Cokei.
1 Capítulo I
Notas iniciais
Capítulo I
Uma breve história sobre o passado
Garotas, drogas, bebidas e festas.
Estas são todas as palavras presentes no simples vocabulário da vida de um adolescente pacato do segundo ano. Quer dizer, quase todos... eu era um caso à parte.
Óbvio que, eu sempre escondi isso da maioria. Eu ia até as festas com os meus amigos e chamava aquilo de "desfrutar os dois lados", uma ótima desculpa para olhar para a bunda dos garotos e das garotas, e ser um babaca zoando as diversas coisas que eu via com os meus amigos sem que eles desconfiassem de algo.
Eu me considerei hétero por muito tempo, tanto que já cheguei a ter uma paixão durante um tempo razoavelmente curto.
Ela era Ana na escola, Rosa para os desconhecidos, Aninha para seus irritantes amigos, Annelise na linha pontilhada em que assinava as suas ocorrências escolares. Mas pra mim ela sempre foi Anne.
Com o seu cabelo médio tingido de um rosa dourado, já com a raiz loiro escuro do cabelo bastante visível, com seus vestidos estampados com desenhos de flores, com o seu gloss rosa avermelhado, e claro, com a sua fama de vadia.
Óbvio que, eu ignorava essa última parte, ela ficava linda de cinza, eu gostava disso, tentava colocar isso acima desse fato que insistia em me incomodar.
Ela era bissexual, acredito que ela ainda mantenha esse traço, e por causa disso, minha curiosidade fez com que nos conhecêssemos. A paixão, é claro, não durou muito, o que diziam que ela tinha de vadia ela também tinha de fácil, depois de pouco mais de meio mês conversando, eu decidi contar que eu estava apaixonado por ela. Ela me deu uma chance, nós namoramos.
O nosso namoro foi incrível, no primeiro mês eu dei flores para ela, e ela transou com a vizinhança toda, e comigo também. No segundo mês eu a chamei pra jantar em um restaurante caro, ela mentiu que estava ocupada e saiu pra ir em uma festa. No terceiro mês eu disse que a amava, ela disse "obrigada".
Da mesma forma que eu ignorava a sua fama de vadia, eu ignorava as pessoas ao meu redor alertando sobre tudo o que ela me fazia.
Ignorei até o dia em que vazaram uma foto dela, me traindo.
Pra mim não era novidade o fato que ela costumava me trair, porém aquilo havia sido uma grande humilhação naquele tempo, o tempo que eu ainda me importava com a opinião alheia.
Mas nós não terminamos, jamais faríamos isso, eu era um estudante do segundo ano e tinha uma minúscula ponta de orgulho para manter. Eu precisava dar o troco, foi então que decidi torná-la o que eu fui durante três longos meses, idiota.
No quinto mês, já competíamos para ver quem beijava mais pessoas alheias, se conseguíssemos transar com alguma delas, melhor ainda. Houve umas semanas em que eu ganhava, e outras em que ela ganhava, porém nós nunca assumimos isto um para o outro.
Durante poucas semanas eu senti um vazio dentro do meu peito que não havia tamanho, não um tamanho que pudesse ser descrito com palavras, era muito mais que enorme e parecia não sumir. Eu tive que lidar com Anne de uma maneira da qual não me orgulho, tive que lidar com o fato de que as pessoas gargalhavam sobre mim e sobre ela também, enquanto traíamos um ao outro. Foi uma época de tristeza.
Foi numa dessas semanas em que eu me tornei depressivo, que eu finalmente percebi que estava sendo um idiota e ainda por cima, egoísta. E chorando em um bar qualquer, eu conheci Pedro. Um rapaz alto, de bom coração, cabelo longo ruivo ondulado preso em um rabo de cavalo baixo, nem muito magro, nem muito gordo. Ele sentou do meu lado e puxou assunto, mais tarde me pagou uma porção de batatas-fritas e deixou que eu desabafasse sobre tudo o que acontecia em minha vida. Depois de horas conversando eu descobri coisas engraçadas sobre Pedro, ele descobriu coisas engraçadas sobre mim também, o que nos rendeu muitas risadas enquanto bebíamos qualquer coisa.
No fundo eu sabia que ele estava procurando por algo a mais, ele não se preocupava em esconder os sinais, e eu não me preocupava com ele.
Ainda duvido que seu nome realmente seja Pedro. Então menti sobre meu nome também assim que a pergunta surgiu.
-Ei, já estamos conversando por muito tempo aqui, e... ah, eu posso saber seu nome?
Eu ri enquanto me acomodava melhor, me colocando mais próximo da bancada.
-Que tipo de desconhecido lhe paga comida, descobre coisas absurdas sobre a sua vida, dá risadas e só depois pergunta seu nome?
Foi minha vez de ouvir a sua risada.
-Não sei, que tipo eu pareço pra você?
Ele me olhou fundo nos olhos, durante um tempo eu me senti desconfortável, mas eu sabia o que deveria acontecer depois de mais meia hora se continuássemos sentados naquele mesmo lugar, e o que aconteceria depois disso. Então eu decidi apressar as coisas e evitar perguntas. Depois de um grande gole de bebida, eu me coloquei de frente para ele, e menti sobre meu nome.
— Rafael.
— Me chamo Pedro.
Decidi que não queria mais ficar ali, mas eu havia gostado dele, senti que precisava retribuir de alguma maneira. Foi nessa mesma hora em que meus lábios se encontraram com o de Pedro, mesma hora que nos aproximamos e sua mão encostou na minha cintura e estava prestes a descer.
As luzes pareciam dançar ao meu redor enquanto eu sentia o gosto irritante de vodka em sua língua. Pude sentir o suor das pessoas ao nosso redor.
Me senti um pouco estranho, me senti bem comigo mesmo e ao mesmo triste por nunca ter me entregado à minha curiosidade antes.
-Ei, quer dar o fora daqui?
Eu ignorei toda a curiosidade dentro de mim, já havia libertado ela demais, dei a desculpa mais esfarrapada que eu poderia ter dado.
-Você é simplesmente incrível, mas as coisas estão meio ruins pra mim... Eu vou terminar com ela e quero que as coisas sejam diferentes. Obrigado pela noite.
Ele simplesmente ficou com raiva, compreensivel, claro.
Depois disso eu disse para ele que iria embora.
— Tudo bem, nos vemos por aí.
Óbvio que, não nos vimos de novo, não imagino qual possa ser o seu sobrenome, número, nem sei se ele mora na minha cidade. Ele não se preocupou em me dar essas informações.
Depois desse incidente feliz e infeliz da minha vida, eu finalmente peguei um táxi e saí daquele lugar.
O céu da cidade estava limpo, a noite parecia não ter estrelas e a lua mantinha seu brilho num claro suave. Pude observar os casais entrando em seus carros enquanto uma chuva fina acompanhava a minha rota até em casa.
Logo cheguei ao meu destino, liguei a TV e pensei por uns instantes enquanto mantinha meus olhos fechados, foi então, que eu decidi ir até a casa de Anne na noite do dia seguinte.
Acordei com dor de cabeça, o sol estava forte, o dia foi quente, e a noite fria.
Depois de fazer tudo o que precisava durante o dia, decidi que era hora.
Cheguei no portão da casa de Anne e tudo estava aberto, fui entrando calmamente para não causar problemas, até eu chegar no quarto dela e a ver com outro cara. Óbvio que, as coisas foram extremamente tranquilas dentro de mim, eu não estava surpreso. Ela estava tão bêbada que mal se preocupou em fechar os portões e as portas de casa.
Coloquei o garoto pra fora de lá, ele chorava, e aos soluços, ele pegou seu rumo pra fora daquela casa me pedindo desculpas, vestindo a camisa de maneira apressada e desajeitada, ele provavelmenre estava chapado. Anne não parava de gritar chamando-o de medroso, insultando-o na minha frente. E gritando, pude dizer que ela era a vadia mais suja que eu havia conhecido em toda minha vida.
Para a minha surpresa, ela desabou chorando também, disse que se arrependia mas que poderia ter feito tudo novamente, e eu apenas disse que queria que ela apagasse meu número.
Depois de toda essa história frustrante, eu decidi que não queria nenhuma garota na minha vida, me descobri bissexual, nenhuma surpresa até aí.
Poderia não ter existido paixão alguma se não houvesse existido Anne, e consequentemente, Pedro.
Tudo se manteve tranquilo depois disso, o final do ano chegou e as pessoas pareciam finalmente ter esquecido da história dos 5 meses mais torturantes de toda a minha vida.
O Terceiro ano finalmente chegou, e com isso, muita merda na minha simples existência. Me isolei, me tornei o garoto idiota do qual eu sempre debochei. Eu só tinha olhos para meus livros, amadureci mais sozinho do que na companhia de outras pessoas, e percebi, finalmente, que eu não precisava de ninguém do meu lado pra me tornar quem eu queria ser. Por isso, passei a ignorar várias coisas das quais meu eu de segundo ano, costumava se importar.
Eu sabia que meus amigos não me aceitariam se eu quisesse algo diferente do que eles queriam.
A mesma coisa aconteceu com a minha família, o que me levou a acabar o terceiro ano com notas exemplares e logo começar a faculdade. Eu poderia assumir tudo depois de não depender de mais ninguém.
Comecei a faculdade logo após o terceiro ano, e me tornei o Abel que anos atrás eu jamais teria imaginado que me tornaria: um professor tediante de história.
Atualmente, estou dando aula para turmas dos 3 anos do Ensino Médio.
Depois do que aconteceu eu namorei uns caras, uma garota, e meu relacionamento mais recente foi há 9 meses atrás. Meu ex-namorado nunca me largou de verdade, ele ainda me manda umas flores, eu queimo elas na belíssima lareira da biblioteca do prédio, mas eu cuido de uma flor que fará parte de seu túmulo quando ele finalmente for dessa pra melhor.
Por consequência da minha profissão, eu posso fazer o que mais gosto de fazer: provocar meus alunos mais velhos.
Nessa idade tudo o que você realmente quer, é um lugar para se aventurar, desfrutar da famosa curiosidade, e quando você tem alguém que te desafia, as coisas ficam mais divertidas.
Me envolvi com poucos alunos, uns dois no máximo, não cheguei a fazer algo a mais com nenhum deles, porém foi divertido.
As provocações me rendem o apelido de "vadia" na diretoria, mas ninguém leva isso muito a sério. As garotas me fazem perguntas, assim como os garotos, bilhetinhos anônimos, recados escritos em provas... posso não ser competente em várias coisas, mas pelo menos no meu trabalho, sim, apesar de todo o grande restante.
Você percebe o olhar de desejo de todos eles em cima de você, se não é de desejo, é de curiosidade, isso me faz lembrar de como eu fui durante muito tempo.
Apenas não me chame de velho pervertido, até mais porque ainda não sou tão velho quanto poderia ser.
O melhor de tudo, é que nessa brincadeira de provocar, eu consigo vários números de celulares, assim como várias provocações de volta, o que torna o tempo em sala de aula, muito mais divertido.
Óbvio que, há aqueles que não acham correto o meu comportamento em sala de aula, porém nunca deixei de exercer minha função como professor, deixei de ligar para isso um longo tempo atrás.
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