, em algum momento. Eu não conseguia parar de olhar pra ela. Linda. Mais do que poderia ser. Irreal.
Tive uma luta interna com as minhas presas. Rose não sabia sobre isso, ela provavelmente se atiraria pra fora do navio, assustada. Eu contaria quando estivéssemos fora do navio. Ela poderia gostar de mim o suficiente para não decidir se afastar quando soubesse.
***
Rose estava sorrindo, mas não dizia nada. Nenhum de nós estava com vontade de sair dali, mas em algum momento, seríamos descobertos. Eu não fiz ideia de que horas eram, apenas que não queria soltar a morena que tinha a cabeça encostada no meu ombro.
—Temos que sair daqui. -Ela disse, baixinho.
—Sério?
—Arrã. E não se esqueça da sua promessa.
—Eu nunca te ignoraria. Não depois disso. -O sorriso aumentou. Rose se sentou e me deu um beijo rápido.
—Precisamos ir, antes que alguém venha nos procurar.
Saímos do carro, nos vestido, sem pressa alguma. Ela terminou primeiro, se encostando no carro e olhando pra mim. Eu tive que rir.
—Pronto?
—Sim. -Respondi.
—Então vamos su... -O chão tremeu, por pouco não caímos no chão. Rose arregalou os olhos. -Quinze de abril. Damon...
—Calma. Vem. -Comecei a puxá-la pela mão, até o convés. Havia alguns curiosos andando por ali, pra lá e pra cá, e um pouco de gelo caído no chão.
—Como não viram a droga do iceberg, de novo?!-Ela gritou, colocando as mãos na cabeça. — Nós vamos morrer! Nós vamos morrer!
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