A semana de Natal chega e Jane se vê feliz, empolgada e definitivamente pronta para o feriado. Na segunda-feira, ela visita lojas de toda as variedades para comprar os presentes para família e amigos. Quando a lista está completa, ela compra cartões de Natal, assina seu nome, coloca nos envelopes e despacha pelo correio.

Na terça-feira, ela dá uma passada rápida na Target para comprar alguns enfeites para sua própria casa — não é como se ela não tivesse nenhum, é só que todo ano ela gosta de acrescentar algo mais, mesmo que seja algo barato e insignificante. Ela caminha determinada para a sessão de enfeites, passando antes ao lado da farmácia. Ela sorri contente ao se lembrar de que fora bem ali, naquela loja, que conhecera Maura. Ela sente os lábios se curvarem para cima em resposta ao sentimento delicioso que desperta dentro de si, ao pensar na loira. Ela não consegue evitar, ela nem mesmo tenta. Ela não vê a mulher há mais de uma semana, sendo que a última vez fora no balé. Três dias atrás ela tinha mandado uma mensagem para Maura, convidando-a para passar o Natal com sua família e amigos. Ela fez questão de enfatizar que era uma festa grande, para várias pessoas, e não algo apenas familiar, com a intenção de aumentar as possibilidades de Maura não se sentir uma intrusa numa festa a qual não pertencia, e dizer sim. Para sua tristeza — mas compreensão, também — a loira respondera com um agradecimento e uma explicação: ela passaria as festas de final do ano com a irmã, no Colorado.

Desde então, as duas só trocavam mensagens.

Ela saca o celular do bolso e faz exatamente isso. Os dedos digitam rápido na tela do celular.

Adivinha onde estou? Ela aperta enviar, para Maura. Minutos depois, a resposta chega.

Tomando café. Maura arrisca.

Jane ri consigo mesma, colocando distraidamente uma decoração no cesto de compras.

Target. Ela digita de volta.

Maura responde imediatamente. Espero que você esteja com tua carteira. Não estou aí para te salvar dessa vez.

Jane se segura para sua risada não soar tão alto, e digita. Eu estava esperando que eles fossem me deixar sair sem pagar, como uma doação de Natal.

Isso é classificado como roubo, Jane.

E a morena sorri. Ela adora o jeito como Maura parece, na maioria das vezes, ser politicamente correta.

Depende do ponto de vista. Ela devolve. Minutos se passam e seu celular não vibra. Ela teme que Maura tenha levado a resposta a mal, então ela digita outra em seguida. É brincadeira. Eu estou aqui e lembrei de você. Só queria dizer oi.

Ainda assim, minutos e minutos se passam, e ela se ocupa em comprar o que veio escolher na loja. Ela paga pelos produtos e entra no carro, e só quando está estacionando em casa é que ela vê o ícone de mensagem na tela do celular.

É a advogada em você falando. E eu lembrei de você ontem.

Maura tinha acabado de responder, e não tinha explicado a razão pela qual lembrara de Jane. Quando a morena está prestes a abandonar o celular dentro da bolsa, ele vibra de novo. Mais uma mensagem, e Jane não hesita em desbloquear o celular para lê-la.

Exceto que, dessa vez, é uma foto tirada da tela de um computador. A imagem revela ela, Maura e um elfo. Jane se dá conta de que é a foto tirada por ele, no desfile de Natal. Ela dá uma gargalhada e responde.

Pelo menos alguém ficou bem na foto.

Ela manda a mensagem, e depois, intencionalmente, digita a segunda.

Você acha que eu consigo o número dele?

E, de novo, ela reza para Maura ter entendido o humor. Ela junta as sacolas, fecha o carro e caminha para dentro de casa. Quando checa o celular de novo, Maura já respondeu.

Tarde demais. Já até consegui um encontro.

E Jane joga a cabeça para trás e solta uma gargalhada.

A quarta-feira é o dia mais ocupado para Jane. Ela sai do trabalho mais tarde do que pretendia, depois de entregar alguns cartões pessoalmente para amigos de lá, e dirige com pressa, mas cuidado, para a casa da mãe. No carro, todos os presentes que ela comprou para a família e amigos mais próximos estão no carro. Ela precisa descarregar aquilo tudo em baixo da árvore gigante de Natal que a mãe faz questão de montar todo ano. Com a ajuda do irmão mais velho, Frankie, ela tira tudo do carro em menos de cinco minutos. Dentro da casa, ela toma uma café quente — contra os protestos da mãe, porque já é tão tarde e você não vai dormir! — e come o que sobrou d o jantar. São somente os três, naquele momento, e a morena se sente cansada ao ponto de que considera dormir ali naquela noite. Mas então, Angela — sua mãe — começa a fazer aquelas perguntas que sempre rodeiam as festas em família.

‘Você está pensando em trazer alguém com você esse ano?’ A mais velha pergunta como quem não quer nada.

Jane revira os olhos, já acostumada com o mal costume da outra, solta um suspiro dramático e estala a língua. ‘Eu estava pensando em convidar Casey. Se lembra dele? Casey Jones?’

‘Jane Clementine Rizzoli!’ A mais velha coloca as mãos na cintura e seu rosto se contorce em horror. ‘Não se atreva a trazer aquele... esdrúxulo aqui!’

A morena ri baixa e sombriamente. ‘Esdrúxulo? O que é, você tem lido o dicionário?’ A provocação faz com que ela ganhe um tapa de leve na cabeça.

‘Me respeite.’ Angela rosna. ‘Ano passado você trouxe Emily, e eu gostei realmente dela, Jane. Eu achei que vocês fossem dar certo.’ Ela diz, com tristeza evidente em sua voz.

‘Oh, eu também.’ Ela afirma com tamanho desinteresse que Angela não tem dúvidas de que ela está mentindo.

‘Você está ficando velha demais!’ Ela começa.

E antes que possa terminar, Jane se despede e está saindo.

Oh, como ela ama essas reuniões com a mãe.

A quinta-feira é calma, tanto no trabalho — porque ela só trabalha meio período — como depois dele. Depois de almoçar num restaurante a uma quadra do prédio onde trabalha, Jane decide que é hora de passar na igreja e fazer uma pequena oração. Ela foi criada católica, e embora não frequente as missas regularmente, ela ainda acredita na existência de Deus, e de uma maneira devota e humilde, pede sempre pela proteção de Nossa Senhora. Então, quando sai do restaurante, aquele é a lugar que ela precisa ir.

Ela entra na igreja pela porta frontal, sem prestar atenção nas pessoas que estão ali. Seu interesse está no pequeno altar que fica na lateral da igreja, destinado a Santa Maria. Ela compra algumas velas, acende todas e coloca em frente da estátua. Com toda a fé que tem, faz o sinal da cruz e reza, não as orações decoradas de infância, mas com todo seu coração. Ela acredita cegamente que tem alguém escutando-a, ou melhor, aos seus pensamentos. Naquele momento, ela fecha os olhos e começa. Em poucas palavras, ela agradece por sua família e a ano que tiveram juntos, pela força que nunca lhe faltou, por todo bem que recebeu e pela vida que tem. E só depois é que ela pede por proteção. De novo, faz o sinal da cruz e se vira.

E congela no lugar.

Do outro lado da igreja, sentada no quinto banco (contado da entreda para o altar) ela reconhece a figura de Maura. De roupa preta, o cabelo loiro cai por cima dos ombros e ela tem o olhar fixo em algo à sua frente. A estátua de Jesus?, Jane se pergunta. Ela franze o cenho e umidece os lábios com a língua. A loira não parece estar, necessariamente, rezando. Jane pondera se deve se sentar ao lado dela e dizer um oi, mas acaba decidindo contra. Algumas pessoas vão à igreja para procurar esclarecimento, e nem todo mundo reza da mesma forma — de joelhos no chão e cabeça baixa. Contente apenas por vê-la ali, Jane a observa por mais uns segundos e se retira sem ser notada. Seu coração grita para que ela fique, ou então espera pela mulher do lado de fora, mas ela é madura ao suficiente para saber que aquilo pareceria muito mais próximo de perseguição, do que de companheirismo. Ela chacoalha os pensamentos e decide que é melhor, também, não mencionar o acontecido. Pelo menos por enquanto.

Ainda no mesmo dia a noite, ela recebe a visita de Olivia. Elas tinham se tornado boas amigas na faculdade, embora a outra tenha estudado Publicidade em vez de Direito. Depois de formada, ela tinha conseguido um emprego em Nova Iorque e se mudado para lá, e seu contato com Jane passara a ser menos constante, mas toda vez que se encontravam a amizade permanecia a mesma.

Agora, sentada no chão de sua sala, Jane joga a cabeça para trás numa risada que não poderia ser contida. ‘Você tá brincando!’ Ela exclama e depois beberica a cerveja.

Olivia, de cabelo longo e escuro como o de Jane, ri delicadamente e dá de ombros. ‘Não. Eu disse para ele que eu era prima da Zooey Deschanel, e ele acreditou em mim. Me deixou entrar no clube, me deu uma pulseira de acesso à parte privada da festa.’

Jane ri com descrença e depois estuda a mulher. Ela tem olhos azuis e calorosos, a pele clara. ‘Bem...’ Ela constata. ‘Você se parece mesmo um pouco com ela.’ Ela admite.

‘E eu juro para você, vou usar isso ao meu favor sempre.’

Jane ri baixinho e bate seu ombro no dela. ‘Eu senti tua falta, Liv.’

‘Eu também, Clementine.’ Ela provoca, bebericando a própria cerveja.

‘Não me chama assim, você sabe que eu odeio.’ Jane franze o rosto e revira os olhos.

‘Na verdade, você sente mais falta de mim, do que eu de você.’ A outra provoca de novo, e Jane ri em desdém e estala a língua.

‘Você é tão ridícula, Liv.’

‘Você tem uma queda por mim, apenas não assume.’

As duas se olham seriamente por cinco longos segundos. Depois, como se ensaiado, jogam a cabeça para trás e caem na risada. O ex namorado de Olivia tinha dito isso para ela, certa vez: que Jane tinha uma queda por ela, mas que jamais assumiria. Quando Olivia lhe contou isso, em vez de constrangida, Jane caiu na risada, como agora. Ela conhecia a outra tão bem que, se fosse escolher um título para ela, seria de irmã, nada mais. E o sentimento vindo da outra era recíproco.

‘Bons tempos.’ Jane disse, limpando os olhos.

‘Ah, como eu sinto falta da faculdade. As festas, os amigos, até mesmo os dramas. Caramba, eu sinto falta até dos jantares com tua mãe.’ Olivia revela.

‘Não força.’ Jane rebate.

‘Ela já cansou de tentar em te arrumar uma namorada?’ Ela tenta segurar a risadinha, mas não consegue.

Jane estala a língua e brinca com a barra da blusa. ‘Não.’ Um suspiro dramático. ‘Eu devo ter cortado carne nas tábuas dos dez mandamentos. E ela é minha punição.’

A risada de Olivia é abafada dessa vez, e ela bebe a cerveja e só depois, quando o silêncio se instala entre elas, é que ela fala de novo. ‘Você arrumou mais alguém? Depois de Emily, quero dizer.’

Jane dá de ombros, como se desinteressada. ‘Não.’ Ela responde, mas então ela pensa em Maura. ‘Quer dizer... Nesse último mês eu tenho saído com alguém.’ Ela adiciona, franze o cenho enquanto pensa. ‘Mas eu não sei. Eu não sei onde isso vai parar.’

‘Jane, não vá se meter em enrascada. Olha, eu até gostava da Emily, mas eu sabia que tinha algo de errado com ela.’ Ela é direta e honesta, e a voz dela vem com uma censura e alerta.

‘Ela é diferente.’ Jane diz, mas depois pensa no motivo de estar defendendo Maura. ‘Tem algo que eu não sei dizer o que é, mas ela tá sempre hesitando, tentando manter a distância ao mesmo tempo que não tá. Faz sentido?’ Ela pergunta abertamente, como se confiasse e acreditasse que Olivia pudesse lhe responder.

Para seu crédito, ela responde com honestidade. ‘Faz, mas até que você descubra a razão, eu sugiro que você não se jogue.’ E ela bebe mais um pouco de cerveja, e depois vira para Jane, um sorriso brincalhão no rosto. ‘Oh, meu Deus, Rizzoli! Você já tá toda apaixonadinha por ela, não é? Nem venha negar, olha esse teu sorriso tonto!’ E ela cai na risada, metade embalada pela afirmação, metada pela cerveja. E embora Jane esteja revirando os olhos e empurrando seu ombro com a mão, ela não consegue evitar o riso. E é por isso, ela se lembra, que elas são amigas.

Naquela mesma noite, as duas acabam dividindo a cama de Jane, embora exista um quarto extra na casa da morena. Mas elas sempre foram assim, sempre acabavam deitadas juntas no cair da noite, especialmente nos feriados ou finais de semana, quando era o tempo que tinham para contar segredos, sobre a semana, sobre namorados e namoradas, sobre a vida em geral. Elas estão mais bêbadas do que sãs, e Jane está realmente feliz por tê-la em casa, para passarem o Natal juntas.

‘Eu comprei um presente pra você.’ Ela ri sozinha, como se tivesse contado uma piada engraçada. ‘Você vai odiar.’

E as duas começam a rir de novo, apenas porque sentem que devem.

Quando se recupera, Olivia se vira para Jane, o rosto esculpido em curiosidade. ‘Como ela chama? Sua nova namorada?’

Jane aperta os olhos, mas deixa o título passar dessa vez. ‘O nome dela é Maura.’

A outra ergue as sobrancelhas ao analizar a resposta. ‘Maura.’ Ela deixa o nome dançar em sua língua. ‘É um nome bonito, Jane. Mas ela consegue se passar por Zooey Deschanel?’ Ela ergue uma sobrancelha com seriedade, e antes mesmo de Jane, cai na risada de novo.

Notas finais
Capítulo de transição, mas com informação preciosa. O próximo logo chega! hehehehe