Coisas da vida
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Jane suspira em satisfação ao mastigar um biscoito de Natal preparado pela mãe. Ela ganha um olhar afiado da mulher, mas decide ignorá-lo. A casa está cheia, todos estão usando um suéter natalino ridículo, Olivia vem bebendo Eggnog desde que chegara, acompanhada por Frankie, e a música soa baixa e festiva. Os presentes foram abertos na parte da manhã, e agora, na hora do almoço, todos se sentam juntos na mesa (ou na sala) para a refeição. Pratos são passados de mãos em mãos, talheres e copos estão separados em cima da bancada da cozinha. Uma vez que todos estão servidos e acomodados, Angela faz uma oração natalina que sempre fora rezada, desde que Jane se lembra. Só quando termina, é que todos são permitidos comer.
O almoço se passa lentamente, num silêncio confortável e amigável, e quando os pratos são colocados na lava-louça, as panelas limpas e guardadas, Tommy, o irmão mais velho de Jane, aparece com um violão.
‘Quem vai escolher o primeiro som?’ Ele pergunta animado. Seu sorriso e feições são diferentes da de Jane e Frankie. A pele é de um dourado, o cabelo castanho claro e os olhos verdes escuro, mas, apesar da diferença física, é fácil identificá-lo como um Rizzoli. Ele se move e fala como os irmãos.
‘Frank Sinatra! Santa Claus is coming to town!’ Angela grita da cozinha, ainda colocando algumas tupperwares cheias de comida na geladeira.
O homem franze o rosto como se tivesse sido atingido, e depois resmunga. ‘Eu não sei tocar essa, não.’
Frankie revira os olhos. ‘Por que você pede para as pessoas escolherem uma música, sendo que você claramente não sabe tocar muitas?’ Ele provoca.
‘Ei, Frankie, eu sei um monte, ok?’ Ele devolve, irritado.
‘Aqui vamos nós.’ Jane resmunga para si mesma. Olivia, que está ao lado da morena, balança a cabeça e ri.
‘Parece que o tempo não passou, quando venho aqui.’ Ela comenta e depois beberica o que Jane pensa ser mais Eggnog.
A morena pega o celular na mão e pensa em Maura. Ela deveria mandar uma mensagem desejando boas festas para a loira, certo? Incerteza e ansiedade retorcem dentro de si. Desde que confessara para Olivia, dois dias atrás, que não sabia o que seria daquela relação, ela vem se sentingo mais e mais insegura, e chegou até pensar, uma vez ou outra, de que talvez Maura não estivesse mesmo interessada, que deveria deixar para lá e seguir em frente.
Entretando, eram aquelas nuances; aquela disponibilidade e indisponidilidade da loira. E, por causa daquela luz fraca de esperança acesa em seu peito adicionada às vezes que Maura respondia suas mensagens ou aceitava um convite para sair, era que Jane achava que deveria insistir um pouco mais. Ela desliza o dedo sobre a tela do telefone e digita para a loira.
Papai Noel te trouxe muitos presentes? Feliz Natal, Maura.
Simples e direto, ela pensa. Depois de enviar a mensagem, ela devolve o celular no bolsa da calça de moletom e vira a cabeça para Olivia. Com um sobressalto, ela nota que a mulher está olhando direto nos seus olhos, como se estivesse observando suas ações desde antes, esperando pelo momento de atenção.
‘Caramba, Jane, eu achei que você nunca se decidiria.’ Ela diz em relação à mensagem, um tom de humor na sua voz.
‘Ah, me erra.’ Jane resmunga e dispara para Tommy. ‘Quel tal A thousand Miles, da Vanessa Carlton?’
E Tommy, como se levasse a sério o pedido, faz uma cara de suspense e toca algumas notas no violão. ‘And I need you. And I miss you!’ Ele canta e aponta para Olivia, e de repente todo mundo dá risada e continua cantando a música juntos. Ele segue tocando o vilão, e então quando muda para a ponte, antes do refrão, ele pára, e são só as vozes de novo. ‘If I could fall into the sky...’
Parece um coro de pessoas bêbadas cantando, e talvez essa seja a razão de ser divertido e engraçado.
Jane se sente aquecida, se sente em casa. E ela reconhece, com imenso prazer, de que apesar de todos os problemas decorrentes, ela tem a melhor família do mundo.
...
São três e cinco da tarde, quando o telefone de Jane vibra sinalizando uma nova mensagem.
Eu me comportei o ano todo, então, sim. Muitos presentes. A julgar pela sua ligeira intenção de furtar alguns objetos na loja, outro dia, julgo que você não tenha recebido muitos. Correto? Feliz Natal, Jane.
A morena sorri com a resposta divertida. De fato, é um Natal feliz.
...
Olivia volta para Nova Iorque na segunda-feira depois do Natal, para tristeza de Jane. A amiga promete, entretanto, voltar para o ano novo.
‘É uma viagem de trem de apenas quatro horas, Jane. Não precisa chorar por causa disso.’ Ela provoca. É claro que Jane não estava chorando; Olivia era a sentimental daquela amizade, e era ela quem provavelmente derrubaria algumas lágrimas se não entrasse para o portão de embarque logo.
‘Ok.’ Jane responde, parecendo desinteressada, porque no fundo ela sente que a outra usa da provocação para fugir de seu sentimentalismo. ‘Eu te vejo em menos de uma semana, então.’
‘Não se esqueça de que você prometeu...’
‘Te dirigir para o aeroporto no dia três de janeiro. Eu sei, eu sei.’ Ela completa a frase fingindo impaciência, mas com um sorriso afetuoso no rosto. Algumas vezes ela pensava se poderia negociar com Deus e trocar Frankie por Olivia.
‘Tchau, Jane!’ A mulher acena para ela já no portão de entrada, enquanto tem seu ticket escaniado pelo guarda. O sorriso não engana, tão pouco esconde, as lágrimas dos olhos.
Para seu crédito, Jane finge não notá-las. ‘Até mais, Liv.’ Ela acena de volta. Quando a mulher some de vista, Jane dá uma risadinha e chacoalha a cabeça. Olivia, tão sentimental. Ela ainda se lembra de quando a amiga tinha ido na casa dela, anos atrás, anunciar que tinha conseguido um emprego novo e que teria que se mudar de Boston. Ela começou o discurso com lágrimas nos olhos, dizendo que antes de tudo eu quero que você saiba que eu vou sentir muito mesmo a tua falta! Ela sempre fora assim, sensível e atenta, a amiga mais leal que Jane já tivera. A que a conhecia melhor do que ninguém, e a amiga que Jane sempre podia contar.
A morena pega a chave do carro na mão e sai do terminal, sabendo que em poucos dias ambas estariam reunidas de novo.
...
A semana passa monotonamente. Jane redige todos os documentos que precisa concluir durante aqueles últimos dias do ano. Não é muito trabalho, mas é um que precisa ser feito com minuciosidade, então ela tenta se desconectar do mundo lá fora, de Olivia, das festas, de Maura, da família.
Bem, ela tenta não pensar muito em Maura, mas tem sempre um detalhe ou outro, um lugar, uma voz, um sorriso ressoando no corredor que faz com que seus pensamentos voem direto para a loira. Ela se acha uma tola, mas, ao mesmo tempo, não consegue evitar a sensação quente que cresce dentro de si ao sentir a suposta presença da mulher ao seu redor. São lembretes conjurados que parecem gritar por sua atenção. A mesa vazia do café que elas se encontraram, formalmente, pela primeira vez. Um panfleto voando na rua, propaganda do balé que assistiram juntas. O cheiro do café preferido da outra.
Ela pensa em mim?, Jane se pergunta um dia, e a única resposta que aparece em sua mente é silêncio. Uma linha branca que ainda precisa ser preenchida.
...
Olivia chega na última noite do ano, bate na porta do apartamento de Jane e quando a porta se abre, ela levanta dois blocos de cerveja, uma cada mão.
Jane levanta uma sobrancelha, divertida com a imagem, e faz um sinal com a mão para que a outra entre.
‘Você pode me visitar sempre, se aparecer com doze garrafas de cerveja desse jeito.’ Ela brinca, e ajuda a amiga com a mala. ‘Você deveria ter me ligado, eu te disse, Liv.’
‘Ei, Uber por aqui é bem barato. E o motorista nem se importou em me esperar enquanto comprava essas belezinhas aqui.’ Ela diz com descontração, descartando o casaco em cima do sofá.
‘Aposto que ele também não reclamou da gorjeta.’
Olivia se vira para ela fingindo perplexidade. ‘Existem pessoas boas nesse mundo, Jane!’ Ela diz e revira os olhos, do mesmo jeito que a amiga faz.
‘Se você diz.’ Jane murmura em resposta.
‘Você tem certeza que é assim que quer passar a virada do ano? Bebendo cerveja e jogando cartas?’ A outra diz enquanto se senta no sofá, tirando a bota de neve e colocando-a ao lado do sofá.
‘Meus irmãos não se importam em vir aqui. Além do mais, todo mundo aqui já é velho demais para ir para uma boate ao algo do tipo.’
Olivia está tentando abrir a garrafa de cerveja, mas ela pára comicamente e olha para Jane, devolvendo num resmungo. ‘Fale por você, nós nao temos a mesma idade.’
Jane ri baixinho e balança a cabeça enquando tenta escolher uma música no computador. ‘Você é apenas um ano mais nova, Liv. Isso te coloca, praticamente, na mesma geração que a minha.’
‘Vai sonhando.’ Ela retruca em provocação e observa enquanto Jane se senta ao seu lado e beberica a sua cerveja.
A amizade delas é assim: descomplicada, fácil e leve. Sem dramas. Elas conversam por meia hora, e depois Frankie se junta a elas, seguido de Tommy. Quando os quatro estão juntos, Jane começa distribuir cartas para a primeira rodada. Há algo doméstico demais naquela cena; Olivia preparando, horas depois, um jantar rápido para todos eles. Tommy organizando a mesa da cozinha antes de se servirem, Jane e Frankie colocando o assunto em dia, no sofá da sala. É quase como reviver — só que com os irmãos — os anos de faculdade. Sem hora marcada para comer, jogos e cerveja e descontração.
Que seja por essa noite como nos velhos tempos, Jane pensou com alegria.
Na virada do ano, quatro taças de champanhe são servidas, uma para cada um. Eles fazem um brinde silecioso — considerando a hora, e que provavelmente todos os vizinhos de Jane estão dormindo — e trocam abraços entre si.
É perto de uma da manhã quando, cansados demais, garrafas de cerveja são abandonadas em cima da mesa. Tommy já está lutando contra o sono no sofá, e Frankie diz que vai dormir também, no quarto de hóspedes.
Olivia e Jane acabam repartindo o quarto de novo, e quando a mais velha volta do banheiro de pijamas e dentes escovados, a amiga tem um travesseiro sobre a cabeça, os pés livres da coberta.
Jane ri baixinho e sussurra, ‘boa noite, Liv’, mesmo sabendo que a outra não vai ouvir.
É, definitivamente, reviver os anos da faculdade.
...
Jane está sonhando com algo agradável quando é incomodada pela vibração do celular. Naquele momento, ela odeia o aparelho. Sua mão rasteja sobre a cama para procurá-lo, e quando finalmente o encontra e abre os olhos, ela se dá conta de que é sua mãe ligando, e não o despertador, como previra. Raiva redirecionada: ela odeia a mãe, e não o celular.
Sabiamente, ela deixa a ligação desconectar, esfrega os olhos e chega o que tem de novo ali. São quase dez da manhã, e tem ícones de mensagens, e ligações perdidas de sua mãe na tela.
Ela opta por ler as mensagens, então.
Feliz ano novo, Jane. Karen. 9:40am
Trabalho, ela registra e passa para as outras.
Bom dia e feliz ano novo, Jane! Jack, 9:17am
Trabalho. Ela pula para a próxima, e a próxima, e a próxima. O conteúdo é sempre o mesmo.
Oi, Janie! Feliz ano novo, te vejo logo. 8:22am
A morena respira fundo e revira os olhos. Por que, Deus, a mãe dela precisa mandar mensagem enquanto elas estão certas para se ver no almoço? E, como se não bastasse, todas aquelas ligações!
Ela dispensa a irritação e lê a primeira mensagem do dia — que, por irônia, é a última que checa.
Feliz ano novo, Jane. Comece seu dia/ano bem! Maura 7:03am
Um sorriso se espalha inconscientemente no seu rosto. Ela relê a mensagem mais uma vez, embora seja simples e ela já tenha até mesmo decorado de primeira. Seu dedo acaricia a tela como se pudesse retornar o carinho para as palavras, e suspira contentemente. Depois, franze o cenho. 7:03am? Que tipo de pessoa acorda tão cedo no dia de ano novo? Bem, Maura deve ser mesmo um pouco estranha.
Ela responde apenas para a loira, num texto singelo.
Feliz ano novo, Maura. Você começou aproveitando o dia primeiro do que eu. Divirta-se!
E com isso, ela rola na cama, acorda Olivia, se arruma, acorda os irmãos e apressa todos eles para saírem de casa. Quando chegam na casa da mãe, a mulher envolve todos eles num abraço, gritando para cada um (inclusive Olivia) minha criança!
Jane revira os olhos num ao rebelde e se obriga a abraçar a mais velha. O dia é tão agradável como o de Natal, mais pelo fato de que Olivia está visitando do que pelo feriado em si.
Depois da casa de Jane, as duas seguem para a casa do pai de Olivia, que é o único integrante da família que mora ali (mas que tinha decidido passar o Natal com os irmãos em outro estado, não estando ali na data).
Ela fica durante a visita, troca histórias com o homem que conheceu nos anos de faculdade, bebem cerveja juntos e assistem um filme também.
No final do dia, não há muito o que fazer sendo que as lojas estão fechadas. Ela convida Olivia para voltar para casa de novo, apenas por educação, porque ela sabe que a morena vai dormir na casa do pai, naquela noite, e quando se despedem, a amiga promete que a primeira coisa a fazer no dia seguinte é ir visitá-la.
‘Eu te espero!’ Jane diz, acenando um tchau com a mão, olhando pai e filha, lado a lado, na varanda da casa.
‘Cuidado com a neve, Jane.’ O mais velho orienta, como todo bom pai, e acena de volta.
‘Pode deixar!’ Ela exclama, entra no carro e dirige para casa.
...
Há algo com o início de ano que deixa Jane feliz, esperançosa. Talvez porque demarque um recomeço, uma linha nova de partida, enquanto o passado fica para trás. Bem, de certo modo.
Nos dias que se passam, e que a amiga ainda está lá, ambas andam pelo centro de Boston apenas para passar um tempo juntas. Essa é outra faceta do feriado que ela aprecia: o espírito comemorativo acaba aproximando as pessoas. Ela vê um estranho na rua e levanta a mão num comprimeto. O homem sorri e acena de volta.
As duas vão ao cinema durante uma tarde e Olivia comenta sobre cada.cena.do.filme. Jane acha que elas vão ser expulsas antes da metade, mas por sorte ninguém reclama, e por mais sorte ainda, o filme nem é tão bom e ninguém parece prestar muita atenção.
Elas jantam em um restaurante chique, apenas porque elas merecem se presentear (de acordo com Olivia) e ambas flertam com homens a noite toda, ganham bebidas, e precisavam voltar para casa de táxi, porque nenhuma delas está em condições de dirigir.
No terceiro dia do ano, elas se grudam ainda mais. Jane tinha se esquecido como é bom ter uma amiga assim, tão próxima em distância, como Olivia está nesse momento. Dessa vez a mulher acorda na casa de Jane, depois de praticamente desmaiarem na cama na noite anterior por causa do efeito do álcool.
‘Eu estou ficando velha mesmo.’ Olivia resmunga, a mão na cabeça como se evitando a dor.
Jane apenas lamenta com um gemido de dor.
Elas não tem muito mais tempo sobrando, então tomam um banho e sentam para tomar um café da manhã. Ovos e café, e um pouco mais de café para curar a ressaca.
Depois, elas visitam Angela e o Henry (pai de Olivia) para que a amiga possa se despedir deles. Frankie e Tommy não estão em casa, mas mandam mensagem para ela na parte da tarde, desejando boa viagem.
O almoço é reservado apenas para Jane. As duas costumavam frequentar um restaurante italiano barato no centro de Boston, e é para lá que elas se dirigem.
Jane pede por uma lasanha, sua favorita, e Olivia escolhe uma macarronada. Elas tomam uma taça de vinho e ficam no lugar em torno de uma hora.
A próxima parada é o aeroporto, e Jane se sente feliz por tê-la ali, mas triste também, porque o tempo das duas está se esgotando.
‘Eu vou pousar na Flórida lá pelas seis da tarde. Eu te aviso.’ A morena diz enquanto enrola o macarrão no garfo.
‘Por favor.’ Jane oferece um sorriso que parece triste. ‘Eu vou sentir tua falta, Liv. Você poderia ter passado as férias aqui.’
A outra estala a língua. ‘Aqui? Em Boston? Você tá brincando, não é, Jane?’
‘Você poderia pelo menos ter me convidado! Ou poderíamos ter planejado uma viagem diferente, sei lá!’ Ela responde do mesmo jeito espontâneo de sempre.
‘Bem, eu não sabia que você estava disposta. Eu te aviso na próxima.’ A outra ergue as sobrancelhas e sorri, como se achando graça da proposta da amiga.
Jane estreita os olhos para ela, parece prestes a dizer algo mas, depois, muda de idéia.
...
O tráfego para o aeroporto está pior do que Jane previra.
‘Deve ser por causa do feriado.’ Ela comenta no carro, com Olivia ao seu lado.
‘É, acho que sim.’ A outra muda a estação de rádio e suspira. ‘Obrigada por me levar até lá, Jay.’
A morena revira os olhos. Toda vez que Olivia usa esse apelido, significa que ela está ficando emotiva.
‘Bem, você me comprou cerveja. Estamos quites.’ Ela ri baixinho, a amiga acompanha. ‘Flórida, hm? Me pergunto o que tem de interessante lá.’
‘Eu deveria ter te convidado.’ Ela diz com um pouco de remorso na voz.
Jane balança a cabeça. ‘Eu tava brincando, Liv, qual é?’
Ela dá de ombros e olha para fora da janela.
Jane oferece a mão para ela. ‘Você não vai chorar logo agora, certo?’
‘Não!’ A outra diz na defensiva, mas toma a mão de Jane mesmo assim.
‘Nós moramos quatro horas de distância. Isso não é muito.’ Ela oferece como consolo.
‘Eu sei, Jay, mas parece bastante.’
Oh, meu Deus. Jane aperta a mão esquerda no volante e espera para o sinal vermelho ficar verde.
‘Eu odeio despedidas.’ A mulher ao seu lado adiciona. ‘Parece que... Parece que é só isso. Que eu vou, você fica, e cada uma vive sua vida. E que a gente se perde por um tempo antes de se ver de novo.’
‘Liv.’ Jane adverte, mas a outra já tem lágrimas não derramadas nos olhos. Ela não sabe ao certo porque a outra não consegue lidar com separações, mas ela tem uma teoria. Olivia tinha perdido a mãe num acidente de carro, quando tinha nove anos. Naquele dia, a mãe tinha deixado ela na escola aos prantos, porque as duas tinham entrado em uma discussão dentro do carro — Olivia queria visitar a tia junto com a mãe, mas a mais velha tinha insistido que a filha não perdesse um dia de aula. Ficar na escola tinha salvado sua vida, mas aquela separação tinha sido, então, a mais dolorosa de todas. Jane acha que é isso, então.
‘Nós vamos nos ver em breve, ok?’ Ela diz enquanto puxa a mala para a amiga, já dentro do aeroporto.
‘Ok. Eu te vejo logo, Jay.’ Ela diz. O bilhete de avião está em sua mão, e ela parece animada e entristecida ao mesmo tempo. Um sorriso e olhos marejados.
‘Certo. Me liga quando pousar lá.’ Jane adiciona. Ela também não é muito boa com despedidas. Ela quer abraçar Olivia para oferecer certo consolo, mas teme que o gesto faça a outra chorar.
‘Eu vou.’ A menor diz. ‘E nós nos vemos mês que vem, no meu aniversário?’
Jane sorri. Ela adora celebrar o aniversário de Olivia junta com ela. Todos os anos. ‘Nada nesse mundo vai me impedir.’
‘Ok.’
‘Ok.’
‘Até mais, Jay.’ Ela diz, e seus lábios se curvam para baixo, e mais lágrimas se juntam nos olhos.
Oh, droga. Jane sente seus olhos se umidecerem e a puxa para um abraço apertado e demorado. Ela sente, mais do que vê, lágrimas molhando sua blusa. Quando se afasta, ela beija a testa da outra e aponta para o portão de embarque. ‘Eu amo você, Liv, mas não vamos fazer uma cena aqui, ok? Se manda.’
A outra limpa os olhos e ri um pouquinho, obedece as ordens de Jane.
...
Seu carro está estacionado no estacionamento de longo termo, porque é sempre complicado e demorado deixar Olivia em aeroportos. Quando está a uma fileira do seu carro, ela limpa o resto de lágrimas de procura pela chave no bolso da calça. Confere de um lado da pista para poder atravessar. Livre. Depois o outro.
E lá, a três carros de distância, ela localiza Maura, mesmo a outra estando de costas. Uma mochila branca está pendurada apenas em um ombro, e ela parece estar procurando algo em sua roupa. Elas estão tão perto que Jane quase ri com a coincidência. Ela não consegue evitar o sorriso que estampa seu rosto, primeiro porque agora sabe que a loira está de volta, e segundo que, bem, quais são as chances de encontrá-la ali?
Então, a mulher se vira de perfil, e Jane também registra que ela tem uma coberta embrulhada no braço direito.
Não, não é apenas uma coberta.
Quando Maura dispensa a mochila dentro do porta-malas e fecha a porta de trás, ela se vira mais uma vez, só que pára para checar o celular.
Não é apenas uma coberta rosa e macia.
No braço de Maura, tem uma criança. Uma menina, ainda pequena demais para andar por si só. Seus olhos são verdes e seu cabelo é loiro e curto. Ela tem uma chupeta na boca, e parece cansada.
O olhar da criança se encontra com o seu, antes do que o de Maura.
A loira nunca mencionou, e Jane nunca sequer cogitou a idéia. Mas agora, vendo aquela pequena criança em seu colo, ela apenas sabe.
É como receber um balde de água gelada num dia quente de verão: ela se sobressalta com a nova informação, se encolhe por conta do frio, mas depois seu corpo acaba se ajustando e o banho passa a ter valor positivo. Deve ser por isso que ela ainda está ali, parada e encarando.
Aquela menina é filha de Maura. Ela tem certeza.
Ela se sente traída, como se a loira tivesse mentido para ela. É difícil identificar se o que está sentindo é mágoa, raiva ou... O que era aquilo? Insuficiência?
O choque precisa passar, e é por isso que ela ainda não consegue se mover, sequer falar.
Seus olhos registram Maura se virando de novo, dessa vez de frente para ela.
Seus olhos se encontram.
Maura parece confusa, a princípio, e depois incrédula. Ela aperta uma mão nas costas da bebê.
‘Jane.’ Ela diz, mas sua voz não carrega qualquer tipo de emoção.
E por mais um instante, as duas apenas se encaram.
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