Coisas do Acaso
2 Meu Indesejado Destino
Notas iniciais
Que tipo de pessoa será que eu fui na minha outra vida para estar merecendo um inferno desses?
Aqui estou eu, indo pra sei lá aonde, com o meu “querido” papai que não vejo há três anos. Tudo estaria perfeitamente bem, é claro, se não fosse pelo simples fato de eu estar sendo praticamente obrigada a ir morar com ele. Sim. Minha ‘querida’ mamãe está me obrigando a isso... Bem, como sabia que eu não ia ter escapatória acabei aceitando ir para esse fim de mundo onde o meu pai mora.
Nesse exato momento eu estou dentro do carro do meu pai, indo até o meu indesejado destino. Já iam inteirar três horas que estávamos na estrada, tirando é claro as duas horas de avião do Rio de Janeiro até Cuiabá –uma cidade que eu nem sabia da existência–. Até aquele momento tinha ficado de boca fechada e só abria quando era para responder alguma pergunta que meu pai fazia – ele tentava puxar assunto, mas eu não dava muita bola-, mas como já estava impaciente não aguentei mais ficar quieta.
– Para onde estamos indo? — perguntei bufando.
– Nossa, olha quem nos dá o ar da graça! Pensei que ia passar a viagem inteira calada! — Filipe gozou com profunda ironia. O que ele tem de gostoso ele tem o dobro de chatice.
– Eu não perguntei nada para você caipira -respondi mal humorada.
– Mas também não citou nomes. — replicou no mesmo instante, e antes que eu pudesse dar uma resposta à altura, meu pai entrou na discussão.
– Chega os dois... E respondendo a sua pergunta estamos indo para Conquista D’ Oeste.
Se meu pai acha que dizer o nome da cidade ia ajudar em muita coisa ele está totalmente enganado, não que eu seja uma pessoa ignorante – longe disso- apenas não me interesso por certas coisas, uma delas é sobre o lugar que meu pai vive, mas como vou viver lá agora, tenho que saber pelo menos para onde estou indo né.
– E que raio é Conquista Do Sul? — perguntei indiferente.
– Em primeiro lugar é Conquista D’ OESTE e não sul. Em segundo, é uma cidade que fica a uns seis quilômetros da fazenda, é um pouco pequena, tem apenas sete mil habitantes... — Nem preciso dizer que foi o chato do Filipe que respondeu né, e depois da parte que ele disse que tinha apenas sete mil pessoas, não consegui mais prestar atenção... Como assim só sete mil pessoas? Para que raio de lugar minha mãe foi me mandar?
Depois de mais uns 10 minutos fingindo escutar o gostoso chatinho, acabei pegando no sono.
***
– Ei, acorda garota! — Senti alguém me sacolejando na tentativa de me acordar, até que tentei continuar dormindo, mas a pessoa não parava de me mexer.
– Ok, já acordei — disse irritada e quando abri os olhos me deparei com o Filipe muito próximo a mim, sua boca apenas alguns centímetros longe da minha e de repente fiquei com uma vontade louca de sentir a maciez dos lábios dele contra o meu, e voluntariamente acabei mordendo meu lábio inferior (ato que você logo julgará normal em mim). O que fez com que ele soltasse um gemido, e começasse a se aproximar dos meu lábios.
– Filipe! Será que é tão difícil assim acordar uma pessoa? — acabamos nos assustando com a voz do meu pai. Isso acabou resultando em um galo na minha testa, pois é, o caipira no meio do susto, bateu a testa dele na minha.
– Olha o que você fez! — eu disse o empurrando,e vendo ele cair de bunda no chão pra fora do carro, já que a porta do mesmo estava aberta.
– O que está acontecendo aqui? — meu pai perguntou segurando minhas duas malas, e olhando de mim para o Filipe e do Filipe para mim. O que pessoalmente, já estava me deixando tonta.
– Nada pai. — resmunguei saindo do carro e passando praticamente por cima do Filipe que ainda continuava estirado no chão. Até pensei em implicar com ele, mas quando levantei os olhos e olhei ao redor, fiquei paralisada com o que vi.
Tinha várias casinhas enfileiradas, todas brancas e do mesmo modelo, que dava um certo charme no lugar. Também tinha o campo onde estavam as criações e o pasto era bem verdinho, ali do lado tinha um curral — Que eu faria questão de passar longe– e por fim, uma casa que aparentava ser bem grande. O modelo da casa era antigo mas, ela parecia ser bem conservada. Era branca assim com as outras casinhas. Fui tirada do meus pensamentos por uma pessoa irritante (Lê-se Filipe).
– Quer um lenço ou um papel? — o bocó perguntou com um sorriso que deveria ser considerado proibido.
– Pra quê? — respondi sem dar muita atenção.
– Para limpar a baba que está quase escorrendo. — ele disse dando risada e sendo acompanhado pelo meu pai. Já disse como odeio esse garoto? Bem, se não disse acabei de dizer. Mesmo que ele me faça ficar quente com apenas um sorriso... Ainda continuo achando ele um caipira.
– Rá-rá, você deveria virar comediante... — dei um sorriso cínico e depois acrescentei: — Só que não. — antes que ele pudesse revidar, escutei uma voz fininha gritando:
– Papa, papa! — quando olhei na direção da voz, vi uma menininha vindo correndo em nossa direção e quando dei por mim, ela já estava no colo do meu pai o abraçando e enchendo de beijos. Ela se igualava a uma boneca. Os cabelos cacheados e batendo um pouco a cima da cintura, uma carinha de anjinho sapeca, com as bochechas coradinhas por causa da corrida e olho verdes claros assim como os do meu pai.
– Bia? — Meu pai chamou
– Ham? Oi ? — perguntei meio desnorteada.
– Eu quero te apresentar a minha filha, Sophie. — ele disse com um sorriso bobo.
E foi desse jeito que eu descobri que meu pai realmente tinha se casado outra vez, conheci sua nova (ou não tão nova assim) esposa. Ela era uma mulher bem bonita, com traços marcantes. O seu único problema era sua total falta de moda, ao contrário da sua filha (estou me referindo à outra filha que ela tem) que tinha até um bom senso de moda, e que se chama Margarida (mas como ela mesma disse: "Se você me chamar assim, eu juro que te mato!" e, digamos que eu goste de viver.). Logo eu só poderia a chamar de Meg.
Assim que eu cheguei dentro da casa, nós começamos a conversar e acabamos percebendo algumas coisas em comum. Também descobri que o Lipe (é assim que todos chamam o Filipe por aqui), é na verdade um primo meu. Isso mesmo! O caipira é filho do Joseph, que por acaso é primo de segundo grau do meu pai, sendo assim, o Filipe é meu primo — era só mesmo o que me faltava ser prima de uma caipira que ainda por cima era uma perdição -. Todos estavam na cozinha comendo, quando o Lipe perguntou.
– Tia Rose, cadê o Simon? — Rose é o nome da mulher do meu pai, e Simon, bem, Simon é o meu irmão mais velho. Eu não o vejo a seis anos, pois quando ele tinha seis anos e eu apenas três nossos pais decidiram que seria melhor ele ir morar com um tia-avó nossa que mora no Canadá, então ele acabou indo morar lá e muito dificilmente vinha nos visitar. Nem lembro a última vez que ele veio me visitar (vulgo visitar minha mãe, porque eu nunca fico em casa quando ele tá lá, então...), só sei que quando nossos pais se divorciaram, ele decidiu ficar com o meu pai. Assim não pudemos nos ver, e agora depois de dez anos eu iria rever o meu irmão e, por algum motivo eu sentia um frio na barriga e uma sensação de que algo estava pra acontecer. Algo que mudaria muitas coisas.
Quando saí dos meus pensamentos, percebi que todos estavam olhando para a porta que dá para fora da cozinha, por isso, rapidamente olhei para trás para ver o que todos tanto olhavam. Acabei me deparando com ele. Simon.
Em qualquer outra situação eu estaria maravilhosamente feliz com isso, mas não nessa.
Não olhando para ele.
Eu... Eu... Acho que ele também percebeu.
[...]
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