Code of destiny
4 Ecos de uma rotina quebrada
Ponto de vista: John Diggle
O Oliver tem uma rotina mais rígida do que os seguranças da NSA.
Chega às 6h. Treino. Café preto. Silêncio absoluto até as 9h.
Depois, reuniões, reuniões, mais silêncio, e, se alguém ousar usar o elevador privativo... que Deus tenha piedade.
Então quando ele, num sábado de manhã, resolve parar numa cafeteria do centro, fora do caminho usual, sem segurança e sem aviso? Eu já sei.
Tem alguma coisa acontecendo.
E essa coisa tem nome. Sorriso tagarela, olhos grandes, caneca com piada nerd e cabeça sempre a mil por hora: Felicity Smoak.
Estacionei do outro lado da rua, do carro pude ver a vitrine da cafeteria.
E lá estava ela.
Sozinha, mexendo no laptop, com um daqueles cafés gigantes que ela adora. O cabelo preso de qualquer jeito e fones de ouvido tão grandes quanto sua capacidade de falar sem respirar.
Dois minutos depois, Oliver entrou. Parou na fila. Não a viu ainda.
Ela também não o viu.
Eu quase ri sozinho na porta da cafeteria Isso ia ser bom.
Oliver pegou o café dele e, como o destino adora brincar com os orgulhosos, o único lugar vago… era na mesa dela.
— Senhor Queen? — ela ergueu os olhos, surpresa. — Olha só! Café aos sábados? Eu achei que você se alimentasse exclusivamente de silêncio e desprezo corporativo.
Ele fez aquela cara de “não sei se fico irritado ou se sorrio”. Conheço bem.
— Preciso variar às vezes. — respondeu ele, sério, mas com um brilho nos olhos que só aparece quando ela está por perto.
— Você veio até aqui só por causa do café? Porque, se sim, posso recomendar um lugar onde os muffins não parecem massa de cimento.
— E você? Trabalhando até no fim de semana?
— Ideias não têm hora, Sr. Queen. O sistema da Queen Consolidated tá uma bagunça. Eu tô criando uma nova arquitetura de firewall. Com sorte, hackers não vão mais conseguir invadir usando uma torradeira.
Ele arqueou a sobrancelha. Aquela expressão clássica de "não entendi, mas finjo que sim".
Eu decidi me fazer presente
— Achei que vocês dois precisavam de um adulto por perto — falei, me aproximando.
— Diggle! — Felicity sorriu largo, e me deu um daqueles abraços espontâneos que pareciam desarmar qualquer coisa. — Você não me disse que também era parte do esquadrão do silêncio elegante.
— Eu sou o motorista particular, guarda-costas e psicólogo não oficial do Oliver. Entre outras funções.
— Ele fala de você de vez em quando. Com... algo que quase parece carinho. Se bem que, vindo dele, qualquer coisa acima de um “hm” já é um soneto shakespeariano.
Oliver fingiu que não ouviu. Mas sua orelha direita ficou vermelha. Ele achava que ninguém percebia essas coisas.
— Felicity, você já causou mais caos em uma semana do que muita gente em anos.
— Obrigada. Eu acho.
— Foi um elogio.
Ela riu. Sincera. E eu não via o Oliver assim, tão presente, há anos.
Não sei o que vai sair disso — e duvido que ele saiba. Mas uma coisa é certa:
Ela não é só luz no meio da escuridão dele.
Ela é clarão, tempestade e furacão.
É e exatamente disso que ele sempre precisou.
Ponto de vista: Oliver Queen
Eu odeio coincidências.
Não acredito nelas. Nunca acreditei.
Mas quando entrei naquela cafeteria — uma que eu nunca tinha pisado antes — e vi Felicity sentada na mesa do canto, toda enrolada no próprio caos, com fones de ouvido gigantes, cabelo preso de qualquer jeito e um café maior que a minha paciência… eu hesitei. Pela primeira vez em muito tempo.
Ela me viu segundos depois.
— Senhor Queen? Olha só! Café aos sábados? Eu achei que você se alimentasse exclusivamente de silêncio e desprezo corporativo.
Respirei fundo.
Ela tinha esse talento irritante de sempre acertar o tom entre provocação e graça. E, pior ainda, de me fazer querer responder. Ficar. Participar.
— Preciso variar às vezes — respondi, seco.
Ela sorriu. Maldição.
— Você veio até aqui só por causa do café?
Sim. Mas não exatamente por esse café.
— E você? Trabalhando até no fim de semana?
Ela começou a tagarelar sobre firewall, invasões, torradeiras e não sei mais o quê. Só metade do que ela disse realmente entrou na minha cabeça — a outra metade ficou presa entre a forma como ela mexia a mão enquanto falava, e o quanto seus olhos brilhavam quando falava de algo que amava.
A mesa era pequena. Nossos cafés quase se tocavam.
E aí, como se o universo tivesse decidido rir da minha cara… Diggle entrou.
Claro que entrou.
— Achei que vocês dois precisavam de um adulto por perto — ele disse, com aquele tom carregado de ironia disfarçada de preocupação.
— Diggle! — Felicity quase pulou da cadeira e foi até ele, abraçando-o com naturalidade. Como se se conhecessem há anos. — Você não me disse que também era parte do esquadrão do silêncio elegante.
— Ele não é. Ele fala até demais — murmurei.
Ela riu. De novo.
E eu odiei o quanto aquilo me afetava.
Diggle sentou-se conosco, e por alguns minutos o clima foi… leve. Natural. Quase confortável.
Eu não sabia mais o que fazer com esse tipo de ambiente.
Não depois de anos cercado por sorrisos falsos, conselhos políticos e salas de reunião sufocantes.
Mas ali… com ela rindo, falando com Diggle como se fossem amigos de infância… eu senti outra coisa. Uma que me assustava mais do que qualquer escândalo corporativo.
Paz.
Uma paz irritante. Barulhenta. Imprevisível.
Com perfume de baunilha e café forte.
Ela me olhou, e por um segundo, parou de falar. Como se tivesse percebido que eu estava… longe.
Mas não estava. Estava mais presente do que nunca.
— Oliver? Tudo bem?
Assenti. Porque dizer mais seria perigoso.
Diggle me lançou aquele olhar que só ele sabe fazer.
Aquele que dizia “Você tá ferrado e sabe disso”
Saímos da cafeteria juntos.
Felicity ia no meio. Como uma linha entre dois mundos.
De um lado, eu — terno, gravata, autocontrole. Do outro, Diggle — calmo, observador, sempre dois passos à frente.
E ela ali, tagarelando sobre códigos, cafés e como a playlist da cafeteria era subestimada.
— Sério, vocês não prestaram atenção na trilha sonora? Teve até The Cure! — ela dizia, animada, segurando o copo quase vazio com as duas mãos.
— Eu presto mais atenção em quem tá tentando envenenar meu café — resmunguei.
— Meu Deus, você é mesmo assim o tempo todo ou só de segunda a sexta?
Diggle riu.
— Ele melhora um pouco nos feriados. Tipo… uns 5%.
— Uau. Um milagre de Natal em forma de terno — disse ela, piscando pra mim.
O pior? Aquilo quase me arrancou um sorriso.
Quase.
Chegamos ao carro. Diggle já assumi o volante, como sempre
Abrir a porta pra Felicity e ela exitou
— Felicity e um carro. Não um campo minado.
— Isso é discutível — murmurou entrando no carro
Quando fechei a porta, o silêncio se instalou por alguns segundos. Não o silêncio desconfortável que geralmente me segue. Um silêncio… curioso. Vivo.
Felicity olhou pela janela, depois pra mim.
— Você sempre é assim… ou só comigo?
— Assim como?
— Carrancudo. Calado. Misterioso. Olha, não me leve a mal, eu adoro um bom personagem sombrio, mas você parece alguém que precisa urgentemente de um cachorro, uma tarde de sol e talvez… sei lá, um abraço?
Eu a encarei.
— Você fala demais.
— Já me disseram. Tipo… o tempo todo
— E ainda assim continua.
— Persistente é meu nome do meio.
— Achei que fosse Megan.
Ela arregalou os olhos, surpresa.
— Você leu meu dossiê?
— Eu leio tudo o que entra na minha empresa.
— Uau. Você é um stalker mais charmoso do que parece.
Diggle, nos observando pelo retrovisor
— Só lembrando que eu tô aqui. E posso ouvir cada palavra.
— Relaxa, Dig — disse Felicity. — Não tô flertando. Ainda.
Ela disse isso sorrindo. E, dessa vez, eu sorri de volta. Pouco, mas foi o suficiente pra ela notar.
E aquilo… foi perigoso.
Muito perigoso.
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