Coisas Horríveis em um Diário
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“Querido diário,
Para começar, o meu nome é Miguel. De acordo com um site em que pesquisei na internet ele vem do hebraico e significa “Quem é deus?” Se quer saber, invasor de meu diário, e sei que na verdade não quer, eu gosto muito desse significado. Quem é deus? Quem é deus? Alguém viu? Alguém tocou? Alguém sentiu? Não, não é? Então quem é deus? Um homem, que de algum jeito não é homem nem mulher, que vive em um céu metafórico enquanto torce para que a gente aqui na Terra siga a sua palavra. Um homem que, caso não façamos o que deseja, enviar-nos-á para um grande caldeirão onde vivem anjos e demônios.
Quem é deus? Deus é o cara sem pau nem bunda que vai me mandar pro inferno. Esse é deus — eu sou Miguel, seu filho.
Esse é deus, eu sou Miguel e isto é um diário. Nunca dei muita bola para essa história de escrever por sempre ter achado isso uma grande perda de tempo (se você que está lendo gosta de escrever, peço desculpas, mas é verdade: escrever é um desperdício de vida, igualzinho a deus). Só vou fazer isso de escrever agora porque tenho bastante tempo livre em casa, tanto tempo que preciso jogar um pouco dele fora. “Jogar fora”, como numa lata de lixo metafórica (embora um tanto menos metafórica que o céu de deus, que é metafórico pra caralho). Em outras palavras, este diário não passa de uma lata de lixo em que vomitarei metaforicamente toda a minha vida sem amor. “Sem amor”, aliás, é literal mesmo.
Hoje eu acordei às 6h16 da manhã, como o de costume; bem cedo porque vou dormir sempre às 6h16 da tarde. Gosto de dormir cedo porque é um sacrifício de puras conveniências: você se sente disposto no dia seguinte, fica forte e sadio e tem um álibi perfeito para quando precisa sair no meio da noite sem que seus pais saibam (ninguém dorme 12 horas seguidas). Como disse, um sacrifício de puras conveniências. Mas por que estou dizendo isso? Bem, porque achei que em um diário se contava sobre o seu dia, e o melhor modo de contar sobre um dia é partindo do início, ou seja, do momento em que se acorda. As pessoas que não começam a história do início estão sempre escondendo algo, e eu não preciso esconder algo de meu próprio diário. Que idiota sem noção esconderia algo do próprio diário, afinal? Tem gente que deve fazer isso achando que pode ser Jesus: “Se eu só contar a minha vida a partir de meus 33 anos vou parecer um semideus tão semiperfeito que sou.” Jesus era um cara sem noção. Mas eu não, eu não quero perder tempo escondendo coisas: estou aqui para perder tempo escrevendo, não mentindo. Mentir é coisa pra outra hora.
Pela manhã desenhei algumas coisas (gosto de fazer gente se fodendo), depois fui bater umas (também gosto de ver gente fodendo). Estava lá pela quinta quando chegou a hora do almoço. A Marcela — mazela, magrela, gazela -, minha mãe, preparou linguiça com arroz e feijão. Dei risada dela, a vagaba tinha preparado pra gente comer praticamente o pau do pai: tinha até a bosta do rabo dela e a candidíase da perseguida. Pelo que pesquisei naquele mesmo site da internet Marcela significa algo como “jovem guerreira”. Olha, tenho que admitir que o nome faz jus à figura: tem que ser mesmo uma guerreira pra não se matar com aquela cara de cebola. Minha mãe é uma gorda cheia de manchas na cara, tem os dentes ferrados pelo cigarro e cheira a alho estragado (nunca cheirei alho estragado, mas se cheirasse sei que teria o cheiro de minha mãe).
Enquanto comia o pau fodido de meu pai e minha mãe chorava em silêncio achando que conseguia esconder de mim a cara de Fiona deprimida, fiquei pensando nas fotos antigas que temos aqui em casa. Combinei comigo que as procuraria depois de comer, e foi o que fiz.
A foto estava dentro de uma caixinha azul com laço cor-de-rosa no armário de Marcela. A imagem de 17 ou 18 anos atrás era de um casal jovem e bonito segurando um bebê: uma mulher magra, loira, bastante feliz e bonita apesar das poucas proporções femininas, segurando uma criança enrolada num mantinho azul. Ao lado dela estava um homem alto, forte, de longos cabelos e tatuagens no braço — na época tocava contrabaixo em uma banda. As bordas da foto estavam um pouco amareladas, mas fora isso a imagem era perfeita. Ele segurava a cintura da mulher, segurando-a perto. Ambos sorriam como se fossem as pessoas mais felizes do mundo, como se tivessem vidas perfeitas. O bebê, eu, não sorria, mas dormia tranquilamente no colo da mãe, na época em que ela era bastante bonita. No verso da fotografia havia uma frase brilhante à caneta azul: Primeira foto em família. Na mesma caixinha havia outras fotos, eram cinco no total. Cada uma tinha um número: segunda foto da família, terceira foto da família, quarta... O quanto será que eles estavam apaixonados naquela época para chegarem ao ponto de fazer uma coisa a assim?
Meu pai já me contou histórias sobre o dia em que nasci. Disse que já sabia que eu seria um garoto esperto no momento em que mordi o dedo da enfermeira ao nascer; já sabia que eu seria um garoto esperto assim que nasci. Não me acho esperto, no entanto. Sou apenas um garoto comum que faz coisas comuns de garoto. Mas quer saber? Acho que todo bom pai tem isso de ser carinhoso com o filho, elogiá-lo não importa o quão ruim ele seja. É só uma pena que há algum tempo ele tenha declarado que não me aceitava mais como filho por causa de algo que fiz. Acabaram-se as histórias sobre quando nasci e fotos como aquela da caixinha nunca mais seriam tiradas.
Guardei a imagem nela e amarrei o laço de volta.
Sabe, acho que é por minha causa que minha família é tão triste hoje em dia. Faço coisas ruins, sou uma pessoa ruim. Se fosse meu pai eu me amarraria pelos braços a uma corda e me afundaria num tanque cheio de água bem devagar, molhando meus pés, pernas, barriga, pescoço e cabelo. De lá pegaria carona direto num rabecão. Tudo o que queria é que meu pai ainda me amasse...
Chega de escrever por hoje.”
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