Coincidência
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Escrever pra mim foi uma terapia e espero que também seja pra você. Boa leitura!
Você acredita em coincidência?
Há quem acredite que a criação da Terra foi pura coincidência. Deus criou o dia, e a noite automaticamente apareceu. As coisas apenas aconteceram. É essa simplicidade, essa coisa que conecta as pessoas por pelo menos um segundo, que faz a vida ser um pouco mais leve.
A dois anos atrás, eu não acreditava. Entendia que aleatoriedades aconteciam, mas eram apenas ao acaso. Minha vida, na verdade, não era muito composta por aleatoriedades. Era sólida e simples o suficiente pra que eu não me tornasse alguém ambiciosa, e honestamente, eu nunca fui. Vivia o que estava ao meu alcance, até onde as barreiras me suportavam.
Foi num outono seco que um clique imprevisível mudou minha vida.
— [...] Eu sei que vou ser demitida, mãe.
— Deixa de bobagem Bianca! Você já orou? — É o que minha mãe sempre diz em situações de desespero. Nesse caso, só ela estava desesperada. Eu? Conformada.
— É claro que sim, mas eles fecharam o setor todo, a empresa tá numa fase horrível. Hoje deve ser meu último dia, e aí vão me chamar na sala da chefe e aí já sabe.
— Olha, ficando ou não, eu sei que vai ser o melhor pra você, minha filha. Ele sempre sabe o nosso melhor.
— Verdade. Não esquece, social de despedida aqui em casa logo depois do trabalho tá? Meus colegas devem vir pra cá e aí... — Mesmo entendida, doía concluir a frase. Metade já bastava.
— Vai com Deus, querida. Ele sabe de tudo.
— Tchau!
Cumprir uma rotina pela última vez lhe oferece uma outra visão sobre tudo ao seu redor. De repente, pegar o ônibus às cinco da manhã era uma coisa boa. Me espremer pra conseguir um lugar era reconfortante. Senti andar até mais lento, apreciando aquela sensação pela ultima vez. É engraçado, porque isso frequentemente era uma coisa que eu amava reclamar. E eu entendi, a partir daí, que passamos a valorizar as coisas quando as perdemos (no meu caso, prestes a perder). A viagem de uma hora pareceu ter cinco minutos, e pronto, eu estava lá. Aquele prédio comercial enorme, repleto de executivos cheirando a café e um ar condicionado gelado — até demais. As pessoas entravam e saiam e eu ainda estava ali, parada sobre a porta. Os olhos já marejados, a respiração bufante. Seja forte, Bianca. É só uma despedida.
Eu trabalhava no nono andar e pela primeira vez, preferi ir pelas escadas. Viver primeiras vezes, nem que fossem estúpidas tornou menos difícil. Eu sabia que ia embora, mas com a consciência de que vivi cada experiência. De vez, conheci cada milímetro daquele prédio. Vi cada rosto, até dos mais desagradáveis — mal sabia eu.
Cheguei, me sentei e liguei meu computador. Uma chuva de e-mails tediosos, que fiz questão de ler e responder um por um. As pessoas chegavam aos poucos e eu já estava concentrada, nunca tão dedicada. Desejei ser exemplar até meu último adeus.
— E aí, Bianca. Bom dia. Cê tá bem?
Miguel. O inconveniente da T.I. Aquele com as piadas mais detestáveis possíveis, metido ao garanhão. É claro que ele não ia perder a oportunidade de falar comigo no meu último dia. Minha mente berrava um alto “ah, não!” mas meu rosto só expressava um sorriso — nem um pouco natural.
— Eu? Eu to, hm, porque?
— Fiquei sabendo... Que fase, hein? Essa empresa indo de mal a pior. São eles que tão te perdendo.
— Pois é... Olha, Miguel, desculpa mesmo... — Tive que ser direta. Primeiras vezes. — Hoje não tá sendo um dia dos bons. Quer dizer, você é suuuuuper legal, mas... hoje eu só prefiro ficar na minha, sabe?
— Tranquilo, eu imaginei. Mas você tá livre mais tarde ooou...? Porque assim, hoje eu não vou fazer nada...
— Miguel, é sério? — Ele voltou pra mesa como um cachorrinho abandonado. Missão fracassada, soldado.
Vi as horas passarem em trabalho árduo e nenhum colega de trabalho chegar. De repente, me vi sozinha num escritório lotado. Então, uma última olhada. Nada. Apelei ao bom e velho e-mail.
“É sério que fui a única a vir hoje? Vocês estão mortos. Espero vocês lá em casa, umas oito horas da noite. Levem o que for beber. Feliz despedida”
Enviar pra:
Alexa
Paulo
Kaio
Miguel
Patrícia
Helena"
E antes que eu pudesse me animar com alguma resposta, vi por cima do visor aquela imagem que todo adulto teme. Dois homens, trajados em ternos caros, na porta da diretoria. Eles me chamam em um aceno, e eu já sei o que está por vir. Desligo o computador, pego minha bolsa e sinto aquela sensação indescritível de dever cumprido pela última vez. As lágrimas já surgem nos meus olhos quando dou os primeiros passos, e até chegar lá, seguro os prantos. Eu posso chorar sobre isso depois.
[...]
— Vai, fala! E aí? Você conseguiu?
— Eu te avisei...
— Ah... — Ver o ânimo sumir do rosto da minha mãe me destruía. A esperança se perder. Eu entendi que o que tinha que ser, era pra ser. Mas não podia fingir que estava bem.
Me acalentei no mais dócil abraço que só uma mãe sabe dar. Encontrei ali um conforto que busquei o dia inteiro, mas quando soltei, sorri. Um ciclo estava pra terminar naquela noite, ciclo esse agora com meus amigos de trabalho. Ou melhor, ex-amigos de trabalho, se é que esse termo realmente existe.
— Vai ficar tudo bem mesmo? — Mamãe perguntou pela última vez antes de sair. Toda produzida, dos pés a cabeça, ia pro encontro com seu namorado novo. Ela tinha seu compromisso, eu tinha o meu.
— Vai sim, mãe. Tudo em ordem, qualquer coisa eu te ligo.
— Então tá bom, não me espere. — Gargalhamos e logo eu estava sozinha em casa.
Dez minutos pras oito. Som num volume agradável, bebida posta, comida fresca. Faltava apenas eles.
Dez minutos pras nove. Sabia que tinha alguma coisa de errado. Foi quando comecei a mandar mensagens, e uma regra universal: quando você chega a esse nível, é porque a situação tá realmente feia. Eu ouvi muitos “to ocupada” ou “não recebi seu e-mail”. Quando já estava afogada em um poço de desesperança e melancolia, me assustei ao toque da campainha. Me assustei mais ainda quando vi quem estava por trás da porta.
— Opa, me desculpa o atraso!
— O que... Miguel, o que você tá fazendo aqui?
— Como assim “o que eu to fazendo aqui”? Eu vim pra sua festa. Mas pelo jeito não começou ainda, né?
— Oi? Calma, como é que você soube dessa festa?
— Como assim “como eu soube-“
— Miguel, você não precisa repetir tudo que eu falo! Agora, se me faz o favor...
— O que, vai me expulsar também?
Respondi com o silêncio. Ele viu minha fragilidade, mais que isso, meu cansaço. A tristeza meio que desgasta a gente. Miguel também não disse nada. Só colocou suas bebidas sobre a mesa — como é atento aos detalhes! — e se sentou no meu sofá.
— Foi o e-mail, não foi? — Foi tudo que perguntei.
Ele me confirmou com a risada mais insuportável do mundo. Consigo ver em seu rosto que ele está doido pra falar a besteira mais provocante que exista, mas consegui intimida-lo. Silêncio era tudo que eu precisava — era o que eu achava.
Mas eu sabia muito bem o tipo de pessoa que ele era. Miguel sem dúvidas é o perdedor no jogo do silêncio.
— Não é engraçado? Eu te chamo pra sair e aí você me chama também.
— Eu não te chamei. Você sabe que foi engano, né? — Abri a primeira garrafa de bebida, levando a voz com um desdém depressivo que até então eu nunca tinha experimentado.
— Foi uma coincidência das boas então.
Coincidência. Foi a palavra que me pegou de jeito. Também foi aí que entendi. A verdade é que foi só um erro, eu não tive a intenção de realmente chamar ele. Mas ele estava ali, afinal. Eu senti que a coincidência me conectava, que o acaso não era só mais um acaso. Me senti leve, reflexiva, mística.
— É, que dia. — Falei depois do longo silêncio. Sabe quando você pensa e esquece de falar?
— O dia ainda não acabou. Tipo, hoje tinha tudo pra ser um dos melhores dias da sua vida. Porque você só desistiu?
— Eu não desisti, é só que... Aconteceu. Você tá numa sala vazia agora, não tá?
— Eu odeio bancar o filósofo, mas sério, Bianca. Você foi demitida, seus amigos foram uns puta de uns vacilões com você agora e só permanece assim?
— Onde você quer chegar com isso Miguel?
— Eu quero dizer que é você que faz acontecer. Eu juro que trabalho no seu lado a o que, cinco anos? E nem sei seu sobrenome, ou sua idade. A real é que se você não fizer nada, o destino vai fazer. E olha, eu tô na sua sala vazia agora.
— Seu conceito de coincidência é isso? Um destino com ansiedade?
— Talvez.
Foi minha vez de responder com a mais deliciosa risada. Enquanto minha cabeça ardia em pensamentos e minha garganta queimava pelo álcool que a corroía, tudo era diferente. Me sentia aquática. Eu estava sufocada, profunda, solitária. Naquele momento, ele estava sendo o fogo.
— O que, qual a graça?
— Não é nada, é só que... Essa situação toda é engraçada e inesperada demais. Eu de repente quero te conhecer agora? Hoje eu aprendi cada coisa e me sinto tão... evoluída? Ou aleatória? Eu não sei a palavra, mas eu sei que algo mudou. A Bianca de ontem não estaria tomando bebida com o Miguel por exemplo.
— A tristeza meio que faz isso com as pessoas. Muda tudo. Acho que no fim a gente só quer que a festa fracassada vire um Coachella.
— Sério, de onde você tira isso? — Tive que rir. — Mas falando sério, esse dia foi a merda mais reflexiva que eu já tive. Mas no fim, ta sendo bom.
— Como assim bom? Você tá dando em cima de mim? — Miguel brincou da forma indiscreta que só podia vir dele.
— Não, não é isso. É só que eu tô gostando disso. Eu tô gostando de me conhecer, de te conhecer e saber que a vida não vai parar aqui.
— Que coincidência. Eu também.
E com a gargalhada em forma de abraço, calei meu cansaço. Criei ali um laço de coincidência que nunca mais quis partir. E não vou partir tão cedo.
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