Coisas do Acaso
30 A Cura Para Todo O Meu Sofrimento
Notas iniciais
Walkíria
Onde eu estava com a cabeça quando aceitei a vir para balada? Sinceramente não sei, mas posso afirmar que ela não estava batendo bem. Não sou o tipo de mulher que é de ficar em casa, ao contrário disso, sempre adorei sair, e talvez esse tenha sido um dos diversos motivos que fez o meu casamento com o pai da Bia não dar certo. Ah a Bia, onde aquela peste se encontrava? Sim eu sei, uma mãe xingando sua própria cria. Mas tenho certeza que qualquer uma estaria tão possessa como eu estava ao ser arrastada para um tipo de balada que você não está acostumada a frequentar e ainda por cima ser deixada a deus dará pela sua própria filha.
O local estava muito lotado, assim como qualquer outro lugar dessa patente estaria e eu, por algum motivo, não conseguia me sentir bem ali. Provavelmente porque já estava quase entrando na fase da terceira idade (sim sou uma mulher de 35 anos muitos bem vividos). Pelo menos era o que eu pensava, é claro que já tinha amado –o simples fato da Beatriz existir mostrava isso- mas, assim como amei, também me decepcionei e no fim perdoei. As lembranças me atingiram, e me vi voltando no tempo.
Quando me apaixonei pelo Lúcio, não estava apenas me entregando de corpo, eu também me entreguei de coração, e isso foi a melhor e pior coisa que fiz na minha vida. Eu amei e também fui amada, os dias ao lado dele pareciam virar longas horas e as horas minutos. Quanto mais perto dele estava, mais eu queria estar e por isso que os dias viravam horas e as horas minutos.
Só que nada é tão perfeito. Assim como nada é tão perfeito, o nosso amor também não foi. Talvez fôssemos imaturos demais, ou apenas turrões, mas fosse o que fosse isso fez com que tudo acabasse. Desse modo, nosso amor surgiu como o vento, sem saber de onde vinha, porém tão forte ao ponto de derrubar qualquer coisa. E esse mesmo vento foi capaz de levar esse amor embora e destruir tudo aquilo que um dia construímos. E quando pensei que era o fim, e que apenas a dor e a magoa restavam... A vida nos deu outra chance, outra chance para sermos felizes, viver sem aquela dor na consciência de saber que por mais que tenhamos tentado aquilo não foi o bastante. Não foi o bastante para sermos felizes juntos, mas talvez tenha sido o bastante para tentar ser feliz novamente.
O perdão tinha sido a chance dada, apenas quando perdoamos que somos capazes de conseguir ser feliz outra vez. Mas por que eu não estou me saindo bem nessa de ser feliz? Será que realmente tinha o perdoado? Será que todo aquele ressentimento realmente se foi? Dúvidas e mais dúvidas.
Por que tudo tem que ser tão complicado? Pergunto-me internamente, mas meu subconsciente me responde com outra pergunta. Será que não é você quem sempre complica tudo?
Balancei cabeça tentando esquecer tudo aquilo. Olhei em volta e percebi que continuava a mesma coisa: meninas vestidas de modo vulgar se esfregando e se insinuando como putas nos caras.
Por que eu me incomodava com aquilo? Olhe só: Eu estou tentando ser feliz e seguir minha vida e seria legal se algo acontecesse para me ajudar a focar nisso. Você pode imaginar como é estar ligada a algo que não lhe pertence? Era como se eu e o Lúcio tivéssemos uma ligação e... Bom... Tínhamos. E nesse momento ela estava perdida por aí numa balada propensa a cometer novamente aqueles erros. Ela sempre exagerava nas bebidas.
Tentei esgueirar o olhar entre os corpos dançantes ao meu lado e de repente travei... Mas não foi nada disso que me surpreendeu, e sim a cena que eu vi a uns três metros de mim.
Bia
Era exatamente disso que precisava. Um pouco de diversão. Claro que o fato do Filipe estar aqui fez com que tudo ficasse ainda melhor. Enfim eu ia mostrar para esse caipira o meu mundo. Desse modo tive a brilhante ideia de virmos à balada. Era simplesmente incrível a sensação que estava sentindo. Pela primeira vez desde que deixei o Simon eu estava me sentindo bem. Senti como se estivesse no meu mundo e ali eu tinha o poder sobre as coisas e sobre as reações de minhas ações.
Eu estava vestida com uma calça apertada — o que marcava muito bem o meu bumbum -, uma blusa preta, e por cima uma jaqueta de couro, a minha preferida.
O Lipe estava vestido com uma blusa polo apertada, que deixava em evidência os seus músculos. A calça não estava apertada, muito menos larga, na verdade aquela roupa estava perfeita para ele.
Desde que chegamos estávamos sentados em uma mesa. A minha mãe estava por ai, e eu torcia para que a dona Wal encontrasse alguém, nem que fosse apenas para se divertir por uma noite. Até porque, que mal tem nisso?
— Bia? — olhei e me deparei com a Katy.
— Sim? — respondi de forma inquisitora.
— Vou ir para a parte Vip, você também vai?
— Acho melhor eu continuar aqui com o Lipe — logo que falei, ela me olhou de uma forma estranha e em seguida pegou a mão de Oliver o levando para a outra parte, mas antes de sair ainda virou para mim, e soltou uma piscadela torta e um sorriso sapeca.
Como sempre ela estava pensando besteira.
— Vamos dançar? — perguntei minutos depois de ver minha amiga sumir multidão adentro. Sorri ao ver a expressão apavorada de Filipe.
— D-dançar? — indagou com uma voz sofrida, e que se não estivesse incluída naquela situação, eu estaria dando boas risadas.
— Sim dançar, mexer o esqueleto sabe? — expliquei já me levantando — Ou o caipira não sabe o que é dançar? — sorri ironicamente ao ver sua cara de indignação.
— Bom mesmo que não soubesse, acho que teria uma ótima professora, não é mesmo? — sorriu de volta sarcasticamente, mas não mexeu nem um músculo para sair do lugar.
— Vai levantar ou vai querer que eu faça isso por você? – bufei sem paciência.
— Calma já estou indo — levantou tão lentamente que eu podia ver cada movimento seu em câmera lenta. Realmente ele estava querendo me irritar.
— Se quiser pode ir mais devagar, eu não me importo — gritei praticamente, já que naquele mesmo momento a música foi trocada e começou uma estilo eletrônica.
— O que? Hã? Não entendi! — Lipe gritou de volta.
— Esquece — o puxei em direção a pista, mas aquele sorriso besta no rosto dele me dizia que ele tinha me ouvido e muito bem.
Logo que fomos para o meio da pista – que nem é o meio, já que estávamos mais na beirada – vi o caipira mostrando que não era tão caipira assim. Seus movimentos eram incríveis. Era mágico olhar ele dançar e de certa forma eu me sentia hipnotizada, já que não conseguia desgrudar os olhos do seu quadril, e consequentemente do seu bumbum. E que bumbum meu santinho dos paranauê.
Continuava tão hipnotizada, que nem me dei conta que ele me olhava, ou melhor, olhava eu olhando para ele.
— Apreciando a paisagem? — perguntou praticamente colocando seu corpo ao meu, mas apenas porque a música estava alta demais.
— Até que é uma boa vista — passei involuntariamente a língua pelo lábio inferior.
— Fico feliz — falou me abraçando.
Nós estávamos abraçados em meio a uma pista de dança e, ainda por cima com uma musica agitada! Imaginaram quão idiota isso parece? Mas eu não importava, pois me senti bem ali nos braços do Lipe, verdadeiramente bem.
— Eu preciso fazer uma coisa — Pronunciei de repente. E logo vi uma expressão de confusão no rosto do Lipe.
— Que coisa?
Não respondi nada, talvez por medo de que se fizesse isso, não teria coragem de fazer o que estava pensando ou apenas porque estava ansiosa demais.
No momento seguinte meus lábios estavam em cima dos do Lipe, no começo era apenas um selinho, e de certa forma tive medo de que ele não aceitasse ou não quisesse. Mas ele aceitou, logo seus braços que antes estavam na minha costa, foram para minha cintura, onde ele apertou firmemente. Sua língua pediu passagem pela minha, e eu cedi de bom grado. O beijo ficou mais quente, era avassalador e nos tínhamos uma química juntos, mas era apenas isso. Eu não sei explicar, na verdade eu sabia, apenas não queria aceitar aquilo. Não queria aceitar que o meu beijo com o Lipe não tinha sentido, pelo simples fato de não ser ele a me beijar. O simples fato de não ser o Simon ali me beijando, fez com que todo o resto perdesse o sentido. E foi ai que percebi que eu não era nada sem ele, só ali enquanto beijava o Lipe que eu me toquei pela primeira vez, que eu nunca mais ia conseguir beijar outro cara sem me lembrar dele, que até mesmo um simples perfume me fazia lembrar-se daquele idiota, o meu idiota preferido. E então a dura e cruel realidade me bateu, e foi como se eu tivesse ganhado um soco na cara, pois percebi que não poderia ser feliz, se não tivesse com ele. Pois ele era o meu sol, que iluminava a minha manhã e me animava, e ele também era a minha estrela, que me guiava nos caminhos escuros e difíceis da vida.
Mas o que aconteceria quando eu não tivesse mais o meu sol e a minha estrela? Aconteceria exatamente o que estava acontecendo. Eu estava perdendo o meu rumo.
Me afastei do Lipe ofegante, não saberia dizer se era por causa do beijo ou por causa do que tinha acabado de me dar conta.
— Você está bem? — ouvi a voz rouca dele. Mas eu não conseguia responder. Por isso fiz a única coisa que consegui fazer naquele momento. Fugi. Saí de perto do Lipe e tentei andar o mais rápido que conseguia entre aquelas pessoas, algo que não era fácil, mas também não era impossível.
Quando enfim dei por mim, já estava fora da boate. Meu coração batia freneticamente, era uma adrenalina estranha.
— Bia — virei e me deparo com o caipira me olhando, e o seu olhar terno e preocupado, fez com que eu me sentisse mal. E eu percebi que não sabia mais o motivo de ter fugido dele. E quando me dei conta já estava nos braços dele, as lágrimas pareciam não ter fim, e eu me senti segura e ao mesmo tempo uma boba. Boba por ter fugido da única pessoa que sempre me entendia, a única pessoa naquele momento que poderia me ajudar e me ajudar a achar a cura para todo esse sofrimento.
[...]
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