Codinome Beija-Flor
1 Único
Notas iniciais
“Nós continuamos amigos.”, você disse a repórter. “Não estamos mais juntos, mas Valentina sempre terá um lugar especial no meu coração.”
Era tanta verdade nos seus olhos, nos seus malditos olhos negros, que eu quase acreditei. Você não sabia, é claro, mas eu via a reportagem ao vivo dentro do carro, acompanhando pelo celular a cobertura completa de um dos maiores eventos de televisão do mundo. E você estava lindo de smoking, falando, com uma falsa sinceridade, que você não havia acabado comigo.
“Valentina apagou todas as fotos de vocês das redes sociais. E depois você fez o mesmo. Isso é um bom término?”
Você forçou o riso e abaixou a cabeça, parecendo envergonhado, um culpado pego em flagrante. Mas eu o via e doía, me lembrava dos seus gritos me alertando sobre como aquilo geraria um escândalo, que não era para tanto. Eu não escutei daquela vez e queria não ter escutado o que você respondeu para a repórter.
“Eu não sei dizer porque Vale apagou as fotos, mas fiz porque ela me pediu. Ela se sentia incomodada, nossos fãs comentavam o tempo todo pedindo que reatássemos, eu continuo recebendo esses pedidos o tempo todo. Isso pode ter sido sufocante para ela, não vou condenar.”
Você mente tão bem, querido. Você sabia que eu apaguei porque doía ver seus sorrisos falsos e me lembrar de cada beijo seu, de cada momento que você não foi menos ator do que quando fez Paris e eu fui sua Helena de Tróia. Você sabia que eu me machucava com cada palavra, entretanto você dizia assim mesmo e eu as ouvia, porque parte do meu coração estava envenenado e viciado em você.
Mas, eu também sou atriz, não sou?! Construímos nossas carreiras juntos, recebemos nossos prêmios juntos, fomos fortes juntos. Eu também sei mentir, então desci daquele carro e fui cega do meu rancor pelos holofotes. Eles pareciam atraídos por meu vestido preto como eu fui atraída por você.
Eles perguntavam do meu estilo punk e eu me lembrava de você sonhando com tatuagens que nunca faria, sussurrando em segredos de liquidificador, aquele que são ditos baixinhos no ouvido, sonhos tão diferentes dos que contava em suas coletivas. E, entre lembranças de ilusões e mentiras, eles me hipnotizaram em perguntas e, quando dei por mim, quem as respondia era você.
Você beijou-me na bochecha e elogiou meu batom vermelho, você sorriu como um anjo e sussurrou-me como o diabo: "Por favor."
Eu menti como o capeta e tornei-me anjo, expiando-me dos meus pecados ao dizer que estávamos bem, que éramos amigos.
Você foi gentil, querido, pelo resto da noite. Um amigo atencioso, doce, príncipe encantado. Tiramos tantas fotos e tudo aquilo foi mágico.
Pensei que podíamos ser amigos, é claro, mas novamente caía na teia de nossas farsas e — que ironia — novamente fui salva por seu sacrilégio em terno.
"Lex!" Ele gritou sem me ver, um sorriso que roubou outro seu e seus olhos brilharam como em um clichê. Você parecia tão apaixonado como eu estivera há exatos 365 dias. "É minha música, você viu?! Não acredito que ganhei!"
“Eu disse que você ia ganhar. Alguma vez eu errei?! Vale é a prova viva disso.”
E você me colocou na conversa. , não sei se é alheio ao desconforto ou se é porque era aquela nossa rotina, porque fomos os três mosqueteiros, mas você me chamou e Maximilian sorriu, envolvendo-me em um abraço e beijando minhas bochechas.
Max… O agridoce Max. Com sua língua felina, ele se tornou a quem eu chamei de melhor amigo. O único amigo que conhecia nosso acordo, que sabia que nossos beijos não passavam de encenações. Ele tinha um jeito singular de criticar nossa farsa, ao mesmo tempo que era nosso maior apaziguador, entrando em cada discussão nossa e nos trazendo de volta à realidade. Uma realidade que fazíamos mais sucessos como um casal do que como amigos que mal se suportavam.
Foi para ele que contei meus pecados. Foi para ele que, entre garrafas de vinho, eu sussurrei que estava apaixonada por você. Apaixonada de verdade. Lembro que ele gargalhou, disse que eu havia bebido mais do que devia, que estava ficando louca, que não poderia ser real, eu só estava confusa por causa da minha personagem. Quando estava sóbria e confessei novamente, ele tentou me dar a expiação, tornando a ressaltar que eu só devia estar confusa, que o melhor seria me afastar e dar tempo ao tempo.
Contudo, eu estava certa de meus sentimentos tal como Max estava certo de que aquilo se tornaria um desastre. Foi na tua orelha fria que eu contei meu segredo de liquidificador: contei-lhe que o amava e estava dispostas a viver essa paixão. Por meses você mentiu o mesmo, enquanto Max escrevia a mais bela canção sobre um amor que, jamais daria frutos.
Na noite da nossa última premiação juntos, a música de Max ganhou o prêmio no lugar da nossa. Aliás você ainda se lembra da nossa música? Era cantada por uma garota francesa e falava sobre amor e chuva, era a trilha sonora do nosso casal no seriado... Quantas vezes nos beijamos no set e, à noite, a cantarolávamos ao assistirmos a série entre edredons e pipoca caramelada? Você ainda a ouve? Ainda se lembra como eu desafinava e trocava as sílabas?
"Uau, Vale! Se for viver de musicais, volte pro interior e vá plantar milho. Você destrói a arte assim!"
Max exclamava em provocação e eu apenas ronronava em seu colo, pedindo, em vão, que fosse meu advogado.
Era nele que você pensava quando me beijava?
Foi nele que você admitiu pensar enquanto dançávamos a música de Maximilian naquela última noite.
Faz me rir pensar naquela noite agora. Faz me rir porque quero chorar. Porque aquele foi seu último momento de trégua e eu não sabia disso.
Aquilo foi há três anos... e até hoje me chamam de vadia. Dois meses depois daquela noite e recebi um tweet, me chamando de puta. No Facebook havia uma nova página "Valentina, A Vadia Mal Comida". No Instagram mais de mil comentários em que eu era a "vagabunda a procura de rola".
Eis a grande ironia. Você sabe o porquê dessa revolta em que eu fui a vilã, não é?! É até ironia dizer que tudo começou em prata.
Um anel, "pureza" entalhado, marca registrada no seu anelar. Quantas revista não te destacaram pelo seu voto de castidade? Te exaltaram pelos teus ideais? Te colocaram em um pedestal por sua "pureza" e "inocência"? Seria um sacrilégio, irônico, esta visão de "bom garoto" ter se tornado sua cruz, sua maldição? Sua farsa?!
Você dizia que não queria se envolver com ninguém porque poucas entenderiam esse seu lado e você não queria cair em tentação.
Eu achei tão bonito isso e por isso aceitei aquele acordo, de me fazer sua namorada em frente as câmeras, pois era a forma de conseguirmos fama e você se livrar das garotas que lhe procuravam. A sacada de usar isso como arma contra mim foi sua ou do seu agente (novamente)?
"Eu e Valentina funcionamos como amigos. Mas, não conseguimos mais ser um casal. Há coisas importantes que discordamos, ideais e preceitos importantes, algo que não pode ser ignorado em um relacionamento como o que tínhamos. Por isso decidimos que é melhor assim: melhores amigos, colegas de trabalho, mas sem namoro. Por mais que eu ame Valentina, tenho ideologias que não posso abrir mão. Infelizmente, nem sempre quem a gente ama consegue entender nossas escolhas..."
Você é tão doce e educado, querido. Tão nocivo e venenoso. Enquanto eu prometia te proteger, ainda que meu coração estivesse quebrado, você me jogava aos leões.
Talvez por medo que eu dissesse a todos sobre quão medroso você era — apesar de todos os seus discursos em prol da liberdade LGBT+. Talvez só quisesse uma arma para me matar para sempre na mídia, afinal, depois do término, se eu o revelasse, você não precisaria me processar por calunia, seus fãs me julgariam e dariam seu veredicto: minha morte seria por "não aceitar suas escolhas".
Boa parte de mim morreu naquele dia.
A parte que continha minha inocência, minha autoestima, meus sonhos. Por um momento me perguntei se o problema seria eu, se eu não seria atraente o suficiente para você.
Então me lembrei de você beijando Max às escondidas e entendi que o problema era muito mais complexo que eu e você.
O problema é como nos veem e como devemos ser vistos. E isso é algo maior que decidi não ser a insurgente a se erguer e quebrar o sistema. Não tenho mais cara na mídia, você amaldiçoou minha fama.
É por isso, querido Lex, que meu livro irá as bancas semana que vem, mas não será escrito por Valentina, mas por "Gen", de Gênesis.
Meu alter ego para fugir da mídia e contar ao mundo a minha versão dos fatos, para contar como o sistema pouco a pouco nos destruiu. Não se preocupe: seu nome não está lá, ou o meu, ou, ainda, o de Max. Dirão que é uma ficção,é claro, e eles acreditarão. Acreditarão que é uma história fantasiosa, impossível de acontecer. Mas nós saberemos a verdade. Essa foi a forma que eu encontrei de contar minha história, de libertar o que tanto me machuca, mas sem te ferir por completo como você fez comigo.
Espero que você o leia e entenda meus sentimentos. Espero que um dia você possa segurar a mão de Max em público e que possam deixar que o flash capture o beijo de vocês. Espero que esse beijo seja real e que te parabenizem por ele. Espero que você mostre ao mundo quem é de verdade.
Espero, também, que você não me deseje nenhum mal, como não desejo a você.
Ironicamente, Vale significa adeus. Lex, Lei. Maximilian, Máximo. Eu dou adeus aquela antiga vida, onde não errar era a lei máxima.
Este é o exato momento em que deixo tudo o que restou de Vale e me torno Gen, o começo, e espero que um dia você também possa se reinventar e gozar verdadeiramente da vida, sem mentiras ou farsas que tornam tudo sem sabor e aguado, até mesmo o amor.
Pela última vez,
Sua Vale.
Como resposta à lúgubre carta, Valentina recebeu nada tão extenso, mas uma simples página arrancada de um livro com as bordas queimadas. No centro, com tinta preta e bem marcado, havia apenas versos de um poema, algo escrito por Álvaro de Azevedo, mas transbordando a alma de Lex:
“Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.”
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