Coexistência

2 Capítulo 01 – Minha pequena floresta


Há poucos meses, em uma manhã...

– Partindo? – Disse um jovem de cabelo castanho claro, que se confundia ao loiro.

– Isso. – Respondeu Sunni.

Os dois estavam conversando em cima de um pequeno pub da cidade, ambos olhando o movimento da rua apoiando seus corpos sobre um pequeno corrimão que não deixavam as pessoas caírem do local. Uma caixa d’água com um outdoor de bebida contrastava em suas costas.

– Não cabe a mim te impedir, – Respondeu o rapaz, que deu um trago no cigarro que fumava – Mas seu tio ficará chateado e sozinho. Você é a única família dele.

– Ele não ficará, provavelmente...

O jovem deu uma golfada de fumaça de cigarro e deu o assunto por encerrado.

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De tarde, dois homens dirigiram-se à casa de Sul. Ela se contrastava com a cidade. A construção, de dois andares e toda feita de madeira, era rodeada por diversas árvores e plantas, muitas até mesmo desconhecidas por pessoas que as viam. Sobre o telhado da casa, bem em seu centro, havia uma árvore que a cobria como se a folhagem fosse uma nuvem. Suas raízes não prendiam ao chão, mas caiam pelos lados do telhado formando uma espécie de apoio e, também, dando uma beleza exótica ao lugar.

Um dos homens bateu na porta e esperou. Fez isso três ou quatro vezes. Esse homem tinha uma aparência de louco, seus olhos eram esbugalhados, tinha alguns dentes que cresceram demasiadamente e insistiam em ficar fora da boca, seu cabelo era uma espécie de coroa que misturava fios cinza, castanhos e pretos, e o topo de sua cabeça careca. O outro homem, porém, mantinha-se junto a ele mas não demonstrava tanto interesse com a situação. Ele mantinha as mãos nos bolsos da calça e olhava a tentativa do senhor ao seu lado chamar Sul. Seu rosto continha um fino cavanhaque, cabelos castanhos bem escuros e com o tamanho dos fios próximo a três dedos e uma cicatriz que cruzava seu rosto em uma curva, partindo entre seus olhos e seguia para baixo em direção ao lado esquerdo, terminando um pouco antes de chegar à orelha.

– Sul, seu velho! Você está aí? – Gritou o de olhos esbugalhados, aparentemente irritado. – O velho não deve ter saído de casa, então por que ele não abre a porta...? – Bateu na porta mais algumas vezes e com mais força. – Talvez ele esteja cagando.

Dentro da casa, sobre um rack na sala, um rádio tocava uma combinação de Jazz e Blues em um volume alto. Ao seu som, Sul regava as plantas na sala.

Percebendo que existia pessoas chamando na porta, Sunni parou na porta da sala, do lado de onde o rádio estava, para falar com seu tio.

– Tio, tem gente chamando.

O som alto e a distração de Sul ao regar não fizeram-no perceber que Sunni o chamava. Ela, agora se sentindo irritada com a música alta e a atitude do tio, entrou no cômodo, apertou o botão que desliga o rádio e gritou.

– Tio!

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O interior da casa de Sul parecia um jardim, havia tantas árvores do lado dentro como do lado de fora. Diversas plantas se encontravam em sua casa, em todos cantos imagináveis. Tinha pequenos vasos sobre mesas, plantas em grandes vasos no chão, divididos estrategicamente para dar a liberdade de movimento ao jardineiro na hora de regá-las. Nas paredes subia um tipo desconhecido de planta que se agarrava às tábuas e dava uma tonalidade verde mesmo às paredes de madeira, e até mesmo existia uma árvore em um canto da sala, sua raiz saindo do chão por um buraco no assoalho de madeira e a extensão de seu tronco e folhas quase atingindo o teto.

Os dois homens estavam sentados lado a lado no sofá. O dentuço estava se sentindo desconfortável, fazia uma careta e mantinha os braços cruzados sobre sua barriga. Mesmo magro, ele tinha uma barriga desproporcional ao corpo, maior, provavelmente por causa de bebidas. Já o homem da cicatriz se encontrava sentado e relaxado, aparentemente refletindo. Seus olhos se encontraram com um vaso e planta ao seu lado esquerdo, próximo onde se sentava.

Moveu sua mão e tocou com seus dedos uma das folhas da planta. Essa planta era bem peculiar, suas folhas eram longas como lâminas de espadas, de coloração vinho e com pequenas bolinhas brancas.

– Essa planta se chama Burmahou. – Disse Sul – Acredito que esta seja a primeira vez que você a vê. Ela é rara.

O homem não respondeu ao comentário. Sul se encontrava com a parte de trás do seu cabelo branco preso a um minúsculo rabo de cavalo. A parte da frente era curta demais para prender junto ao resto, fazendo-o prender em um novo amontoado de fios sobre sua cabeça e deixar outras partes de seu cabelo, de ambos lados, soltas.

– Você continua o mesmo, não é? Acho que você já sabe que estou aqui por causa dessas suas árvores idiotas. – Disse o velho dentuço – Existe reclamações por toda a cidade. As pessoas estão sendo picadas pelas abelhas de suas árvores.

Sul ouvia-o sem se importar, e fazia isso enquanto coçava interior de seu ouvido com o seu mindinho esquerdo.

– Alguns falaram que viram animais daninhos, e outros juram que viram cobras! O filho do prefeito da cidade tocou numa árvore venenosa e todo seu corpo ficou inchado.

Ao ouvir esse último comentário, Sul tirou o dedo do ouvido e pôs-se a examinar a sujeira enquanto respondia.

– Isso não tem sentido. Aquelas árvores estão escondidas no fundo do meu jardim. – Moveu os dedos com o intuito de limpar a sujeira em seu dedo. – E tenho câmeras de segurança. Se alguém tivesse entrado, eu o teria visto. – Apontou para uma câmera na sala, próxima a árvore que crescia dentro de casa.

O dentuço demorou um pouco para responder, agora sem argumentos.

– Bem, de qualquer jeito... Suas árvores também não são boas para a imagem da cidade. – Disse, por fim.

Uma borboleta, de tamanho a caber na palma de uma mão, voou sobre o local e pousou sobre as folhas de uma Espada de São Jorge, atrás de Sul, como se observasse o que acontecia.

– Ah... – Disse Sul – Então esse é o problema?

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Os dois homens saíram pouco depois, sem cerimônias. Sunni pensou na cidade e na casa de seu tio. É verdade o que as plantas incomodavam as pessoas, eles moravam em um local totalmente industrializado, e nessa “selva de concreto” não existia lugar para a única casa cheia de vida em que morava. As pessoas davam argumentos não fundamentados contra as plantas de seu tio, e essas mesmas pessoas não se dariam por satisfeitas até que se livrassem delas.

Sunni virou-se e observou seu tio voltando a regar as plantas no interior da casa. Já fazia muito tempo, mas seu tio foi conhecido como um dos melhores jardineiros da região. O tempo se passou e as pessoas da cidade foram substituindo as plantas por concreto. Sul perdeu seu emprego e cada vez mais se tornou dedicado a “elas”. Plantas grandes e desajeitadas que geralmente não crescem dentro de casas. Flores com nome que até então desconhecia. A única alegria de seu tio se tornou ligar o rádio e regar suas plantas.

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– Tio, estou... indo embora. – Disse Sunni de frente a saída da sala, largando sua mala que foi de encontro ao chão.

A sobrinha de Sul vestia calça jeans, uma blusa verde-escuro de mangas longas e brancas, uma bolsa rosa sem muitos detalhes com sua alça sobre o ombro esquerdo e um boné na cabeça, deixando seu pequeno rabo de cavalo ainda feito, saindo pelo buraco de trás.

– Para onde?

– Eu já te disse, você se esqueceu? – Sunni nota um de seus cadarços desamarrado. Ela agacha para amarrá-los novamente. Tenta se manter calma. – Consegui um quarto na rua principal, perto do meu trabalho.

– Com seu namorado? – O jardineiro para de regar as plantas ao fazer a pergunta.

– Terminei com ele há meio ano... Eu te contei isso também. Você se esqueceu ou simplesmente não me ouviu? – Ela perguntou em tom desafiador.

Sul não respondeu à pergunta de sua sobrinha, que termina de amarrar seu tênis, se levanta e passa pela porta.

– Me ligue de vez em quando enquanto estiver regando suas plantas. – Sunni para de andar, já do lado de fora da casa. Vira-se para seu tio dizendo – Ah, e também sei que suas árvores gostam de música... Mas não deixe o volume tão alto a ponto de não ouvir as pessoas chamando a sua porta.

Ela se vira de volta para a rua e conclui.

– Não poderei vê-lo por algum tempo. Até mais.

A porta bate. Sul se manteve em silêncio de cabeça baixa. Sunni apoiou suas costas na porta do lado de fora da casa, reunindo energias para ir embora. E foi.

Demorou alguns minutos, mas o jardineiro voltou a sua rotina de regar plantas. Uma borboleta de asas negras e laranja o observava de um canto da casa. Observou-o regando e parando sua ação subitamente, olhando para o vazio como se estivesse refletindo.

Meu tio não precisa de mim.

Ele não sabia o que fazer.

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O véu negro da noite cobria a cidade. As poucas luzes que existiam eram de prédios com suas luzes acesas incansavelmente que penduravam assim por toda a noite, e de poucos postes de iluminação que eram distribuídos pelas ruas. A porta para o quintal de Sul estava aberta, num um sinal de desleixo.

Som de passos de uma pessoa se aproximavam cada vez mais da porta, assim como som de gotas caindo no chão. As gotas não eram de água, mas de gasolina, que caiam de um recipiente carregado por um homem de grande cicatriz no rosto. Ele entrou escondido no quintal do jardineiro e foi procurar as plantas.

Gasolina foi espalhada no chão, sobre os vasos, nas pequenas e grandes plantas, nos troncos de árvores do local. Houve um som de isqueiro ao ser apertado. O homem observou o dançar da pequena chama que subia do objeto que estava em sua mão. Sul estava deitado.

Após alguns minutos, um incêndio iniciou no jardim do velho.

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– O paciente está dormindo?

– Não, só está descansando após a refeição.

Dois médicos passavam pelo corredor do hospital discutindo sobre um novo paciente que chegara recentemente.

– Ele perdeu a visão por causa do fogo, mas não há qualquer outro ferimento. – Disse o médico mais velho, de cabelos brancos, óculos e uma testa de tamanho indescritível.

– O paciente estava acordado quando o incêndio começou e saiu da casa rapidamente, mas ele se recusa a dizer o que aconteceu com seus olhos. – O médico de cabelos grisalhos completou o laudo.

– O que causou o incêndio?

– Foi um incêndio culposo. Ele ainda está sob investigação, mas parece claro o que aconteceu.

– Você avisou a família dele?

– Sim. Conseguimos contatar uma sobrinha, mas vai demorar dois dias para ela chegar ao hospital, já que mora muito longe.

Os médicos viraram o corredor e começaram a dialogar sobre outros pacientes.

Sul estava deitado em um quarto do hospital, consciente Porém, seus olhos se encontravam vendados por um grande curativo em seu rosto. Na parede, havia um sistema de circulação de ar parado. Ele era quase que um buraco redondo que dava para fora do hospital com uma hélice no meio, mas localizado estrategicamente para não cair água dentro do quarto quando chovesse. Um sistema barato e eficiente.

Batendo as asas, a borboleta negra e laranja adentrou o quarto e voou até Sul, pousando sobre as costas de sua mão.

– É você... que bom que está a salva. – Respondeu, sentindo o pouso a pequenina – Seu único lar se foi, me desculpe. Parece que não será fácil para você encontrar uma nova casa...

O jardineiro levantou o braço e a mão, fazendo a borboleta voar.

– Mesmo assim, espero que você encontre um bom lugar.

A borboleta voou por alguns segundos pelo quarto e saiu pela mesma entrada de ar por onde entrou. As hélices começaram a girar sozinhas sem vento, trazendo pequenas folhas de árvores para dentro do cômodo.

Meu tio, que perdeu a visão no fogo, entrou em estado de inconsciência dois dias antes de eu chegar ao hospital para vê-lo. A causa é desconhecida.

O jardineiro sentiu as pequenas folhas caírem sobre seu corpo, mas sem saber o que era. Ele sentia algo diferente no ar. O vento, o cheiro, até mesmo a luz que saía pela janela e batia em seu rosto vendado... Luz?

Sul percebeu que estava sensível a luz, e decidiu levantar a mão aos curativos que estavam em seu rosto. Removeu aos poucos. Ainda sentindo dores em sua pele e o tato lhe indicando que seu rosto não estava em boas condições, abriu os olhos. A sua visão, que começou embaçada, logo conseguiu focalizar o teto. Era um teto de hospital... diferente.

Musgos e galhos de trepadeiras prendia-se nele, parecendo sua casa antes de ser incendiada. Sentou-se na cama. Mato e outros tipos de vegetais rasteiros tinham crescido dentro do quarto, e agora cobriam chão, paredes e teto do local. Até mesmo os pequenos armários e outros móveis do local foram afetados pelos vegetais. O jardineiro virou-se para a janela ao seu lado.

O que meu tio estará vendo agora...

Um vento suave, carregando algumas folhas, soprou em seu rosto. A visão era inacreditável.

...Em seu mundo subconsciente?

A cidade foi engolida por uma floresta.

Notas finais
Próximo capítulo: Mua
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.