Notas iniciais
Mar'i
Eu não sabia ao certo qual era a temperatura no espaço sideral, muito menos se eu havia herdado alguma característica alienígena de minha mãe que me permitisse resistir ao vácuo, mas até que a ideia de arriscar uma possível morte viajando do lado de fora da nave parecia ser bem mais interessante se comparada a situação do lado de dentro da mesma.
O Batman se manteve calado pela maior parte do tempo, e quando finalmente nos aproximamos da órbita de Tamaran, este todo rodeado de espaçonaves gigantes exalando um enorme teor de tecnologia e inteligência artificial, o clima ficou ainda mais peso. Com a ajuda do camuflador mais potente já criado por tio Victor, conseguimos passar sem sermos notados. Apesar do momento extremamente tenso, não conseguimos trocar nem somente alguns olhares.
Sabia, acima de tudo, que aquilo seria um problema doa grandes. Meus poucos dias como membro dos Jovens Titãs me fez perceber o quanto não trabalhar em equipe podia ser um desastre total, e bem, eu ainda não estava considerando o grande fato de que eu iria conhecer minha mãe depois de 20 longos anos vivendo sem saber quase nada sobre a mesma. Como deveria reagir? O que diabos eu deveria fazer?
Meus conceitos em relação à minha mãe eram muito vagos, e com um pai que só me falava o básico do básico que mais consistia em uma conversa de apaixonado arrependido, tudo o que eu podia concluir se baseava em achar minha mãe extremamente egoísta e covarde.
O que eu significava para ela, no fim das contas? Por que resolvi me arriscar em uma missão por alguém que nunca esteve presente em minha vida?
Tivemos de aterrissar em uma parte completamente isolada. Lembrava-me de ler algo dos dados da Liga da Justiça os quais relatavam Tamaran como um planeta verde, rico em vida vegetal e animal. O cenário que eu via, no entanto, era devastador: tudo se resumia a cor de areia e negro. Era como se o planeta tivesse passado por uma repaginada que consistia basicamente em fogo e destruição. Dava para reconhecer restos de vilas, comidas, tamaraneanos... A sensação de ver corpos sem vida totalmente destroçados e expostos a aquele sol de matar foi bem agonizante.
— O camuflador de Cyborg não durará muito tempo. Temos de agir rápido. — Falou meu pai enquanto pegava um dos cadáveres e tirava do mesmo as vestes maltrapilhas. — Não pareço em nada com um tamaraneano, mas devo enganar mais vestindo essas coisas.
Pelo menos eu tinha uma vantagem em cima dele. Ruim foi ter de trajar trapos ensanguentados e bem fedidos, além do mais já estava me acostumando com o tal uniforme. Deixamos tudo na nave, a qual, apesar de estar sendo protegida pela engenhoca de tio Victor, estava bem escondida por entre restos de muros abandonados.
Seguimos caminhando em silêncio por caminhos ainda mais devastados. O planeta parecia ser dividido em um conjunto de florestas, os quais abrigavam uma gigante metrópole e um castelo em seu centro. Estas últimas coisas, apesar dos apesares, ainda estavam de pé, porém encontravam-se a beira da ruína. Um monte de lagartos gigantes envoltos em armaduras, carregando armas gigantes e transportando tamaraneanos escravos caminhavam de um lado para o outro, atentos a qualquer coisa. Eles eram duas vezes maiores do que os bichos estranhos que haviam chegado na Terra, além de se comunicarem em um dialeto estranho e peculiar.
— Se alguns desses ai chegarem à Terra, estaremos totalmente ferrados. — Comentei alto sem perceber.
— Quieta, Ma'ri! — O Batman falou. Estávamos caminhando devagar por entre antigas barracas de alimentos, as quais mantinham-se infestadas de bichos nojentos e alienígenas enfermes. Uma velhinha tentou se apoiar em mim do nada, mas logo caiu por falta de forças.
Eu nunca tinha visto uma situação como aquela.
Meu coração tornou-se tão minúsculo quanto uma formiga.
— Precisamos descobrir onde sua mãe está. — Papai falava baixo a fim de não chamar a atenção dos guardas. — Acho que eles a mantém prisioneira dentro do castelo.
— O que diabos essas coisas querem? Por que estão fazendo isso?
— Irei descobrir... — Antes que pudesse terminar a frase, um dos enormes lagartos os quais não vimos se aproximar segurou meu pai pela cabeça e começou a examiná-lo.
Não fazia a menor ideia do que fazer, se estragava o disfarce e partia para cima ou se continuava a fingir que nada daquilo me atingia. O monstro girava o corpo do meu pai como se não passasse de um brinquedinho, e após alguns minutos, jogou o mesmo para outro monstro próximo, o qual saiu andando em direção a um beco próximo.
O olhar que meu pai trocou comigo falou por si só.
Engoli o medo, a insegurança, o desconhecido, firmei-me em meus dois pés e encarei a criatura bizarra com o mais medroso dos semblantes, a fim de demonstrar uma espécie de respeito ridículo. A criatura, em resposta, soltou uma risada grotesca e murmurou algo em sua língua rude. Continuei andando como se nada tivesse acontecido, tentando me lembrar os caminhos pelos quais vi meu pai e seu raptor atravessarem antes de sumirem pela paisagem catastrófica.
As várias valas, fumaça e destroços me levaram para os portões do castelo, os quais estavam fortemente protegidos por um exército ainda mais armado e medonho. Afastei-me um pouco e me escondi por entre os escombros. Como conseguiria entrar ali para achar meu pai, minha mãe ou quem quer que fosse?
Havia algumas janelas entreabertas nas quais eu poderia entrar voando com certeza, mas e se eu fosse pega?
Queria poder ter herdado o lado estrategista do meu pai naquele momento.
A única solução que mais me foi plausível naquele momento com certeza foderia comigo no fim de tudo, mas eu não tinha escolha.
Tomando todo o impulso que tinha em meu corpo, voei o mais alto e rápido que podia para não chamar tanta atenção dos monstros, e após concentrar minha força em ambos os meus punhos cerrados, voltei com tudo para a torre mais alta do castelo, quebrando uma pequena parte do teto triangular. Acabei não calculando bem a aterrissagem, o que me fez cair de cara no que parecia ser a sala do trono, totalmente cercada por lagartos gigantes, entre eles, uma das criaturas me chamou a atenção por além de estar sentado no trono, parecer ser bem mais inteligente que todos os outros apenas por seu olhar em direção a mim.
— Pois é, senhores... — Fui falando ironicamente enquanto tentava dizer para mim mesma que tudo iria acabar bem. — Está na hora de começarmos a festa aqui, certo?
Antes mesmo de eu terminar o deboche, todas as armas e combatentes corpo a corpo estavam caindo sobre mim. Tive de ser rápida e forte o suficiente para nocautear um ou outro enquanto lançava raios pelos olhos, na tentativa de atingir pelo menos uma maioria considerável. Já havia abatido uns três, o que havia me deixado esperançosa o suficiente até que fui acertada nas costas por um soco, e tudo a partir dali só resultou em dor atrás de dor. Estava quase vomitando sangue quando, presa por dois dos lagartos, fui poupada pelo lagarto sentado no trono.
— Inglês sua língua é, certo? — Minha desconfiança só tomou proporções de certeza ao ouvi-lo falar.
— Se considera esse seu terror à gramática como inglês... — Mais um soco me atingiu bem no rosto.
— Percebido você já deve ter que em desvantagem está. Mais uma gracinha e morta será antes mesmo de piscar os olhos. — Um sorriso nojento instalou-se no rosto réptil do bicho. — Não pense que não percebemos a invasão e os planos feitos por você e seu ajudante. Esperava eu que a rainha de Tamaran muitos amigos realmente tivessem...
— Só me explica o que diabos são vocês... — Não tinha nem mais forças para levar ar aos pulmões.
— Já percebemos que as tão ditas raças superiores que nos cercam realmente de nada valem, são como merda. — A sua risada era nojenta e assustadora. — Os mais fortes de todas as galáxias nós somos. Tamaran de grande ajuda serviu. Com a energia que conseguimos deste planeta e dos outros que já destruímos, a galáxia nós governaremos.
Então era isso? Uma raça alienígena aparentemente foda e poderosa que queria acabar com tudo? Qual era o maldito propósito com aquilo? O que eles ganhariam?
— Não vão conseguir... — Gritei enquanto cuspia nos pés dos idiotas que me seguravam.
— Tola... Nós já conseguimos. — Sua atenção mudou de mim para seus capangas. — Poderosa como a rainha a menina é. Tirem seus poderes e no calabouço a joguem.
— COMO É?!
Só houveram forças para gritar, até meus raios saiam fracos o suficiente para derrubar aqueles brutamontes. Arrastaram-me como se eu não passasse de um saco cheio de farinha até o que parecia ser as masmorras do castelo, as quais estavam lotadas de tamaraneanos miseráveis implorando por suas vidas. Após passar por algumas celas, finalmente chegaram em algum lugar: na frente de uma porta de metal altamente reforçada. Com alguns apertos de botões e reconhecimento facial, a pesada porta se abriu e eu fui jogada para dentro.
Não conseguia mais ficar de pé, muito menos ter esperança em alguma coisa.
O ar da sala era carregado, pesado. O tom da luz era de um azul que transitava entre o claro e o escuro. Pela estrutura do local e por como eu estava me sentido, poderia deduzir quase com 100% de certeza de que estava em uma sala com capacidade de neutralização de células inumanas. Ou seja: sem poderes, nadica de nada.
Eu não queria me dar por vencida. Puta merda, eu não podia me dar por vencida! Todo o esforço até ali, todos os que contavam comigo na Terra... E ainda havia tanta coisa não dita sobre o inferno que estava a assolar não só meu planeta, como praticamente várias outras galáxias...
Arrastei-me até a porta. Assim que cheguei perto da mesma, esforcei-me para ficar sentada e comecei a bater no metal frio. Depois de dado momento, quando meus punhos já sangravam e evidenciavam hematomas, uma voz no fundo da sala falou.
Eu não estava sozinha?
— Eles irão se irritar. Sugiro que pare.
Conhecia aquela voz tão bem e ao mesmo tempo, não fazia a menor ideia de quem poderia ser. Lembrei de um sonho, um sonho bom que havia tido quando criança, mas tal estava tão embaraçado em minha mente... Uma canção de ninar, talvez?
Espremi os olhos tentando focar minha visão no canto da sala azul. Estava um pouco difícil de enxergar, mas até a criatura mais inóspita do mundo saberia reconhecer a mulher dos cabelos de fogo.
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