Notas iniciais
Mar'i Grayson está a um passo de descobrir o que está acontecendo com o universo, tendo de tomar uma importante decisão que pode colocar em jogo a segurança da Terra.

Se eu já não tivesse quase morrido devido à dor nos olhos uma vez, provavelmente estaria chorando litros naquele momento. Parecia que, ao invés de globos oculares, eu possuía duas bolas de fogo no lugar.

Tudo aconteceu em uma manhã de quarta. Eu estava prestes a me acordar para ir para a escola como em qualquer outro dia da minha terrível vida na época da quarta série quando, de repente, fui despertada por uma incessante agonia que me deixou enxergando tudo preto. Eu vomitava e gritava. Mesmo quase cega, pude ver no fim a morte quase me alcançando quando, por um passe de mágica, raios de uma cor púrpura chicotearam as paredes do meu quarto, destruindo literalmente um cômodo da mansão Wayne. Demoraram dois dias para que minha visão voltasse e mais um bom tempo para me acostumar com o novo poder descoberto, poder esse que me deixou de recuperação na grande maioria das matérias. Ponto para meus primeiros fracassos.

Levantei-me quase em um salto, piscando forte várias vezes para espantar o mal que me cercava a vista. Engoli a seco quando percebi que não conhecia o lugar em que eu estava. Tudo o que havia na enorme sala era uma maca na qual eu me encontrava e alguns aparelhos para medir pulsação, etc. As paredes do lugar eram de uma prata fortíssima, eu tinha em mente um tipo de metal extremamente raro e forte. O piso era iluminado por uma luz branca e incandescente, que só fez a ardência dos meus olhos voltar por alguns segundos. Onde diabos eu estava?!

Vários flashs do que havia acontecido na noite anterior me atingiram um por um, desde minha ida a Gotham e discussão com Damian até o grande meteoro, a nave da LJI... Seria possível que...

Em meio as minhas várias perguntas mentais, as portas eletrônicas da sala se abriram, dando-me a visita de ninguém menos que Donna Troy em seu traje de Mulher Maravilha.

Tia Donna era uma das minhas “parentes” mais próximas, tirando tio Victor. Não houve um aniversário meu em que ela não estivesse presente, além de toda a atenção que ela tentava ter comigo, entre conversas bobas sobre garotos da faculdade até assuntos mais complexos como minha mãe. Ela gostava de falar de sua melhor amiga e do quanto Estelar devia estar olhando por mim mesmo de longe, me amando do mesmo jeito. De papo bom a papo furado, tia Donna havia se tornado uma espécie de mãe.

Não me contive quando a vi, e tirando rapidamente os cabos que me prendiam aos aparelhos, corri até ela e a abracei forte. Fui correspondida imediatamente entre sorrisos e cumplicidade. Seu olhar em direção a minha roupa foi de total aprovação.

— Amei seu uniforme. – Comentou enquanto mexia em meus longos cabelos negros.

Apenas concordei com a cabeça, deixando a curiosidade me atacar. Eu tentava enxergar além de seu ombro para ver se conseguia identificar melhor o lugar em que eu estava. Percebendo isso, tia Donna revirou os olhos com certo ar de riso e falou: — Não se preocupe, você está salva.

— Mesmo que não estivesse, daria um jeito de me safar. – Confessei, afastando-me um pouco dela. – Estou mais curiosa para saber onde eu estou e o que aconteceu com aquele meteoro. Você estava lá, não estava? – Eu lembrava vagamente de ter visto seu rosto por trás de mim antes de apagar.

— Ué, onde você acha que está? – Perguntou cruzando os braços. – Pensei que sonhasse demais com esse lugar ao ponto de reconhecê-lo somente pelo ar do mesmo.

Por mais óbvio que fosse, precisei de alguns segundos para conter minha emoção ao saber que eu estava na base da Liga da Justiça. Pelo jeito, não consegui disfarçar a expressão de contentamento por me tocar daquilo, tanto que tia Donna se pôs a rir de mim.

— Mas por que estou aqui? – Perguntei rápido demais. – Eu ainda não entendi porque toda a Liga estava em Gotham ontem...

— Todas as suas dúvidas serão respondidas em breve, Mar’i. Agora, tudo o que precisa pensar é no seu bem e no que virá pela frente. – Seu tom de voz ficou mais sério, o que plantou milhões de outras interrogações na minha cabeça. Quando eu estava prestes a abrir minha boca mais uma vez, tia Donna simplesmente se virou e foi em direção a porta, esperando que eu a seguisse sem pronunciar mais um piu.

Se aquilo era necessário para se obter mais respostas, fiz o que me foi induzido.

Mesmo imaginando a base da Liga da Justiça em meus sonhos, ela não era nada parecia com o que me vinha na mente. Por mais destruída que a Torre Titã fosse, ainda havia vários quadros com fotos dos integrantes e pinturas que simbolizavam a amizade e coisas do tipo. Eu sabia que a Liga era uma equipe mais séria e focada, mas mesmo assim, achei que aquele sentimento de família dos Titãs também se fazia presente ali, contudo, todas as paredes daquela nave eram do mesmo jeito que na sala: feitas da tal prata fortíssima, sem fotos nem nada disso. Apenas as divisões das portas davam tons distintos pelo imenso vão. Era tudo bem frio, literalmente frio.

Depois de caminhar por um longo corredor de aspecto oval, chegamos até a maior das portas eletrônicas do lugar. As mesmas se abriram assim que tia Donna pôs a mão em um painel de decodificação super moderno. Uma mesa comprida e gigante tomava a maior parte da sala, com várias cadeiras em designers diversos, tudo flutuante. Um computador ainda maior que o de tio Victor tomava conta de uma parede inteira, fora os vários teclados e mini laboratórios espalhados por todo o lugar. O que mais me chamou a atenção ali – fora os vários super heróis reunidos – foi uma janela que, assim como o computador, tomava conta de uma parede inteira, dando vista para a Terra, esta resplandecia um poderio impressionante dentro do universo negro rodeado de estrelas, além da lua no canto. Era uma visão absurdamente linda.

— Mar’i Grayson... – A voz do Superman podia causar terremotos até mesmo no espaço. Tive de engolir a seco e baixar um pouco a cabeça para me sentir mais à vontade ouvindo suas palavras. – Estávamos aguardando você.

Não sabia o que aquilo significava, mas tudo o que me veio na cabeça foi: você fez uma merda muito, mais muito grande! e esse pensamento ficou ainda mais concretizado quando os olhos do meu pai pousaram em mim. Mesmo com aquela máscara, pude sentir o cortante sentimento de angústia que ele sentia.

Entre os presentes da sala, fora tia Donna – que agora tomava a cadeira à direita do Superman -, tio Victor – que me olhava com uma mistura de dó e curiosidade enquanto dividia sua atenção com o computador e seus mini apetrechos dentro daquela cadeira -, meu pai – nem preciso comentar – e o próprio Superman, ainda estavam lá Arqueiro Verde, tio Barry – não o via fazia anos. Nem sabia se seu ruivo se mantinha vivo por debaixo daquela máscara -, Aquaman, Gavião Negro, a famosa recrutadora já meio velha Vixen, tio Garfield – mesmo um pouco gordo, papai dizia que seus talentos metamorfos não haviam sido afetados com o tempo -, Guardião entre várias outras lendas. Senti-me incrível estando ali, tanto que cheguei a sorrir para todos mesmo prevendo encrenca.

— Então... – Ao longe da mesa, uma voz descontraída veio à tona. Eu o reconhecia pelo uniforme e pelo braço protótipo, além do tom de deboche que escondia seu lado mais sombrio. Ricardito sorria maliciosa para mim. – Esta é a filha do Dick? Devo dizer que ela teve a sorte de puxar a beleza da mãe...

— Por favor, — Meu pai pediu, mostrando-se incrivelmente imponente. – precisamos tratar dos assuntos mais importantes primeiros.

— Está certíssimo, Richard. – Superman concordou com a cabeça, voando até perto de mim. Lá estava eu, de frente para aquela enorme mesa, tendo toda a atenção voltada para mim. Não era aquilo o que eu queria, afinal? Por que diabos estava tão nervosa? Endireitei a postura, tentando me mostrar o mais confiante possível, mesmo com a fodástica presença ao meu lado. – Mar’i, precisamos conversar com você.

— Sobre? – Arqueei as sobrancelhas. Queria muito poder sentir que aquilo tinha a ver com minha incrível atuação no combate aos crimes em Gotham, mas pelo ar daquela sala, nada de muito bom parecia vir para mim. Preferia acalmar a tal ansiedade, tornar-me mais adulta e profissional possível na frente de todos e segurar a onda. Para piorar tudo, tinha o tal do homem morcego analisando cada passo meu.

— Sobre o que aconteceu na noite de ontem na cidade de Gotham. – O sotaque forte de Aquaman tomou conta do recinto.

Tio Victor tomou as rédeas após aqueles ditos, apertando alguns botões aqui e ali. De súbito, uma cadeira apareceu do nada bem próximo a mim, além de várias imagens minhas lutando contra os bandidos e conversando com Damian na tela do computador, fora os hologramas que tomaram conta da grande mesa. Ver tudo aquilo enquanto me sentava fez lembrar de que eu não havia mais visto Damian depois de tudo.

— O garoto está bem, se quer saber. – Tio Victor tratou de me dizer, percebendo minha atenção maior às imagens.

— A questão é que precisamos saber o que você estava fazendo em Gotham. – Meu pai falou de uma vez enquanto me encarava seriamente.

Respirei fundo antes de falar. Ele não iria me intimidar tão fácil.

— Eu estava com Cyborg – Preferi por chamá-lo assim na frente de todos. – quando ele recebeu o chamado urgente. Imaginei que o Batman também o tivesse recebido. Imaginei que Gotham estivesse desprotegida, já que nunca foi informada de que a cidade possuía um vigilante reserva – Sorri irônica para o meu pai, o qual se contorceu na cadeira para não me dar um bom sermão. Adorei ver aquilo. – e decidi ir combater o crime, foi quando encontrei com o novo Robin.

— Foi quando o meteoro cortou o céu? – Perguntou tia Donna, parecendo bastante atenta às minhas palavras.

— Sobre esse meteoro... – Comecei, cruzando as pernas na cadeira e tirando alguma das madeixas negras que caiam sobre meu rosto. – Eu gostaria de saber o que ele é realmente. Pelo tamanho com o qual ele chegou a cair só me faz concluir que ele era mil vezes maior antes de atingir a atmosfera, ou seja: por pouco ele não acabou com o planeta inteiro ao invés de só um campo de milho. – Os olhares estavam tão atentos em mim que por um minuto eu pensei em me retrair, contudo, eu sabia que estava certa. – Se aquilo não era um meteoro comum, o que obviamente não é, ainda mais com toda aquela radiação que quase matou a mim e ao aprendiz de morcegão, então o que é?

Após um silêncio tão assustador que quase me fez sair voando dali, Superman cerrou seu olhar para mim e admitiu tudo com certo pesar na voz: — Aquilo foi um resto, Mar’i Grayson. Um resto de planeta.

Meus olhos arregalaram-se instantaneamente. Aquilo só podia significar duas coisas: buracos negros próximos à Via Láctea ou uma nova ameaça mandando seu recado, e nenhuma das duas opções me pareciam agradáveis.

— Para ser mais exato, era os restos do planeta AO. – Tio Victor assumiu, voando pela sala em sua cadeira até perto da enorme tela. Imagens do que era o planeta do Lanterna Verde apareceram, mostrando apenas pedaços brilhantes ao redor da órbita.

— Ta legal... – Fui falando, levantando da cadeira e me atrevendo a voar para perto da mesa dos heróis. – Mas o que ocasionou esse estrago todo?

A expressão do meu pai para mim foi uma mistura de desapontamento misturado com mais tudo o que eu pude pensar de ruim. Arqueei as sobrancelhas para ele, sem entender o que aquilo significava.

— Entenda, Mar’i, que o que estamos lhe contando aqui é de extrema importância e perigo. – Tia Donna enfatizou, olhando do meu pai para mim posteriormente.

Confirmei com a cabeça, tentando ao menos me preparar para a grande notícia.

— Ainda não sabemos ao certo o que está acontecendo, mas o planeta AO, junto com mais dois planetas da galáxia K-35 foram destruídos como em um piscar de olhos. – Meu pai tomou a explicação, parecendo tão poderoso quanto qualquer um ali presente. – Após as explosões, além da aniquilação total de todos os habitantes destes planetas... – As palavras pareciam doer como tiros de bala. – Vários pedaços de solo e afins atingiram outros planetas, todos eles carregados com essa radiação verde. Ao que parece, até onde o próprio Lanterna Verde sabe, AO havia sido atingido por um meteoro similar antes da destruição...

— Isso quer dizer que... – Comecei, mas para a sorte e tranquilização dos meus pensamentos, tio Garfield me interrompeu.

— Deixamos uma parte de nós na Terra para que pudéssemos destruir o meteoro antes de qualquer coisa. Não há mais um pedaço de planeta lá, mas a radiação... Está afetando Gotham aos poucos... Não sabemos se conseguiremos parar. – Engoliu a seco junto com boa parte dos presentes.

— E como se a situação já não estivesse feia o suficiente, uma guerra civil está acontecendo nos intermédios dos destroços destes planetas. Esses alienígenas que nunca vimos antes podem ser a causa de todo o problema, mas até então, tudo é uma incógnita. – Superman terminou o pensamento, deixando todos guardando o pesar das tragédias. Por mais que aquilo fosse realmente triste, não podia me deixar abater como todos pareciam estar.

— Como estão lidando com isso? Quer dizer, o que está sendo feito? – Perguntei em um maior tom de voz.

— Lanterna Verde está com uma leva de heróis nossa no espaço parar proteção da Terra e batalha contra os tais aliens que sobraram. Outra parte, liderada pela Mulher Gavião está na Terra, em Gotham, mais precisamente, para analisar a radiação. – Tio Victor informou-me enquanto conferia uma prancheta holográfica.

— É aqui que você entra, Mar’i. – O sorriso de Vixen para mim era extremamente nostálgico, o que não me fez entender o porquê daquilo.

— Não sei se você sabe, mas a Liga também tem compromisso com o universo e os respectivos planetas aliados. Precisamos de todos nós batalhando nas fronteiras onde os aliens apareceram para garantir que mais nenhum planeta fora a Terra seja destruída. – Meu pai falava arrastado, como se não quisesse de maneira alguma estar discursando aquelas palavras. – Contudo, nossa obrigação com a Terra é prioritária. Precisamos de uma equipe exclusiva em nosso lar, combatendo não somente os crimes humanos como a radiação, etc.

— Precisamos de uma equipe de heróis qualificados, dispostos e jovens para tomar conta dessa ameaça desconhecida. – Superman sorriu carinhosamente para mim. – Por isso, estamos reabrindo o projeto Jovens Titãs, e queremos você na equipe, Mar’i Grayson.

Foi como não ter escutado aquela notícia. Ou melhor, foi como engolir um pedaço gigante de carne sem mastigar.

Desde pequena, eu sonhava em me tornar parte de algo muito maior como a própria Liga da Justiça, porém, não era do meu almejar ser apenas uma integrante, e sim a integrante, uma espécie de Mulher Maravilha que praticamente tomava conta de tudo. Eu tinha capacidade para aquilo e sabia muito bem, não poderia me contentar com uma simples vaga, mesmo sabendo que teria de começar por baixo como todo mundo.

Como não crescer sem conhecer a história do grupo formado pelo meu pai e parentes? Como não imaginar como eram os tempos de glória e queda vivendo na casa que eles viveram? Era exatamente por isso que eu evitava o máximo os contos de tio Victor e coisas do tipo. Para mim, eles eram uma família, e os dramas particulares demais pareciam afetar em suas tarefas. Se fossem menos focados em todo o dramalhão adolescente da época, com certeza não teriam sido extintos, muito menos separados. Aquele pedido só não me foi um insulto tremendo porque, no fundo, não queria magoar nenhum conhecido daquela mesa, mas esconder meu descontentamento não era fácil. Nunca foi.

— Desculpem a ofensa, mas me acho capaz o suficiente de tomar conta da Terra sozinha. – Não foi uma piada, contudo acabei fazendo Ricardito soltar uma silenciosa gargalhada. Olhei-o incrédula.

— Mar’i, isso não se trata do que você acha ou não. – Tia Donna tentou argumentar da maneira mais doce possível, como se eu fosse uma garotinha inconformada com o presente de natal. A vontade que tive foi de acabar com aquela sala inteira. – O perigo que estamos enfrentando aqui é totalmente desconhecido e forte, talvez maior do que aquele que nos assolou nas Noites Mais Densas. Nem o Superman daria conta de tudo sozinho.

— Eu não estarei tomando conta de tudo, apenas do planeta Terra! – Pude ver que as gravações de minha batalha em Gotham apareciam ao fundo na grande tela. – Aquilo o que fiz na noite anterior não é nada comparado ao que posso fazer. Victor sabe, ele me vê treinando todos os dias e...

— Mar’i Koriand’r Grayson. – Quando meu nome completo foi mencionado pela rouquidão daquela maldita voz, cheguei a voar até um pouco mais baixo, ficando com os ombros perto do batente da mesa. Os olhares do morcego me cerravam como se fossem duas facas afiadas. – Os Jovens Titãs foi um dos grupos mais importantes da história dos super heróis. Estamos confiando a você e a outros jovens poderosos a missão de tomar conta de um planeta inteiro. Poderia ser menos agradecida e prestar atenção no que estamos lhe oferecendo?!

Por mais que minha atitude em seguida tenha sido bastante infantil, não agüentei escutar nem mais um segundo daquilo. Afundei-me no ar e saí daquela sala em um jato, sobrevoando pelos corredores vazios sem fazer a menor idéia para onde estava indo. Eu só me queria o mais longe dele, o mais longe de toda aquela conversa fiada. Se nem o meu pai confiava em mim, como os outros fariam o mesmo?

Parei de seguir meu rumo doido quando me vi totalmente perdida. Pousei no chão luminoso e comecei a fazer o caminho de volta. Eu precisava, pelo menos, de alguém que pudesse me indicar a saída mais próxima. Entre andanças e mais andanças, o som do motor da cadeira de tio Victor me foi tão bem audível quanto qualquer outro som familiar. Nossos olhos se encontraram, e pelo menos para ele, eu não precisava fingir ou ter medo de nada.

Nada foi dito. Ele apenas virou de costas e saiu voando, com certeza esperando que eu o acompanhasse. Sem muita alternativa, foi o que fiz.

Nossa caminhada se deu até uma parte mais afastada daqueles corredores frios. Já era possível ver alguns andróides andando por ai, cuidando da limpeza e transportando algumas peças que me eram desconhecidas. Uma sala com porta totalmente negra foi o nosso alvo. Entrei na mesma um pouco relutante por todas as luzes estarem apagadas, mas logo tudo ficou claro.

E porra!!

Vários uniformes de super heróis, desde os mais conhecidos até os que eu nem sabia que existiam, fora as várias armas, equipamentos e etc, tudo muito organizado por tipo de herói. Uma mesa cheia de peças soltas e papéis com projetos era o local o qual tio Victor me esperava. Tive de me forçar a me concentrar no que ele queria, pois estava boba demais encarando tudo aquilo. Praticamente a maior parte da história dos integrantes da Liga estavam ali.

— Eu também ajudo no designer dos uniformes e na escolha dos codinomes junto com a Vixen. – Ele falou, indicando-me com o dedo para as roupas protegidas por um tubo de vidro bem resistente.

— Já vi que eu não sabia de um monte de coisas... – Deixei escapar o deboche, o que o fez revirar os olhos para mim.

— Sei que está sendo difícil para você digerir isso tudo, Mar’i. Realmente sinto muito que as coisas tenham que ser assim...

— Por que isso? É alguma espécie de castigo? – Perguntei, deixando o ódio tomar conta da minha voz. – Você sabe melhor do que ninguém que isso de ser parte de um grupo que não fosse a Liga sempre me foi algo horrível só de pensar. Eu não preciso de gente nas minhas costas. Você sabe que sou capaz!

— Eu sei, Mar’i. Mais do que qualquer pessoa, sei muito bem o que você pode fazer. Mas ei, não encare esse convite como uma ofensa, e sim como uma oportunidade! Você não vê? Todos os Jovens Titãs se tornaram membros da Liga, membros importantíssimos!

— Menos a Koriand’r...

— Não fale sobre o que você não sabe. Além do mais, não gosto quando fala da sua mãe desse jeito. — Advertiu-me com o dedo indicador levantado para mim.

— Aonde você quer chegar, tio Victor? – Cruzei os braços.

— Foi nos Jovens Titãs que tivemos a oportunidade de mostrar os nossos talentos de tal maneira que hoje estamos aqui. – Sua cadeira aproximou-se de mim, fazendo com que uma de suas mãos tomasse um dos meus ombros em um aperto amigo. – Mostre para todos do que você é capaz como guardiã da Terra, e lhe garanto que quando tudo isso acabar, todos, inclusive Dick, reconhecerão a brilhante heroína que você é, e ai seu lugar estará guardado na Liga.

Eu sabia que aquilo era somente um discurso motivacional para me encher de esperança para algo no qual não se tinha certeza. Típico para enganar crianças, mas não a mim. Revirei os olhos após ouvir tudo aquilo, certa de que recusaria do mesmo jeito que recusei diante de todos. Contudo, ao me dirigir para todos aqueles uniformes mais uma vez, encarando um canto mais escuro ao longe, já podia me imaginar ali, minha então armadura e a plaquinha com meu codinome logo abaixo. Eu poderia deixar uma parte mínima para os então “colegas” e tomar conta de tudo sozinha, como uma líder. Seria a minha exigência. Com todos os olhares envoltos em mim, principalmente depois de tudo aquilo, talvez me fosse realmente uma boa chance...

Os Titãs não seriam nada mais nada menos do que minha alavanca para a vitória.

Estalei a língua, decepcionada comigo mesma pela minha então desistência tão rápida.

— Tá bom... Eu aceito. – Falei de uma vez.

Tio Victor não escondeu a emoção, dando uma grande risada seguida de uma dancinha ridícula que me arrancou um riso frouxo.

— Mar’i! Eu já tenho tantos planos para você! Sabia que você não iria me decepcionar! – De repente, ele já estava bem longe, encaminhando-se até o canto mais escuro da sala no qual meu olhar estava mantido. – Venha! Quero lhe mostrar o que já fiz pensando em você!

Fui até ele em um vôo baixo e desanimado. Ainda mais quando percebi que o uniforme do Batman estava bem próximo a um dos tubos apagados.

— Está pronta?! – Perguntou com aquela sua empolgação ridícula. Dei de ombros, apenas.

Apertando em um único botão, a forte luz que cercava todos os tubos acendeu três em específico. Do lado direito, a roupa do primeiro Robin tornou-se vívida. A mesma estava um tanto surrada, possuindo alguns rasgos nas pernas e no peito. Logo abaixo do manequim vestido, uma plaquinha dourada com letras entalhadas me queimava os olhos com os dizeres: Richard “Dick” Grayson – Primeiro Robin. O lado esquerdo, no entanto, quase me fez socar o maldito tudo. O colete violeta e prata colado no corpo, seguido das mimosas botas e restos alienígenas. As fotos espalhadas pela Torre Titã eram os únicos retratos que eu tinha de minha mãe, mas não me era estranho seu uniforme, muito menos a mágoa. A placa dizia simplesmente: Princesa Koriand’r – Estelar. Virando o rosto para não encarar aquilo por mais um segundo, concentrei-me enfim no que tio Victor tanto queria. Uma espécie de maiô roxo com detalhes em prata modelava o manequim. Mangas longas e aparentemente volumosas que iam dos ombros até o pulso puxavam uma longa calda da mesma cor de todo o resto. Uma tiara que tomava todo o contorno do meu rosto até acabar no pescoço condecorava a cabeça, e uma estrela púrpura brilhava forte no centro da testa.

As mesmas malditas botas mimosas.

— Eu... Aventurei-me a lhe fazer um uniforme. Trabalho nesse já faz alguns anos. Tirei inspiração do traje da sua mãe e do seu pai, sabe? Esse lance da capa e tudo mais. – Ele esperava a mais maravilhosa das reações. As semelhanças as quais me faziam lembrar meus pais não haviam me agradado em nada, confesso, mas toda aquela história de dedicação e amor, fora que o traje realmente havia ficado bem bonito... Abri um largo sorriso e voei alto para conseguir abraçá-lo. Não só por aquilo, mas por tudo.

— Obrigada, tio. Eu adorei! – Disse-lhe em um sussurro.

Após um tempo, com ambos admirando a roupa, sua empolgação mais uma vez cortou o momento.

— Bom, você precisa escolher um codinome! Do que seríamos de nós sem ele?

Apesar do meu sonho de heroína ser algo bastante antigo, eu não fazia a menor idéia do nome que eu gostaria de receber. Afinal, eu queria fazer fama em cima do meu próprio nome: Mar’i. Contudo, o olhar robótico de tio Victor me fez crer que ele já tinha o “nome perfeito” para mim, o que me fez sorrir e dar-lhe a deixa.

— Está pronta para o grande nome? – Perguntou-me retoricamente com a maior das alegrias expressas em seu rosto marcado. Fingiu que havia um quadro com o tal nome escrito em sua frente, e aos poucos, usava as mãos como cortina para revelar o mesmo: — Estrela da Noite!

Arqueei ambas as sobrancelhas.

— É sério, tio?

— Mas é claro! É um nome referência em homenagem aos seus pais! Veja, veja... “Estrela” que vem de Estelar e “Noite” na variação de “Noturna” que vem de Asa Noturna, um dos vários codinomes que seu pai já possuiu... – Era incrível como ele não conseguia perceber o quanto toda aquela homenagem barata me irritava.

— Só vou aceitar porque combina com a roupa. – Admiti sinceramente, tomando parte de seu teclado eletrônico. Eu sabia que ele já estava preenchendo meus dados para o registro de heróis. A ficha já estava com meu nome completo, idade, peso, etc. O espaço para codinome, no entanto, estava em branco.

Tendo a certeza de que me arrependeria e muito daquilo depois, digitei letra por letra. Codinome: Estrela da Noite.

Notas finais
Com o projeto "Jovens Titãs" tomando forma para o início, Mar'i conhece seus mais novos colegas de trabalho, podendo ficar muito feliz ou bastante descontente com o que lhe é mostrado.