Eu sonhei com você.

Na verdade, já faz uns meses, foi na madrugada do dia 28 de Abril. Eu queria ter lhe contado na manhã seguinte, mas não sabia se deveria. Não é incomum, sabia? Muitas vezes eu sonho com pessoas que conheço ou que converso, e se eu puder lhe contar um segredo, saiba que não foi a primeira vez que lhe vi nesse mundo onde reina a inconsciência. Dizer isso põe um pequeno sorriso em meu rosto e espero que ponha no seu também. Somos distantes, distantes, mas você sempre está em meus pensamentos. Por favor, não me entenda errado, isso não é um texto sobre amor, pelo menos não do tipo romântico. Mas, se você pensar como eu, então sabe que amizade é uma forma de amor também, e, se não me enxergar como uma amiga, talvez mesmo o simples bem-querer de uma pessoa por outra seja amor, desde que sincero e ardente.

Mas o que esse sonho teve de diferente, para valer a pena lhe contar, é que não foi desconexo e aleatório como os outros. Você tinha se afastado e eu não sabia por quanto tempo, ou sequer se seria temporário ou definitivo. Eu sou boa com separações, não sou carente ou dependente demais, mas diferente das outras separações que vivenciei, naturais e paulatinas, a sua foi repentina e aparentemente imotivada. Sei que teve suas razões, sei que nenhuma delas tem a ver comigo e que talvez seja muito bobo da minha parte querer contar sobre esse sonho, porque não estou nem perto do centro dessa sua tempestade e não tenho o menor direito de me sentir afetada por ela. Essa não é a minha intenção. Não é a sua tempestade que me afeta, mas você. E eu me lembro claramente de bater na sua porta e aguardar, ansiosa e esfregando as mãos como costumo fazer nessas situações. Eu olhei para o seu jardim e não vi nada, me desculpe, mas a minha mente peca bastante em preencher bem o cenário. Tenho certeza que seu jardim deve ser lindo no mundo real. Fiquei surpresa quando você apareceu. Não achei que abriria a porta para mim. Eu sorri. Você, não muito.

"Você veio ver se eu estava bem porque eu não dei mais notícias?"

"Você está?"

Você não respondeu. Mas deu um sorriso fraco antes de me deixar entrar, e passamos o tempo cozinhando bolos e biscoitos. E cozinhamos no quintal da casa, porque aparentemente a culinária nos sonhos não precisa ser verossímil.

Sei que é bobo. Talvez eu veja mais significado nas coisas do que elas realmente têm. Mas esse é outro segredo, eu não sou tão cética quanto tento parecer. Acredito que há mais forças no mundo do que as que enxergamos, não importa se chamam isso de Deus ou de acaso, de espíritos ou de magia. Talvez eu seja louca, mas acredito que alguns encontros no mundo dos sonhos sejam reais, que à noite encontramos nossos afetos e compartilhamos coisas que não podemos durante o dia. Espero que sim. Talvez por isso eu sonhe mais com as pessoas distantes do que com aquelas que posso contatar a qualquer momento do meu dia.

Sei que não tenho como fazer você se sentir menos solitária. Se eu pudesse, enfrentaria sua tempestade junto a você. Não sei falar sobre coisas importantes, não sei dar bons conselhos. Provavelmente o vento arrancaria nosso guarda-chuva e teríamos de correr para um abrigo, encharcadas até os ossos, e até estarmos secas novamente e com uma bebida quente nas mãos, reclamaríamos e praguejaríamos muito sobre o clima horrível e desastroso. Mas no dia seguinte, eu faria questão de lhe fazer rir do que aconteceu, mesmo se ainda estiver chovendo canivetes, porque algumas coisas não podemos controlar.

Infelizmente, tudo o que posso fazer é confiar meus pensamentos a Deus ou ao acaso e torcer para que de alguma forma eles cheguem até você. Nos momentos mais triviais da rotina eu me pego pensando em como vai o seu dia. Então fecho os olhos por um instante, fingindo que posso lhe mandar um pouco de paz, esteja você onde estiver. Eu termino de escrever esse monólogo, que talvez você jamais leia, lembrando do refrão de uma música antiga, perdida em uma memória. Acho que só agora entendi o significado.

Será que você vai saber o quanto penso em você com o meu coração?

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!