Notas iniciais
Descobrir que sua mãe pode ser a causadora de todo o mal que assombra a Terra não é nada fácil. Cabe a Kori começar a entender a si mesma e suas origens para então se consertar e assumir suas responsabilidades. Um pequeno rodapé aqui: queria pedir mil desculpas pela demora para atualizar. Se tem uma coisa que eu não sei administrar é meu tempo, mas garanto que os comentários que recebo na fanfic me ajudam a querer postar mais e mais, então muito obrigada de coração a todos que acompanham!

Seria idiotice acreditar que tudo na vida está conectado tanto de maneira explícita como implícita? O que seria dos signos, do destino, dos tais dejà vu, se não fosse esse tipo de pensamento? No fim, seríamos todos ramificações de uma estrada que se encontra em determinado ponto?

Eu não sabia responder minhas próprias perguntas, por mais que elas estivessem dentro e fora do contexto ao mesmo tempo. Minha mente andava uma bagunça ultimamente desde a grande reviravolta que me aconteceu a alguns dias atrás. Deixei de ser somente a Mar'i Grayson que treinava com robôs e cursava Direito para me tornar a Estrela da Noite, integrante de um grupo de bocós adolescentes com poderes e roupas coloridas, tudo isso para combater uma ameaça que ninguém sabia ao certo do que se tratava. A cada piscada, uma novidade me bombardeava por mais que já estivesse cansada das mesmas.

O negócio poderia muito bem não piorar, mas ai descubro junto com todos os heróis que protegem não só a Terra como boa parte do universo que a tal "calamidade de proporções absurdas" está instalada — quase como um bebê em um berço — no planeta em que Estelar, dita cuja minha mãe.

Em todas as poucas vezes em que visitei aquela sala de reuniões, eu nunca havia presenciado um silêncio tão assustador. Estive cara a cara com os bichos que poderiam dar um fim definitivo no meu planeta e com certeza eles me pareceram bem problemáticos e duros na queda, mas eu os enfrentaria numa boa até aos montes, tudo para não continuar naquela sala, observando aquela mesa cheia de gente que tinha a responsabilidade de salvar vidas nas costas. O sentimento de medo, confusão e desentendimento pairava sobre todas as cabeças, fazendo com que até mesmo uma encarada valesse por mais de mil palavras.

Por sorte, tínhamos o homem mais poderoso de todos os tempos para quebrar o gelo.

— Não sou capaz de opinar em relação a isso. Eu seria bastante imprudente, já que Tamaran nunca teve boa relação com Krypton. — Os braços permaneciam cruzados sobre o S que não era S em seu peito.

— Duvido muito de que eu seja a pessoa mais qualificada para falar de políticas, ataques alienígenas e derivados, — Tio Garfield se manifestou. — mas uma coisa posso afirmar com certeza: Kori não está envolvida nisso. Pelo contrário, ela deve estar em perigo!

— E por que ela não pediu ajuda? Temos um acordo diplomático com Tamaran a mais de 20 anos, certo? — Guardião pontuou. — Por que não nos contataram?

— Acho que todos sabemos o quanto os tamaranianos são orgulhosos demais para pedir qualquer tipo de ajuda. — Tia Donna falou. Pelo seu olhar perdido na janela que dava para o espaço vácuo e imerso de estrelas, pude perceber a preocupação em seu estado. Elas (Donna Troy e minha mãe) haviam sido melhores amigas no passado, tanto que eu tinha a substituta da Mulher Maravilha como minha madrinha. Não sabia como tinha ficado a relação das duas depois de... Sei lá o que.

— Não podemos esquecer do amor que Kori tinha pelo planeta Terra e por seus habitantes. Ela já foi uma titã, e mesmo junto comigo e com Jason, ela se importava com o bem estar de quem a acolheu durante muito tempo. Não tem como isso ser plano dela. Algo muito estranho está acontecendo, maior do que nossa percepção de perigo até agora. — Por um segundo, pude jurar que Roy Harper me encarou com certa pena. Sorte de eu não ter percebido com muita clareza os seus sentimentos. Caso contrário, ficaria muito furiosa.

Só vim notar no fim de todo aquele jogo de respostas que os olhares de praticamente a sala inteira estavam voltados para somente uma pessoa: Dick Grayson. Sua cabeça permanecia baixa, uma das mãos cerrada em forma de punho pousada sobre a mesa. Não havia expressão, muito menos algum movimento mais contundente.

Ao contrário deles, eu não fazia a menor ideia da história do meu pai e da minha mãe. Meu conhecimento era algo tão superficial quanto a pele. Colegas de equipe, várias idas e vindas, casamento arruinado, ela foi embora por algum motivo X abandonando todo mundo e eu nasci, fim de papo. Quando eu e o então Batman éramos próximos, — Nem me recordo mais desse tempo com tanta maestria — suas histórias resumiam-se em uma mulher bastante bonita e forte, muito forte. Fazia questão de destacar essa parte quase sempre. Nada mais.

Eu também não procurava me interessar em nada do que os relacionavam. As curiosidades que tive acerca dela, as matei com o tempo. Eu era, por direito, herdeira de um trono que nem cheguei a conhecer. Ela era, por assim dizer, uma rainha que foi escravizada por culpa do seu próprio povo, abandonada na Terra, contudo acolhida como uma filha, depois retomada pelo o que "acreditava" ser certo, essas coisas, ridículas coisas. Deixar de ficar com o que parecia ter sido o amor de sua vida e seu filho para cuidar dos restos mortais de um planeta que tão mal a pariu? Ainda bem que burrice não era hereditário.

Todos esperavam uma coisa do meu pai, nem que fosse uma única frase. Afinal de contas, todos podiam ser até melhores amigos de Estelar, mas somente Dick Grayson a conhecia com os olhos e com o coração. Sua opinião podia ser, então, uma boa pista para a desmistificação ou compreensão do que estava acontecendo.

— Eu vou até Tamaran — O rosto baixo do Batman começou a levantar lentamente, trazendo todo o peso e seriedade do seu tom de voz de maneira ainda mais obscura. — e descobrirei o que está acontecendo. Tudo o que posso dizer é que sei que Kori não está por trás disso. Cyborg! — Tio Victor tentou esconder a expressão de choque e se dirigiu até seu amigo. — Preciso de uma nave. Pode ser qualquer uma de baixo porte do Wayne.

— Ahn... Ok. Tudo estará pronto em 30 minutos. — Falou prontamente Cyborg, já teclando em algumas coisas da sua cadeira.

— 20, se possível. — De repente, a cadeira em que meu pai estava sentado se dirigiu em direção ao chão como se tivesse estacionado. — Superman, desculpe por estar saindo das linhas de frente.

Este nada disse, apenas assentiu com a cabeça e assistiu junto comigo e com o resto de todos os presentes da sala a saída do cavaleiro das trevas do recinto.

O silêncio foi tão cortante que quase me matou.

A reunião acabou a partir dali. Todos voltaram para sua luta incessante enquanto os Jovens Titãs deveriam ficar na espreita da Terra, aguardando pelo pior. Se algo estava acontecendo, eu não fazia a menor ideia. Meu quarto era a única coisa da qual eu queria ter algum tipo de conhecimento.

Inclusive, foi nessa explorada por aquela sala tão fria e branca que descobri que uma das paredes, na verdade, era uma imensa janela escondida que dava uma vista incrível para Terra. Foi admirando aquela vista que as primeiras lágrimas começaram a rolar do meu rosto para só então tudo vir à tona.

Por mais que eu não conseguisse compreender o que havia de errado comigo, estava tudo relativamente bom do jeito que estava: encolhida na cama com a luz baixa, somente sendo iluminada pela luz da lua, das estrelas e da Terra. Acho que essa era uma característica minha que até então eu não havia descoberto. Gostava, acima de tudo, de explodir para mim mesma. Ou melhor, implodir.

Contudo, como tudo o que aconteceu na minha vida, algo sempre tinha de vir para atrapalhar meu sossego. Naquele caso, foram três batidas na porta de metal. E para minha surpresa, era Damian Wayne.

— O que você quer? — Enxuguei as lágrimas rapidamente antes de abrir a porta e dar de cara com o imbecil, o qual já nem trajava mais a roupa do Robin.

— Precisamos conversar.

— Não enche o meu saco, Damian. — Falei, dando as costas para ele. Percebi por canto de olho que o braço do mesmo já estava impedindo a porta de fechar, dando-lhe um espaço mínimo, mas suficiente para que pudesse entrar.

— Não gosto de abusar da autoridade, até porque nunca tive autoridade pra nada, mas como líder dos Jovens Titãs, posso exigir sua atenção o quanto eu quiser.

Ignorei suas palavras enquanto voltava a ficar encolhida em minha cama.

— Só diga logo o que quer e vá embora em seguida.

Após um suspiro, Damian ousou a chegar mais perto da cama.

— Olha só, Mar'i... — Ele coçava a cabeça como se aquilo fosse ajudá-lo a encontrar as palavras certas. — O pessoal, sabe? Olivia, Avia e Manotaur me mandaram vir aqui em nome de todos os Jovens Titãs... Para dizer que, ahn, sei lá, estamos aqui.

Era a primeira vez que eu via Damian tão inseguro de suas atitudes. Não pude deixar de mostrar um sorriso de ironia.

— Não entendi. — Falei rispidamente.

— Não me obrigue a fazer o papel de colega de trabalho preocupado. Por mais que eu realmente esteja, acredite: não é com você. Mas querendo ou não, somos uma droga de um time, e foi bem perceptível em nossa primeira batalha que quando não estamos em sintonia, não passamos de um bando de aberrações. — Seu jeito ríspido não me assustou muito, mas suas palavras foram bastante contundentes ao ponto de prenderem minha atenção. Voltei meus olhos para ele e o encarei profundamente, tanto que ele chegou a desviar o olhar várias vezes.

Foram raríssimas as vezes em que vi Damian Wayne como Damian Wayne, ainda mais sem aquela máscara que escondia as suas linhas de expressão e olhos. Por falar em olhos, os dele eram bastante expressivos e frios.

— Se algo estiver acontecendo, pode vir me chamar e eu estarei pronta para prestar os meus serviços como a guardiã da Terra que tenho que ser. Até lá, eu só quero ficar sozinha. Se você não percebeu, não só sou eu que estou uma bagunça. Minha... Minha família inteira é uma bagunça.

— Bem... — Após um longo período de falta de palavras, Damian voltou a abrir a boca. — Posso não ser filho do Dick, mas por circunstâncias, acabo por ser meio irmão. Isso não me aproxima dele mais intimamente. Nós dois sabemos que ele não sabia dar atenção a nós dois da maneira que devia ou sei lá. — Ele encarava o planeta Terra junto comigo. — Contudo, devido as obrigações de Batman e Robin, pude viver momentos em que, por milésimos de segundo, eu conseguisse identificar algo mais em Dick, algo mais além do rosto duro e do instinto idiota de ser mandão: ele ama a sua mãe, Mar'i.

Estalei a língua, achando o seu papo bastante entediante. Fiquei até um pouco irritada por ouvi-lo me chamar pelo nome. Ele não tinha intimidade para tal feito.

— Dick Grayson pode ser falho em muitos aspectos, porém eu confio muito no seu senso de confiança, e creio que a princesa Koriand'r de Tamaran seja a pessoa por quem ele colocaria a mão no fogo se preciso. — Pude perceber que ele virou de costas para mim. — Não sei se isso te ajudou. Acho que seu principal problema é estar confusa. Se essa informação que lhe dei acabar por clarear sua mente, ótimo. Caso contrário, sinto muito.

O que aquilo tinha vindo a acrescentar? No fim das contas, ele só havia me deixado ainda mais irritada com o fato do meu pai se importar tanto com uma pessoa que obviamente não dava a mínima para ele. Contudo, tentando deixar de lado o meu lado mais resmungão e criança, aquele tinha sido um ato... Bastante nobre, principalmente da parte do menino rabo-de-saia do meu pai que aparentemente me detestava. Ele realmente parecia ter porte de líder. Antes que Damian pudesse sair do meu quarto, pedi para que esperasse.

— Obrigada por isso. — Joguei para dentro da garganta todo o orgulho e me pus a falar. O sorriso debochado que surgiu no rosto dele, no entanto, quase fez com que me arrependesse.

— E ahn, mais uma coisa: falar da minha família. — Após perceber minha cara de interrogação, ele sorriu em deboche e continuou antes de sair do meu quarto. — Esse é meu ponto fraco.

Por algum motivo que até então tento desvendar, eu sorri com aquilo.

E tomei uma decisão.

A "garagem" da nave da Liga da Justiça era completíssima: de cabo a rabo haviam diversos modelos de aeronaves e coisas do tipo. Tive de refazer mentalmente a parte de fora daquela nave várias vezes na minha mente, perguntando-me como algo conseguia ser tão grande, tecnológico e bem construído. Não muito longe da entrada, era possível ver meu tio dando os últimos reparos em um caça estelar, e meu pai estava ao seu lado, parecendo pronto o suficiente para embarcar na sua viagem. Tomei os 3 segundos de coragem necessários e caminhei até lá.

Ao perceberem minha presença, Cyborg apenas me cumprimentou com a cabeça e se direcionou para o outro lado do caça. Ele pareceu perceber que eu e meu pai precisávamos de privacidade para conversar. Já este, no entanto, não mostrava nem um pingo de interesse.

— Veio se despedir? — Perguntou enquanto digitava alguma coisa em um painel qualquer.

— Vim me juntar a você. — Eu realmente estava determinada a me reaproximar do meu pai a fim de tentar entendê-lo, além de claro, tentar não ter vontade de socar a cara da minha mãe quando a visse.

Sua expressão de desgosto não me foi uma surpresa.

— Você tem um dever para com a Terra, Mar'i. Não pode deixar isso para trás.

— Não só posso como vou. — Minhas palavras fizeram com que seu olhar furioso se voltasse para mim, mas não deixei me abalar. Isso não aconteceria mais. — Eu quero me tornar uma heroína tão boa quanto todos os heróis da Liga da Justiça, e os Jovens Titãs, por mais que eu não curte admitir isso, estão me dando essa chance de reconhecer alguns... Errinhos meus. — Foi extremamente calmante conseguir arrancar um pequeno sorriso sem dentes de sua expressão cálida. — Mas antes de ser heroína, antes de ser qualquer coisa, eu sou a sua filha, e minha família está com problemas.

Eu sabia que não havia o intimidado. Talvez eu nem o tivesse tocado fundo do jeito que eu achei que seria.

Mesmo assim, funcionou. Seus olhos ocultos caíram sobre os meus, e as palavras proferidas por ele foram o suficiente: — Esteja pronta em cinco minutos.

— Quatro, se possível. — Concluí.

Notas finais
Mar'i e Dick embarcam em uma jornada para descobrir os mistérios por trás das descobertas que envolvem Kori. Enquanto isso, os Jovens Titãs se encontram totalmente desnorteados na batalha contra o mal.